A Herdeira das Sombras

Anne Bishop · Capítulo 14 de 22

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A Herdeira das Sombras

Capítulo Dez

 

 

1 / Kaeleer

Lucivar estava nas m argens do bosque e não se sentia com pletam ente preparado para sair da som bra da floresta e entrar no cam po banhado pelo sol. Os dias andavam quentes o suficiente para se apreciar a som bra. Além disso, Jaenelle estava fora, num a espécie de viagem obrigatória, por isso não havia razão para pressa.

Num passo rápido, Fum aça escolheu um a árvore, levantou um a perna e olhou com expectativa, para Lucivar.

— Já m arquei território bem lá atrás — inform ou Lucivar.

O suspiro de Fum aça era um a clara indicação do que os lobos pensavam sobre a capacidade hum ana de m arcar território.

Bem -hum orado, Lucivar esperou até Fum aça se afastar apressado antes de avançar para a luz do sol e abrir as asas para secá-las. A lagoa que Jaenelle lhe indicara ainda não tinha esquentado o suficiente, m as ele apreciara o m ergulho refrescante.

Balançou as asas devagar, saboreando o m om ento. Estava no m eio do tratam ento. Se tudo continuasse indo bem , na sem ana seguinte faria um teste de voo com as asas. Era difícil ser paciente, m as, no final do dia, ao sentir a dor genuína e serena nos m úsculos, sabia que Jaenelle estava avançando no ritm o certo.

Fechou as asas e cam inhou tranquilam ente de volta para a cabana.

Entorpecido pela atividade física a que se tinha subm etido e pela tem peratura elevada, dem orou um pouco para perceber que havia algo errado na form a com o os dois j ovens lobos corriam na sua direção. Jaenelle ensinara-o a se com unicar com os parentes. Lucivar ficara lisonj eado ao saber que eles eram bastante seletivos em relação aos hum anos com quem decidiam falar. No entanto, neste m om ento, procurando se preparar ao ver os lobos correndo na sua direção, perguntou-se até que ponto a opinião que tinham dele dependeria da presença de Jaenelle.

Um m inuto depois, estava m ergulhado em pelo, tentando se equilibrar enquanto o lobo atrás dele o abraçou pela cintura com as patas dianteiras e o em purrou para a frente, e o anim al que estava à sua frente colocou as patas nos seus om bros e lam beu seu rosto com cuidado, ganindo à espera de encoraj am ento.

Os pensam entos dos lobos chocavam -se em sua m ente, perturbados dem ais para fazerem sentido.

A Senhora tinha voltado. Algum a coisa ruim estava prestes a acontecer. Os anim ais estavam receosos. Fum aça m ontava guarda, à espera de Lucivar. Lucivar tinha de ir agora. Era hum ano. Aj udaria a Senhora.

Ele se sentiu livre o suficiente para com eçar a cam inhar às pressas até a cabana. Não haviam lhe dito que ela estava m al, portanto não estava ferida. Mas algum a coisa ruim estava prestes a acontecer. Algum a coisa que os deixava receosos de entrar na cabana e de estar com ela.

Lem brou de Fum aça ter ficado apreensivo quando Jaenelle lhe disse que se ausentaria por alguns dias.

Algum a coisa ruim . Algum a coisa que um hum ano poderia m elhorar.

Esperava que eles tivessem razão.

 

Abriu a porta da cabana e com preendu o receio dos lobos.

Jaenelle estava sentada na cadeira de balanço em frente à lareira, fitando o vazio.

A dor psíquica no quarto o atordoava. O escudo psíquico em volta de Jaenelle parecia ilusoriam ente passivo, tão fácil de elim inar com o um a teia de aranha. No entanto, sob a passividade j azia algo que, ao ser libertado, teria efeitos brutais.

Apertando as asas bem j unto ao corpo, Lucivar contornou o escudo, cautelosam ente, até ficar de frente para a garota.

A Joia Negra em volta do pescoço de Jaenelle resplandecia com um fogo m ortífero.

Lucivar estrem eceu, sem saber se tem ia por ele m esm o ou por ela. Fechou os olhos e fez prom essas im pulsivas para as Trevas perm itirem que ele não vom itasse ali m esm o.

Com o havia m orado em Terreille durante a m aior parte da vida, Lucivar sabia reconhecer alguém que tivesse sido torturado. Im aginava que Jaenelle não teria sido m achucada fisicam ente, m as havia tipos im perceptíveis de abusos tão destrutivos quanto. Sem dúvida seu corpo tinha pagado um preço terrível nos últim os quatro dias. O que ela engordara fora consum ido, levando tam bém o m úsculo que ela havia adquirido treinando com ele. A pele de seu rosto estava retesada e tinha um aspecto tão frágil que parecia prestes a rasgar. Seus olhos...

