A Herdeira das Sombras
Capítulo Seis
1 / Kaeleer
Saetan, j untam ente com o restante da fam ília, perm aneceu na m esa de j antar, relutante em term inar a refeição e a conversa agradável.
Ao m enos algum a coisa boa tinha resultado daquela desagradável noite na sem ana anterior. O pesadelo de Jaenelle servira para liberar aquelas m em órias reprim idas, abrandando ligeiram ente a dor em ocional. Saetan sabia que a ferida da alm a não estava curada, m as, pela prim eira vez desde que voltara do abism o, Jaenelle estava m ais parecida com a criança que havia sido, e não a j ovem perturbada que tinha se tornado.
— Acho que Beale quer tirar a m esa — disse Jaenelle baixinho, olhando de soslaio para o m ordom o, que estava em pé na porta da sala de j antar.
— E se fôssem os então tom ar café na sala de visitas? — sugeriu Saetan, em purrando a cadeira para se levantar.
Quando Jaenelle se dirigiu à porta, seguida por Mephis, Andulvar e Prothvar, ele dem orou um pouco m ais. Era tão bom ouvi-la rir, tão bom ...
Um m ovim ento na j anela cham ou sua atenção. Na m esm a hora ele sondou, à procura do intruso, e deu um passo para trás ao sentir em oções ferozes e estranham ente perfum adas indo de encontro à sua m ente, desafiando-o a continuar a sondar.
Raiva. Frustração. Medo. E depois...
O uivo interrom peu a conversa dos outros, e Andulvar e Prothvar deram m eia-volta, com as facas de caça desem bainhadas. Saetan m al reparou neles, m uito concentrado na reação de Jaenelle.
Ela fechou os olhos, respirou fundo, inclinou a cabeça para trás e soltou um uivo. Não era um a im itação exata do uivar do lobo. Era algo m ais sinistro que se transform ou num cântico de feiticeira. Um cântico m uito feroz.
E ele percebeu, com um a sensação arrepiante de adm iração, que não era a prim eira vez que Jaenelle e o lobo entoavam este cântico, que sabiam com binar as duas vozes, criando algo estranho e belo.
O lobo parou de uivar. Jaenelle term inou o cântico e sorriu.
Um a enorm e silhueta acinzentada saltou pela j anela, atravessando o vidro. O lobo aterrissou na sala de j antar, rosnando.
Soltando um grito de boas-vindas, Jaenelle passou por Andulvar e Prothvar correndo, caiu de j oelhos e abraçou o pescoço do lobo.
Nesse m om ento, Saetan sentiu o odor psíquico que estava procurando. O lobo era um dos lendários parentes. Um Príncipe, em bora não fosse, graças às Trevas, um Príncipe dos Senhores da Guerra. Conseguiu ver, de relance, a corrente de ouro e a Joia Violeta escondida no pelo.
Sem pre rosnando, o lobo em purrou Jaenelle em direção à j anela, enquanto m antinha o corpo entre a garota e os ey rienos.
Perdendo o equilíbrio, Jaenelle apertou ainda m ais o pescoço do lobo.
— Fum aça, você está sendo m al-educado — disse com aquela voz calm a e firm e de Rainha que nenhum m acho no seu j uízo perfeito ousaria desafiar.
Fum aça lhe deu um a rápida lam bida e o rosnado se suavizou um pouco.
— Qual m acho m alvado? — Jaenelle exam inou cada rosto apreensivo e balançou a cabeça. — Ora, não foi nenhum deles. São a m inha alcateia.
O anim al parou de rosnar. Em seu olhar podia-se perceber inteligência e um novo interesse enquanto ele exam inava cada hom em , balançando a ponta da cauda um a única vez com o um cum prim ento relutante.
Outra pausa breve, e Jaenelle corou.
— Não, nenhum deles é m eu parceiro. Ainda sou m uito nova para com panheiros — acrescentou às pressas, enquanto Fum aça olhava para os hom ens com um ar de notória desaprovação. — Este é Saetan, o Senhor Suprem o. É o m eu progenitor. Meu irm ão, Mephis, é o cachorrinho do Senhor Suprem o. E este é o m eu tio, Príncipe Andulvar, e m eu prim o, Lord Prothvar. E aquele é Lord Beale. Pessoal, este é o Príncipe Fum aça.
Ao cum prim entar seu Irm ão parente, Saetan se perguntou o que m ais teria surpreendido os outros: um parente surgindo do nada, Jaenelle conversando com um lobo ou as designações fam iliares que havia lhes atribuído.
Após as apresentações, houve um a pausa constrangedora. Andulvar e Prothvar olharam de relance para Saetan e em bainharam as facas, com m ovim entos lentos e ponderados. Mephis perm aneceu im óvel, em bora preparado para agir, e Beale, rondando a porta, aguardava instruções em silêncio. Fum aça parecia pouco à vontade e em Jaenelle havia um olhar m agoado e vago.
Ele tinha de agir rapidam ente. Mas o que dizer a um lobo? Mais im portante ainda, o que poderia fazer para que o am igo peludo de Jaenelle ficasse à vontade e se sentisse bem -vindo? Ora, o que se dizia a um convidado?
— Posso lhe oferecer algo para com er ou beber, Príncipe Fum aça? — Dito em voz alta, o nom e em com binação com o título dos Sangue parecia ridículo, ainda que “fum aça” fosse um a descrição acertada da coloração do pelo do lobo. Por outro lado, os nom es hum anos sem dúvida soariam igualm ente ridículos para um lobo. Saetan ergueu um a sobrancelha, dirigindo-se a Beale, e se perguntou com o reagiria seu estoico m ordom o Senhor da Guerra diante de um convidado quadrúpede.
Ficou im ediatam ente óbvio que qualquer am igo de Jaenelle, bípede ou quadrúpede, seria tratado com o um convidado de honra.
Beale deu um passo à frente, fez sua reverência m ais cerim oniosa e dirigiu-se a Jaenelle.
— Tem os a carne assada do j antar, se o Príncipe Fum aça não se im portar que não estej a crua.
Jaenelle parecia se divertir, m as sua voz m anteve-se firm e e solene.
— Obrigada, Beale. Será perfeito.
— E um a tigela de água fresca?
Jaenelle acenou afirm ativam ente com a cabeça.
— Ficarem os m ais confortáveis na sala de visitas — disse Saetan. — Aproxim ou-se devagar de Jaenelle e ofereceu-lhe a m ão para aj udá-la a se levantar.
Fum aça ficou nervoso com a aproxim ação, ainda que não o tenha desafiado nem recuado. O lobo não confiava nos hum anos, não queria que Saetan se aproxim asse e tocasse em Jaenelle, m as não sabia o que fazer para im pedi-lo sem provocar a desaprovação da Senhora.
Não é assim tão diferente de nós, pensou Saetan ao acom panhar Jaenelle para a sala de visitas da fam ília.
Inconscientem ente, os hom ens deixaram que Jaenelle escolhesse um lugar antes de se acom odarem em cadeiras e sofás afastados o suficiente para que o lobo não ficasse perturbado, m as perto o bastante para que nada lhes escapasse. Saetan sentou-se à frente dela, consciente de que a atenção de Fum aça se centrava nele, o que acontecera desde as apresentações.
Sentiu-se grato pela cortesia de Beale quando, passados alguns m inutos, o m ordom o surgiu com um tabuleiro de prata com café para Jaenelle, y arbarah para os dem ais e tigelas com carne e água para Fum aça. Beale pousou-as na frente de Fum aça, colocou o tabuleiro sobre um a m esa em frente a Jaenelle e, j á que não havia m ais nenhum pedido, saiu da sala com relutância.
Fum aça cheirou a carne e a água, sentado ao lado da cadeira de Jaenelle, encostado aos seus j oelhos. Saetan pôs a dose generosa de leite e de açúcar que Jaenelle apreciava no café, depois serviu e aqueceu o y arbarah, passando as taças aos outros antes de aquecer um a para si m esm o.
— O Príncipe Fum aça está sozinho? — perguntou Saetan a Jaenelle. Até descobrir de que form a os parentes se com unicavam com os hum anos, não tinha outra alternativa senão dirigir as questões à garota.
Jaenelle observou Fum aça exam inando as tigelas e não respondeu.
Saetan ficou tenso ao perceber que o lobo estava fazendo o m esm o que ele faria num território desconhecido e possivelm ente adverso — estava usando a Arte para perscrutar a carne e a bebida, procurando veneno. Da m esm a form a, com preendeu quem tinha lhe ensinado a procurar venenos — o que o fez pensar no que a teria levado a j ulgar necessário lhe ensinar aquela lição em especial.
— E então? — disse Jaenelle baixinho.
Fum aça rem exeu os pés e produziu um som que denotava incerteza.
Jaenelle afagou-o em sinal de aprovação.
— São ervas. Os hum anos as utilizam para alterar o sabor da carne e dos legum es. — Deu um a gargalhada. — Não sei por que querem os m odificar o sabor da carne. Querem os e pronto.
Fum aça escolheu um naco de carne.
Jaenelle olhou para Saetan com ar divertido, m as seus olhos expressavam tristeza e um vislum bre de ansiedade.
