A Herdeira das Sombras

Anne Bishop · Capítulo 17 de 22 · parte 1/3

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A Herdeira das Sombras

Quarta Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Q UARTA PARTE

CAPÍTULO TREZE

 

1 / Kaeleer

–A prim avera é a tem porada dos rom ances — disse Hekatah, observando o com panheiro. — E agora ela j á tem dezoito anos. Idade o bastante para desfrutar um m arido.

— É verdade. — Lord Jorval desenhava pequenos círculos na m esa arranhada. — No entanto, é im portante escolher o m arido adequado.

— Ele só precisa ser j ovem , belo e m ásculo... e obediente — retrucou Hekatah. — Será apenas um a isca sexual que a afastará daquele m onstro. Ou você quer viver sob o dom ínio do Senhor Suprem o quando sua “filha” constituir corte e com eçar seu reinado?

Jorval parecia obstinado.

— Um m arido poderia ser m uito m ais do que um a isca sexual. Um hom em m aduro poderia guiar sua esposa Rainha, aj udando-a a tom ar as decisões certas, m antendo-a longe das m ás influências.

Frustrada a ponto de querer gritar, Hekatah se recostou e enrolou as m ãos nos braços da cadeira, para evitar se esticar sobre a m esa e arrancar m etade do rosto daquele idiota.

Fogo do Inferno, com o sentia falta de Greer. Ele entendia a sutileza. Entendia a prudência sensível de fazer uso de interm ediários sem pre que possível, evitando ficar na linha de fogo. Com o m em bro do Conselho das Trevas, Jorval era de grande utilidade, pois m antinha a aversão e a desconfiança do Conselho em banho-m aria. Porém , desej ava Jaenelle Angelline e im aginava noites de sexo que fariam a vadia pálida ficar m aleável e subm issa a todos os seus caprichos, na cam a e fora dela. E até aí tudo bem , m as o idiota parecia não querer ver além dos lençóis suados e avaliar o que poderia estar esperando por ele para um a conversinha.

Hekatah sabia com algum a certeza que Saetan cerraria os dentes e suportaria um m acho indesej ável pelo qual sua Rainha estivesse apaixonada. Sua form ação estava arraigada dem ais nas tradições dos Sangue para que agisse de outro m odo. No entanto, o m estiço ey rieno... Esse não pensaria duas vezes antes de tirar sua Senhora dos braços do am ante — ou de arrancar seus braços —, isolando-a até voltar a pensar com clareza.

E Hekatah duvidava que algum deles pudesse ser convencido de que Jaenelle estaria suspirando por alguém com a aparência de Lord Jorval.

— Precisa ser j ovem — insistiu Hekatah. — Um rapaz bonito com experiência suficiente na cam a para ser convincente, e encantador o bastante para a fam ília acreditar, em bora com desconfiança, que ela está perdidam ente apaixonada.

Jorval se aborreceu.

Controlando a fúria com m ais afinco, Hekatah alterou a voz para que parecesse hesitante.

— Há razões para serm os prudentes, Jorval. Talvez você se lem bre de um colega m eu. — Entortou as m ãos que ficassem com o aspecto de garras retorcidas.

Jorval m elhorou de hum or.

— Eu m e lem bro dele. Foi bastante útil. Esperava que voltasse. — Vendo que Hekatah nada dizia, respirou de form a irregular. — O que aconteceu com ele?

— O que aconteceu foi o Senhor Suprem o — respondeu Hekatah. — Com eteu o erro de cham ar a atenção. Nunca m ais foi visto.

— Entendo.

Sim , finalmente com eçava a entender.

Hekatah se inclinou para a frente e acariciou a m ão de Jorval.

— Às vezes os deveres e as responsabilidades do poder exigem sacrifícios, Lord Jorval. — Percebendo que ele não iria protestar, Hekatah reprim iu um sorriso triunfante. — Bem , se você acertasse o casam ento de Jaenelle Angelline com o filho de um hom em com quem você se sentisse à vontade para colaborar... um filho atraente e influenciável...

— Que benefício isso m e traria? — inquiriu Jorval.

Hekatah conteve a irritação.

— O pai aconselharia o filho sobre as políticas e m udanças a serem im plem entadas em Kaeleer... m udanças que, com a insistência de Jaenelle, seriam aceitas. Muitas decisões são tom adas em conversas de alcova, e com certeza você sabe disso.

— Que benefício isso m e traria? — repetiu Jorval.

— Assim com o o filho segue os conselhos do pai, o pai tam bém segue os conselhos do am igo... que é a única fonte para o tônico que m antém a Senhora tão ávida pela atenção do filho que ela concordará com qualquer coisa.

— Ah. — Jorval passou a m ão pelo queixo. — Aaaah.

— E se por algum a razão o Senhor Suprem o ou qualquer outro m em bro da fam ília — o indício de m edo nos olhos de Jorval dizia que ele j á teria sentido de perto a fúria de Lucivar Yaslana — reagir m al? Bem , encontrar um rapaz atraente e belo seria relativam ente fácil, m as encontrar hom ens fortes e inteligentes para dirigir o Reino... — Hekatah abriu as m ãos e encolheu os om bros.

Jorval refletiu por algum tem po. Hekatah aguardou, paciente. Por m ais que ele desej asse a ardente fantasia sexual, desej ava ainda m ais o poder — ou a ilusão de poder.