Não conseguia suportar o que via nos olhos.

Ela estava ali sentada, esvaindo-se em sangue por causa de um a ferida na alm a e Lucivar não sabia com o aj udá-la, não sabia se haveria algo que pudesse fazer que a aj udasse realm ente.

— Gata? — cham ou, com delicadeza. — Gata?

Sentiu a repulsa dela quando enfim olhou para ele, viu as em oções que se contorciam naqueles olhos inquietos e insondáveis.

Piscou. Mordeu o lábio inferior com força suficiente para sangrar. Voltou a piscar.

— Lucivar. — Não era um a pergunta nem um a afirm ação. Era um a identificação dolorosam ente extraída do fundo do seu interior. — Lucivar. — Os olhos se encheram de lágrim as. — Lucivar? — Um a súplica por consolo.

— Abaixe o escudo, Gata. — Viu-a com dificuldade para entender. Doces Trevas, com o era j ovem . — Abaixe o escudo. Deixe-m e passar.

O escudo se dissolveu. Assim com o Jaenelle. Mas ela j á estava nos braços de Lucivar quando com eçou a chorar convulsivam ente. Lucivar se sentou na cadeira de balanço e abraçou-a com força, m urm urando sons reconfortantes, tentando lhe transm itir algum calor com m assagens em seus m em bros gelados.

Quando ela parou de soluçar e com eçou apenas a fungar, passou o rosto nos cabelos de Jaenelle.

— Gata, acho que é m elhor levar você para a casa do seu pai.

— Não! — Em purrou-o, lutando para se libertar.

As unhas poderiam ter chegado até seus ossos. O veneno do dente de serpente poderia m atar dois dele. Um fluxo das Joias Negras poderia ter destruído suas barreiras interiores, transform ando-o num m ero invólucro gosm ento.

Em vez disso, ela se debateu inutilm ente contra um corpo m ais forte. Isso lhe disse m ais sobre o tem peram ento de Jaenelle do que qualquer outra coisa que pudesse ter feito — e tam bém explicou por que isso acontecera, em prim eiro lugar. Em algum m om ento, seu tem peram ento havia se libertado e o resultado a assustara m uito. Naquele m om ento, ela não confiava em si m esm a para dem onstrar qualquer tipo de raiva — m esm o que fosse em legítim a defesa. Bem , Lucivar podia fazer algo em relação a isso.

— Gata...

— Não. — Em purrou-o m ais um a vez. No entanto, fraca dem ais para continuar lutando, caiu em cim a de Lucivar.

— Por quê? — Podia pensar num a razão para ela ter m edo de ir para casa.

As palavras saíram de rom pante.

— Sei que estou com um aspecto horrível. É por isso que não posso ir para casa agora. Se papai m e visse, ficaria preocupado. Iria querer saber o que aconteceu, e não posso lhe dizer, Lucivar. Não posso. Ficaria zangadíssim o, voltaria a discutir com os m em bros do Conselho das Trevas e isso só lhe traria m ais problem as.

Na opinião de Lucivar, o pai de Jaenelle explodir num surto de raiva assassina pelo que tinha sido infligido à filha seria bastante positivo. Infelizm ente, Jaenelle não concordava. Preferia suportar algo que a devastasse a causar problem as entre seu querido papai e o Conselho das Trevas. Isso poderia convir a ela, ao Conselho das Trevas e a seu papai, m as não a Lucivar.

— Isso não é o suficiente, Gata — disse, m antendo a voz baixa. — Ou você m e diz o que aconteceu ou levo você ao seu pai agora m esm o.

Jaenelle fungou.

— Você não sabe onde ele m ora.

— Ah, tenho certeza de que se fizer um grande escândalo, alguém terá m uito prazer em m e dizer onde encontrar o Príncipe dos Senhores da Guerra de Dhem lan.

Jaenelle exam inou seu rosto.

— Você é um cretino, Lucivar.

Ele sorriu com um ar indolente e arrogante.

— Eu lhe disse isso da prim eira vez que nos encontram os. — Aguardou um m om ento, esperando não ter de instigá-la, m as sabendo que teria de ser assim . — Com o vai ser, Gata?

Jaenelle se contorceu. Ele com preendia esse gesto. Se alguém o colocasse entre a cruz e a espada, tam bém se contorceria. Sentiu que Jaenelle pretendia se distanciar fisicam ente antes de lhe contar. Mas im aginava que ouviria algo m ais próxim o da verdade se a m antivesse presa em seu colo.