— A alcateia de Fum aça ainda está em seu território natal. Ele veio sozinho porque... porque queria m e ver, queria saber se vou visitar a alcateia com o antes.
Sentiu sua falta, criança-feiticeira. Todos sentiram. Saetan girou de leve a taça de y arbarah. Com preendeu a ansiedade de Jaenelle. Fum aça estava ali em vez de proteger a parceira e as crias. O fato de Jaenelle ter lhe ensinado sobre venenos indicava claram ente que os lobos parentes enfrentavam perigos além dos naturais. Seriam necessários alguns acertos, m as se Fum aça estivesse disposto...
— Um a alcateia precisa de um território m uito grande?
Jaenelle deu de om bros.
— Depende. Um a extensão considerável. Por quê?
— Nossa fam ília possui terras consideráveis em Dhem lan, incluindo os bosques ao norte. Mesm o com os direitos de caça que concedi às fam ílias de Halaway, estão repletas de caça. Seria território suficiente para um a alcateia?
Jaenelle olhou atônita para Saetan.
— Você quer um a alcateia nos bosques ao norte?
— Se Fum aça e sua fam ília quiserem viver lá, por que não? — Além disso, o lobo não seria o único a sair ganhando. Saetan daria território e proteção à alcateia, e os lobos dariam com panhia e proteção a Jaenelle.
O silêncio que se seguiu não era bem um silêncio, era um a conversa que m ais ninguém conseguia ouvir. Jaenelle m antinha a expressão cuidadosam ente im parcial. A de Fum aça, que observava cada hom em na sala, era indecifrável.
Por fim , Jaenelle olhou para Saetan.
— Os hum anos não gostam dos lupinos.
Saetan j untou os dedos das m ãos, forçando-se a respirar regularm ente. Jaenelle raras vezes m encionara os parentes. Sabia que ela tinha visitado as aranhas tecelãs de sonhos em Aracna, e um a vez, quando a conheceu, Jaenelle m encionara unicórnios. Contudo, a presença de Fum aça e o conforto com o qual dois se com unicavam indicava um a relação há m uito estabelecida. Que outros parentes conheceriam o som da sua voz, o seu obscuro odor psíquico? Quantos estariam dispostos a arriscar o contato com hum anos para estar, novam ente, com ela? Com parado com o que poderia haver lá fora, naqueles Territórios cercados pela brum a, o que era um lobo?
A garota e o lobo aguardaram a resposta de Saetan.
— Eu governo este Território — disse, calm am ente. — E, com o disse, o Paço e o terreno são propriedade m inha. Se os hum anos não quiserem nossos Irm ãos e Irm ãs parentes com o vizinhos, então esses hum anos poderão ir em bora.
Não estava certo se estava tentando abrir-lhe a m ente ou se Fum aça estava tentando alcançá-lo, porém estabeleceu um tênue contato com aqueles pensam entos desconhecidos e selvagens. Não eram pensam entos, na verdade, assem elhavam -se m ais a em oções filtradas por um a lente diferente, ainda que intelegíveis. Espanto, seguido de com preensão repentina e de aprovação. Fum aça, pelo m enos, entendia m uito bem o porquê daquela oferta.
Infelizm ente, Jaenelle, que estendia a m ão para o café, tam bém percebeu algum a coisa.
— Qual m acho m alvado? — perguntou, franzindo a testa.
De repente, Fum aça pareceu m uito interessado em sua carne.
Pela expressão contrariada de Jaenelle, Saetan deduziu que o lobo estava sendo evasivo. Com o aquele não era um assunto no qual desej aria que ela se aprofundasse, Saetan decidiu satisfazer sua própria curiosidade, consciente do esforço de Andulvar, Prothvar e Mephis em se m anterem sossegados, sem lançarem um a torrente de perguntas. Os parentes sem pre foram esquivos e tím idos em relação ao contato com seres hum anos, até m esm o antes de fecharem suas fronteiras. E agora um lobo estava aqui, parente e selvagem , sentado na sua sala de visitas.
— O Príncipe Fum aça é parente? — perguntou Saetan, m ais em tom de afirm ação do que de pergunta.
— É claro — respondeu Jaenelle, adm irada.
— E você consegue se com unicar com ele?
— É claro.
Detectou a onda de frustração vinda dos outros e cerrou os dentes. Lembre-se de com quem está falando.
— Com o?
Jaenelle pareceu intrigada.
— De fêm ea para m acho. Da m esm a form a com o m e com unico com você. — Aj eitou o cabelo. — Não conseguem ouvi-lo?
Saetan e os outros hom ens balançaram a cabeça.
Jaenelle olhou para Fum aça.
— Consegue ouvi-los?
Fum aça olhou para os m achos hum anos e rosnou baixinho.
Jaenelle ficou indignada.
— O que quer dizer com “não os treinei bem ”? Nem cheguei a treiná-los!
Ao voltar a atenção para a carne, Fum aça exibia um ar presunçoso.
Jaenelle m urm urou entre dentes algo pouco lisonj eiro sobre o processo de pensam ento dos m achos e, em seguida, disse, am arga:
— Ao m enos gostou da carne? — Sorriu debilm ente para Saetan. — Fum aça diz que a carne é m uito m ais saborosa do que as aves brancas cacarej antes. — Sua expressão se alterou de contrariada para consternada. — Aves brancas cacarej antes? Galinhas? Você com eu as galinhas da Sra. Beale?
Fum aça ganiu, desculpando-se.
Saetan se recostou na cadeira. Oh, era tão gratificante vê-la desorientada.
— Com certeza a Sra. Beale ficará encantada por ter alim entado um convidado, m esm o sem saber disso — afirm ou friam ente, recordando com nitidez a reação da cozinheira ao saber do desaparecim ento das galinhas.
Jaenelle pôs as m ãos no colo.
— Sim . Bem ... — Mordeu o lábio inferior. — Não é difícil m e com unicar com parentes.
— Verdade? — respondeu Saetan calm am ente, divertido pelo súbito retorno ao tópico original da conversa.
— Só precisam os ... — Jaenelle fez um a pausa e, por fim , deu de om bros. — Tirar os aparatos hum anos e dar um passo para o lado.
Não eram as instruções m ais esclarecedoras que j á ouvira, m as, por ter visto o que havia por trás da m áscara de hum anidade, a frase “tirar os aparatos hum anos” lhe trouxe alguns pensam entos desagradáveis que o fizeram refletir. Seria m ais agradável, m ais natural para Jaenelle alcançar as m entes dos parentes? Ou consideraria parentes e hum anos quebra-cabeças sem elhantes?
Desconhecida e Outra. Sangue e para além de Sangue. Feiticeira.
— O que foi? — perguntou, percebendo, de repente, que todos olhavam para ele.
— Quer tentar? — perguntou Jaenelle, com delicadeza.
Os olhos azul-safira perturbados, som brios com o peso da antiquíssim a sabedoria, diziam -lhe que Jaenelle sabia exatam ente o que o preocupava. Ela não rej eitou as preocupações de Saetan, reconhecendo portanto que elas tinham fundam ento. E ao m esm o tem po nenhum fundam ento.
Saetan sorriu.
— Sim , gostaria de tentar.
Jaenelle tocou as m entes dos quatro hom ens exatam ente à entrada da prim eira barreira interior, m ostrando-lhes com o chegar a um a m ente diferente da hum ana.
Era, de fato, sim ples. Um pouco com o cam inhar por um a ruela estreita e restrita, dando um passo para o lado através de um a brecha na cerca, descobrindo a existência de outro cam inho j á bastante explorado do outro lado. Os aparatos hum anos não eram m ais do que um a visão lim itada da com unicação. Saetan — e Andulvar, Prothvar e Mephis e talvez tam bém Fum aça — estaria sem pre consciente da existência da cerca e teria de viaj ar através de um a brecha. Para Jaenelle, tratava-se um a única e am pla avenida.
*Humano.* Fumaça parecia satisfeito.
Cheio de espanto, Saetan sorriu.
*Lobo.*
Os pensam entos de Fum aça eram fascinantes. Felicidade, pois Jaenelle estava contente em vê-lo. Alívio, pois era aceito pelos hum anos. Expectativa, diante da m udança da alcateia para um local seguro — encoberta por im agens som brias de perseguições a parentes, e a necessidade de com preender esses hum anos de m odo a garantir sua própria proteção. Curiosidade em relação à form a com o os hum anos m arcavam seus territórios, j á que não tinha sentido o cheiro de nenhum m arcador neste local de pedra. E um desej o ardente de m arcar com urina algum as árvores.
— Devíam os dar um passeio — disse Jaenelle, levantando-se com um pulo.
Os m achos hum anos voltaram pelas brechas da cerca m ental, retom ando seus pensam entos.
— Depois do passeio, não vej o razões para que Fum aça volte para a floresta esta noite — disse Saetan, de m aneira descontraída, ignorando o olhar reprovador de Jaenelle. — Se seu quarto estiver m uito quente, ele poderá passar a noite na varanda ou no seu j ardim .
