A Herdeira das Sombras
Segunda Parte
SEG UNDA PARTE
CAPÍTULO TRÊS
1 / Kaeleer
Karla, um a Rainha glaciana de quinze anos, deu um a cotovelada nas costelas do prim o.
— Quem é aquela?
Morton olhou para onde Karla apontava com o queixo, e em seguida voltou a observar os j ovens Senhores da Guerra que se reuniam num a das extrem idades do salão de banquetes.
— É a nova am ante do Tio Hobart.
Karla estreitou os olhos azuis da cor de gelo e exam inou a j ovem feiticeira.
— Não parece m uito m ais velha do que eu.
— Não é — disse Morton em tom som brio.
Karla deu o braço ao prim o, confortando-se com a proxim idade.
A sociedade glaciana tinha com eçado a m udar depois do “acidente” que m atara seus pais e os de Morton seis anos antes. Um grupo de m achos da aristocracia form ara im ediatam ente um conselho de m achos “pelo bem do Território” — liderado por Hobart, um Senhor da Guerra de Joia Am arela que era parente distante do pai de Karla.
Todas as Rainhas das Províncias, após se recusarem a servir com o testas de ferro do conselho, tam bém se recusaram a reconhecer a Rainha de um pequeno povoado que o conselho por fim escolhera para governar o Território. A recusa tinha dividido Glácia, m as, ao m esm o tem po, evitara que o conselho de m achos se tornasse m uito poderoso ou m uito eficiente na execução dos “aj ustes” à sociedade glaciana.
Ainda assim , seis anos depois, pairava no ar um a sensação incôm oda, a im pressão de que havia algo errado.
Karla não tinha m uitos am igos. Era um a Rainha perspicaz e de língua afiada, com a Azul-Safira com o Joia de Direito por Progenitura. Era tam bém Viúva Negra natural e Curandeira. Entretanto, com o Lord Hobart era agora o chefe da fam ília, ela passava boa parte do seu tem po de convívio social com as filhas de outros m em bros do conselho de m achos — e essas garotas andavam dizendo era indecente: as feiticeiras respeitáveis devem se subm eter aos m achos m ais sensatos e m ais cultos; os m achos dos Sangue não deveriam ter de servir ou se subm eter a Rainhas, um a vez que são do sexo m ais forte; a única razão pela qual as Rainhas e Viúvas Negras querem ter o poder de controlar os m achos é porque são sexualm ente e em ocionalm ente incapazes de serem m ulheres de verdade.
Indecente. E terrível.
Quando era m ais nova, tinha se perguntado por que as Rainhas das Províncias e as Viúvas Negras tinham se contentado com um im passe em vez de lutar.
Glácia está encerrada num inverno frio e sombrio, tinham lhe dito as Viúvas Negras. Temos de fazer tudo que for possível para permanecer fortes até a chegada da primavera.
Mas conseguiriam aguentar m ais cinco anos até que ela atingisse a m aioridade? Será que ela atingiria a m aioridade? A m orte de sua m ãe e sua tia não fora um acidente. Alguém tinha elim inado a Rainha e a Viúva Negra m ais poderosas de Glácia, deixando o território vulnerável a... o quê?
Jaenelle poderia ter lhe dito, m as Jaenelle...
Karla conteve a raiva am arga que nos últim os tem pos parecia prestes a explodir. Forçando-se a desviar a atenção das m em órias, exam inou a am ante de Hobart, dando novam ente um a cotovelada nas costelas de Morton.
— Pare com isso — vociferou Morton.
Karla o ignorou.
— Por que ela está usando um casaco de couro dentro de casa?
— Foi o presente de consum ação do Tio Hobart.
Ela tocou com a ponta dos dedos no cabelo curto e arrepiado, com um tom louro quase branco.
— Nunca vi um a pele dessas. Não é de urso branco.
— Acho que é de gato arceriano.
— Gato arceriano? — Não podia ser. A m aioria dos glacianos não caçava em Arcéria, pois os felinos de lá eram grandes e ferozes, e a probabilidade de um caçador se tornar presa era im ensa. Além disso, havia algo errado com aquela pele. Podia perceber isso m esm o à distância. — Vou até lá prestar hom enagem .
— Karla. — O aviso na voz de Morton não dava m argem para dúvidas.
— Vou lá! Beij os! — Sorriu perversam ente e deu um abraço afetuoso no prim o antes de se dirigir ao grupo de m ulheres que adm irava o casaco.
Foi fácil se m isturar discretam ente. Algum as m ulheres repararam na sua presença, m as estavam m ais interessadas na m enina que tagarelava — Karla não conseguia cham á-la de Irm ã.
— ... caçadores de um lugar distante — dizia a m enina.
— Tenho um a gola feita de couro arceriano, m as não é tão luxuosa com o esta — disse, cheia de invej a, um a das m ulheres.
— Esses caçadores descobriram um j eito novo de recolher a pele. Hobie m e disse depois que... — Ela soltou um a risadinha.
— Com o?
— É segredo.
A isso seguiram -se algum a súplicas sussurradas.
Hipnotizada pela pele, Karla tocou-a no exato m om ento em que a garota voltou a dar um a risadinha, e disse:
— Esfolam o gato vivo.
Afastou a m ão na hora, sobressaltada. Vivo.
E parte da energia do ser que tinha vivido naquela pele ainda perm anecia ali. Era isso que a tornava tão luxuosa.
Um a feiticeira. Um a dos Sangue, a quem Jaenelle cham ava de parentes.
Karla vacilou. Tinham assassinado cruelm ente um a feiticeira.
Abriu cam inho, em purrando as m ulheres do grupo, e seguiu cam baleante em direção à porta. Passado um m om ento, Morton estava a seu lado, com o braço em volta da cintura da prim a.
— Lá para fora — disse ela, ofegante. — Acho que vou vom itar.
Logo que saíram , Karla engoliu em seco o ar frio do inverno e com eçou a chorar.
— Karla — m urm urou Morton, com um abraço apertado.
— Era um a feiticeira — soluçou Karla. — Era um a feiticeira e a esfolaram viva para que aquela putinha pudesse...
Sentiu um calafrio percorrer Morton, que a abraçou ainda m ais forte, com o se pudesse protegê-la. E tentaria protegê-la, por isso Karla não podia deixar transparecer com o se sentia em perigo sem pre que Tio Hobart olhava para ela. Com dezesseis anos, Morton tinha acabado de iniciar sua educação form al na corte. Era a única verdadeira fam ília que lhe restava — e o único am igo.
A raiva am arga explodiu sem aviso.
— Já se passaram dois anos! — Em purrou Morton até que ele a soltasse. — Está em Kaeleer há dois anos e não veio nos visitar um a única vez! — Com eçou a cam inhar furiosam ente.
— As pessoas m udam , Karla — disse Morton, cauteloso. — Os am igos nem sem pre perm anecem sendo am igos.
— Mas não Jaenelle. Não com igo. Aquele desgraçado filho da puta do Paço dos SaDiablo a m antém presa de algum a m aneira. Eu sinto, Morton. — Bateu no peito com tanta força que Morton estrem eceu. — Eu sinto isso aqui dentro.
— O Conselho das Trevas o nom eou tutor legal...
Karla o interrom peu, furiosa.
— Não m e venha falar de tutores, Lord Morton — silvou. — Conheço bem os “tutores”.
— Karla — disse Morton num fio de voz.
— Karla — im itou Karla com am argura. — É sem pre “Karla”. É Karla quem está fora de controle. É Karla quem está em ocionalm ente instável, devido à aprendizagem na Assem bleia da Am pulheta. É Karla quem anda em otiva dem ais, agressiva dem ais, irascível dem ais. Foi Karla quem abandonou todos aqueles encantadores m odos afetados que os m achos acham atraentes.
— Os m achos não acham que...
— E é Karla quem vai acabar com o próxim o filho da puta que tentar enfiar a m ão ou o que quer que sej a entre as suas pernas!
— O quê?
Karla deu as costas para Morton. Fogo do Inferno, Mãe Noite, que as Trevas sej am m isericordiosas. Não tivera a intenção de dizer aquilo.
— Foi por isso que você cortou o cabelo desse j eito depois que Tio Hobart insistiu para que voltasse à propriedade da fam ília? Foi por isso que queim ou todos os seus vestidos e com eçou a usar m inhas roupas velhas? — Morton agarrou seu braço, virando-a de frente para ele. — Foi por isso?
Os olhos de Karla se encheram de lágrim as.
— Um a feiticeira derrotada é um a feiticeira obediente — disse baixinho. — Não é verdade, Morton?
Morton balançou a cabeça.
— Você usa a Azul-Safira por Direito de Progenitura. Não existem m achos em Glácia que usem Joias m ais escuras do que a Verde.
— Um m acho dos Sangue pode fazer frente à força de um a feiticeira se esperar pelo m om ento certo e tiver aj uda.
Morton praguej ou baixinho, tom ado de rancor.
— E se for por isso que Jaenelle j á não vem m ais nos visitar? E se ele fez com ela o m esm o que Tio Hobart quer fazer com igo?
Morton se afastou de Karla.
— Estou surpreso que você ainda tolere a m inha presença.
Karla quase conseguia distinguir as feridas que a verdade tinha aberto no coração de Morton. Nada podia fazer em relação à verdade, m as havia algo que podia fazer em relação às feridas.
— Você é fam ília.
— Sou m acho.
— Você é o Morton. A exceção à regra.
Morton hesitou, para depois abrir os braços.
— Quer um abraço?
Jogando-se nos braços do prim o, Karla o abraçou tão forte quanto ele a abraçou.
— Ouça — disse Morton, com a voz rouca. — Escreva um a carta ao Senhor Suprem o e pergunte a ele se Jaenelle pode vir visitá-la. Peça um a resposta.
— O Velho Peidão j am ais perm itirá que eu envie um m ensageiro ao Paço dos SaDiablo — resm ungou Karla.
— Tio Hobart não vai saber. — Morton respirou fundo. — Eu m esm o entregarei a carta e aguardarei um a resposta.
Antes que Morton pudesse lhe oferecer um lenço, Karla recuou, fungou e lim pou o rosto na cam isa que tinha tirado do guarda-roupa do rapaz. Fungou um a vez m ais e deixou de lado as em oções insignificantes.
— Karla — disse Morton, observando-a nervosam ente. — Você vai escrever um a carta cordial, não é?
— Serei o m ais cordial possível — garantiu.
Morton resm ungou.
Oh, sim . Escreveria ao Senhor Suprem o. E, de um a form a ou de outra, obteria sua resposta.
Por favor, Doces Trevas. Seja novamente minha amiga. Sinto saudades de você. Preciso de você. Reunindo as forças da Azul-Safira, lançou um a palavra às Trevas.
*Jaenelle!*
— Karla? — cham ou Morton, tocando o braço da prim a. — O banquete está quase com eçando. Tem os de com parecer, nem que sej a por pouco tem po.
Karla estava im óvel, nem sequer se atrevendo a respirar.
*Jaenelle?*
Passaram -se alguns segundos.