— Lady Angelline virá à Pequena Terreille daqui a duas sem anas. E eu tenho um ... am igo... com um filho apropriado. Mas fazer Lady Angelline aceitar se casar...

Hekatah invocou um pequeno frasco, pousando-o sobre a m esa.

— Lady Angelline é conhecida pela com paixão e por seus poderes de cura. Se algum a criança ficasse ferida em algum acidente horrível, certam ente conseguiriam convencê-la a aj udar. Caso os ferim entos pusessem em risco a vida da criança, a energia que gastaria num a cura com pleta a deixaria física e m entalm ente esgotada. A essa altura, se alguém em quem ela confiasse lhe oferecesse um copo de vinho relaxante, provavelm ente estaria m uito cansada para testá-lo. O casam ento infelizm ente teria de ser um a cerim ônia privada e discreta o m ais cedo possível. Com o cansaço e esta infusão m isturada ao vinho, ela estaria subm issa o suficiente para dizer o que a m andassem dizer e assinar o que a m andassem assinar. O j ovem casal perm aneceria na cerim ônia por um breve período, para depois se retirar para o quarto e consum ar o casam ento.

As narinas de Jorval se dilataram .

— Entendo.

Hekatah invocou um segundo frasco.

— A dose certa deste afrodisíaco, m isturada ao vinho durante o brinde de casam ento, irá deixá-la insaciável pelo novo m arido.

Jorval passou a língua pelos lábios.

— Na m anhã seguinte, é preciso que sej a adm inistrada um a segunda dose. Isto é m uito im portante, pois o desej o dela tem de ser tão forte que se sobreponha à vontade do Senhor Suprem o de ter um a conversa particular com o m arido. Quando ela estiver pronta para desobrigar o rapaz dos deveres conj ugais, o Senhor Suprem o não poderá negar nem opor-se ao vínculo sem parecer um tirano ou estar tom ado de ciúm es. — Hekatah fez um a pausa, insatisfeita com a form a com o Jorval fitava os frascos. — E o hom em sensato que estiver orientando essa questão j am ais levantará suspeitas... a m enos que acabe cham ando a atenção.

Com um esforço visível, Jorval deixou de lado suas fantasias. Fez os frascos desaparecerem .

— Perm anecerei em contato.

— Não é necessário — disse Hekatah com um a rapidez exagerada. — Basta saber que posso aj udar. Depois inform o onde e quando você pode buscar a dose seguinte do afrodisíaco.

Jorval fez um a reverência e saiu.

Hekatah se recostou, exausta. Jorval ignorava ou optava por ignorar as cortesias habituais. Não trouxera qualquer bebida nem oferecera nada. Provavelm ente se achava m uito im portante. E era m esm o, o m aldito. Neste m om ento, era im portante dem ais para os planos de Hekatah para que ela insistisse em form alidades. Mas assim que a putinha fosse separada de Saetan, ela poderia se livrar de Jorval.

Duas sem anas. Teria tem po para concluir o que restava do plano e m ontar a arm adilha que, com sorte, iria livrá-la tam bém de um Príncipe Ey rieno dos Senhores da Guerra.

 

2 / Kaeleer

Algum a coisa estava errada.

Lucivar colocou um a braçada de lenha no caixote j unto à lareira da cozinha.

Errada dem ais.

Endireitando-se, sondou psiquicam ente toda a área, usando a casa de Luthvian com o ponto central.

Nada. Mas a sensação perm aneceu.

Preocupado com a inquietação, Lucivar não se m exeu quando Roxie entrou na cozinha, não reparou no brilho nos olhos da garota ou na form a com o seu andar se transform ou ao cam inhar na sua direção.

Ele passara os últim os dois dias aj udando Luthvian nas tarefas diárias, enquanto se esquivava das investidas am orosas de Roxie. Dois dias eram o que ele e Luthvian conseguiam passar j untos, e só o conseguiam porque Luthvian estava ocupada com suas alunas a m aior parte do dia e ele saía logo após o j antar para passar a noite na clareira de um a m ontanha.

— Você é forte — disse Roxie, passando as m ãos no peito.

De novo, não. De novo, não.

Norm alm ente, não perm itiria que um a m ulher o tocasse daquela form a. Norm alm ente, consideraria aquele tom de voz um m otivo para lhe dar um soco.

Então, por que estava receoso? Por que tinha os nervos à flor da pele?

Vou acabar com isto desta vez. Acabar de vez com a ligação. Não. Não posso. Não conseguirei alcançá-lo se...

Os braços de Roxie se enroscaram no pescoço de Lucivar. Ela roçou os seios no seu peito.

— Ainda não tive um Príncipe dos Senhores da Guerra.

De onde vinha o m edo?

Você não pode possuir este corpo. Este corpo está prometido para ele.

Roxie se encostou m ais em Lucivar. Mordeu seu pescoço. Lucivar colocou as m ãos na cintura, im obilizando-a enquanto se concentrava para descobrir a origem daquele zum bido de vespa raivosa.

De novo, não. De novo, não.

Vinha do Anel de Honra que Jaenelle havia lhe oferecido. O zum bido, o m edo, a raiva fria crescendo sob o m edo. Aquelas sensações não lhe pertenciam , pertenciam a Jaenelle.

Fogo do Inferno, Mãe Noite e que as Trevas tenham m isericórdia por ela.