*Não deixarei que o macho malvado se aproxime da Senhora.*
Pelo visto, Fum aça estava habituado a deslizar pela cerca m ental. Saetan tam bém reparou que o lobo enviara o pensam ento por um fio m asculino, de m acho para m acho, para que Jaenelle não o detectasse.
*Obrigado*, respondeu Saetan.
— Já term inou os estudos para am anhã? — perguntou Saetan em voz alta.
Jaenelle fez cara feia e desej ou a todos boa-noite, saindo por um a porta, enquanto Fum aça cam inhava entusiasm ado a seu lado.
Saetan virou-se para os outros.
Andulvar assobiou baixinho.
— Doces Trevas, SaDiablo. Parentes.
— Parentes — concordou Saetan, sorrindo.
Andulvar e Mephis retribuíram o sorriso.
Prothvar desem bainhou a faca de caça e exam inou a lâm ina.
— Vou acom panhá-lo na expedição para trazer a alcateia para casa.
As im agens de caçadores e de arm adilhas fizeram os sorrisos desaparecerem .
— Sim — disse Saetan com um a serenidade excessiva —, faça isso.
2 / Terreille
Perturbada pelo fato de seu divertim ento da tarde ter sido arruinado, Dorothea SaDiablo deu um últim o beij o no j ovem Senhor da Guerra que tinha agora por brinquedo e m andou-o sair. Sem icerrou os olhos diante da form a precipitada com que ele se vestiu e deixou a sala de estar. Bem , trataria daquele problem inha de disciplina à noite.
Erguendo-se graciosam ente da chaise-longue dourada e crem e, cam inhou até um a m esa, balançando os quadris de form a provocante, e serviu-se de um copo de vinho. Bebeu m etade de seu conteúdo antes de se virar e encarar o filho, pegando-o de surpresa no m om ento em que ele pressionava o punho contra a parte inferior das costas, tentando atenuar a dor. Voltou-se novam ente, sabendo que seu rosto refletia a repulsa que agora sentia sem pre que olhava para ele.
— O que desej a, Kartane?
— Descobriu algum a coisa? — perguntou ele, vacilante.
— Não há nada para descobrir — respondeu Dorothea, ríspida, pousando o copo antes que se partisse em suas m ãos. — Não há nada de errado com você. — O que era m entira. Quem quer que olhasse para ele saberia que era m entira.
— Tem de haver um a razão para...
— Não há nada de errado com você. — Ou, m ais precisam ente, nada que ela pudesse fazer. No entanto, não havia razão para inform á-lo desse detalhe.
— Tem de ser algum a coisa — insistiu Kartane. — Algum feitiço...
— Onde? — perguntou Dorothea tom ada pela ira, virando-se para encará-lo. — Indique-m e o local. Não há nada, estou lhe dizendo, nada.
— Mãe...
Dorothea esbofeteou-o com violência.
— Não m e cham e assim .
Kartane ficou tenso e não disse m ais nada.
Dorothea respirou fundo, passando as m ãos pelos quadris, alisando o vestido. Em seguida, olhou para Kartane, não se dando o trabalho de esconder sua repulsa.
— Continuarei a investigar o problem a. Mas agora tenho outros com prom issos.
Kartane fez um a reverência, conform ado com a dispensa.
Assim que ficou sozinha, Dorothea pegou a garrafa de vinho e vociferou ao ver com o sua m ão trem ia.
A “doença” de Kartane estava piorando e não havia nada que ela pudesse fazer. As m elhores Curandeiras de Hay ll não haviam conseguido encontrar um a razão física para a deterioração que seu corpo sofria, sim plesm ente porque não havia razão. Contudo, tinha insistido com as Curandeiras até alguns m eses atrás, quando foi acordada pelos gritos de Kartane e tom ou conhecim ento dos sonhos.
Tudo se resum ia àquela garota. A m orte de Greer, a enferm idade de Kartane, o Anel de Obediência quebrado por Daem on, a obsessão de Hekatah.
Tudo se resum ia àquela garota.
Viaj ara secretam ente até Chaillot e descobrira que todos os m achos que haviam passado por um lugar cham ado Briarwood estavam sendo afetados de m aneira sem elhante. Um hom em gritava, pelo m enos um a vez por dia, que suas m ãos estavam sendo am putadas, em bora pudesse vê-las e m ovê-las. Dois outros balbuciavam algum a coisa sobre um a perna.
Furiosa, fora até Briarwood, que a essa altura j á estava abandonado, a fim de procurar a teia em aranhada de sonhos e de visões que, não tinha dúvida, enredara a todos.
Seus esforços foram em vão. Um riso cáustico e fantasm agórico foi a única coisa que conseguiu retirar das m adeiras e das pedras daquele lugar. Não, não foi bem apenas isso. Estava em Briarwood havia um a hora quando o m edo tornou o ar m ais pesado — m edo e um a sensação de espera ansiosa. Poderia ter continuado a investigar, insistido um pouco m ais. Se tivesse feito isso, tinha certeza de que encontraria um fio que a levaria até a teia. Mas tam bém tinha certeza de que j am ais encontraria a saída.
Tudo se resum ia àquela garota.
Voltara para casa, dispensara as Curandeiras e com eçou a afirm ar que nada havia de errado com Kartane sem pre que este procurava o seu auxílio.
Continuaria a insistir, não som ente porque não havia nada que pudesse fazer, m as tam bém porque isso serviria a outro propósito. Assim que Kartane chegasse à conclusão de que não teria a aj uda de Dorothea, iria procurar outra pessoa. Iria procurar a única pessoa para quem corria, quando criança, sem pre que precisava de auxílio.
E, m ais cedo ou m ais tarde, encontraria Daem on Sadi para ela.
3 / Kaeleer
Saetan atravessou os corredores às pressas, dirigindo-se à sala do j ardim que dava para um terraço nos fundos do Paço.
Tinham se passado três dias desde que Jaenelle, Prothvar e Fum aça haviam partido com o obj etivo de trazer a alcateia de Fum aça para o Paço! Três angustiantes e preocupantes dias preenchidos por pensam entos de caçadores e de venenos e de com o ela devia ser pequena quando conheceu os parentes pela prim eira vez, quando com eçou a lhes ensinar a evitar as arm adilhas criadas pelos hom ens sem pensar no que lhe poderia acontecer se caísse num a delas — ou nos outros tipos de arm adilhas que um m acho dos Sangue podia m ontar para apanhar um a j ovem feiticeira.
Contudo, Jaenelle fora apanhada “por esse tipo de arm adilhas”, não fora? Não conseguira m antê-la a salvo.
Agora, finalm ente, Jaenelle estava em casa. Tinha chegado pouco antes do alvorecer e perm anecia nos j ardins que faziam fronteira com os bosques ao norte. Ainda não tinha vindo ao Paço lhe dizer que estava bem .
Saetan abriu de rom pante as portas de vidro, saiu para o terraço, aspirou o ar de fim de tarde pelos dentes cerrados e estrem eceu.
O ar estava im pregnado com as sensações de Jaenelle. Angústia, pesar, raiva. E um vestígio do abism o.
Saetan se afastou da beira do terraço, com sua fúria enfraquecida pela tem pestade prim itiva que estava a se form ar na fronteira dos bosques ao norte. Aquilo tinha dado errado. De algum a form a, tinha dado m uito errado.
A fúria foi substituída pela ansiedade. Não conseguia decidir entre esperar que ela o procurasse ou ir à procura dela quando sentiu, por fim , a natureza do silêncio, do perigoso silêncio.
Com passos cautelosos, recuou até transpor as portas de vidro.
Jaenelle estava em casa. Era o que im portava. Andulvar e Mephis se levantariam com o crepúsculo. Prothvar tam bém acordaria e se encontraria com eles no escritório, para lhes contar o que acontecera.
Não havia razão para interferir no precário autocontrole de Jaenelle.
E a verdade é que ele não queria descobrir o que aconteceria se o silêncio fosse quebrado.
Prothvar andava com o se tivesse sido espancado durante três dias.
Talvez isso tivesse acontecido, pensou Saetan ao ver o Senhor da Guerra dem ônio-m orto aquecendo um copo de y arbarah.
Prothvar ergueu o copo para beber, m as não o fez.
— Estão m ortos.
Mephis deixou escapar um som de protesto e de consternação. Andulvar, enfurecido, exigiu um a explicação.
Saetan, recordando o perigoso silêncio que tinha im pregnado o ar, m al os ouvia. Se a tivesse questionado m ais cedo sobre a pegada de lobo, se Fum aça não tivesse tido que aguardar tanto tem po para contactá-la...
— Todos eles? — irrom peu sua voz, silenciando Andulvar e Mephis.
Prothvar balançou a cabeça penosam ente.
— Lady Cinza e dois filhotes sobreviveram . Foi o que restou de um a forte alcateia quando os caçadores term inaram a retirada de peles.
— Não é possível que sej am os únicos lobos parentes que restam .
— Não, Jaenelle disse que há outros. E a verdade é que encontram os dois outros j ovens lobos de outras alcateias. Dois j ovens e apavorados Senhores da Guerra.
— Mãe Noite — m urm urou Saetan, j ogando-se num a cadeira.
Andulvar abriu e fechou as asas, num m ovim ento rápido.