— Karla? — cham ou Morton.
Karla inspirou fundo e expirou sua desilusão. Deu o braço a Morton e voltou para o salão de banquetes.
Morton ficou do lado de Karla durante o resto da noite, e ela ficou grata pela com panhia. Porém , teria trocado seu carinho e proteção num instante para que aquele fraco m as som brio toque psíquico que im aginara ter sentido fosse real.
2 / Kaeleer
Quando Andulvar Yaslana se instalou na cadeira em frente à m esa de m adeira escura no escritório público de Saetan, este levantou os olhos da carta para a qual estivera olhando, pasm o, durante a últim a m eia hora.
— Leia isto — disse, entregando-a a Andulvar.
Enquanto Andulvar lia a carta, Saetan contem plava, cansado, as pilhas de papéis na m esa. Tinham se passado vários m eses desde que pisara no Paço pela últim a vez, e ainda m ais tem po desde que concedera audiências às Rainhas que governavam as Províncias e os Distritos no seu Território. Seu filho m ais velho, Mephis, cuidava dos assuntos oficiais de Dhem lan da m elhor form a que conseguia, com o vinha fazendo há séculos, m as os outros...
— Cadáver chupador de sangue? — cuspiu Andulvar.
Com certo deleite, Saetan observou Andulvar rosnar ao ler o resto da carta. Não tinha achado graça nenhum a ao lê-la pela prim eira vez, m as a assinatura e a caligrafia de adolescente tinham abrandado sua fúria — e adicionado um a outra cam ada à sua tristeza.
Andulvar j ogou a carta na m esa.
— Quem é Karla e com o se atreve a lhe escrever algo assim ?
— Não só se atreve, com o aguarda um a resposta pelo m ensageiro.
Andulvar resm ungou algum a obscenidade.
— E quem ela é... — Saetan invocou a pasta de arquivo que norm alm ente m antinha trancada a chave no seu escritório particular, em baixo do Paço. Folheou as páginas repletas de suas próprias anotações e entregou um a delas a Andulvar.
Os om bros de Andulvar desm oronaram ao lê-la.
— Maldição.
— Pois é. — Saetan voltou a colocar a folha na pasta, fazendo-a desaparecer em seguida.
— O que você vai dizer?
Saetan se recostou na cadeira.
— A verdade. Ou parte dela. Consegui m anter longe o Conselho das Trevas durante dois anos, negando seus pedidos, que não deixavam de ser sensatos, para ver Jaenelle. Nunca apresentei qualquer explicação para essas recusas, deixando que pensassem o que quisessem ... e sei bem o que decidiram pensar. Mas os am igos dela? Até agora eram m uito j ovens, ou talvez não suficientem ente coraj osos, para questionar o que teria acontecido a ela. Mas eis que com eçaram a questionar. — Endireitou a cadeira e cham ou Beale, o Senhor da Guerra de Joia Verm elha que trabalhava com o m ordom o do Paço.
— Mande entrar o m ensageiro — ordenou Saetan quando Beale apareceu.
— Devo sair? — perguntou Andulvar, sem fazer m enção de ir em bora.
Saetan deu de om bros, preocupado com a form a com o responderia à carta. Não tinha havido m uito contato entre Dhem lan e Glácia nos últim os anos, m as ele ouvira o suficiente sobre Lord Hobart e suas ligações com a Pequena Terreille para decidir que a resposta seria verbal em vez de escrita.
Muitos séculos antes, a Pequena Terreille tinha sido povoada por terreillianos ansiosos para com eçar um a nova vida num a nova terra. Mesm o assim , as pessoas nunca se sentiram à vontade com as raças nascidas no Reino das Som bras. Por isso, ainda que a Pequena Terreille fosse um Território em Kaeleer, tinha procurado com panhia e orientação no Reino de Terreille — e ainda o fazia, em bora a m aior parte dos terreillianos j á não acreditasse na existência de Kaeleer, um a vez que o acesso ao Reino estava há tanto tem po lim itado. O que significava que qualquer com panhia e orientação oriundas de Terreille tinham agora origem em Dorothea, de um a form a ou de outra — e isso era m otivo suficiente para levantar suspeitas.
Saetan e Andulvar trocaram olhares rápidos quando Beale introduziu o m ensageiro no escritório.
Andulvar enviou um pensam ento por um a linha Verm elha.
*É muito novo para ser um mensageiro oficial.*
Concordando em silêncio com a avaliação de Andulvar, Saetan ergueu a m ão direita. Um a cadeira que estava j unto à parede flutuou até diante da m esa.
— Sente-se, por favor, Senhor da Guerra.
— Obrigado, Senhor Suprem o. — O j ovem tinha a pele clara, o cabelo louro e os olhos azuis característicos do povo de Glácia. Apesar de j ovem , m ovim entava-se com a típica segurança das fam ílias da aristocracia e reagia com um a confiança no Protocolo que indicava um a educação na corte.
Não é um mensageiro qualquer, pensou Saetan, enquanto observava o j ovem se controlando para perm anecer im óvel. Por que então está aqui, rapaz?
— Meu m ordom o deve estar tendo um dia difícil, um a vez que se esqueceu de apresentá-lo quando você entrou — disse Saetan com calm a. Juntou os dedos das m ãos, pousando no queixo as longas unhas, pintadas de preto.
O j ovem ficou ligeiram ente pálido ao ver o anel com a Joia Negra. Passou a língua pelos lábios.
— Meu nom e é Morton, Senhor Suprem o.
Agora já não tem tanta certeza assim de que o Protocolo vai protegê-lo, não é, rapaz? Saetan não perm itiu que sua satisfação transparecesse. Se o rapaz tinha a pretensão de abordar um Príncipe dos Senhores da Guerra de Joia Negra, era m elhor que aprendesse desde j á quais eram os possíveis perigos.
— E a quem você serve?
— Eu... eu ainda não sirvo exatam ente num a corte.
Saetan levantou um a sobrancelha.
— Presta serviço a Lord Hobart? — perguntou, soando um pouco m ais frio.
— Não. Ele é apenas o chefe da fam ília. É um a espécie de tio.
Saetan pegou a carta e entregou-a Morton.
— Leia isto.
Enviou um pensam ento a Andulvar.
*O que ele está tramando? Esse garoto não tem experiência suficiente para...*
— Nããão — gem eu Morton. A carta caiu no chão. — Ela m e prom eteu que seria cordial. Eu disse a ela que aguardaria um a resposta e ela prom eteu. — Corou, para logo em seguida em palidecer. — Vou enforcá-la.
Mediante a Arte, Saetan recuperou a carta. As dúvidas que pudesse ter sobre sua m otivação estavam esclarecidas, m as tinha curiosidade em saber por que o assunto estava sendo levantado j usto naquele m om ento.
— Qual a sua relação com Karla?
— É m inha prim a — respondeu Morton, perturbado.
— Sinto m uito — disse Andulvar, fazendo barulho com as asas negras ao se m exer na cadeira.
— Obrigado, senhor. É m elhor quando Karla gosta de nós do que quando não gosta, m as... — Morton deu de om bros.
— Sim — disse Saetan friam ente. — Tenho um a am iga que produz um efeito sem elhante em m im . — Riu entre os dentes, diante do olhar de espanto de Morton. — Garoto, m esm o quando se trata de m im um a feiticeira difícil não se torna m enos difícil.
*Especialmente uma Harpia Dea al Mon*, comentou Andulvar, divertido. *Já se recuperou da últim a tentativa dela em se m ostrar útil?*
*Se você vai ficar aí sentado, seja útil*, replicou Saetan.
Andulvar virou-se para Morton.
— E sua prim a m anteve a prom essa? — Ao ver que o rapaz o olhava com um a expressão vazia, acrescentou: — Estava sendo cordial?
As pontas das orelhas de Morton ficaram verm elhas. Ele deu de om bros, im potente.
— Tratando-se de Karla... acho que sim .
— Oh, Mãe Noite — m urm urou Saetan. De repente, um pensam ento se abateu sobre ele, fazendo-o se engasgar. Esperou o tem po necessário para recuperar o fôlego e considerar algum as possibilidades bastante desagradáveis.
Quando, por fim , recuperou o controle, escolheu as palavras com todo o cuidado.
— Lord Morton, seu tio não sabe que está aqui, não é? — O olhar nervoso de Morton bastou com o resposta. — Onde ele pensa que você está?
— Em outro lugar.
Saetan estudou Morton, fascinado pela im perceptível m udança no seu porte. Já não era um j ovem intim idado pelo am biente onde estava, nem pelos m achos que enfrentava. Era um Senhor da Guerra que protegia sua j ovem Rainha. Está enganado, garoto, pensou Saetan. Você j á escolheu aquela a quem serve.
— Karla... — Morton organizou seus pensam entos. — Não é fácil para ela. Ela usa a Azul-Safira de Direito por Progenitura e é Rainha e Viúva Negra natural, além de Curandeira, e Tio Hobart...
Saetan ficou tenso diante do ressentim ento nos olhos azuis de Morton.
— Ela e Tio Hobart não se dão m uito bem — concluiu Morton, de m odo pouco convincente, desviando o olhar. Quando voltou a encarar Saetan, parecia m uito j ovem e vulnerável. — Sei que Karla quer que ela vá visitá-la com o antes, m as Jaenelle não poderia ao m enos lhe escrever um a m ensagem curta? Só para dizer olá?
Saetan fechou os olhos dourados. Tudo tem um preço, pensou. Tudo tem um preço. Respirou fundo e abriu os olhos.
— Eu realm ente desej o, com todo o m eu ser, que ela pudesse fazê-lo. — Voltou a respirar fundo. — Ninguém m ais pode saber o que vou lhe dizer, apenas sua prim a. Preciso que m e prom eta guardar segredo.
De im ediato, Morton assentiu com a cabeça.
— Jaenelle foi seriam ente ferida há dois anos. Não pode escrever, não pode se com unicar de m odo algum . Ela... — Saetan se deteve, e apenas prosseguiu após ter certeza de que era capaz de m anter a voz firm e. — Não reconhece ninguém .
Morton pareceu prestes a desm aiar.
— Com o? — sussurrou, por fim .
Saetan procurou a resposta certa. A alteração na expressão de Morton lhe disse que não precisava ter se dado o trabalho. O rapaz com preendera o silêncio.
— Então Karla tinha razão — disse Morton, am argo. — Um m acho não precisa ser assim tão forte se souber escolher o m om ento certo.
Saetan se endireitou de repente na cadeira.
— Karla está sendo pressionada a se entregar a um m acho? Com quinze anos?
— Não. Não sei. Talvez. — As m ãos de Morton apertaram os braços da cadeira. — Ela estava segura quando m orava com as Viúvas Negras, m as agora que voltou à propriedade da fam ília...
— Fogo do Inferno, rapaz! — gritou Saetan. — Mesm o que não se entendam , por que seu tio não a protege?
Morton m ordeu o lábio, sem dizer nada.
Estupefato, Saetan afundou outra vez na cadeira. De novo, não. Não aqui. Não em Kaeleer. Será que aqueles tolos não com preendiam o que era perdido quando se destruía um a Rainha daquela form a?