— Vej o que você m udou de ideia... — disse Luthvian, m ordaz, ao entrar na cozinha.

Um a raiva fria, tão fria. Se não fosse controlada logo...

— Preciso ir — disse Lucivar, distraído. Sentiu o puxão dos braços em volta do pescoço e, im ediatam ente, em purrou o corpo para longe.

Luthvian com eçou a praguej ar.

Ignorando-a, ele se virou para a porta, perguntando-se o que Roxie estaria fazendo no chão da cozinha.

— Você tem que m e servir! — gritou Roxie, sentando-se. — Você m e excitou. Tem que m e servir.

Voltando-se para ela, Lucivar arrancou a perna de um a cadeira da cozinha e lançou-a no colo de Roxie.

— Use isto. — E dirigiu-se à porta.

Não permitirei. Não me entregarei.

— Lucivar!

Rosnando, ele tentou se livrar da m ão de Luthvian.

— Preciso ir. A Gata está em apuros.

A m ão de Luthvian o apertou com m ais força.

— Você tem certeza, não tem ? Você a sente tão bem que tem certeza.

— Sim ! — Não queria bater em Luthvian. Não queria m agoá-la. Mas se não o deixasse ir...

A m ão no braço estrem eceu.

— Pode m e m andar um a m ensagem depois? Me diga se... se precisar de aj uda?

Lucivar olhou para Luthvian de m aneira dura e firm e. Ela podia ter ciúm es da form a com o os hom ens da fam ília eram atraídos por Jaenelle, m as se preocupava. Beij ou-a no rosto, de leve.

— Eu lhe direi.

Luthvian se esquivou.

— Você passou tantos anos treinando para ser guerreiro, agora vej a se coloca isso em prática.

Não.

Lucivar acelerou o m áxim o que pôde pela Teia Cinza-Ébano, certo de que j á era tarde dem ais.

Não permitirei.

Cuidaria dela depois, o que quer que tivesse acontecido. Doces Trevas, perm ita que possa existir um depois. Acelerou ainda m ais.

Do Anel não vinha qualquer em oção. Nenhum zum bido. Nada, a não ser...

Nãããããão!

... a raiva. Mãe Noite, a raiva!

 

Lucivar abriu cam inho à força pela m ultidão de rostos nauseados, seguindo direto para o local onde estava concentrado o poder desencadeado por Jaenelle. Um Senhor da Guerra de m eia-idade estava de um dos lados da entrada, tagarelando com um Mephis de aspecto sinistro. O gosto do poder rodopiava atrás de um a porta do outro lado.

Lucivar seguiu em direção à porta.

— Lucivar, não!

Ignorando a ordem de Mephis, Lucivar arrebentou a tranca Cinza que seu irm ão dem ônio-m orto m ais velho havia colocado na porta.

— Lucivar, não entre aí!

Lucivar abriu a porta, entrou no quarto e ficou petrificado.

À sua frente, havia um dedo sobre o tapete, com o anel de ouro parcialm ente fundido na carne e a Joia desfeita em um pó fino.

Era o m aior pedaço — e o único identificável — daquilo que teria sido um hom em adulto. O resto do corpo salpicava as paredes do quarto.

O zum bido na cabeça avisou-o para respirar norm alm ente antes que desm aiasse. Se respirasse norm alm ente no interior daquele quarto, ficaria enj oado por um a sem ana.

Porém , havia algo errado no quarto e ele não sairia dali até descobrir o que era.

Quando descobriu, sua fúria tornou-se assassina.

O corpo de um m acho. Um a cam a destruída. O restante da m obília, em bora estragado por fragm entos de ossos e sangue, não sofrera qualquer dano.

Lucivar saiu do quarto, virando-se para o hom em que conversava com Mephis.

— O que fizeram com ela? — perguntou com um a calm a excessiva.

— O que fizeram com ela? — O Senhor da Guerra apontou para o quarto com um a m ão trêm ula. — Vej am o que aquela vagabunda fez com m eu filho. É louca. Louca! Ela...

Com um grito de guerra ey rieno, Lucivar encostou o Senhor da Guerra na parede.

— O QUE FIZERAM COM ELA?

O Senhor da Guerra berrou. Ninguém tentou aj udá-lo.

— Lucivar. — Mephis segurava alguns papéis. — Ao que parece, Jaenelle se casou esta tarde com o Senhor...

Lucivar rosnou.

— Ela não se casaria por vontade própria sem a presença da fam ília. — Cerrou os dentes para o Senhor da Guerra. — Não é?

— E-estavam a-apaixonados — gaguej ou o Senhor da Guerra. — Foi am or à prim eira vista. Não queria que soubessem até estar consum ado.

— Alguém não queria — concordou Lucivar. Sorrindo, invocou a espada de guerra ey riena e ergueu-a para que o Senhor da Guerra a visse. — Desej a conservar seu rosto? — perguntou suavem ente.

— Lucivar — advertiu Mephis.

— Não se m eta, Mephis — resm ungou Lucivar, com a fúria levem ente controlada, petrificando todos os que estavam na entrada.

Pense. Ela ficara com m edo, e quase nada assustava Jaenelle. Teve m edo, m as tam bém ficou tão irritada que pensou em rom per a ligação entre espírito e corpo, preferindo abandonar o invólucro a se subm eter. Pense. Se estavam em Terreille...