— Por que não os reuniu e saiu de lá?
Prothvar virou-se para encarar o avô.
— Não acha que tentei? Não acha... — Fechou os olhos e estrem eceu. — Dois dos que foram m ortos j á tinham se tornado dem ônios. Foram esfolados e tiveram as patas am putadas, m as ainda...
— Chega! — gritou Saetan.
Silêncio. Silêncio frágil, tão frágil. Havia tem po para ouvir os detalhes. Havia tem po para acrescentar m ais um pesadelo à lista.
Andando com o se estivesse a ponto de se quebrar, Saetan levou Prothvar até um a cadeira.
Deixaram que ele falasse, deixaram que exorcizasse os últim os três dias. Saetan esfregou o pescoço e os om bros de Prothvar, transm itindo um conforto m udo. Andulvar aj oelhou-se j unto à cadeira e segurou a m ão do neto. Mephis m antinha o copo de y arbarah sem pre cheio. E Prothvar continuou falando, lam entando-se pelos parentes, que tinham um a inocência inacessível aos hum anos dos Sangue.
Havia outra pessoa que precisava deste tipo de consolo. Havia outra pessoa que precisava da força de todos eles. Mas ela perm anecia no j ardim com os parentes e, assim com o os parentes, ainda não estava preparada para aceitar o que eles tinham a oferecer.
— É tudo? — perguntou Saetan quando Prothvar finalm ente parou de falar.
— Não, Senhor Suprem o. — Prothvar engoliu em seco, hesitante. — Jaenelle desapareceu durante várias horas antes de partirm os. Não quis m e dizer onde esteve ou por que desapareceu. Quando insisti, ela disse: “Se querem peles, então terão peles.”
Saetan apertou os om bros de Prothvar, sem saber se consolava ou era consolado.
— Com preendo.
Andulvar agarrou Prothvar e o colocou de pé.
— Vam os lá, rapaz. Você precisa de ar fresco nas asas.
Quando os ey rienos saíram , Mephis disse:
— Entendeu o que a garota quis dizer?
Saetan fixou os olhos no vazio.
— Tem com prom isso para hoj e à noite?
— Não.
— Então arranj e algum a coisa para fazer.
Mephis hesitou e, depois, fez um a reverência.
— Com o quiser, Senhor Suprem o.
Silêncio. Silêncio frágil, tão frágil.
Ah, entendia exatam ente o que ela quis dizer. Cuidado com a aranha dourada que tece um a teia em aranhada. A teia da Viúva Negra. A teia de Aracna. Cuidado com a senhora de cabelo louro que desliza pelo abism o vestida de sangue derram ado.
Se os caçadores não voltassem , nada aconteceria. Mas eles voltariam . Quem quer que fossem , de onde quer que viessem , eles voltariam , e quando um lobo parente m orresse, a teia em aranhada seria despertada.
Ainda assim , os caçadores fariam sua caçada, m atariam e m utilariam e esfolariam . Apenas um , confuso e apavorado, sairia com o prêm io, e, ao regressar ao local de onde quer que tivesse vindo, nesse m om ento, e só nesse m om ento, a teia o libertaria, m ostrando-lhe que as peles que tinha arrancado não eram peles de lobos.
4 / Kaeleer
Lord Jorval esfregou as m ãos, contente. Era quase bom dem ais para ser verdade. Um escândalo desta dim ensão derrubaria qualquer um , até m esm o alguém tão bem estabelecido com o o Senhor Suprem o.
Recordando suas novas responsabilidades, Jorval alterou a expressão para um a que fosse m ais adequada a um m em bro do Conselho das Trevas.
Aquela era um a acusação m uito grave, e o desconhecido com as m ãos deform adas adm itira não possuir qualquer prova além do que tinha visto. Considerando o que o Senhor Suprem o fizera às m ãos do hom em antes de dispensar seus serviços, era com preensível que ele tivesse se recusado a testem unhar no Conselho das Trevas contra o Senhor Suprem o. Ainda assim , era preciso tom ar providências em relação à garota.
Um a j ovem e poderosa Rainha, o desconhecido havia dito. Um a Rainha que, com a orientação adequada, poderia ser valiosa para o Reino. Todo esse m agnífico potencial estava sendo desvirtuado pelas perversões do Senhor Suprem o, que a forçava a se suj eitar...
Jorval desviou os pensam entos daquele tipo de im agens.
A garota precisava de alguém que a aconselhasse, canalizando seu poder na direção certa. Precisava de alguém em quem pudesse confiar. E com o não era assim tão nova, talvez precisasse de m ais do que isso de seu tutor legal. Talvez até esperasse, quisesse esse tipo de com portam ento...
Porém , afastar a garota de Saetan exigiria delicadeza. E o desconhecido tinha avisado sobre as m ovim entações extrem am ente rápidas. Um a Rainha de Dhem lan poderia apresentar um protesto oficial sobre o tratam ento que o Senhor Suprem o dispensava à garota, m as Jorval não conhecia nenhum a, a não ser de nom e ou reputação. Não, de algum a form a o próprio Conselho das Trevas teria de ser pressionado a convocar o Senhor Suprem o para prestar contas.
E podiam fazê-lo, não? Afinal, fora o Conselho das Trevas que lhe concedera a tutela sobre Jaenelle, e ninguém se esquecera de com o isso havia sido feito. Não seria nada descabido se o Conselho exprim isse preocupação quanto ao bem -estar da garota.
Um as breves palavras aqui. Um a pergunta hesitante ali. Protestos enérgicos de que se tratava apenas de rum ores abom ináveis e infundados. Quando finalm ente chegassem a Dhem lan e ao Senhor Suprem o, ninguém teria ideia da origem dos boatos. E então veriam se Saetan conseguiria resistir à fúria de todas as Rainhas de Kaeleer.
E ele, Lord Jorval de Goth, capital da Pequena Terreille, estaria preparado para assum ir suas novas e m aiores responsabilidades.
5 / Kaeleer
O em purrão era agora um safanão.
— Acorde, SaDiablo.
Saetan tentou puxar os cobertores para cobrir os om bros nus e afundou a cabeça ainda m ais na alm ofada.
— Vá em bora.
Seu om bro foi atingido por um soco.
Resm ungando, apoiou-se num cotovelo enquanto Andulvar atirava um par de calças e um roupão em cim a da cam a.
— Ande logo — disse Andulvar. — Antes que desapareça.
Antes que desapareça o quê?
Esfregando os olhos, Saetan se perguntou se teria tem po de j ogar água no rosto para despertar, m as tinha a nítida im pressão de que, se não se vestisse rapidam ente, Andulvar o arrastaria nu pelos corredores.
— Já é m anhã — resm ungou Saetan ao se vestir. — Você j á deveria ter se recolhido.
— Foi você m esm o quem disse que a presença de Jaenelle alterou o Paço de tal m aneira que os dem ônios j á não são afetados pela luz do dia, desde que perm aneçam aqui dentro — disse Andulvar enquanto indicava o cam inho pelos corredores.
— É a últim a vez que lhe conto algum a coisa — resm ungou Saetan.
Quando chegaram a um quarto no segundo andar, na parte da frente do Paço, Andulvar afastou as cortinas com todo o cuidado.
— Pare de reclam ar e olhe.
Esfregando os olhos pela últim a vez, Saetan apoiou um a das m ãos na esquadria da j anela e espreitou pela abertura das cortinas.
Era um a m anhã de céu claro e ensolarado. O cam inho de cascalho estava parcialm ente revolvido. A teia de desem barque tinha sido varrida. Contudo, o trabalho parecia ter sido interrom pido no m eio, com o se algum a coisa tivesse feito os criados externos pararem . Eles ainda estavam lá fora e Saetan conseguia sentir seu entusiasm o, apesar das proteções. Era com o se tivessem a esperança de passar despercebidos.
Franzindo a testa, Saetan olhou para a esquerda e viu um unicórnio branco pastando no j ardim da frente, com a parte traseira virada para as j anelas. Não era branco puro, avaliou Saetan, m as crem e, com a crina e a cauda brancas.
— De onde veio? — Saetan olhou inquisidoram ente para Andulvar.
Andulvar bufou.
— Provavelm ente de Sceval.
— O quê? — Saetan voltou a olhar para fora no exato m om ento em que o unicórnio levantou a cabeça, virando-se para o Paço. — Mãe Noite — sussurrou, agarrando as cortinas. — Mãe Noite.
O chifre de m arfim erguia-se da cabeça m aj estosa. Em volta da base do chifre, reluzindo sob o sol da m anhã, era possível ver um anel de ouro. Incrustada no anel, um a Joia Opala.
— É um Príncipe dos Senhores da Guerra tom ando café da m anhã no seu j ardim — disse Andulvar, com um a voz neutra.
Saetan olhou para o am igo, incrédulo. Era verdade que Andulvar tinha visto o unicórnio prim eiro e tido m ais tem po para assim ilar aquele fato estranho, m as estaria assim tão exausto a ponto de superar o espanto tão rapidam ente? Havia um unicórnio no quintal! Um ... Príncipe dos Senhores da Guerra e parente.
Saetan apoiou-se na parede.