— Agora você precisa ir — disse Saetan, com delicadeza.
Morton assentiu com a cabeça e levantou-se para sair.
— Transm ita outra m ensagem a Karla. Caso sej a necessário, concederei refúgio a ela no Paço e lhe darei m inha proteção. E a você tam bém .
— Obrigado — disse Morton. E saiu, depois de fazer um a reverência a Saetan e a Andulvar.
Saetan pegou a bengala de ponta prateada e cam inhou com dificuldade até a porta.
Andulvar se antecipou, m antendo-a fechada com a m ão.
— O Conselho das Trevas clam ará por sangue se você conceder proteção a outra garota.
Saetan nada disse durante m uito tem po. Depois, sorriu para Andulvar de um a form a puram ente m aléfica.
— Se o Conselho das Trevas for tão m al orientado a ponto de acreditar que Hobart é m elhor tutor do que eu, então eles m erecem ver alguns dos m arcos m ais inusitados do Inferno, não acha?
3 / O Reino Distorcido
Não sentia qualquer dor física, m as a agonia era inexorável.
As palavras mentem. O sangue, não.
Você é meu instrumento.
Carniceiro filho da puta.
Vagou por um a paisagem enevoada repleta de m em órias despedaçadas, cálices de cristal despedaçados, sonhos despedaçados.
Por vezes, ouvia um grito de desespero.
Por vezes, via de relance um a m enina com longos cabelos louros que fugia dele. Seguia-a sem pre, desesperado para alcançá-la, aflito para explicar...
Não conseguia se lem brar do que precisava explicar.
Não tenha m edo, gritava para ela. Por favor, não tenha m edo.
Contudo, ela continuava a correr e ele continuava a segui-la por um a paisagem repleta de cam inhos tortuosos que davam em lugar nenhum e cavernas cheias de ossos e m anchas de sangue.
Para baixo, sem pre para baixo.
Seguia-a, suplicando o tem po todo para que esperasse por ele, im plorando o tem po todo para que não tivesse m edo, sem pre na esperança de ouvir o som da sua voz, ansiando incessantem ente por ouvi-la pronunciar seu nom e.
Se ao m enos conseguisse se lem brar.
4 / Inferno
Hekatah aj eitou cuidadosam ente as pregas do m anto com prido enquanto aguardava que os guardas trouxessem o cildru dyathe à sua presença. Suspirou, satisfeita, ao afagar o forro de couro do m anto. Pele arceriana. A pele de um Senhor da Guerra. Podia sentir a raiva e o sofrim ento encurralados naquele couro.
Os parentes. Os Sangue quadrúpedes. Com parados aos hum anos, possuíam m entes sim ples, incapazes de conceber a grandiosidade ou a am bição. Contudo, eram protetores ferozes quando dedicavam sua lealdade a alguém — e igualm ente ferozes se essa lealdade fosse traída.
Ela com etera alguns pequenos erros da últim a vez que tentara se tornar Sacerdotisa Suprem a de todos os Reinos, erros que lhe custaram a guerra entre Terreille e Kaeleer 50 m il anos antes. Um deles fora subestim ar a força dos Sangue que viviam no Reino das Som bras. O outro fora subestim ar os parentes.
Um a de suas prim eiras providências depois de se recuperar do choque de ser dem ônia-m orta foi exterm inar os parentes em Terreille. Alguns fugiram e conseguiram sobreviver, m as não em núm ero suficiente. Tiveram de procriar com anim ais plebeus e, ao longo do tem po, o cruzam ento das diferentes raças provavelm ente produziu criaturas próxim as dos Sangue, m as sem força suficiente para usar um a Joia.
No entanto, os parentes selvagens em Kaeleer se retiraram para seus próprios Territórios logo após a guerra e teceram inúm eros feitiços para proteger suas fronteiras. Quando essas fortes defesas se enfraqueceram a ponto de alguém conseguir sobreviver ao ultrapassá-las, os parentes se tornaram pouco m ais do que m itos.
Hekatah com eçou a andar de um lado para outro. Fogo do Inferno! Quanto tem po seria necessário para dois hom ens adultos pegarem um rapaz?
Depois de um m inuto, parou e voltou a aj eitar as pregas do m anto. Não poderia perm itir que o rapaz percebesse qualquer indício da im paciência que sentia. Isso poderia torná-lo perversam ente obstinado. Tocou no forro de couro do m anto, deixando que o toque a acalm asse.
Ao longo dos séculos em que aguardara até que Terreille voltasse a ser um prêm io valioso, tinha aj udado o Território da Pequena Terreille a m anter contato com o Reino de Terreille. Mas apenas nos últim os anos estabelecera um a posição segura em Glácia, aproveitando-se da am bição de Lord Hobart.
Escolhera Glácia por tratar-se de um Território do Norte cuj o povo poderia ser m ais facilm ente isolado dos Sangue de outros Territórios; ali vivia Hobart, um m acho de am bições superiores às suas capacidades; e havia ali tam bém um Altar das Trevas. Assim , pela prim eira vez em m uito tem po, Hekatah possuía um Portão ao seu dispor e um a form a de infiltrar em Kaeleer m achos criteriosam ente escolhidos, dedicados à tarefa de caçar presas estim ulantes.
Esse não era seu único j oguinho em Kaeleer, porém os outros exigiam tem po e paciência — e a garantia de que, desta vez, nada interferiria em suas am bições.
E era por isso que ela estava aqui, na ilha das cildru dyathe.
Estava prestes a questionar a lealdade dos guardas dem ônios quando por fim eles voltaram , arrastando um rapaz que se debatia. Rogando pragas enfurecidas, encurralaram -no contra um paredão alto e liso.
— Não o m achuquem — advertiu Hekatah.
— Sim , Sacerdotisa — respondeu um dos guardas, taciturno.
Hekatah exam inou o rapaz, que lhe devolveu o olhar fixo. Char, o j ovem Senhor da Guerra líder das cildru dyathe. Não era difícil perceber com o tinha adquirido essa designação. De que form a teria conseguido salvar do fogo tanto do seu corpo? Provavelm ente tinha grande talento na Arte para alguém tão j ovem . Hekatah deveria ter percebido isso sete anos antes, ao se envolver com ele pela prim eira vez. Bem , agora poderia corrigir facilm ente esse equívoco.
Hekatah se aproxim ou devagar, apreciando a cautela nos olhos do rapaz.
— Não pretendo lhe fazer m al, Senhor da Guerra — cantarolou. — Apenas preciso da sua aj uda. Sei que Jaenelle cam inha entre as cildru dyathe. Quero vê-la.
O que restava dos lábios de Char form ou um sorriso m aldoso.
— Nem todas as cildru dyathe estão nesta ilha.
Os olhos dourados de Hekatah brilharam de fúria.
— Você está m entindo. Invoque-a. Agora!
— O Senhor Suprem o está a cam inho. — disse Char. — Chegará a qualquer m om ento.
— Por quê? — perguntou Hekatah.
— Porque eu o m andei cham ar.
— Por quê?
Os olhos de Char se ilum inaram com um a luz estranha.
— Ontem eu vi um a borboleta.
Hekatah queria gritar de frustração. Em vez disso, ergueu a m ão, os dedos curvados com o um a garra.
— Se tem apreço pelos seus olhos, Senhorzinho da Guerra, invoque Jaenelle agora.
Char a encarou.
— Quer realm ente vê-la?
— SIM!
Char inclinou a cabeça para trás e em itiu um uivo estranho e selvagem .
Enervada pelo som , Hekatah esbofeteou-o para que parasse.
— HEKATAH!
Hekatah fugiu da fúria na voz retum bante de Saetan. Ao olhar de relance para trás por sobre o om bro, deteve-se, com um choque de excitação que fez seus nervos ficarem à flor da pele.
Saetan apoiava-se num a bengala de ponta prateada com os olhos dourados brilhando de raiva. O espesso cabelo negro estava m ais grisalho e seu rosto tenso de exaustão. Parecia... gasto.
E usava apenas a Joia Verm elha de Direito por Progenitura.
Ela nem sequer se deu o trabalho de se lançar num a rápida queda para reunir toda a sua força. Sim plesm ente levantou a m ão e libertou o poder no anel com a Joia Verm elha em direção à perna debilitada de Saetan.
O grito de dor que ele soltou ao cair era o som m ais agradável que ela ouvira nos últim os anos.
— Agarrem -no! — gritou aos dem ônios.
Um vento frio e suave suspirou pela ilha.
Os guardas hesitaram por um m om ento, m as, quando Saetan tentou se erguer sem sucesso, desem bainharam as facas e correram na sua direção.
O chão estrem eceu de leve. Um a névoa rodopiou em volta das rochas, pelas terras áridas.
Hekatah tam bém correu para Saetan, desej ando ver as facas entrando bem fundo na sua carne, ansiando por ver correr o seu sangue. O sangue de um Guardião! A excelência, o vigor nele contido! Prim eiro se deliciaria com ele, para depois se ocupar daquele dem oniozinho arrogante.
Do abism o em ergiu um uivo, um som repleto de j úbilo e de dor, de raiva e de celebração.
Foi então que a ilha das cildru dyathe foi inundada por um a onda de poder negro. Relâm pagos psíquicos queim aram o céu crepuscular do Inferno. Trovões fizeram a terra estrem ecer. Os uivos continuaram sem trégua.
Hekatah caiu no chão, encolhendo-se o m áxim o que pôde.
Seus dem ônios gritaram num a agonia desesperadora.
Vá embora, im plorou Hekatah em silêncio. O que quer que seja, vá embora.
Algum a coisa gelada e terrível roçou seus lim ites interiores, e Hekatah esvaziou a m ente.
Quando desvaneceu, tam bém a tem pestade de feiticeira havia desvanecido.
Hekatah sentou-se com esforço. Sua garganta se agitava convulsivam ente quando ela viu o que tinha restado dos dem ônios.
Não havia vestígios de Saetan nem de Char.
Hekatah levantou-se devagar. Teria sido Jaenelle — ou o que restava de Jaenelle? Talvez ela não fosse cildru dyathe. Talvez tivesse se dissipado de dem ônio em fantasm a e tudo o que restava era aquele poder incorpóreo.
Ainda bem que ela estava m orta, pensava Hekatah enquanto pegava um Vento Branco e viaj ava de volta para o edifício de pedra que reclam ava com o seu. Ainda bem que o que quer que restasse de Jaenelle tinha sua presença lim itada ao Reino das Som bras. Tentar controlar aquele poder selvagem ... Ainda bem que a garota estava m orta.
A dor o envolvia e preenchia. Sua cabeça parecia não funcionar. Ele tateou e cam inhou, desesperado para alcançar as vozes abafadas que ouvia à sua volta: a voz profunda e irritada de Andulvar, a aflição de Char.
Fogo do Inferno! Por que estavam sentados ali? Pela prim eira vez em dois anos, Jaenelle tinha respondido ao cham ado de alguém . Por que eles não estavam tentando m antê-la ao alcance?