— O que você deu a ela? — Com o o hom em não respondia, Lucivar encostou a ponta da espada de guerra no rosto do hom em . Abriu um corte. O sangue com eçou a escorrer.

— Um a i-infusão leve. Para acalm á-la. Ela estava com m edo. Com m edo de todos. Especialm ente de v-você.

Algo estúpido para dizer a um hom em que segurava um a arm a grande e tão afiada que podia lhe atravessar os ossos.

Ela tinha sido drogada. Fora um a substância forte o suficiente para confundir seu discernim ento sem im pedi-la de assinar o contrato de casam ento. Ainda assim , isso não explicava o quarto.

— Depois — advertiu Lucivar. — O que deu a ela a fim de prepará-la para o leito nupcial? — Vendo que o Senhor da Guerra o olhava fixam ente, sem responder, apertou a espada de guerra, desta vez cortando um pouco m ais fundo. — Onde estão os frascos?

Ofegante, o Senhor da Guerra apontou para um a porta próxim a.

Mephis entrou no aposento e voltou com dois pequenos frascos.

Lucivar fez a espada de guerra desaparecer, pegou um frasco e abriu-o. Analisou as gotas no fundo. Se um a bebida m isturada com aquela substância tivesse sido oferecida a ele, não a teria tocado. Em circunstâncias norm ais, Jaenelle faria o m esm o.

Fez o frasco desaparecer e pegou o outro, que ainda estava m eio cheio com um pó escuro. Praguej ou violentam ente. Sabia — com o sabia! — o que um a grande quantidade de safframate faria a alguém com sua com pleição e peso. Podia apenas im aginar o sofrim ento que produziria em Jaenelle.

Levantou o frasco.

— Você deu isso a ela? Se deu, então é o responsável pelo que aconteceu naquele quarto.

O Senhor da Guerra sacudiu a cabeça com violência.

— É inofensivo. Inofensivo! Adicionado a um a taça de vinho, é apenas um a variedade da infusão da Noite Ardente. A infusão da Noite Ardente é sem pre usada na noite de casam ento.

Lucivar m ostrou os dentes cerrados ao sorrir.

— Já que é inofensivo, você não vai se im portar de beber a outra dose. Mephis, vá buscar um a taça de vinho.

Na testa do Senhor da Guerra apareciam gotas de suor.

Mephis sum iu por um m inuto e voltou com o vinho.

Depois de colocar quase todo o pó preto no vinho, Lucivar passou o frasco para Mephis e pegou o copo. Com a outra m ão, agarrava a garganta do Senhor da Guerra.

— Bem , agora beba isto ou despedaço sua garganta. A escolha é sua.

— Q-quero um a audiência perante o Conselho das Trevas — choram ingou o Senhor da Guerra.

— Você tem todo o direito — Mephis concordou, sereno. Olhou para Lucivar. — Vai despedaçar a garganta dele ou eu m esm o m e encarrego disso?

Lucivar riu m aliciosam ente.

— Desse j eito não teria m uita utilidade recorrer ao Conselho, não é? — Seus dedos se afundaram na garganta do Senhor da Guerra.

— B-bebo.

— Eu sabia que você seria sensato — respondeu Lucivar. Afrouxou a pressão para perm itir que o Senhor da Guerra bebesse o vinho.

— Agora. — Jogou o Senhor da Guerra no aposento onde Mephis encontrara os frascos. — Para que possa fazer um relato preciso ao Conselho das Trevas, o m elhor é ter a m esm a experiência que preparava para Lady Angelline. — Depois de fechar a sala com um escudo Cinza-Ébano, acrescentando um feitiço tem porizador, Lucivar virou-se para um hom em ali perto. — O escudo desaparecerá em vinte e quatro horas.

Desta vez não precisou abrir cam inho entre a m ultidão. Todos se encostaram na parede para deixá-lo passar.

Mephis alcançou-o antes de sair da m ansão. Observando a área, foi para o quarto vazio m ais próxim o — o escritório de alguém . Achou-o sinistram ente adequado, m esm o não sendo o de Saetan.

Mephis trancou a porta.

— Foi um belo espetáculo.

— O espetáculo ainda nem com eçou. — Lucivar andava pelo escritório. — E você não tentou m e im pedir.

— Não podem os m ostrar divergências em público. Além disso, não havia razões para tentar im pedi-lo. Você é de um a categoria superior e duvido que deixasse que sentim entos fraternos se colocassem no seu cam inho.

— Nisso você tem razão.

Mephis praguej ou.

— Você se dá conta dos problem as que vam os ter com o Conselho das Trevas por causa disto? Não estam os acim a da Lei, Lucivar.

Lucivar parou diante de Mephis.

— Você vive de acordo com suas regras e eu com as m inhas.

— Ela assinou um contrato de casam ento.

— Contra a vontade.

— Você não sabe disso. E vinte testem unhas afirm am o contrário.

— Eu uso o Anel que ela m e deu. Consigo senti-la, Mephis. — A voz de Lucivar trem eu. — Ela estava preparada para rom per a ligação em vez de se subm eter.

Mephis ficou em silêncio durante um m inuto.

— Jaenelle tem problem as com a intim idade física. Você sabe disso.

Lucivar deu um m urro na porta.