— Fogo do Inferno, Mãe Noite e que as Trevas sej am m isericordiosas.
— Acha que a garota sabe dele? — perguntou Andulvar.
A resposta à pergunta veio sob a form a de um grito selvagem e radiante, enquanto Jaenelle corria a toda velocidade pelo cam inho de pedras, detendo-se repentinam ente a m enos de m eio m etro daquele m agnífico e m ortífero chifre.
O unicórnio arqueou o pescoço, ergueu a cauda com o um estandarte de seda branca e dançou em volta de Jaenelle durante um m inuto. Depois, baixou a cabeça e encostou o focinho nas palm as das m ãos da adolescente.
Saetan observava-os, na esperança de que nada viesse perturbar a encantadora im agem de um a garota e um unicórnio num a lím pida m anhã de verão.
A im agem pacífica foi destruída quando Fum aça veio atravessando o pátio com o um raio.
O unicórnio em purrou Jaenelle para o lado, recolheu as orelhas, baixou o chifre letal e com eçou a escavar o solo. Fum aça parou repentinam ente e m ostrou os dentes em ar de desafio.
Jaenelle agarrou a crina do unicórnio com um a das m ãos e estendeu a outra para deter Fum aça. O que quer que tenha dito fez com que os anim ais hesitassem .
Por fim , Fum aça deu um passo cauteloso para a frente. O unicórnio fez o m esm o. Tocaram os focinhos.
Com um ar divertido, em bora atrevido, Jaenelle m ontou o unicórnio — e teve de lutar para se m anter sentada quando o anim al partiu a galope.
Ele parou repentinam ente e virou a cabeça para olhar Jaenelle.
Jaenelle aj eitou o cabelo e disse algum a coisa.
O unicórnio m exeu a cabeça.
Ela se tornou m ais enfática.
O unicórnio m exeu a cabeça e bateu com a pata no chão.
Finalm ente, parecendo aborrecida e envergonhada, ela enrolou as m ãos na longa crista alva e se aj eitou na garupa.
O unicórnio afastou-se do Paço, sem pre pela gram a ao lado da estrada. Ao voltar em direção ao Paço, passou a m eio galope. Quando com eçaram a segunda volta, Fum aça se j untou a eles.
— Vam os — disse Saetan.
Ele e Andulvar saíram apressados para o salão principal. A m aioria dos em pregados estava j unto às j anelas das salas de visitas de am bos os lados do salão e Beale espreitava por um a fresta da porta principal.
— Abra a porta, Beale.
Sobressaltado pela voz de Saetan, Beale deu um salto para sair do cam inho.
Fingindo não ver Beale se esforçar para adotar um a expressão estoica apropriada, Saetan abriu a porta de rom pante e saiu, enquanto Andulvar ficou à som bra da entrada.
Jaenelle estava linda com os cabelos louros ao vento e o rosto ilum inado pela felicidade que vinha de dentro de si. Sentia-se com pletam ente à vontade na garupa de um unicórnio, um lobo ao seu lado. Saetan sentiu um a pontada de arrependim ento ao vê-la galopar num j ardim aparado em vez de num a clareira selvagem . Era com o se, ao trazê-la para este lugar, tivesse de algum a m aneira cortado suas asas — e perguntou-se se isso seria verdade. Foi então que Jaenelle o viu e o unicórnio se virou para a porta.
Recordando-se de que usava a Joia m ais escura, Saetan tentou relaxar — sem êxito. Um Príncipe dos Sangue, m esm o sendo um lobo, aceitaria sua relação com Jaenelle sim plesm ente pelo fato de ele, um Príncipe dos Senhores da Guerra, tê-la reclam ado. Outro Príncipe dos Senhores da Guerra questionaria essa pretensão, ainda m ais se interferisse na dele, até que a Senhora a reconhecesse.
Ao descer os degraus para ir ao encontro deles, Saetan sentiu o desafio vindo do outro lado da cerca m ental, um a exigência para que reconhecesse a reivindicação do unicórnio. Respondeu em silêncio ao desafio, abrindo-se o suficiente para que o outro Príncipe dos Senhores da Guerra sentisse sua força. Mas não negou a pretensão do unicórnio sobre Jaenelle.
Interessado, o unicórnio levantou as orelhas.
— Papai, este é o Príncipe Kaetien — disse Jaenelle afagando o pescoço do unicórnio. — Foi o prim eiro am igo que fiz em Kaeleer.
Ah, claro. Um a reivindicação muito anterior. Que não devia ser encarada com tranquilidade. No Idiom a Antigo, “kaetien” significava “fogo branco”, e Saetan não duvidou por um m om ento que o nom e se adequava àquele Irm ão quadrúpede.
— Kaetien — disse Jaenelle —, este é o Senhor Suprem o, m eu progenitor.
Kaetien recuou, afastando-se de Saetan, com as orelhas j unto à cabeça.
— Não, não — disse Jaenelle apressadam ente. — Não é esse. É o m eu progenitor adotivo. É o am igo que estava m e ensinando Arte. Agora vivo aqui com ele.
O unicórnio resfolegou, aliviado.
Ao observá-los, Saetan m anteve os sentim entos cuidadosam ente escondidos. Por enquanto não forçaria nada, m as em breve teria de ter um a conversa com Kaetien sobre o progenitor de Jaenelle.
Kaetien com eçou a bater com as patas nas pedras quando dois j ovens cavalariços se aproxim aram devagar. O m ais velho passou os dedos na aba do boné.
— Será que o Príncipe aceitaria um pouco de ração e um a escovada?
Jaenelle hesitou e depois sorriu, sem deixar de afagar o pescoço de Kaetien.
— Você devia tom ar café da m anhã — disse baixinho. Tentou passar os dedos pelo cabelo e fez um a careta. — E tam bém está precisando de um trato nesses pelos.
Kaetien balançou a cabeça, num sinal que poderia ser interpretado com o de concordância.
Jaenelle desm ontou e subiu correndo pelas escadas. De repente, virou-se, com as m ãos nos quadris e faíscas saindo dos olhos.
— Eu não caí! Só não estava equilibrada.
Kaetien olhou para ela e resfolegou.
— Não tenho pernas fracas, não tenho qualquer problem a de m ontaria e agradeço que m antenha o focinho no seu saco de ração! Eu como, sim, senhor! — Olhou para Saetan. — Não com o? — Sem icerrou os olhos. — Não com o?
Com o o silêncio era a m elhor opção, Saetan não respondeu.
Jaenelle estreitou um pouco m ais os olhos e bufou:
— Machos.
Satisfeito, Kaetien seguiu os cavalariços até o estábulo.
Resm ungando entre dentes, Jaenelle passou com o um furacão por Andulvar e Beale, dirigindo-se à sala do café da m anhã.
Com um rosnar j ovial, Fum aça prosseguiu suas rondas m atinais.
— Ele a irritou de propósito — disse Andulvar na porta.
— É o que parece — concordou Saetan, soltando um a gargalhada abafada. Dirigiram -se lentam ente à sala do café da m anhã. — Mas é reconfortante saber que alguns dos nossos Irm ãos desenvolveram o talento m aravilhoso de atorm entá-la.
— Aquele Irm ão em particular parece saber bem o terreno que é capaz de cobrir num galope a toda velocidade.
Saetan sorriu.
— Acho que am bos sabem .
Jaenelle estava sentada à m esa do café da m anhã, partindo um pedaço de torrada.
Saetan sentou-se, com cautela, do outro lado da m esa, serviu-se de um a xícara de chá e sentiu-se grato que a torrada fosse a única coisa que Jaenelle parecia querer partir.
— Obrigada pelo apoio — disse ela, am arga.
— Você não queria que eu m entisse para outro Príncipe dos Senhores da Guerra, não é?
Jaenelle lançou-lhe um olhar furioso.
— Tinha m e esquecido de com o Kaetien pode ser m andão.
— Ele não consegue evitar — disse Saetan de m odo tranquilizador. — Faz parte do que ele é.
— Nem todos os unicórnios são m andões.
— Eu estava pensando nos Príncipes dos Senhores da Guerra.
Ela pareceu surpresa, m as, em seguida, sorriu.
— Você deve saber bem . — Pegou outra torrada e com eçou a parti-la, com um ar pensativo. — Papai? Acha m esm o que eles viriam ?
A m ão de Saetan titubeou, m as conseguiu levar a taça aos lábios.
— Seus am igos hum anos? — perguntou calm am ente.
Jaenelle assentiu.
Ele esticou-se sobre a m esa e tom ou as m ãos dela nas suas.
— Só há um a form a de saber, criança-feiticeira. Escreva os convites e eu m e encarrego de enviá-los.
Jaenelle lim pou as m ãos no guardanapo.
— Vou ver com o está Kaetien.
Saetan beliscou o bife do café da m anhã por alguns m om entos, bebeu outra xícara de chá e, por fim , desistiu. Precisava falar com alguém , com partilhar a apreensão e o entusiasm o que sentia. Poderia procurar Cassandra, é claro, m as agora a com unicação entre os dois era sem pre m uito form al, e ele não queria form alidades. Queria expressar toda a felicidade que sentia. Sy lvia? Ela gostava de Jaenelle e ficaria satisfeita com as novidades — todas as novidades —, m as era m uito cedo para aparecer em sua casa.