Porque Jaenelle deslizava pelo abism o num a profundidade grande dem ais para que alguém , a não ser ele próprio, sentisse a sua presença. Porém , não podia sim plesm ente descer ao nível da Negra e invocá-la. Precisava estar fisicam ente com ela, para persuadi-la a se m anter no corpo.
— Por que a tem pestade da feiticeira o atingiu tão gravem ente? — perguntou Char, cheio de m edo.
— Porque ele é um idiota — resm ungou Andulvar.
Saetan redobrou os esforços para atravessar as cam adas que o envolviam a fim de rosnar para Andulvar. Talvez estivesse canalizando m uita energia Negra, sem dar chance ao corpo para se recuperar. Talvez tivesse sido insensato ao não aceitar sangue fresco para m anter as forças. Contudo, isso não dava a um guerreiro ey rieno o direito de agir com o um Curandeiro teim oso e resm ungão.
Jaenelle o teria pressionado até ele ceder.
Jaenelle. Tão próxim a. Talvez ele não tivesse outra oportunidade.
Saetan debateu-se com m ais força. Me ajude. Preciso alcançá-la. Me ajude.
— Senhor Suprem o!
— Fogo do Inferno, SaDiablo!
Saetan agarrou o braço de Andulvar, tentando se sentar.
— Me aj ude. Antes que sej a tarde dem ais.
— Você precisa descansar — disse Andulvar.
— Não há tem po! — Saetan tentou gritar, m as só conseguiu em itir um grasnido de fúria. — Jaenelle ainda está perto o bastante para ser alcançada.
— O quê?
Quando se deu conta, estava sentado com Andulvar, que o apoiava, e Char, de j oelhos à sua frente. Concentrou-se no rapaz.
— Com o você a invocou?
— Não sei — lam entou Char. — Não sei. Eu estava apenas tentando m anter Hekatah ocupada até você chegar. Ela insistia em ver Jaenelle, por isso pensei... Eu e Jaenelle costum ávam os brincar de pique-esconde e aquele era o som que costum ávam os fazer. Eu não sabia que ela responderia, Senhor Suprem o. Cham ei-a várias vezes daquela form a desde que ela foi em bora e ela nunca respondeu.
— Até agora — disse Saetan baixinho. Por que agora? Reparou, finalm ente, que estava num quarto que lhe era fam iliar. — Estam os na Fortaleza em Kaeleer?
— Draca insistiu em trazer você para cá — disse Andulvar.
A Senescal da Fortaleza tinha lhe cedido um quarto perto dos aposentos da Rainha. O que significava que estava a poucos m etros do corpo de Jaenelle. Pura coincidência? Ou Draca tam bém sentira a presença de Jaenelle?
— Me aj ude — sussurrou Saetan.
Andulvar praticam ente carregou Saetan pelos poucos m etros de corredor até a porta onde Draca aguardava.
— Quando você voltar, vai beber um copo de sangue fresco — disse Draca.
Se voltar, pensou Saetan som briam ente, enquanto Andulvar o aj udava a chegar à cam a onde repousava o corpo frágil de Jaenelle. Poderia não haver outra oportunidade. Iria trazê-la de volta, ou do contrário seria aniquilado.
Assim que ficou sozinho com ela, segurou sua cabeça entre as m ãos, extraiu até a últim a gota de poder que restava nas Joias e fez um a rápida descida ao abism o, até alcançar o nível da Negra.
*Jaenelle!*
Jaenelle continuava planando lentam ente em espiral, descendo cada vez m ais, em direção ao abism o. Não sabia se ela o estava ignorando ou se não conseguia ouvi-lo.
*Jaenelle! Criança-feiticeira!*
Suas forças estavam se esgotando rapidam ente. O abism o im pelia sua m ente, logo transform ando a pressão em dor.
*Você está segura, criança-feiticeira! Volte! Você está segura!*
Jaenelle escapava para cada vez m ais longe do seu alcance. No entanto, m inúsculos redem oinhos de poder ondulavam até Saetan, que conseguia saborear a raiva neles contida.
Pique-esconde. Um a brincadeira de crianças. Durante dois anos, ele tinha enviado um a m ensagem de am or e de segurança para as profundezas do abism o. Durante esse m esm o período, Char tinha enviado convites para um a brincadeira.
Silêncio.
Em pouco tem po, Saetan teria de ascender ou seria destruído.
Quietude.
Pique-esconde. Ele não tinha entrado naquele j ogo?
Aguardou, cada segundo um a luta.
*Criança-feiticeira.*
Ela se chocou contra ele, sem aviso prévio. Preso pela fúria em espiral, ele não conseguia perceber se estavam subindo ou descendo.
Ouviu vidro se estilhaçando no m undo físico, ouviu alguém gritar. Sentiu algo no peito, logo abaixo do coração, com força suficiente para lhe cortar a respiração.
Sem saber o que m ais poderia fazer, abriu com pletam ente suas barreiras interiores, num gesto de entrega total. Esperava que Jaenelle entrasse de rom pante, dilacerando-o. Em vez disso, sentiu um a curiosidade sobressaltada e um toque leve com o um a plum a.
Foi então que Jaenelle o arrem essou para fora do abism o.
O súbito regresso ao m undo físico o deixou aturdido, com os sentidos confusos. Devia ser por causa disso que pensou ter visto um pequeno chifre espiralado no m eio da testa de Jaenelle. Devia ser por causa disso que suas orelhas pareciam levem ente pontudas, a j uba loura, um a m istura de pelo e cabelo hum ano. Devia ser por causa disso que seu coração parecia bater freneticam ente na m ão de alguém .
Fechou os olhos, tentando dom inar a tontura. Ao abri-los, depois de um m om ento, todas as alterações no aspecto de Jaenelle tinham desaparecido, m as no seu peito perm anecia aquela estranha sensação.
Ofegante, olhou para baixo, sentindo dedos fechando-se em volta do seu coração.
A m ão de Jaenelle estava cravada no seu peito. Quando ela a retirasse, arrancaria seu coração. Não im portava. Já lhe pertencia m uito antes de conhecê-la. E isso o enchia de um a sensação singular de orgulho, quando se recordava da frustração e da alegria que tinha sentido ao tentar lhe ensinar a atravessar um obj eto sólido.
Os dedos pressionaram com m ais força.
Os olhos de Jaenelle se abriram . Eram insondáveis lagos azul-safira que nada reconheciam , que nada continham a não ser um a raiva profunda e desum ana.
Pestanej ou. Os olhos se turvaram , ocultando tantas coisas. Voltou a pestanej ar e olhou para Saetan.
— Saetan? — disse, com a voz entorpecida.
Os olhos de Saetan se encheram de lágrim as.
— Criança-feiticeira — sussurrou, rouco.
Suspirou quando Jaenelle m oveu a m ão ligeiram ente.
Ela olhou estupefata para o peito de Saetan e franziu a sobrancelha.
— Ah. — Abriu os dedos devagar e retirou a m ão.
Saetan esperava ver sangue na m ão de Jaenelle, m as ela estava lim pa. Um a rápida verificação interna levou-o a concluir que se sentiria dolorido durante alguns dias, m as Jaenelle não tinha provocado danos. Inclinou-se para a frente, apoiando a testa na dela.
— Criança-feiticeira — sussurrou.
— Saetan? Está chorando?
— Sim . Não. Não sei.
— Você devia descansar. Parece doente.
Ele se sentiu exausto ao m over o corpo, posicionando-o j unto ao dela. Quando Jaenelle se virou e se aninhou j unto a ele, abraçou-a e ficou quieto.
— Tentei chegar a você, criança-feiticeira — m urm urou, com o rosto encostado na cabeça de Jaenelle.
— Eu sei — disse ela, sonolenta. — Às vezes conseguia ouvir você, m as precisava encontrar todos os pedaços para poder reconstruir o cálice de cristal.
— Conseguiu? — perguntou Saetan, m al se atrevendo a respirar.
Jaenelle assentiu.
— Alguns pedaços estão turvos e ainda não encaixam bem . — Fez um a pausa. — Saetan? O que aconteceu?
Ele foi invadido pelo pavor, incapaz de reunir a coragem para responder de form a honesta àquela pergunta. O que Jaenelle faria se lhe dissesse o que acontecera? Se rom pesse a ligação com o corpo e fugisse novam ente para o abism o, Saetan não tinha certeza se conseguiria convencê-la a voltar.
— Você estava ferida, m inha querida. — Abraçou-a com m ais força. — Mas vai ficar bem . Vou aj udá-la. Nada pode feri-la, criança-feiticeira. Você tem que se lem brar disso. Aqui está em segurança.
Jaenelle franziu a sobrancelha.
— Aqui onde?
— Estam os na Fortaleza. Em Kaeleer.
— Ah. — Suas pálpebras estrem eceram e fecharam -se.
Saetan apertou seu om bro. Depois a balançou.
— Jaenelle? Jaenelle, não! Não m e abandone. Por favor, não vá em bora.
Com esforço, Jaenelle abriu os olhos.
— Ir em bora? Ah, Saetan, estou tão cansada. Tenho m esm o que ir em bora?
Saetan esforçou-se para se controlar. Precisava m anter a calm a para que ela se sentisse segura.
— Pode ficar aqui o tem po que quiser.
— Você tam bém vai ficar?
— Nunca a deixarei, criança-feiticeira. Prom eto.
Jaenelle suspirou.
— Você devia dorm ir um pouco — m urm urou.
Saetan ficou ouvindo a respiração profunda e regular de Jaenelle durante m uito tem po. Queria abrir a m ente e alcançá-la, m as isso não era necessário. Podia sentir a diferença no corpo que ainda abraçava.
Em vez disso, dirigiu-se a Andulvar.
*Ela voltou.*
Um longo silêncio.
*Verdade?*
*Verdade.* E ele precisaria de sua força nos próximos dias. *Avise aos outros. E diga a Draca que aceito agora a taça de sangue fresco.*
5 / Kaeleer
Levado pelo instinto e por um a inquietação enervante, Saetan entrou sem bater no quarto de Jaenelle na Fortaleza.
Ela estava de pé, diante de um grande espelho, olhando fixam ente para o corpo nu ali refletido.
Saetan fechou a porta e foi m ancando até Jaenelle. Durante o tem po em que estivera separada do corpo, um a ligação forte o suficiente havia perm anecido, perm itindo que ela fosse alim entada e levada em calm os passeios que evitavam que seus m úsculos atrofiassem . Um a ligação forte o suficiente que perm itiu que seu corpo respondesse lentam ente aos seus próprios ciclos.
De m odo geral, as fêm eas dos Sangue atingiam a puberdade m ais tarde do que as plebeias, e os corpos das feiticeiras precisavam de um tem po ainda m aior de preparação para as alterações físicas que separam um a m enina de um a m ulher. Inibido pela ausência, o corpo de Jaenelle só tinha com eçado a se alterar após seu aniversário de catorze anos. Em bora ainda estivesse na fase inicial de transform ação, j á não parecia o corpo de um a m enina de doze anos.