— Maldito sej a! Você está tão cego ou está com o saco tão encolhido que se subm ete a qualquer coisa para não ouvir alguém reclam ando dos abusos de poder da fam ília SaDiablo? Bem , eu não estou cego nem há nada de errado com o m eu saco. É a m inha Rainha. Minha! Com ou sem regras, com ou sem Leis, com ou sem Conselho das Trevas, se alguém a faz sofrer, devolvo na m esm a m oeda.

Olharam fixam ente um para o outro. Lucivar ofegante, Mephis im óvel.

Por fim , Mephis se encostou à porta.

— Não podem os passar novam ente por isto, Lucivar. Não podem os voltar a ter m edo de perdê-la.

— Onde ela está?

— O pai a levou para a Fortaleza. Com ordens expressas para que o resto da fam ília se m antivesse afastado.

Lucivar puxou Mephis para o lado.

— Bem , todos sabem os com o levo j eito para cum prir ordens, não é?

 

3 / Kaeleer

Saetan estava com aparência de alguém que acabara de sobreviver a um a batalha.

O que não estava longe da verdade, pensou Lucivar ao fechar, sem fazer barulho, a porta da sala de estar de Jaenelle na Fortaleza.

— Minhas instruções foram claras, Lucivar.

A voz não tinha força. O rosto estava pálido e cansado.

Com indiferença, Lucivar apontou para as Joias Verm elhas de Direito por Progenitura que Saetan usava.

— Você não vai conseguir m e colocar para fora com isso.

Saetan não invocou a Negra.

Lucivar im aginou, corretam ente, que trazer Jaenelle para a Fortaleza na sua atual condição física e em ocional tinha esgotado a Negra.

Saetan m ancou até um a cadeira, praguej ando baixinho. Tentou pegar um decantador de y arbarah da m esa lateral, m as suas m ãos trem iam m uito.

Atravessando a sala, Lucivar pegou o decantador, encheu um copo e esquentou o vinho de sangue.

— Precisa de sangue fresco? — perguntou, sereno.

Saetan fitou-o com frieza.

Mesm o depois de todos aqueles séculos, as acusações de Luthvian ainda eram feridas profundas, com cicatrizes recentes. Os guardiões precisavam de sangue fresco de tem pos em tem pos, para preservar as forças. A princípio, Lucivar tentara entender a ira de Saetan quando lhe ofereciam sangue quente direto da veia, tentara não se sentir insultado ao notar que o Senhor Suprem o aceitava essa oferta de todos, m enos dele. Neste m om ento, sentia-se aborrecido por perceber que as palavras dos outros ainda se colocavam entre eles. Não era um a criança. Se o filho oferecia algo com boa vontade, por que o pai não aceitava?

Saetan desviou o olhar.

— Não, obrigado.

Lucivar enfiou a taça na m ão de Saetan.

— Beba isto.

— Quero você longe daqui, Lucivar.

Lucivar serviu-se de um generoso copo de conhaque, chutou um apoio de pés até a cadeira de Saetan e se sentou.

— Quando sair daqui, vou levá-la com igo.

— Você não pode — rebateu Saetan. — Ela está... — Ele passou as m ãos no cabelo. — Não acho que estej a bem de espírito...

— Não é de se adm irar, j á que foi drogada com safframate.

Saetan fulm inou-o com o olhar.

— Não sej a idiota. O safframate não causa isto.

— Com o você pode saber? Nunca experim entou. — Lucivar esforçou-se para m anter o ressentim ento longe da voz. Aquele não era o m om ento para reabrir velhas feridas.

— Eu j á experim entei safframate.

Lucivar sem icerrou os olhos e exam inou o pai.

— Explique-se.

Saetan esvaziou o copo.

— O safframate é um estim ulante sexual usado para prolongar o vigor, a capacidade de proporcionar prazer. As sem entes são do tam anho de um a sem ente de boca-de-lobo. Colocam os um a ou duas, trituradas, em um copo de vinho.

— Um a ou duas. — Lucivar bufou. — Senhor Suprem o, em Terreille trituram as sem entes até virarem pó, depois as adm inistram às colheradas.

— Mas isso é um a loucura! Se alguém tom asse essa quantidade... — Saetan fixou os olhos na porta fechada que dava para o quarto de Jaenelle.

— Exato — disse Lucivar, em voz baixa. — O prazer logo se transform a em dor. O corpo fica tão estim ulado e sensível que o contato com qualquer coisa causa sofrim ento. O instinto sexual anula todo o resto, m as essa quantidade de safframate tam bém bloqueia a capacidade de atingir o orgasm o. Então não existe alívio possível, apenas a necessidade instintiva e a sensibilidade que aum enta com o estím ulo.

— Mãe Noite — sussurrou Saetan, afundando na cadeira.

— Mas se por algum a razão a pessoa não se suj eitar a ser usada até que passe o efeito da substância... bem , o encontro pode se tornar violento.

Saetan piscou, para reprim ir as lágrim as.

— Você foi usado dessa m aneira, não é?

— Sim . Mas não com m uita frequência. A m aioria das feiticeiras achava que m ontar no m eu pau não com pensava levar a m inha fúria para a cam a. E a m aioria das que tentaram não voltou inteira, quando voltou. Eu tinha m inha própria definição de paixão intensa.

— E Daem on?

— Tinha sua própria m aneira de lidar com a questão. — Lucivar estrem eceu. — Não o cham avam de Sádico por acaso.

Saetan estendeu a m ão para tom ar o y arbarah. Ela ainda trem ia, m as não tanto.