Cedendo, por fim , ela aj eitou o cabelo e suspirou.

— Aos doze anos, fui gravem ente ferida...

Tinha sido assim que lhe explicaram a violação? Fora ferida?

— ... e papai tornou-se m eu tutor legal. — Parecia estar com dificuldades para respirar e sua voz baixou de tal form a que, m esm o tão próxim o, Lucivar teve de se esforçar para ouvi-la. — Despertei, voltei ao m eu corpo, dois anos depois. Estava... diferente quando voltei, m as papai m e aj udou a reconstruir m inha vida, um a coisa de cada vez. Contratou professores e estim ulou m eus am igos a m e visitarem . Ele m e com preendia. — Sua voz ganhou um tom ácido. — Contudo, o Conselho das Trevas não achou que papai fosse um tutor apropriado e tentaram m e afastar dele e do resto da fam ília. Por isso, im pedi que fizessem isso e tiveram de m e deixar ficar com papai.

Ela os im pedira. Lucivar im aginou de que m aneiras poderia ter feito isso. Pelo visto, não fora suficiente.

— Para tranquilizar o Conselho, concordei em passar um a sem ana a cada tem porada na com panhia de fam ílias aristocráticas da Pequena Terreille.

— Isso não explica o m otivo de você ter voltado nestas condições — disse Lucivar, com toda a calm a. Massageou o braço de Jaenelle, tentando aquecê-la. Ele transpirava. Ela ainda trem ia de frio.

— É com o se eu voltasse a viver em Terreille — sussurrou Jaenelle. Seus olhos voltaram a ficar perturbados. — Não, pior do que isso. É com o viver em ... — Fez um a pausa, desorientada.

— Até os aristocratas da Pequena Terreille precisam com er — disse ele, com delicadeza.

Jaenelle ficou com o olhar perdido. Sua voz estava inexpressiva.

— Não podem os confiar na com ida. Nunca confie na com ida. Mesm o que sej a provada antes, nem sem pre será possível detectar a m aldade até que sej a tarde dem ais. Não podem os dorm ir. Não devem os dorm ir. Vão nos achar, de qualquer m aneira. As m entiras são verdades, e a verdade é castigada. Garota m á. Garota ruim da cabeça por inventar m entiras assim .

Um m urro gelado socou os rins de Lucivar enquanto ele im aginava qual seria o pesadelo que Jaenelle estava percorrendo em sua paisagem interior.

Segurando o queixo entre o polegar e o indicador, Lucivar virou-se para ela, forçando-a a olhar para ele.

— Você não é um a garota m á, não está ruim da cabeça e não está m entindo — disse, com firm eza.

Jaenelle pestanej ou. Seu olhar era confuso.

— O quê?

Teria entendido se ele lhe dissesse o que acabara de ouvir? Duvidava.

— Então a com ida não presta e você não dorm e bem . Mas isso ainda não é o suficiente para explicar o estado em que você voltou. O que fizeram com você, Gata?

— Nada — sussurrou Jaenelle, fechando os olhos. Cada palavra parecia arrancada dela. — É que os rapazes esperam ser beij ados e...

— Esperam o quê? — rosnou Lucivar.

— Sou f-f-frígida e...

— Frígida! — exclam ou Lucivar, ignorando o grito assustado da garota. — Você tem dezessete anos. Esses filhos da puta não deveriam tentar nada com você que pudesse sequer levantar a questão de ser ou não “frígida”. E, em nom e do Inferno, onde estavam os responsáveis?

Ele se balançava furioso, afagando o cabelo dela com um a das m ãos enquanto o outro braço a envolvia, protegendo-a. Saiu rapidam ente da neblina verm elha ao ouvir o pequeno grito de dor de Jaenelle quando beliscou seu braço sem querer. Resm ungou um pedido de desculpas, colocou-a de novo no colo e com eçou a balançar em um ritm o m ais relaxante. Passados alguns m inutos, sacudiu a cabeça.

— Frígida — disse, com um suspiro de aversão. — Bem , Gata, se relutar em que alguém babe em cim a de você ou a apalpe e aperte é a definição deles de frigidez, neste caso tam bém sou frígido. Eles não têm qualquer direito de usar você, não im porta o que digam . Qualquer hom em que lhe diga o contrário m erece um a faca no peito. — Olhou para ela, exam inando-a, e, em seguida, balançou a cabeça. — Provavelm ente, dilacerar um hom em não seria fácil para você. Não faz m al. Para m im é.

Jaenelle arregalou os olhos.

Ele pôs a m ão em sua nuca e a m assageou com delicadeza.