Saetan se deteve a alguns centím etros de Jaenelle. Os olhos azul-safira encontraram os dele no espelho, e Saetan teve de se esforçar para m anter um a expressão indiferente.
Aqueles olhos. Lím pidos e selvagens e perigosos antes de vestir a m áscara de hum anidade. E era um a m áscara. Não era com o a dissim ulação a que se dedicava quando criança para m anter em segredo o fato de ser um a feiticeira. Era um esforço deliberado para ser, sim plesm ente, humana. E isso o assustava.
— Eu devia ter lhe contado — disse Saetan, baixinho. — Devia tê-la preparado. Mas você dorm iu durante a m aior parte dos últim os quatro dias, e eu... — As palavras se perderam .
— Quanto tem po? — perguntou, com um a voz profunda e som bria.
Saetan teve de pigarrear antes de conseguir responder.
— Dois anos. Na verdade, um pouco m ais. Você vai com pletar quinze anos daqui a algum as sem anas.
Jaenelle nada disse e Saetan não soube com o preencher o silêncio.
Foi então que ela se virou, encarando-o.
— Quer fazer sexo com este corpo?
Sangue. Tanto sangue.
O estôm ago de Saetan se em brulhou. A m áscara de Jaenelle caiu. E, por m ais que se esforçasse, não conseguia distingui-la naqueles olhos safira.
Precisava responder. Precisava responder corretamente.
Inspirou fundo e expirou devagar.
— Agora sou seu tutor legal. Seu pai adotivo, se preferir assim . E os pais não fazem sexo com suas filhas.
— Ah não? — perguntou, num m urm úrio som brio.
O chão desapareceu sob os pés de Saetan. O quarto com eçou a girar. Teria caído se Jaenelle não o tivesse segurado pela cintura.
— Não use a Arte — resm ungou entre dentes.
Tarde dem ais. Jaenelle j á o estava conduzindo, flutuando, para o sofá. Deixando-o cair ali, sentou-se a seu lado e afastou o cabelo do pescoço.
— Você precisa de sangue fresco.
— Não, não preciso. Estou só um pouco tonto. — Além disso, vinha bebendo um a taça de sangue hum ano fresco duas vezes por dia nos últim os quatro dias, quase a quantidade que consum ia em um ano.
— Você precisa de sangue fresco. — Na sua voz, percebia-se um a veem ência inegável.
O que precisava era encontrar o sacana que a havia estuprado e despedaçá-lo centím etro por centím etro.
— Não preciso do seu sangue, criança-feiticeira.
Os olhos de Jaenelle faiscaram de raiva. Ela cerrou os dentes.
— Não há nada de errado com o m eu sangue, Senhor Suprem o — silvou. — Não está im puro.
— É claro que não está im puro — retrucou Saetan.
— Então por que não aceita a oferta? Nunca o recusou antes.
Nos olhos azul-safira agora havia nuvens e som bras. Parecia que, para ela, o preço da hum anidade eram a vulnerabilidade e a insegurança.
Pegando a m ão de Jaenelle, beij ou os nós dos seus dedos e se perguntou se poderia sugerir delicadam ente que vestisse um roupão, sem ofendê-la. Uma coisa de cada vez, SaDiablo.
— São três as razões pelas quais não quero o seu sangue neste m om ento. Em prim eiro lugar, enquanto você não se fortalecer, precisa de cada gota para você m esm a. Em segundo lugar, seu corpo está m udando, de criança para m ulher, e o vigor do sangue tam bém m uda. Por isso, é m elhor testá-lo antes para que eu não beba relâm pagos líquidos.
Isso a fez soltar um a risadinha.
— E, em terceiro lugar, Draca tam bém decidiu que preciso de sangue fresco.
Jaenelle arregalou os olhos.
— Oh. Coitadinho do m eu papai. — Mordeu o lábio. — Posso cham á-lo assim ? — perguntou com voz fraca.
Ele a abraçou e apertou-a j unto ao corpo.
— Ficarei honrado em ser cham ado de “papai”. — Deu um beij o na testa de Jaenelle. — O quarto está um pouco frio, criança-feiticeira. Não acha m elhor vestir um roupão? E calçar um par de chinelos?
— Já está parecendo um pai — resm ungou ela.
Saetan sorriu.
— Esperei m uito tem po para m e dedicar a um a filha. Pretendo aproveitar o m áxim o.
— Ah, que sorte a m inha — resm ungou Jaenelle.
Saetan riu.
— Não. Que sorte a minha.
6 / Kaeleer
Saetan olhou fixam ente para o tônico na pequena taça de vidro escuro e suspirou. Estava levando a taça à boca quando alguém bateu à porta.
— Entre — disse, ansioso.
Andulvar entrou, seguido pelo neto, Prothvar, e por Mephis, o filho m ais velho de Saetan. Prothvar e Mephis, assim com o Andulvar, tinham se tornado dem ônios-m ortos no decorrer da rem ota guerra entre Terreille e Kaeleer. Geoffrey, o historiador e bibliotecário da Fortaleza, entrou por últim o.
— Prove isto — disse Saetan, estendendo a taça a Andulvar.
— Por quê? — perguntou Andulvar, exam inando-a. — O que tem aí?
Maldita prudência ey riena.
— É um tônico que Jaenelle preparou para m im . Ela diz que ainda pareço doente.
— E parece m esm o — rosnou Andulvar. — Por isso, beba.
Saetan rangeu os dentes.
— Não cheira m al — disse Prothvar, j untando ainda m ais as asas quando Saetan o fulm inou com o olhar.
— O gosto tam bém não é ruim — afirm ou Saetan, tentando ser j usto.
— Então qual é o problem a? — perguntou Geoffrey, cruzando os braços. Franziu as sobrancelhas negras ao olhar para a taça, acentuando o bico de viúva do cabelo. — Tem e que ela não tenha form ação suficiente para preparar esse tipo de tônico? Acha que ela pode ter com etido algum erro?
Saetan ergueu um a sobrancelha.
— Estam os falando de Jaenelle.
— Ah — disse Geoffrey, observando a taça com certa agitação. — Sim .
Saetan estendeu-a na direção do bibliotecário.
— Diga-m e o que acha.
Andulvar pôs as m ãos nos quadris.
— Por que está tão ansioso para dividi-lo? Se não tem nenhum problem a, por que não o bebe você mesmo?
— Eu bebo. Tenho bebido. Todos os dias nas últim as duas sem anas — queixou-se Saetan. — Mas é tão... potente. — A últim a palavra era praticam ente um a súplica.
Geoffrey pegou a taça, bebeu um pequeno gole, envolveu o líquido com a língua e engoliu. Ao passar a taça para Andulvar, com eçou a respirar com dificuldade e pôs as m ãos sobre o estôm ago.
— Geoffrey ? — Alarm ado, Saetan segurou Geoffrey pelo braço enquanto o velho Guardião balançava.
— É assim que devem os nos sentir? — sussurrou Geoffrey.
— Assim com o? — perguntou Saetan, cautelosam ente.
— Com o se o estôm ago tivesse sido atingido por um a avalanche.
Saetan suspirou de alívio.
— Isso não dura m uito tem po, e o tônico tem , de fato, poderes curativos espantosos, m as...
— A sensação inicial é um pouco perturbadora.
— Justam ente — confirm ou Saetan, com frieza.
Andulvar observou os dois Guardiões e encolheu os om bros. Tom ou um trago e passou a taça para Prothvar, que, por sua vez, tom ou um trago, passando-a a Mephis.
Quando a taça voltou para Saetan, ainda tinha dois terços do líquido. Ele suspirou, bebeu um gole e pousou a taça num a m esa antiga vazia.
Draca bem que podia encher a m esa de bugigangas inúteis com o fazem todas as pessoas, pensou, sarcástico. Assim ao m enos poderia esconder o m aldito tônico, j á que Jaenelle colocara um habilidoso feitiço na taça, im pedindo que a fizessem desaparecer.
— Fogo do Inferno — disse, por fim , Andulvar.
— O que ela colocou nisto? — perguntou Mephis, passando a m ão na barriga.
Prothvar fitou Geoffrey.
— Olha, parece até que você ganhou um a corzinha.
Geoffrey fulm inou o Senhor da Guerra ey rieno com o olhar.
— Por que queriam m e ver? — inquiriu Saetan.
Eles ficaram estáticos. Em seguida, com eçaram a falar todos ao m esm o tem po.
— Sabe, SaDiablo, a fedelha...
— ... é um período difícil para um a j ovem , isso eu com preendo...
— ... não quer nos ver...
— ... ficou tão tím ida, de repente...
Saetan levantou a m ão indicando que cessassem as explicações.
Tudo tem um preço. Ao olhar para eles, percebeu que precisava lhes dizer o que tinha sido obrigado a ver durante as últim as duas sem anas. Tudo tem um preço. Porém, doces Trevas, já não pagamos o suficiente?
— Jaenelle não está curada. — Ao ver que não obtinha qualquer reação, perguntou-se se teria, de fato, verbalizado a frase.
— Explique m elhor, SaDiablo — retum bou Andulvar. — O corpo está vivo e, agora que regressou, vai se fortalecer.
— Sim — respondeu Saetan, baixinho. — Seu corpo está vivo.
— E com o, obviam ente, ela consegue praticar m ais do que Arte básica, sua teia interior deve estar intacta — disse Geoffrey.
— A teia interior está intacta — concordou Saetan. Fogo do Inferno. Por que estava prolongando isso? Porque assim que o verbalizasse, se tornaria real.
Observou o reconhecim ento — e a raiva — crescendo nos olhos de Andulvar.
— O canalha que a violou conseguiu estilhaçar o cálice de cristal, não foi? — perguntou Andulvar, devagar. — Estilhaçou a sua m ente e a im peliu para o Reino Distorcido. — Fez um a pausa enquanto exam inava Saetan. — Ou ela foi im pelida para outro lugar?
— Quem sabe o que j az nas profundezas do abism o? — disse Saetan, am argo. — Eu não sei. Ela estaria perdida na loucura ou sim plesm ente cam inhando por cam inhos que j am ais conseguirem os com preender? Não sei. Sei que ela está diferente, e há dias em que é difícil encontrar qualquer vestígio da criança que conhecem os. Ela disse que reconstruiu o cálice, e, até onde consigo perceber, foi o que de fato aconteceu. Porém , não se recorda do que ocorreu no Altar de Cassandra. Não se recorda de nada do que ocorreu nos m eses anteriores àquela noite. E está escondendo algum a coisa. E é em parte por causa disso que está se afastando de nós. Som bras e segredos. Tem m edo de confiar em nós por causa daquelas m alditas som bras e segredos.
Mephis finalm ente quebrou o longo silêncio.
— Talvez — disse devagar —, se for persuadida a nos encontrar em um a das salas públicas, só por alguns m inutos de cada vez, isso a aj udaria a voltar a confiar em nós. Sobretudo se não a pressionarm os nem fizerm os perguntas com plicadas. — Em seguida acrescentou, triste: — Estar fechada em si m esm a, vivendo no próprio corpo, seria m uito diferente de estar perdida no abism o?