— O que acha que podem os fazer com Jaenelle?

— Ela não m erece passar por isto sozinha, e nunca aceitará fazer sexo, nem pelo m enor alívio que lhe poderia proporcionar. Por isso, resta a violência. — Lucivar esvaziou o copo de conhaque. — Vou levá-la para Askavi. Ficarem os afastados dos povoados. Desse m odo, se algum a coisa der errado, ninguém sofrerá as consequências.

Saetan baixou o copo.

— E você?

— Prom eti a m im m esm o que tom aria conta dela. É o que farei.

Sem se perm itir m ais tem po para pensar, Lucivar colocou o copo na m esa e atravessou a sala. Hesitou ao chegar à porta, sem saber ao certo com o abordar um a feiticeira com poder suficiente para dilacerar sua m ente só com um pensam ento. Depois deu de om bros e abriu a porta, confiando no instinto.

O quarto tinha um a atm osfera pesada por causa da crescente tem pestade psíquica. Ele entrou, preparando-se.

Jaenelle andava de um lado para outro, as m ãos agarradas aos braços com força suficiente para se ferir. Olhou de relance para Lucivar e cerrou os dentes. Nos seus olhos, havia repulsa e ausência de reconhecim ento.

— Saia.

Ele se sentiu aliviado. A cada segundo que Jaenelle resistisse ao desej o de atacar um m acho, aum entariam suas chances de sobreviver aos próxim os dias.

— Faça a m ala — disse Lucivar. — Roupas inform ais. Um casaco quente para a noite. Botas de cam inhada.

— Não vou a lugar nenhum — rebateu Jaenelle.

— Vam os caçar.

— Não. Saia daqui.

Lucivar apoiou as m ãos na cintura.

— Você pode fazer a m ala ou não, m as vam os caçar. Agora.

— Não quero ir a lugar nenhum com você.

Percebeu o desespero e o tem or na voz da garota. Desespero por não querer deixar a segurança do quarto. Tem or pela pressão de Lucivar sobre ela, que, sentindo-se encurralada, poderia retaliar, m achucando-o.

Ele ficou m ais anim ado.

— Você pode sair deste quarto com seus próprios pés ou sobre m eus om bros. A escolha é sua, Gata.

Jaenelle agarrou um a alm ofada e a rasgou, com um a enxurrada de palavrões em diversos idiom as. Vendo que a única reação de Lucivar era ir em direção a ela, apressou-se para fugir dele, colocando a cam a entre os dois.

Será que percebia a ironia?

— O tem po está se esgotando, Gata — disse, afável.

Ela agarrou outra alm ofada e atirou-a contra Lucivar.

— Bastardo!

— Sacana — corrigiu. Com eçou a dar a volta na cam a.

Jaenelle correu para a porta do closet.

Lucivar chegou antes dela, com as asas abertas, o que o fazia parecer im enso.

Jaenelle recuou.

Saetan entrou no quarto.

— Vá com ele, criança-feiticeira.

Encurralada entre o pai e o irm ão, Jaenelle ficou im óvel, trem endo.

— Vam os nos afastar de todos — propôs Lucivar. — Só nós dois. Muito ar fresco e cam po aberto.

Ele viu, em seus olhos e rosto, que ela considerava a ideia. Cam po aberto. Espaço para se m ovim entar. Espaço para correr. Cam po aberto, onde não estaria encurralada num quarto, com toda aquela m asculinidade sufocando-a.

— Você não vai m e tocar — Não era um a pergunta nem um a exigência. Era um a súplica.

— Não vou tocar em você — prom eteu Lucivar.

Os om bros de Jaenelle relaxaram .

— Está bem . Vou fazer a m ala.

Lucivar fechou as asas e se afastou para que a garota pudesse entrar no closet. A derrota naquela voz lhe deu vontade de chorar.

Saetan se aproxim ou.

— Tenha cuidado, Lucivar — disse baixinho.

Lucivar concordou. Já se sentia cansado.

— Vai ser m elhor a céu aberto, nos cam pos.

— Você tem experiência?

— Sim . Prim eiro vam os à cabana buscar sacos de dorm ir e outros apetrechos. Pedirei ao Fum aça que se j unte a nós. Acho que ela vai conseguir tolerá-lo. E, se algo der errado, ele pode enviar um a m ensagem .

Saetan não precisava perguntar o que poderia dar errado. Am bos sabiam do que um a Rainha Viúva Negra de Joia Negra podia fazer a um hom em .

Saetan passou a m ão nos om bros de Lucivar. Beij ou o filho no rosto.

— Que as Trevas o protej am — disse com a voz rouca, virando-se para sair. Lucivar puxou Saetan e abraçou-o com força. — Tenha cuidado, Lucivar. Não quero que nada lhe aconteça, agora que finalm ente estam os j untos. E não quero você com igo no Inferno.

Lucivar se afastou e exibiu um sorriso indolente e arrogante.

— Prom eto ficar longe de confusão, pai.

Saetan bufou.

— Você dizia o m esm o quando era pequeno — afirm ou, em um tom frio.

Sozinho enquanto Jaenelle fazia a m ala, Lucivar se perguntou se estava agindo corretam ente. Já lam entava os pássaros que caçariam , os anim ais que m orreriam de form a tão bárbara. Se o derram am ento de sangue quadrúpede não fosse suficiente, ela se voltaria contra ele. Era o que ele esperava. E, se fizesse isso, Saetan não voltaria a encontrar o filho no Reino das Trevas. Não restaria nada dele.