Restava-lhe um a única alternativa.
Saetan deu um largo sorriso.
Andulvar j á devia estar confortavelm ente deitado. Um soco no om bro não lhe faria m al.
6 / Inferno
Titian lim pou a faca com um pedaço de tecido do casaco preto enquanto as outras Harpias esquartej avam a carne e atiravam pedaços à m atilha de Cães de Caça que aguardava em sem icírculo em volta do corpo.
O corpo se contorcia e lutava, ainda que com m ovim entos débeis, m as o canalha j á não podia gritar por aj uda, e os sons surdos que produzia enchiam -na de satisfação. Um dem ônio não podia sentir a dor da m esm a form a que os vivos, m as a dor era algo cum ulativo, e, estando m orto há pouco tem po, seus nervos ainda não tinham se esquecido das sensações.
Um a Harpia lançou aos cães um grande pedaço de coxa. O líder da m atilha abocanhou-o em pleno ar e recuou com a recom pensa, rosnando. Os outros m em bros da m atilha voltaram a form ar o sem icírculo, aguardando sua vez. As cadelas observavam seus filhotes roendo os dedos das patas.
Os Cães de Caça do Inferno não costum avam se alim entar de dem ônios. Havia presas m elhores para estes grandes caçadores de pelo preto e olhos verm elhos, presas tão nativas deste Reino frio e eternam ente m ergulhado no crepúsculo com o os próprios Cães de Caça. Mas a carne deste dem ônio estava encharcada de sangue fresco — sangue que Titian sabia não provir de Oferendas voluntárias.
Levara algum tem po para persegui-lo e capturá-lo. Ele não havia se afastado m uito de Hekatah desde que o Senhor Suprem o lhe havia feito o pedido. Até aquela noite.
Não havia Portões no território de Hekatah, e os Portões m ais próxim os estavam agora fortem ente vigiados. Um deles ficava j unto ao Paço, de onde Hekatah j á não se atreveria a chegar perto, e o outro no território das Harpias, o território de Titian. Não era um lugar para os incautos, nem m esm o os m ais arrogantes. Isto significava que Hekatah e seus lacaios teriam de percorrer um a longa distância nos Ventos para chegar a outro Portão ou teriam de se arriscar.
Aquela noite, Greer arriscara e pagara por isso.
Se tivesse tido tem po para usar as Joias, o resultado talvez tivesse sido diferente, m as ele tinha alcançado o Altar das Trevas e atravessado o Portão sem resistência, por isso não tinha razões para im aginar que aguardavam sua volta. Assim que saiu do Santuário, as Harpias atacaram tão rapidam ente e com tanta virulência que tudo o que conseguiu foi se defender e tentar escapar. Algum as Harpias se extinguiram e desapareceram , transform ando-se num sussurro nas Trevas. Mas Titian não as lam entou. Sua existência crepuscular havia se dissolvido num a alegria feroz.
No fim das contas era um a m ente aterrorizada contra várias outras enraivecidas, que sondavam , aguardando o m om ento de fraqueza, enquanto os Cães de Caça treinados de Titian investiam sem parar, forçando Greer a usar cada vez m ais a força de reserva de suas Joias para afastá-los. As Harpias quebraram suas barreiras interiores no exato m om ento em que a flecha de Titian atravessou seu corpo, prendendo-o a um a árvore.
Enquanto as Harpias retiravam o corpo da árvore e com eçavam a destrinchar a carne, Titian vasculhou a m ente de Greer tão delicadam ente com o se estivesse retirando o m iolo de um a noz rachada. Viu as crianças com as quais ele tinha se fartado. Viu a cam a estreita, o sangue nos lençóis, o j ovem rosto conhecido que tinha sido ferido por aquelas m ãos deform adas. Viu o punhal com cabo de chifre de Surreal atravessar seu coração, rasgar sua garganta. Viu-o sorrindo para ela ao cortar sua garganta, séculos atrás. E viu onde tinha estado naquela m esm a noite.
Titian em bainhou a faca e verificou a lâm ina do pequeno m achado caído a seu lado.
Lam entou não tê-lo abatido antes que ele chegasse à Pequena Terreille. Se Greer não tivesse se enganado em relação a Lord Jorval, os rum ores com eçariam em breve.
Um Guardião não era um ser natural num Reino dos vivos. Haveria sem pre rum ores e curiosidade — sobretudo se esse Guardião fosse tam bém o Senhor Suprem o do Inferno. E Titian podia prever m uito bem qual seria a reação das Rainhas de Kaeleer aos rum ores.
Visitaria suas sem elhantes e lhes diria o que queria delas se a oportunidade se apresentasse. Talvez isso aj udasse.
Titian pegou o m achado. As Harpias se afastaram , deixando passar sua Rainha.
Greer j á não tinha m em bros. Seu tronco estava vazio. Os olhos retinham ainda um brilho frouxo de inteligência, um vislum bre do Eu. Não era m uito, m as bastava.
Com três golpes certeiros, Titian abriu o crânio de Greer. Com a lâm ina do m achado, afastou um a das fendas até que a abertura fosse suficiente para perm itir a passagem de seus dedos. Nesse m om ento, arrancou o osso do crânio.
Observou os olhos de Greer. Ainda estava ali.
Titian assobiou, cham ando o líder da m atilha, e afastou-se, sorridente, enquanto o Cão de Caça se fartava com o cérebro do dem ônio.
7 / Kaeleer
Saetan penteou o cabelo pela terceira vez, porque isso o m antinha ocupado. Assim com o polir duas vezes as longas unhas, pintadas de preto. Assim com o m udar de casaco para depois voltar ao prim eiro.
Deteve-se ao estender a m ão para pegar a escova outra vez, aj eitou o casaco j á arrum ado e suspirou.
Será que as crianças viriam ?
No convite, não tinha solicitado resposta, pois queria que as crianças tivessem todo o tem po possível para reunir coragem ou vencer os protestos dos m ais velhos — e tam bém porque tem ia aquilo que a rej eição, dia após dia, poderia provocar em Jaenelle.
Tal com o prom etido, ele e os outros m em bros da fam ília haviam entregado todos os convites. Alguns tinham sido levados à casa de cada criança. A m aioria fora deixada em pedras de m ensagens, pilhas de pedregulhos na fronteira dos Territórios onde viaj antes ou com erciantes podiam deixar solicitações para um encontro. Saetan não fazia ideia de com o as m ensagens deixadas nesses locais chegavam a seus destinatários, e duvidava que as crianças fossem chegar aquela tarde. Não sabia o que esperar das crianças dos Territórios abertos. Esperava, sim plesm ente, que Andulvar tivesse razão e que aquela feiticeirazinha de Glácia viesse e pisasse em seus calos.
Tentou respirar fundo, m as o resultado foi m ais um suspiro. Deixou seus aposentos para se j untar ao resto da fam ília e a Cassandra no salão principal.
Estavam todos presentes, à exceção de Jaenelle e Sy lvia. A Rainha de Halaway ficara encantada quando Saetan a inform ou da festa, e usaria seu grande entusiasm o para forçar Jaenelle a acom panhá-la num passeio para com prar roupas novas. Não voltaram com um vestido, m as ele tinha de adm itir, em bora com m á vontade, que as calças azul-safira m acias e com pridas e o longo casaco tinham um aspecto bastante fem inino, ainda que a m inúscula blusa dourada e prateada debaixo do casaco... Com o hom em , aprovava-a; com o pai, ficou enfurecido.
Assim que o viu, Cassandra lhe deu o braço, afastando-o dos outros hom ens.
— Acha sensato estarem todos aqui? — perguntou baixinho. — Não é intim idador dem ais?
— E a quem pediria para sair? — respondeu Saetan, sabendo m uito bem ser um a das pessoas que Cassandra pensava que deveria estar ausente.
Depois de receber o bilhete de Saetan, Cassandra viera aj udar nos preparativos, m as agira com um a anim ação forçada, com o se estivesse se preparando, na verdade, para o m om ento em que Jaenelle desse de cara com um salão vazio. Sy lvia, por outro lado, m ostrava-se sem pre indignada com quem quer que se atrevesse a expressar a m enor dúvida sobre o sucesso do evento.
Um hom em sensato teria se fechado no seu escritório e perm anecido lá. Só um tolo teria deixado sozinhas duas feiticeiras que estavam o tem po todo prestes a se engalfinhar com o gatos de rua.
Vendo que Cassandra não responderia à sua pergunta, Saetan tom ou seu lugar no salão principal. Andulvar estava um passo atrás, à esquerda. Mephis e Prothvar estavam à esquerda de Andulvar e um pouco para o lado, de m odo a não fazer parte dos cum prim entos oficiais. Cassandra ficou à direita de Saetan, um passo atrás. Por direito, deveria estar a seu lado, Negra com Negra, e Saetan estava bem ciente da razão pela qual recorria a um a opção do Protocolo para se distanciar dele.
Saetan virou-se na direção de passos apressados descendo as escadas na sala de visitas.
Sy lvia entrou de rom pante no salão principal com um ar um pouco adorável dem ais, os olhos dourados brilhando e as m açãs do rosto rosadas.