— Não — disse Saetan, baixinho. — Não é. — Era arriscado. Mãe Noite, com o era arriscado! — Vou falar com ela.
Andulvar, Prothvar, Mephis e Geoffrey saíram depois de concordar em se encontrar com Saetan em um a das saletas m enores. Saetan aguardou vários m inutos antes de cam inhar os poucos m etros que separavam seu quarto dos aposentos da Rainha. Assim que Jaenelle constituísse sua corte, nenhum m acho, à exceção do Consorte, do Adm inistrador e do Mestre da Guarda, teria autorização para entrar naquela ala, a m enos que convocado. Nem m esm o o seu tutor legal.
Saetan bateu suavem ente à porta do quarto de Jaenelle. Com o não obteve resposta, olhou para dentro do aposento. Vazio. Verificou a sala de estar ao lado. Tam bém estava vazia.
Passando os dedos pelo cabelo, perguntou-se aonde teria ido sua criança teim osa. Sentia que estava por perto. Mas sabia que Jaenelle deixava um odor psíquico tão forte que, às vezes, era difícil localizá-la. Talvez tivesse sido sem pre assim , m as não tinham passado j untos m ais do que um a ou duas horas seguidas de cada vez. Agora, sua presença inundava a gigantesca Fortaleza, e o delicioso e som brio odor psíquico que exalava era ao m esm o tem po um deleite e um torm ento. Senti-la, ansiar do fundo do coração por abraçá-la e servi-la e ser im pedido de fazer parte da sua vida...
Não poderia haver tortura m aior.
E não era só por causa de Andulvar, Mephis, Prothvar e Geoffrey que estava disposto a arriscar a estabilidade em ocional de Jaenelle ao lhe pedir um a aproxim ação. Havia m ais alguém em quem não parava de pensar nos últim os tem pos. Se Jaenelle não se conseguisse curar as feridas em ocionais, se j am ais voltasse a suportar o toque de um hom em ...
Ele não era a chave capaz de destrancar aquela últim a porta. Poderia fazer m uito, m as não isso. Não era a chave.
A chave era Daem on Sadi.
Daemon... Daemon, onde está você? Por que não veio?
Saetan estava prestes a sair, para procurar Draca — Draca sem pre sabia onde todos estavam na Fortaleza —, quando um som o fez virar em direção a um a porta entreaberta no fim do corredor.
Ao cam inhar em direção à porta, reparou com o sua perna tinha m elhorado desde que Jaenelle com eçara a lhe adm inistrar o tônico. Se seu estôm ago fosse forte o suficiente para aguentar m ais duas sem anas, poderia deixar de usar a bengala — e, com sorte, o tônico tam bém .
Estava quase chegando à porta quando alguém lá dentro soltou um grito rouco sobressaltado. Ouviu-se um ruído forte e, logo em seguida, um a nuvem alfazem a, cinza e cor-de-rosa saiu do quarto, seguida de um a voz fem inina resm ungando:
— Droga, droga, droga!
Bem devagar, a nuvem com eçou a baixar.
Saetan estendeu a m ão e olhou espantado para as pequenas partículas alfazem a, cinza e cor-de-rosa que cobriam sua pele e o punho da cam isa. Sentiu um frio no estôm ago, um a vontade irracional de rir e fugir.
Reprim iu a risada, forçou-se a continuar firm e e espreitou cautelosam ente pela porta.
Jaenelle estava diante de um a grande m esa, com os braços cruzados e batendo o pé, enquanto franzia a testa para o livro de Arte que pairava sobre a m esa. As velas ao lado do livro em itiam um a agradável luz, sem elhante à dos vitrais, suavizando o caos ao redor. Todo o aposento — e o seu interior, incluindo Jaenelle — estava com pletam ente coberto de um a poeira alfazem a, cinza e cor-de-rosa. Som ente o livro estava lim po. Talvez Jaenelle tivesse criado um escudo à sua volta antes de com eçar... o que quer que fosse.
— Acho que não vou querer saber o que se passa aqui — disse Saetan, com frieza, im aginando a reação de Draca quando encontrasse aquela bagunça.
Jaenelle olhou-o de um j eito desesperado e divertido.
— Não, não vai m esm o. — Sorriu o seu m elhor sorriso, incerta m as entrando na brincadeira. — De qualquer m aneira, não im agino que gostaria de aj udar?
Fogo do Inferno! Durante os anos em que lhe ensinara Arte, tentando desvendar um de seus feitiços bizarros após sua concretização, ansiara por um convite desses.
— Infelizm ente — disse ele, com a voz cheia de tristeza e m elancolia —, tem os outro assunto para tratar.
Jaenelle se sentou no ar, pondo os calcanhares no degrau inexistente de um banco im aginário, centrando em Saetan toda sua atenção.
Saetan se lem brou, tarde dem ais, de com o era desconcertante ser o centro da atenção de Jaenelle.
Pigarreou e olhou de relance o aposento, em busca de inspiração. Afinal, talvez o escritório de Jaenelle, com as ferram entas da Arte à sua volta, fosse o m elhor local para falar com ela.
Entrou no recinto e se encostou no vão da porta, um local neutro, que não invadia o território de Jaenelle, m as onde era legítim o estar.
— Estou preocupado, criança-feiticeira — disse serenam ente.
Jaenelle inclinou a cabeça.
— Com o quê?
— Com você. Com a form a com o nos evita. Com a form a com o está se fechando, se afastando de nós.
Seus olhos se encheram de gelo.
— Todos tem os lim ites e barreiras interiores.
— Não estou m e referindo a lim ites e barreiras interiores — disse Saetan, sem conseguir m anter a voz calm a. — Claro que todos as tem os. Protegem nossa teia interior e nosso Eu. Mas você construiu um a parede entre você e todos os outros, evitando qualquer contato.
— Talvez você devesse ficar grato pela parede, Saetan — rebateu Jaenelle, com um a voz som bria que fez Saetan estrem ecer.
Saetan. Nada de “papai”. Saetan. E não pronunciara seu nom e da form a com o sem pre fazia. Parecia um a Rainha dirigindo-se form alm ente a um Príncipe dos Senhores da Guerra.
Ele não sabia com o responder àquelas palavras nem à advertência.
Jaenelle desceu do banco invisível e deu as costas para Saetan, pousando as m ãos na m esa em poeirada.
— Ouça — pediu Saetan, contendo a ansiedade. — Você não pode se isolar assim . Não pode passar o resto da vida neste escritório criando feitiços m agníficos que ninguém m ais vai ver. Você é um a Rainha. Terá que interagir com sua corte.
— Não vou constituir um a corte.
Saetan olhou fixam ente para ela, atônito.
— É claro que vai constituir um a corte. Você é um a Rainha.
Estrem eceu diante do olhar fulm inante de Jaenelle.
— Não sou obrigada a constituir um a corte. Já verifiquei. E não quero governar. Não quero controlar a vida de m ais ninguém a não ser a m inha.
— Mas você é feiticeira.
No m om ento em que pronunciou a frase, a tem peratura do côm odo despencou.
— Sim — disse Jaenelle, com m uita delicadeza. — Sou. — Virou-se para olhá-la.
Retirou a m áscara de hum anidade — e a m áscara da carne —, deixando que Saetan a visse de fato pela prim eira vez.
O pequeno chifre em espiral no m eio da testa. A j uba loura que não era exatam ente feita de cabelo nem de pelo. As orelhas delicadam ente pontudas. As m ãos com as garras retraídas. As pernas que term inavam em pequenos cascos. A faixa de pelo louro que percorria as costas, term inando num a pequena cauda de alce que balançava sobre as nádegas. O rosto exótico e aqueles olhos azul-safira.
Por ter sido Consorte de Cassandra durante tantos anos, acreditava conhecer e com preender a Feiticeira. Percebeu, finalm ente, que Cassandra e todas as outras Rainhas de Joia Negra que a haviam antecedido tinham sido chamadas de Feiticeira. Jaenelle era, de fato, o m ito vivo, a realização dos sonhos.
Com o fora tolo ao j ulgar que todos os sonhos tinham sido de hum anos.
— Exatam ente — disse a Feiticeira, em voz baixa, fria.
— Você é linda — sussurrou Saetan. E tão, tão perigosa.
Jaenelle olhou perplexa para Saetan e ele percebeu que não haveria m elhor m om ento para dizer o que tinha de ser dito.
— Nós a am am os, senhora — com eçou, delicadam ente. — Sem pre a am am os, e ser im pedidos de fazer parte da sua vida nos m agoa m uito além do que as palavras podem expressar. Você não faz ideia de com o era difícil esperar aqueles poucos e preciosos m inutos que podia passar conosco, com o era difícil im aginar e preocupar-se com você sem pre que não estava presente, sentir ciúm es das pessoas que não apreciavam quem você é. Agora... — Sua voz em bargou. Ele j untou os lábios e respirou fundo. — Nós nos entregam os a você há m uito tem po. Nem m esm o você consegue m udar isso. Faça de nós o que quiser. — Hesitou, para depois acrescentar: — Não, criança-feiticeira, não estam os gratos pela parede.
Não esperou resposta. Saiu tão rapidam ente quanto conseguiu, com lágrim as brilhando nos olhos.
Atrás dele, ouviu um choro suave e angustiado.
Saetan não suportava a gentileza dos outros. Não suportava que fossem com passivos e com preensivos. Geoffrey lhe esquentara um copo de y arbarah. Mephis colocara um cobertor sobre suas pernas. Prothvar acendera o fogo para aj udar a espantar o frio. Andulvar se m antinha j unto a ele, em silêncio.
Saetan tinha com eçado a trem er no m om ento em que entrou no am biente seguro da saleta. Teria caído no chão se Andulvar não o tivesse am parado e aj udado a chegar à cadeira. Não haviam lhe perguntado nada, e, exceto por um “Não sei” m urm urado com rouquidão, ele nada lhes havia dito sobre o que tinha acontecido — ou sobre o que tinha presenciado.
E todos aceitaram a resposta.
Um a hora depois, em bora se sentisse um pouco recuperado física e em ocionalm ente, ainda não conseguia suportar aquela gentileza geral. Mas o que não conseguia suportar de j eito algum era não saber o que estava acontecendo naquele escritório.
A porta da saleta abriu-se de repente.
Jaenelle ficou parada na soleira, segurando um a bandej a com duas pequenas garrafas e cinco copos. Usava a m áscara outra vez.
— Draca disse que estavam escondidos aqui — com eçou, na defensiva.
— Não estam os exatam ente “escondidos”, criança-feiticeira — respondeu Saetan, seco. — Mas, se estiverm os, há espaço para m ais um . Quer se j untar a nós?
O sorriso de Jaenelle era tím ido e vacilante, m as suas im petuosas pernas atravessaram agilm ente a sala até chegar ao lado da cadeira de Saetan. Foi então que ela franziu a testa, virando-se para a porta.
— Este aposento era m aior.
— Suas pernas eram m ais curtas.
— Então é por isso que as escadas parecem tão estranhas — resm ungou, enquanto enchia dois copos de um a das garrafas e três da outra.