 

4 / Kaeleer

–O Conselho das Trevas está bastante consternado com o assunto. — Lord Magstrom se rem exeu na cadeira, constrangido.

Saetan conteve a fúria com pura força de vontade. O hom em sentado do outro lado da m esa de m adeira escura nada fizera para m erecer sua ira.

— O Conselho não está sozinho nessa consternação.

— Sim , é claro. Mas para Lady Angelline ter... — Magstrom hesitou.

— Entre os Sangue, o estupro é punido com a execução. Pelo m enos, é assim em Kaeleer — disse Saetan, com um a afabilidade excessiva.

— Tam bém é assim em Terreille — respondeu Magstrom , rígido.

— Então o desgraçado teve o que m ereceu.

— Mas... eles eram recém -casados — protestou Magstrom .

— Mesm o que isso fosse verdade, o que duvido, apesar das m alditas assinaturas, um contrato de casam ento não j ustifica o estupro. Drogar um a m ulher e deixá-la incapaz de recusar não significa que ela tenha concordado. Eu diria que Jaenelle m anifestou sua recusa de form a bastante eloquente, não acha? — Saetan j untou os dedos das m ãos à frente, recostando-se na cadeira. — Analisei as duas “substâncias inofensivas” que deram a ela. Com o sou Viúva Negra, consigo reproduzi-las. Se quiserem insistir que não tiveram qualquer relação com o com portam ento dela posso produzir outro lote. Podem os testá-lo na sua neta. Ela tem a idade de Jaenelle.

Agarrando-se aos braços da cadeira com força, Lord Magstrom ficou em silêncio.

Saetan deu a volta na m esa e serviu dois copos de conhaque. Ofereceu um deles a Lord Magstrom e sentou-se num canto.

— Fique tranquilo. Eu não faria um a m aldade dessas com um a criança. Além do m ais — acrescentou com a voz calm a —, posso perder dois filhos nos próxim os dias. Não desej aria isso a outro hom em .

— Dois?

Saetan desviou o olhar da preocupação e com paixão nos olhos de Magstrom .

— A prim eira infusão que deram a Jaenelle inibe a vontade. Ela diria o que lhe m andassem dizer, faria o que lhe m andassem fazer. Infelizm ente, essa infusão faz com que os danos em ocionais sej am m uito m aiores. Um a grande quantidade de safframate e um a violação são o bastante para deixá-la prestes a m atar alguém . E ela perm anecerá nesse estado até os efeitos passarem .

Magstrom tom ou um gole de conhaque.

— Ela vai se recuperar?

— Não sei. Se as Trevas forem m isericordiosas, sim . — Saetan cerrou os dentes. — Lucivar levou-a a Askavi para passar um tem po na terra, longe do contato com pessoas.

— Ele sabe dessas tendências violentas?

— Sim , está ciente.

Magstrom hesitou.

— Você não espera que ele volte, não é?

— Não. E ele tam bém não. E não sei o que isso provocará em Jaenelle.

— Gosto dele — disse Magstrom . — Possui um charm e bruto.

— Sim , é verdade. — Saetan esvaziou o copo, esforçando-se para não sofrer por antecipação. Reforçou o autocontrole. — Independente do que acontecer, Jaenelle não vai m ais visitar a Pequena Terreille sem um séquito escolhido por m im .

Magstrom se levantou e pôs o copo com cuidado sobre a m esa.

— Acho que é a m elhor atitude a tom ar. Espero que o Príncipe Yaslana faça parte desse séquito.

Saetan se conteve até Lord Magstrom sair do Paço. E então atirou os copos de conhaque contra a parede. Não se sentiu m elhor. Os vidros partidos lem bravam um cálice de cristal estilhaçado e dois filhos que pagariam um preço alto por causa do pai.

Caiu de j oelhos no chão. Já havia chorado um filho. Não lam entaria o outro. Ainda não. Não lam entaria aquele cretino ey rieno insensato e arrogante, aquele im pertinente charm oso e tem peram ental.

Ah, Lucivar.

 

5 / Kaeleer

–Que droga, Gata, eu disse para você esperar. — Lucivar lançou um escudo Cinza-Ébano pela trilha de caça, retesando-se um pouco ao prever o em bate.

Jaenelle parou a alguns centím etros do escudo e se virou, os olhos vidrados, procurando um local na densa vegetação que lhe perm itisse abrir cam inho.

— Afaste-se de m im — falou, ofegante.

Lucivar m ostrou o cantil.

— Você cortou o braço nos espinhos lá atrás. Deixe eu lim par os cortes com um pouco de água.

Olhando para o braço, ela pareceu surpresa ao ver o sangue escorrendo de m eia dúzia de arranhões profundos.

Lucivar rangeu os dentes e aguardou. Ela havia tirado as roupas e ficado apenas com um a cam isola sem m angas, que não oferecia qualquer proteção à pele naquela terra inóspita. Mas neste m om ento a dor aguda não feria tanto quanto a fricção constante do tecido na pele hipersensível.

— Vam os lá, Gata — pediu. — Estique o braço para eu j ogar água por cim a.