— Os filhotes de lobo esconderam os sapatos de Jaenelle e dem oram os um pouco a encontrá-los — disse, sem fôlego. — Ela j á vem , m as eu não queria chegar atrasada.
Saetan sorriu.
— Você não está...
Um relógio badalou três vezes.
Cassandra produziu um som baixo e descontente, afastando-se de Saetan.
Pela prim eira vez desde que Saetan a inform ara sobre a festa, os olhos de Sy lvia exibiram preocupação.
Estavam todos no salão principal, aguardando em silêncio, enquanto Beale se m antinha inexpressivo j unto à porta, e os criados que se encarregariam dos casacos olhavam fixam ente para a frente.
Os m inutos foram passando.
Sy lvia passou a m ão na testa e suspirou.
— É m elhor eu subir...
— Já não precisam os m ais da sua generosa aj uda — disse Cassandra com frieza ao passar por Sy lvia. — Foi você quem a m eteu nisto.
Sy lvia segurou o braço de Cassandra, obrigando-a a se virar.
— Posso ter m e entusiasm ado dem ais, m as você não fez outra coisa além de dizer que ela nunca teria um am igo pelo resto da vida!
— Senhoras — avisou Saetan, avançando na direção das duas.
— O que você sabe sobre usar a Negra? — rebateu Cassandra. — Eu vivi esse isolam ento...
— Senho...
BUM!
— Fogo do Inferno — m urm urou Andulvar, entre dentes.
BUM!
De um salto, Beale abriu a porta enquanto ainda estava inteira.
Ela entrou no salão, parando no local onde a luz do sol que vinha da j anela de vitrais acim a das portas duplas produzia um a ilum inação natural. Alta e esguia, vestia calças bem j ustas, azul-escuras, um casaco folgado e botas de salto alto. O cabelo louro platinado erguia-se em picos eriçados sobre a cabeça, com o gelo esculpido. As sobrancelhas e as pestanas escurecidas em olduravam os gélidos olhos azuis.
— Irm ãs — disse, acenando para Sy lvia e Cassandra de um a form a indiferente que beirava a insolência. Depois seus olhos exam inaram Saetan da cabeça aos pés.
Saetan prendeu a respiração. Mesm o que Lord Morton não tivesse entrado furtivam ente atrás dela, teria apostado que se tratava de Karla, a j ovem Rainha glaciana.
— Bem — disse Karla —, até que não está m al para um cadáver.
Antes que pudesse responder, a voz serena e divertida de Jaenelle disse:
— Você tem razão apenas em parte, querida. Ele não é um cadáver.
Karla virou-se para a sala de visitas e viu Jaenelle encostada à soleira da porta, com os dedos enganchados no casaco pendurado ao om bro.
Karla soltou um guincho que eriçou os cabelos do pescoço de Saetan.
— Seus peitos cresceram ! — Karla abriu o casaco azul, revelando um a blusa prateada tão pequena quanto a de Jaenelle. — Os m eus tam bém , se é que podem os cham ar de peitos estes adoráveis ferrões de abelha. — Sorrindo da form a m ais m alévola que Saetan j am ais vira, virou-se para ele. — O que você acha?
Ele não parou para pensar.
— Está perguntando se acho que são adoráveis ou se acho que são ferrões de abelha?
Karla fechou o casaco, cruzou os braços e sem icerrou os gélidos olhos azuis.
— Ele é atrevido, não é?
— Bem , ele é um Príncipe dos Senhores da Guerra — respondeu Jaenelle.
Os gélidos olhos azuis encontraram os olhos azul-safira. Am bas sorriram .
Karla deu de om bros.
— Ah, está bem . Serei um a convidada bem -com portada. — Aproxim ou-se de Saetan e o sorriso m alicioso desabrochou. — Beij os.
Ele se recusou a lhe dar o prazer de vê-lo com um a expressão incom odada.
Karla lhe deu as costas e dirigiu-se a Jaenelle.
— Você m e deve m uitas explicações. Tive de resolver sozinha todos aqueles m alditos feitiços. — Arrastou Jaenelle para a sala de visitas e fechou a porta.
Saetan olhou para os sapatos.
— Maldição, ela realm ente pisou nos m eus calos — resm ungou, antes de perceber que Morton tinha se aproxim ado o suficiente para ouvi-lo.
— S-Senhor Suprem o.
— Lord Morton, tenho apenas um a coisa para lhe dizer.
— Senhor? — Morton tentou reprim ir um arrepio.
Saetan, por sua vez, tentou reprim ir um sorriso pesaroso, m as sem êxito.
— Tem a m inha sincera solidariedade.
Morton sentiu um a onda de alívio.
— Agradeço, Senhor. É bem -vinda.
— Sirva-se de com ida e bebida — disse Saetan, gesticulando ligeiram ente em direção à porta fechada. — E m e avise se elas com eçarem a fazer planos para derrubar algum a parede.
BANG!
Em pânico, Saetan achou por um m om ento que a advertência tinha vindo tarde dem ais, para depois perceber que alguém , de algum a form a, estava batendo à porta.
Se Karla era gelo, esta era fogo, pois tinha um cabelo ruivo escuro que caía pelas costas, olhos verdes que cintilavam e um vestido rodopiante sem elhante a um bosque de outono em m ovim ento. Dirigiu-se prim eiro a Saetan, m as logo o ignorou quando Jaenelle e Karla puseram a cabeça para fora da sala de visitas. Com um largo sorriso, ergueu um a sacola de pano.
— Não sabia se iríam os parar nos estábulos ou acabar cavando no j ardim , por isso trouxe algum as roupas de verdade.
Saetan abafou um resm ungo. Será que nenhuma delas gostava de se arrum ar?
As garotas desapareceram na sala de visitas — e fecharam a porta.
O j ovem que acom panhava a feiticeira de fogo era alto, bonito e alguns anos m ais velho. Tinha cabelos castanhos encaracolados e olhos azuis. Sorridente, estendeu a m ão num cum prim ento inform al.
Com um nó no estôm ago, Saetan apertou com firm eza a m ão estendida. Poderia descrever aqueles olhos azuis de diversas form as. Todas anunciavam problem as.
— O senhor deve ser o Senhor Suprem o — disse o j ovem Senhor da Guerra, com um sorriso. — Sou Khardeen, da ilha de Scelt. — Apontou o polegar em direção à sala de visitas. — Aquela é a Morghann.
A porta da sala de visitas se abriu. Jaenelle se aproxim ou, hesitante. Depois estendeu am bas as m ãos num cum prim ento form al.
— Olá, Khary.
Khary olhou para as m ãos estendidas e virou-se para Saetan.
— Jaenelle algum a vez lhe contou sobre a aventura com a pedra do m eu tio...
— Khary — suspirou Jaenelle, olhando nervosa para Saetan.
— Hã? — Khary sorriu para ela. — Sabia que um bom abraço consegue esvaziar a cabeça de um hom em ? Todo m undo sabe disso. Fico surpreso que você não.
Jaenelle estava na ponta dos pés, preparada para sair correndo. Agora seus calcanhares baixaram e os olhos sem icerraram -se.
— Sério?
Observando os dois, Saetan decidiu que o m ais prudente era perm anecer im óvel e não abrir a boca.
Passaram -se alguns segundos. Vendo que Jaenelle não se decidia, Khardeen voltou-se para Saetan.
— Sabe, m eu...
Jaenelle avançou.
— Não precisa m e sufocar — exclam ou Khary, envolvendo-a cuidadosam ente com os braços.
— Então, o que ia dizer? — perguntou Jaenelle com um ar am eaçador.
— Com o? — respondeu Khary, docem ente.
Rindo, Jaenelle envolveu o pescoço do rapaz.
— Fico contente por ter vindo, Khardeen. Senti saudades.
Khary libertou-se devagar.
— Tem os tem po de sobra para pôr tudo em dia. Agora é m elhor voltar para perto das suas irm ãs ou vou ter de aguentar a língua afiada de Morghann pelo resto do dia.
— Com parada à de Karla, a língua de Morghann não é nada afiada.
— Então tenho ainda m ais razão.
Dando outra olhada nervosa para Saetan, Jaenelle correu para a sala de visitas. Mal chegou lá, alguém bateu à porta, de um m odo que parecia quase respeitoso.
Deviam ter surgido na teia de desem barque com poucos segundos de intervalo uns dos outros, chegando j untos à porta, um a vez que não eram originários dos m esm os Territórios. E considerando não lhe dispensaram m ais do que um apreensivo olhar de relance antes de se concentrarem em Jaenelle, Saetan viu-se forçado a adivinhar quem eram pelos nom es dos convites.
Os sátiros de Pandar eram Zy lona e Jonah. A pequena fada com cabelo escuro e asas iridescentes em poleirada no om bro de Jonah era Katrine de Philan, um a das ilhas de Paw. O j ovem de cabelo preto e olhos cinzentos que lem brava os j ovens lobos que agora viviam nos bosques ao norte era Aaron de Dharo. Sabrina, um a m orena com olhos cor de avelã, tam bém vinha de Dharo. Os rapazinhos de pele am arela listrada de negro eram Grezande e Elan, de Tigrelan.