Saetan encarou o copo que Jaenelle lhe ofereceu, sentindo o estôm ago estrem ecer.
— Hum m — disse Prothvar, enquanto Jaenelle distribuía os outros copos.
— Bebam — retrucou ela rispidam ente. — Nos últim os tem pos vocês parecem todos doentes. — Ao ver que eles hesitavam , sua voz adquiriu um tom de fragilidade. — É apenas um tônico.
Andulvar bebeu um gole.
Benditas as Trevas pela solicitude ey riena em avançar para todo e qualquer cam po de batalha, pensou Saetan ao beber, tam bém ele, um gole.
— Quanto desse tônico você produz a cada vez, criança? — retum bou Andulvar.
— Por quê? — perguntou Jaenelle cautelosam ente.
— Sabe, você tem razão quando diz que estam os todos parecendo doentes. Não faria m al se tom ássem os outro copo m ais tarde.
Saetan com eçou a tossir, a fim de esconder seu próprio desânim o e ganhar tem po para que os outros conseguissem controlar as expressões. Um a coisa era Andulvar avançar para o cam po de batalha. Outra bem diferente era arrastar todos eles j unto.
Jaenelle aj eitou o cabelo.
— Ele com eça a perder a potência um a hora depois de produzido, m as não m e custará nada fazer um pouco m ais.
Andulvar assentiu, m antendo um a expressão séria.
— Obrigado.
Jaenelle sorriu tim idam ente e saiu da saleta.
Saetan aguardou até ter certeza de que ela j á não os ouviria e virou-se para Andulvar.
— Desgraçado irresponsável — rosnou.
— Que palavras feias para um hom em que vai ter de beber dois copos desta coisa todo dia — retrucou Andulvar, num tom presunçoso.
— É sem pre possível j ogá-lo nas plantas — disse Prothvar, olhando em volta, à procura de algum a coisa verde.
— Já tentei isso — resm ungou Saetan. — O único com entário de Draca foi que se algum a outra planta m orresse, pediria a Jaenelle para investigar.
Andulvar soltou um riso abafado, o que deu aos outros razão para se voltar contra ele.
— Todos esperam que os hay llianos sej am dissim ulados, m as os ey rienos são conhecidos pela sua franqueza. Por isso, quando um de nós age de form a dissim ulada...
— Você fez isso para que ela tivesse um a razão para nos visitar — disse Mephis, exam inando o copo. — Sou grato, Andulvar, m as você não podia...
Saetan se levantou com um salto.
— Perde a potência depois de um a hora.
Andulvar ergueu o copo num a saudação.
— Isso m esm o.
Saetan sorriu.
— Se conseguirm os deixar m etade de cada dose, perderá grande parte do vigor, e depois m isturam os com a nova dose...
— E terem os um tônico fortificante com um vigor tolerável — concluiu Geoffrey, com ar satisfeito.
— Se ela descobrir, vai nos m atar — protestou Prothvar.
Saetan levantou um a sobrancelha.
— Se levarm os todos os fatores em consideração, m eu bom dem ônio, é um pouco tarde para nos preocuparm os com isso, não acha?
Prothvar quase corou.
Saetan sem icerrou os olhos, dirigindo-se a Andulvar.
— Mas só soubem os desse detalhe depois que você pediu um a segunda dose.
Andulvar encolheu os om bros.
— A m aioria das infusões m edicinais tem de ser tom ada pouco depois de ser produzida. Valeu a pena arriscar. — Sorriu para Saetan com a arrogância que só era possível num m acho ey rieno. — De qualquer m aneira, se você está adm itindo que não tem coragem ...
Saetan disse algum a coisa incisiva e direta.
— Sendo assim , não há problem a, não é? — respondeu Andulvar.
Eles se entreolharam . Séculos de am izade, rivalidade e com preensão refletidos nos dois pares de olhos dourados. Levantaram os copos e esperaram que os outros os im itassem .
— À saúde de Jaenelle — disse Saetan.
— À saúde de Jaenelle — responderam os outros.
Suspiraram em uníssono e engoliram m etade do tônico.
7 / Kaeleer
Não m uito satisfeito, Saetan observava as luzes de Riada, a m aior cidade dos Sangue em Ebon Rih e a m ais próxim a da Fortaleza. As luzes brilhavam na escuridão fértil do vale com o fragm entos aprisionados da luz das estrelas.
Tinha visto o nascer do sol. Não, m ais do que isso. Tinha perm anecido num dos pequenos j ardins, sentindo efetivam ente o calor do sol no rosto. Pela prim eira vez em séculos não sentira qualquer dor lancinante nas têm poras, não sentira um a enxaqueca tão brutal que lhe dava náusea, lem brando-o da distância que o separava dos vivos, não se sentira fraco.
Estava tão forte fisicam ente com o quando se tornara Guardião pela prim eira vez, quando iniciara a cam inhada na tênue linha que separa os vivos dos m ortos.
Jaenelle e seu tônico tinham conseguido esse feito. Tinham conseguido ainda m ais.
Ele havia se esquecido de com o a com ida podia ser sensual, e, nos últim os dias, saboreara o gosto de carne m alpassada e de batatas novas, de frango assado e de legum es frescos. Havia se esquecido de com o era dorm ir bem , em vez daquele descanso sem ivigilante ao qual os Guardiões norm alm ente se entregam durante o dia.
Tam bém havia se esquecido de com o era sentir fom e e de com o um hom em pode ficar com a m ente nublada quando está extrem am ente cansado.
Tudo tem um preço.
Cassandra j untou-se a Saetan na j anela. Ele sorriu cauteloso.
— Hoj e você está encantadora — disse, com um pequeno gesto indicando o longo vestido preto, o xale cor de esm eralda de tram a aberta e o penteado do cabelo ruivo envelhecido.
— É um a pena que a Harpia não tenha se vestido de acordo com as circunstâncias — respondeu Cassandra causticam ente. Fez um a expressão de desagrado. — Ao m enos podia ter posto algo em volta do pescoço.
— E você podia ter evitado dizer que lhe em prestaria um vestido de gola alta — retrucou Saetan. Cerrou os dentes para não deixar sair as palavras que ainda tinha a dizer. Titian não precisava de um defensor, m uito m enos após as críticas que havia feito às delicadas sensibilidades das feiticeiras afetadas da aristocracia.
Observou as luzes de Riada se apagarem , um a após outra.
Cassandra respirou fundo, suspirando.
— Não deveria ser assim — disse serenam ente. — As Negras não estão destinadas a ser Joias de Direito por Progenitura. Tornei-m e Guardiã por acreditar que a próxim a Feiticeira precisaria de um a am iga, alguém para aj udá-la a com preender o que se tornaria depois de realizar a Oferenda às Trevas. Mas o que aconteceu com Jaenelle a afetou de tal m aneira que ela j am ais voltará a ser norm al.
— Normal? E o que significa ser “norm al” para você, senhora?
Olhou com um ar m ordaz para o canto do aposento, onde Andulvar, Prothvar, Mephis e Geoffrey tentavam incluir Titian na conversa, m antendo, ao m esm o tem po, um a distância respeitosa.
— Jaenelle acabou de celebrar seu décim o quinto aniversário. Em vez de um a festa e de um a sala cheia de j ovens am igos, passou a noite com dem ônios, Guardiões... e um a Harpia. Sinceram ente, você pode dizer que isso é norm al?
— Já tive esta conversa antes — resm ungou Saetan. — E a m inha resposta continua sendo a m esm a: para ela, é norm al.
Cassandra exam inou-o por alguns instantes antes de dizer baixinho:
— Sim , é claro que você pensaria assim , não é verdade?
Saetan olhou ao redor através de um a neblina averm elhada até conseguir recuperar a calm a.
— O que quer dizer com isso?
— Você se tornou Senhor Suprem o do Inferno ainda em vida. Não veria qualquer problem a no fato de ela ter com o com panheiros de brincadeiras as cildru dyathe ou de ter um a Harpia ensinando-lhe a m aneira certa de interagir com os m achos.
A respiração de Saetan produzia um assobio ao passar entre os dentes.
— Quando você previu a chegada dela, disse que ela era a filha da m inha alm a. Mas eram apenas palavras vazias, não é verdade? Foi um a form a de garantir que eu m e tornasse Guardião, para que m eu poder estivesse à sua disposição e que pudesse assim proteger sua aprendiz, a j ovem feiticeira que se sentaria a seus pés, intim idada pela atenção da Feiticeira de Joia Negra. Mas não foi isso que aconteceu. Aquela que chegou é, de fato, a filha da m inha alm a, que não se sente intim idada por ninguém nem se senta aos pés de quem quer que sej a.
— Ela pode não se sentir intim idada por ninguém — disse Cassandra friam ente —, m as tam bém não tem ninguém . — Sua voz ganhou um tom m ais suave. — E, por isso, tenho pena dela.
Ela tem a mim!
O rápido e arguto olhar de Cassandra lhe cortou o coração.
Jaenelle tinha Saetan. O Príncipe das Trevas. O Senhor Suprem o do Inferno. Mais do que tudo, era por isso que Cassandra sentia pena dela.
— É m elhor nos j untarm os aos outros — disse Saetan, tenso, oferecendo o braço a Cassandra. Apesar da raiva que sentia, não podia lhe virar as costas.
Cassandra com eçou a rej eitar aquele gesto de cortesia até reparar nos olhares frios de Andulvar e de Titian.
— Draca quer falar com todos nós — resm ungou Andulvar quando se aproxim aram e se afastou na m esm a hora, dando-se espaço para esticar as asas. Espaço para lutar.
Saetan observou-o por alguns m om entos e depois com eçou ele próprio a reforçar suas consideráveis defesas. Apesar das várias diferenças entre os dois, Saetan sem pre confiara nos instintos de Andulvar.
Draca entrou na sala devagar e calm am ente. Com o de hábito, tinha as m ãos enfiadas nas m angas com pridas do m anto. Esperou que os presentes se sentassem , até ter a atenção de todos, e em seguida fixou seu olhar reptil em Saetan.
— A ssenhora com em ora hoj e quinze anoss — afirm ou Draca.
— É verdade — concordou Saetan, cautelosam ente.
— Nossass ssim pless ofertass foram do sseu agrado.
Por vezes era difícil detectar inflexões na voz sibilante de Draca, m as as palavras soavam m ais com o um a ordem do que com o um a pergunta.
— Sim — disse Saetan. — Acredito que sim .
Um longo silêncio.
— É hora de a ssenhora deixar a Fortaleza. Você é o sseu tutor legal. Tratará doss preparativoss.
Saetan sentiu um aperto na garganta. Sentiu os m úsculos do peito se retesarem .
— Prom eti a ela que poderia ficar aqui.
— Chegou o m om ento de a Ssenhora partir. Viverá com você no Paço doss SsaDiablo.
— Proponho um a alternativa — disse Cassandra, rapidam ente, cerrando os punhos no colo e sem dirigir o olhar para Saetan, nem sequer de relance. — Jaenelle poderia viver com igo. Todos sabem os quem , e o quê, Saetan é, m as eu...