Ela estendeu o braço com cuidado. Aproxim ando-se apenas o necessário, Lucivar j ogou água nos arranhões, lim pando o sangue e — assim esperava — a m aior parte da suj eira.

— Beba um gole de água — disse, oferecendo-lhe o cantil. Se conseguisse convencê-la a beber um pouco, talvez conseguisse convencê-la a ficar quieta por cinco m inutos, o que não acontecia desde que a trouxera para esta zona de Ebon Rih.

— Afaste-se de m im . — A voz soou grave e áspera. Desesperada.

Ele se afastou um pouco, m as continuou a lavar os cortes.

— Afaste-se de mim. — Ela se virou e atravessou o escudo Cinza-Ébano com o se ele não existisse.

Lucivar tom ou um longo gole de água e suspirou. De um j eito ou de outro, iria aj udá-la a superar esta situação. Contudo, após dois dias de esforço perm anente, não estava certo de quanto tem po m ais qualquer um dos dois aguentaria.

 

Lucivar encostou-se a um a árvore, e os sons ritm ados que vinham da clareira o confortaram um pouco. Pelo m enos, destruir a barraca abandonada com o m artelo dava a Jaenelle um a válvula de escape para a fúria sexual e a energia ardente. E, m ais im portante, era algo que a m anteria no m esm o lugar por alguns m om entos.

Fogo do Inferno, ele estava cansado. Os capitães dos cam pos de caça ey rienos não eram capazes de m anter o ritm o pesado de Jaenelle. Até Fum aça, com o passo rápido incansável, estava com dificuldades. É claro que, ao contrário de um a feiticeira im pelida pelas drogas, os lobos gostavam de atividades com o com er e dorm ir, dois elem entos que agora estavam no topo da lista de prazeres de Lucivar.

Ele invocou o saco de dorm ir, desenrolou-o e usou a Arte para m antê-lo suspenso a um a altura suficiente para que as asas não arrastassem no chão. Puxando a parte de cim a do saco até o tronco da árvore, sentou-se e gem eu, fazendo questão de esconder o ruído.

*Lucivar?*

Lucivar olhou ao seu redor até localizar Fum aça, que o espreitava atrás de um a árvore.

— Está tudo bem . A Senhora está destruindo um a barraca.

Fum aça ganiu e se escondeu atrás da árvore.

Ele ficou intrigado com a aflição do lobo, enviando, logo em seguida, um a im agem m ental da estrutura destruída.

*Ah, um covil feito por algum humano idiota*, desdenhou Fumaça.

Lucivar conteve o riso. Não podia contestar a conclusão de Fum aça. As referências do lobo de um “covil hum ano adequado” incluíam o Paço, as casas de cam po de Halaway, as outras casas de cam po da fam ília e a cabana de Jaenelle. Por isso, fazia sentido que achasse a barraca um covil construído por um hum ano inábil.

Quando a notícia do reaparecim ento dos parentes se espalhou, os Sangue hum anos se dividiram em dois grupos, os que defendiam e os que duvidavam da inteligência e capacidade na Arte dos Sangue não hum anos. Os poucos hum anos que tiveram a oportunidade de conviver com os Sangue anim ais ficaram divertidos e surpresos ao descobrirem que os parentes selvagens nutriam os m esm os preconceitos em relação a eles. Os hum anos se dividiam em dois grupos: os hum anos da Senhora e os outros hum anos. Os hum anos da Senhora eram inteligentes, bem treinados e dispostos a aprender os costum es dos outros, sem insistir que os seus eram m elhores. Os outros hum anos eram perigosos, estúpidos, cruéis e — segundo os Sangue felinos — presas. Tanto os gatos arcerianos com o os tigres parentes usavam a m esm a “palavra” para definir os hum anos, cuj a tradução literal era “carne estúpida”.

Certa ocasião, Lucivar argum entara que, com o os hum anos eram perigosos e podiam caçar com arm as ou com Arte, não deveriam ser considerados estúpidos. Fum aça salientara que os j avalis selvagens com dentes com pridos tam bém eram perigosos. Mesm o assim , não deixavam de ser estúpidos.

Tranquilo por saber que a Senhora não estava atacando nada com quatro patas, Fum aça desapareceu por alguns instantes e voltou com um coelho m orto.

*Comer.*

— Já com eu? — Com o Fum aça não respondeu, Lucivar invocou a m ochila de com ida e a grande garrafa que Draca lhe dera antes de deixar a Fortaleza com Jaenelle. Por pouco não recusara a com ida, achando que haveria bastante carne fresca, tem po de sobra para fazer um a fogueira e cozinhá-la. — Fique com o coelho — disse, vasculhando a m ochila. — Não gosto de carne crua.

Fum aça inclinou a cabeça.

*Fogo?*

Lucivar sacudiu a cabeça, recusando-se a pensar em fogueiras e sono. Retirou um sanduíche de carne da m ochila.

*Lucivar comer.* Fumaça começou a comer o coelho.

Lucivar bebeu uns goles da garrafa de uísque e com eu o sanduíche devagar, com a atenção parcialm ente concentrada no som de m adeira estalando.

A viagem não tinha corrido com o esperava. Trouxera Jaenelle ali para libertar os instintos selvagens induzidos pelas drogas em presas não hum anas. Ele a acom panhara para agir com o obj eto de sua fúria e saciar, em grande parte, seu desej o de sangue — um m acho hum ano.

Continuar: parte 2 de 3