A últim a do grupo — um a feiticeira baixinha, com form as curvilíneas e voluptuosas, de olhos castanhos-claros e cabelo castanho-escuro — abraçou Jaenelle, aproxim ou-se tim idam ente de Saetan e apresentou-se com o Kalush de Nharkhava.
Era tão doce e encantadora que Saetan teve vontade de abraçá-la. Em vez disso, ele deslizou as m ãos por baixo das que ela havia estendido num cum prim ento form al e disse:
— É um a honra conhecê-la, Lady Kalush.
— Senhor Suprem o. — Sua voz rouca devia ter um efeito m aravilhosam ente pérfido na libido dos j ovens rapazes. Teve pena do pai dela.
Beale, parecendo um pouco aturdido, com eçou a fechar a porta, m as esta voltou a abrir-se bruscam ente.
Saetan em purrou Kalush na direção de Andulvar e ficou tenso.
Os centauros entraram .
A j ovem feiticeira, Astar, dirigiu-se às garotas. O Príncipe dos Senhores da Guerra prosseguiu pelo salão até ficar diante de Saetan.
— Senhor Suprem o. — O cum prim ento soou m ais com o um desafio.
— Príncipe Sceron.
Sceron era alguns anos m ais velho do que os outros, j á tinha idade suficiente para com eçar a desenvolver os enorm es om bros e o tronco robusto. O resto do corpo orgulharia qualquer cavalo.
Nos olhos de Sceron era possível ver um a pergunta por fazer e um a raiva contida que parecia prestes a explodir.
Jaenelle avançou naquele silêncio gélido, cerrou o punho e deu um a pancada no antebraço de Sceron.
Sceron pegou-a e levantou-a até ficarem olhos nos olhos.
— Isto foi por não ter m e cum prim entado — disse Jaenelle.
Sceron exam inou o rosto dela e, por fim , sorriu.
— Você está bem ?
— Estava m elhor antes de m e você m e am arrotar.
Rindo, Sceron colocou-a no chão.
Alguém suspirou.
Saetan sentiu um calafrio percorrendo a espinha e olhou para a porta.
Com o achava que não viriam , não tinha pensado em com o os outros reagiriam à sua presença. Mas ali estavam elas. As Crianças da Floresta. Os Dea al Mon.
Era um casal esguio e forte, um a característica da raça, tal com o as orelhas levem ente pontudas. Am bos usavam os grisalhos cabelos com pridos e soltos. Am bos tinham olhos grandes, de um tom azul-floresta, em bora os da garota tivessem um a tonalidade m ais acinzentada.
A garota, Gabrielle, parou à porta. O rapaz — ah, não, seria de um a extrem a leviandade j ulgar que Chaosti era um rapaz — avançou devagar e silenciosam ente.
Saetan lutou contra os instintos que sem pre se m anifestavam diante de um Príncipe dos Senhores da Guerra desconhecido. Com o não chegaram a se dirigir a ele, Elan e Aaron não os haviam atiçado. Sceron tinha apenas tocado de leve. Mas Chaosti, olhando-o fixam ente com aqueles grandes olhos, despertaram toda a agressividade e territorialidade inerentes a um Príncipe dos Senhores da Guerra.
Saetan sentiu que chegava à beira dos instintos assassinos e soube que o m esm o acontecia com Chaosti; entretanto, os instintos deste últim o estavam quase saindo do controle.
— Chaosti — cham ou Jaenelle com sua voz som bria.
Chaosti virou-se devagar para ela.
— É o m eu pai, Chaosti — disse Jaenelle. — Por escolha m inha.
Depois de um longo m om ento, Chaosti colocou a m ão no peito.
— Por escolha sua, prim a — respondeu com um a voz de tenor enganadoram ente calm a.
Jaenelle conduziu as garotas à sala de visitas inform al e fechou a porta.
Os m achos soltaram , em uníssono, um suspiro de alívio.
Chaosti virou-se para Saetan.
— Jaenelle esteve ausente durante m uito tem po e sentim os profundam ente a sua falta. Titian disse que não era culpa sua, m as...
— Mas sou o Senhor Suprem o — disse Saetan com um vestígio de am argura.
— Não — respondeu Chaosti, sorrindo com frieza —, você não é um Dea al Mon.
Saetan sentiu o corpo relaxar.
— Por que a cham a de “prim a”?
— Gabrielle e eu pertencem os ao m esm o clã. Vovó Teele é a m atriarca. Ela tam bém adotou Jaenelle. — O sorriso de Chaosti era agora m uito selvagem . — Portanto, você é fam ília da m inha fam ília, o que tam bém o torna parente de Titian.
Saetan suspirou.
Khardeen aproxim ou-se.
— Se quiserm os com er algum a coisa, creio que terem os de lutar por isso — disse a Chaosti.
— Aceito qualquer desafio vindo de um m acho — vociferou Chaosti.
— As garotas estão entre nós e a com ida.
Chaosti suspirou.
— Seria m ais fácil desafiar um m acho.
— E tam bém m ais seguro.
— Cavalheiros — disse Beale —, tam bém estão servindo com ida e bebida na sala de visitas form al.
— Já ouviu dizer que as feiticeiras ruivas são tem peram entais? — Khardeen perguntou a Chaosti, a cam inho da sala de visitas form al, seguindo os outros m achos.
— Não existem feiticeiras ruivas entre os Dea al Mon — respondeu Chaosti —, e todas são tem peram entais.
— Ah. Então, está bem .
A porta se fechou atrás deles.
Saetan deu um salto ao sentir um a m ão apertando-lhe o om bro.
— Você está bem ? — perguntou Andulvar baixinho.
— Ainda estou em pé?
— Está na vertical.
— Graças às Trevas. — Saetan olhou em volta. Ele e Andulvar eram os únicos no salão principal. — Vam os nos esconder no m eu escritório.
— Boa ideia.
Beberam dois copos de y arbarah e relaxaram quando um a hora se passou sem guinchos, pancadas ou estrondos.
— Mãe Noite. — Saetan tirou o casaco com dificuldade, sentando-se num a das enorm es e confortáveis cadeiras.
— Pelas m inhas contas — disse Andulvar ao voltar a encher os copos —, há dez feiticeiras adolescentes no m esm o am biente, todas Rainhas, e duas delas, além de Jaenelle, são Viúvas Negras naturais.
— Karla e Gabrielle. Eu reparei. — Saetan fechou os olhos.
— No outro aposento, há sete j ovens m achos, sendo quatro deles Príncipes dos Senhores da Guerra.
— Tam bém reparei nisso. Constituem um Prim eiro Círculo interessante, não acha?
Andulvar resm ungou em ey rieno. Saetan preferiu não traduzir.
— Aonde acha que foram os outros? — questionou Andulvar.
— Se Mephis e Prothvar forem m inim am ente inteligentes, estão escondidos em algum lugar. Sy lvia com certeza está servindo bolinhos de avelã e sanduíches. Cassandra? — Saetan deu de om bros. — Creio que não estava preparada para tudo isto.
— E você estava?
— Droga. — Ao ouvir alguém batendo à porta do escritório, Saetan ainda pensou em se sentar direito, decidindo no entanto não se dar esse trabalho. — Entre.
Khardeen entrou, sorridente, e deixou dezesseis envelopes selados na m esa de m adeira escura.
— Eu disse a Jaenelle que lhe entregaria estes envelopes. Vam os lá fora encontrar os lobos e o unicórnio.
— Já devoraram tudo o que havia na cozinha? — perguntou Saetan ao pegar um envelope.
— Pelo m enos até o j antar.
— Espere um m om ento, Senhor da Guerra — ordenou Saetan, frustrando a retirada apressada de Khardeen. Partiu o lacre oficial, invocou os óculos em m eia-lua e leu a m ensagem . Depois, olhou estupefato para Khary. — É de Lady Duana.
— Hum — disse Khary, balançando-se nos calcanhares. — A avó de Morghann.
— A Rainha de Scelt é avó de Morghann?
Khary enfiou as m ãos nos bolsos.
— Hum .
Saetan pousou os óculos na m esa com cuidado.
— Vam os logo ao que interessa. Estas cartas dizem todas a m esm a coisa?
— E o que dizem , Senhor Suprem o? — perguntou Khary, com um ar inocente.
— Todas dão perm issão para um a visita prolongada?
— Im agino que sim .
— Defina “visita prolongada”.
— Não m uito tem po. Só até o fim do verão.
Saetan não conseguiu abrir a boca. Não sabia ao certo o que diria se conseguisse.
— Todos os arranj os j á estão sendo feitos — disse Khary, tranquilo. — Lord Beale e Lady Helene j á estão tratando da distribuição dos quartos, por isso você não tem com o que se preocupar.
— Não... — A voz de Saetan estrondou.
— E é um acordo j usto, Senhor Suprem o. Você pode estar com ela e nós podem os estar com ela. Além disso, o Paço é o único lugar com espaço para todos.
Saetan fez um gesto suave dando perm issão para que Khary saísse e aguardou até a porta se fechar para apoiar a cabeça nas m ãos.
— Mãe Noite.