Titian virou-se na cadeira.
— Acredita m esm o que ninguém no Reino das Som bras sabe que você é Guardiã? Acredita m esm o que conseguiu enganar alguém quando se fez passar por viva?
Os olhos de Cassandra flam ej aram de raiva.
— Sem pre fui cuidadosa...
— Sem pre foi um a m entirosa. Pelo m enos o Senhor Suprem o é honesto sobre quem é.
— Mas ele é o Senhor Suprem o... e essa é a questão.
— A questão é que você quer ser a pessoa a m oldar Jaenelle, assim com o Hekatah quer m oldá-la, à im agem escolhida por você, em vez de deixá-la ser quem ela é.
— Com o se atreve a falar assim com igo? Sou um a Rainha de Joia Negra!
— Não é m inha Rainha — rosnou Titian.
— Senhoras. — A voz de Saetan ressoou pela sala com o um suave trovão. Precisou de um m om ento para se acalm ar antes de voltar as atenções novam ente para Draca.
— Ela viverá no Paço — declarou Draca, com firm eza. — Esstá decidido.
— Se você não discutiu este assunto com nenhum de nós até agora, de quem foi a decisão? — questionou Cassandra rispidam ente.
— Foi Lorn quem decidiu.
Saetan esqueceu com o se respirava.
Fogo do Inferno, Mãe Noite e que as Trevas sej am m isericordiosas.
Ninguém argum entou. Ninguém deixou escapar o m ais ínfim o som .
Saetan percebeu que suas m ãos trem iam .
— Posso falar com ele? Há coisas que talvez não com preenda sobre...
— Ele com preende, Ssenhor Ssuprem o.
Saetan levantou o olhar para a Senescal de Ebon Askavi.
— Não chegou o m om ento certo para conhecê-lo — disse Draca. — Mass esse m om ento chegará. — Inclinou ligeiram ente a cabeça. Era a m aior deferência que dem onstrava a alguém . Talvez à exceção de Jaenelle.
Eles viram Draca sair, escutaram os passos lentos e cautelosos se afastarem até o som desaparecer por com pleto.
Andulvar expirou ruidosam ente.
— Quando ela quer cortar as pernas de alguém , sabe escolher bem a faca.
Saetan encostou a cabeça na cadeira, fechando os olhos.
— Não há dúvida.
Cassandra aj eitou m inuciosam ente o xale e se levantou, sem olhar para nenhum dos presentes.
— Se m e dão licença, vou m e recolher.
Eles se levantaram e lhe deram boa-noite.
Titian tam bém disse que iria se recolher, m as antes de fazê-lo sorriu m aliciosam ente para Saetan.
— Viver no Paço com Jaenelle talvez sej a com plicado, Senhor Suprem o, m as não pelas razões que você pensa.
— Mãe Noite — disse ele entre os dentes, antes de se virar para os outros m achos.
Mephis pigarreou.
— Não vai ser fácil dizer à Jaenelle que ela precisa ir em bora. Você não precisa fazer isso sozinho.
— Preciso sim , Mephis — respondeu Saetan penosam ente. — Fiz um a prom essa a ela. Sou eu quem devo lhe dizer que irei quebrá-la.
Deu boa-noite a todos e cam inhou lentam ente pelos corredores de pedra até chegar às escadas que o levariam aos aposentos de Jaenelle. Em vez de subir, apoiou-se na parede, trem endo.
Tinha prom etido a ela que poderia ficar. Tinha prometido.
No entanto, Lorn decidira.
Já passava da m eia-noite quando se j untou a Jaenelle no j ardim privado dos seus aposentos. Ela lhe ofereceu um sorriso sonolento e descontraído e estendeu a m ão. Grato, ele entrelaçou os dedos nos dela.
— Foi um a festa encantadora — disse Jaenelle, enquanto passeavam pelo j ardim . — Ainda bem que você convidou Char e Titian. — Hesitou. — E lam ento que tenha sido tão difícil para Cassandra.
Saetan a olhou pensativam ente, quase fechando os olhos.
Jaenelle respondeu ao olhar com um dar de om bros.
— O que foi que você ouviu?
— É falta de educação ouvir as conversas dos outros — respondeu ela com tom de censura.
— Um a resposta que se esquiva habilm ente à pergunta — rebateu Saetan, sarcasticam ente.
— Não ouvi nada. Mas senti que todos estavam resm ungando.
Saetan se aproxim ou de Jaenelle. Ela cheirava a flores selvagens, a cam pos ensolarados e a poças d’água à som bra de sam am baias. Era um a fragrância delicadam ente selvagem e esquiva, que fascinava os m achos por não tentar capturá-los.
Tinha um efeito relaxante — e um pouco excitante.
Em bora tivesse consciência de que aquela era a reação natural de um Príncipe dos Senhores da Guerra perante a Rainha à qual se sentia em ocionalm ente ligado, em bora tivesse consciência de que j am ais transporia a clara linha que separava a afeição de um pai da paixão de um am ante, ainda assim se sentiu envergonhado pela reação.
Olhou para Jaenelle, buscando a lem brança de quem ela era e de com o era j ovem . Mas foi a Feiticeira que lhe retribuiu o olhar, que apertou sua m ão para que não se rom pesse a ligação física.
— Parece que até m esm o um hom em sensato pode às vezes ser im ponderado — disse ela, com sua voz som bria.
— Eu nunca... — A voz falhou. — Você sabe que eu nunca...
Vislum brou um cintilar de diversão naqueles olhos antigos e perturbados.
— Sim , eu sei. Mas será que você sabe? Você adora as m ulheres, Saetan. Sem pre adorou. Gosta de estar perto delas. Gosta de tocá-las. — Ergueu as m ãos de am bos.
— É diferente. Você é m inha filha.
— Sendo assim , você m anterá distância da Feiticeira? — perguntou, com tristeza.
Saetan puxou-a para os seus braços e abraçou-a tão forte que a fez soltar um guincho ofegante.
— Nunca — disse, com veem ência.
— Papai? — cham ou Jaenelle debilm ente. — Papai, eu não consigo respirar.
Na m esm a hora, ele afrouxou o abraço, m as não a largou.
O j ardim foi invadido por ruídos suaves da noite. A brisa prim averil soprou.
— Este seu estado de espírito tem algum a coisa a ver com Cassandra, não tem ? — perguntou Jaenelle.
— Em parte. — Pousou a face na cabeça de Jaenelle. — Precisam os deixar a Fortaleza.
O corpo de Jaenelle ficou tenso de tal form a que o de Saetan com eçou a doer.
— Por quê? — perguntou, por fim , inclinando-se o suficiente para trás de m odo a conseguir olhar para o rosto de Saetan.
— Porque Lorn decidiu que tem os de viver no Paço.
— Ah — disse ela. E acrescentou: — Não m e adm ira que você estej a m elancólico.
Saetan riu.
— Pois é. Bem , ele sabe com o lim itar as opções de um a pessoa. — Afastou o cabelo do rosto dela com toda a delicadeza. — Quero m orar com você no Paço. Quero m uito. Mas se você quiser ir para outro lugar ou se estiver reticente em sair da Fortaleza neste m om ento, lutarei com unhas e dentes.
Jaenelle arregalou os olhos.
— Ah, m eu querido. Não acho que sej a um a boa ideia. Ele é muito m aior do que você.
Saetan tentou engolir, em vão.
— Ainda assim , lutarei com ele.
— Ah, m eu querido. — Ela suspirou. — Vam os tentar m orar no Paço.
— Obrigado, criança-feiticeira — disse ele, sem forças.
Jaenelle pôs um braço em volta da cintura de Saetan.
— Parece que as suas pernas estão trem endo.
— Então devo estar m elhor do que m e sinto — retrucou ele, colocando um braço em volta dos om bros de Jaenelle. — Vá, m inha pequena feiticeira. Os próxim os dias serão agitados, precisam os descansar.
8 / Kaeleer
Saetan abriu a porta da frente do Paço dos SaDiablo, adentrando um caos orquestrado.
Criadas andavam apressadas em todas as direções. Criados transportavam m óveis de um aposento para outro com um obj etivo que Saetan não com preendia. Jardineiros carregados de flores recém -colhidas entravam e saíam .
No centro do salão, Beale, seu m ordom o de Joia Verm elha, segurava um a extensa lista em um a das m ãos, enquanto com a outra orientava pessoas e volum es para seus devidos lugares.
Um pouco perplexo, Saetan dirigiu-se a Beale, na esperança de conseguir um a explicação para o que estava acontecendo. Depois de dar m eia dúzia de passos, percebeu que um obstáculo am bulante não havia sido considerado naquela dança frenética. Criadas esbarraram contra ele e, quase sem alterar a expressão aborrecida ao reconhecerem o patrão, proferiram um “Perdão, Senhor Suprem o” que beirava a grosseria.
Quando, por fim , ele conseguiu chegar perto de Beale, cutucou o seu om bro.
Beale olhou de relance para trás, reparou na expressão glacial de Saetan e baixou os braços. Ouviu-se, de im ediato, um ruído surdo, e um a criada com eçou a se queixar:
— Ora, vej a só o que você fez!
Beale pigarreou, puxou o colete para baixo, por sobre o cinturão, e esperou. Um m ordom o um pouco ruborizado, m as novam ente inabalável.
— Diga-m e, Beale — advertiu Saetan —, você sabe quem sou?
Beale pestanej ou.
— Você é o Senhor Suprem o, Senhor Suprem o.
— Ah, bom . Já que você m e reconhece, ainda devo ter form a hum ana.
— Senhor Suprem o?
— Não pareço um abaj ur de pé, por exem plo, por isso ninguém vai tentar m e botar num canto e enfiar duas velas nas m inhas orelhas. E não acho que possa ser confundido com um a antiga m esa anim ada que alguém pense em prender a um a cadeira para que não passeie para m uito longe.
Beale parecia a ponto de entrar em pânico, m as rapidam ente se recom pôs.
— Não, Senhor Suprem o. O senhor tem a m esm a aparência que tinha ontem .
Saetan cruzou os braços e passou algum tem po ponderando a situação.
— Você acha que, se for para o m eu escritório e ficar lá, talvez consiga escapar de ser desem poeirado, polido ou redecorado?
— Mas é claro, Senhor Suprem o. Seu escritório foi lim po hoj e de m anhã.
— Irei reconhecê-lo? — m urm urou Saetan.
Em seguida, foi se refugiar no escritório e suspirou de alívio. A m obília era a m esm a de antes e estava disposta da m esm a form a.
Tirou o casaco preto, estilo túnica, e, sentando-se na cadeira de couro atrás da m esa, arregaçou as m angas da cam isa branca de seda. Contem plou a porta fechada do escritório e balançou a cabeça, m as seus olhos apresentavam um tom dourado e cálido, e seu sorriso era de com preensão. Afinal, fora ele m esm o quem provocara a com oção, ao contar a novidade antecipadam ente a todos no Paço.
No dia seguinte, Jaenelle chegaria em casa.