— Ouça com atenção, Gata, só direi isto um a vez. Você é a Senhora m ais requintada que j á conheci e m inha am iga m ais querida. Além disso, am o você com o um a irm ã. O canalha que m agoar m inha irm ãzinha terá de se ver com igo.

— Você n-não pode — m urm urou. — O acordo...

— Eu não faço parte do m aldito acordo. — Sacudiu-a de leve, im aginando um a form a de fazer com que aquele olhar frágil e m agoado desaparecesse. Foi então que abriu um sorriso. Teria de agir com o agiria com qualquer felino que quisesse provocar: irritando-a. — Além do m ais, Senhora — disse, com um rosnado cortês —, você quebrou a prom essa solene que fez para m im . E quebrar um a prom essa feita a um Príncipe dos Senhores da Guerra é um a ofensa gravíssim a.

Os olhos de Jaenelle soltavam faíscas. Ele quase conseguia ver suas costas se arquearem e o pelo inexistente se arrepiando. Talvez não precisasse ir tão fundo para trazer à superfície um pouco da sua índole.

— Nunca fiz isso!

— Fez, sim . Lem bro-m e claram ente de ensinar você o que fazer caso...

— Eles não estavam atrás de m im !

Lucivar sem icerrou os olhos.

— Não tem am igos m achos que sej am hum anos?

— Claro que tenho!

— E nenhum deles levou você para os fundos do celeiro e lhe ensinou a usar o j oelho?

De repente, Jaenelle com eçou a olhar para as unhas.

— Foi o que pensei — disse Lucivar, com frieza. — Por isso, você tem duas opções. Se algum desses elegantes e pervertidos m achos aristocratas lhe fizer algo que não aprove, você pode lhe dar um a forte j oelhada no saco, ou eu vou com eçar pelos pés e term inar no pescoço, quebrando todos os ossos pelo cam inho.

— Você não faria isso.

— Não é assim tão difícil. Já fiz isso antes.

Aguardou um m inuto e bateu no queixo de Jaenelle, que fechou a boca.

Nesse m om ento, ela parecia distante.

— Mas, Lucivar — disse, fragilm ente. — E se a culpa for m inha por ele estar excitado e precisar se aliviar?

Ele bufou, bem -hum orado.

— Você não caiu nessa, não é?

Jaenelle sem icerrou os olhos até eles virarem um a m ínim a fenda.

— Não sei com o funciona em Kaeleer, m as, em Terreille, os rapazes podiam se registrar num a casa da Lua Verm elha e, além de conseguirem o “alívio” desej ado, tam bém podiam aprender m ais do que um a transa de trinta segundos.

Jaenelle fez um som abafado que poderia ser um a gargalhada reprim ida.

— E, se não tiverem dinheiro para um a casa da Lua Verm elha, podem se aliviar sozinhos com m uita facilidade.

— Com o?

Lucivar conteve a cara feia. Às vezes, despertar sua atenção era tão fácil com o fazer um novelo de linha rolar diante de um gatinho.

— Não sei bem se seu irm ão m ais velho seria a pessoa m ais indicada para lhe dar essa explicação — disse, um pouco form al.

Jaenelle observou Lucivar.

— Você não gosta de sexo, não é?

— Não das experiências que tive, é verdade. — Passou a m ão pelos dedos de Jaenelle, pois precisava ser honesto. — Mas sem pre pensei que, se gostasse de um a m ulher, seria m aravilhoso lhe dar esse tipo de prazer. — Sacudiu-se e pôs Jaenelle de pé. — Chega desta conversa. Você precisa com er e recuperar as forças. Há sopa de caldo de carne e um pão fresco.

Jaenelle em palideceu.

— Acho que não vou conseguir. Não depois de...

— Tente.

Quando se sentaram para com er, ela conseguiu engolir três colheres de sopa e um bocado de pão antes de correr para o banheiro.

Lucivar com eçou a tirar a m esa. Estava colocando a sopa de volta na panela quando Fum aça entrou furtivam ente na cozinha.

*Lucivar?*

Lucivar ergueu sua tigela.

— Está servido?

Fum aça ignorou a oferta.

*Agora chegar sonhos ruins. Magoar a Senhora. Não falar com a gente, não querer nos ver, não querer m achos perto. Não com er, não dorm ir, andar andar andar, rosnar para a gente. Agora sonhos ruins, Lucivar.*

*Os sonhos ruins vêm sempre depois destas visitas?*, perguntou Lucivar, lim itando os pensam entos a um fio m asculino.

Fum aça cerrou os dentes num rosnado m udo.

*Sempre.*

Lucivar sentiu um nó no estôm ago. Então aquilo não term inava assim que ela saía da Pequena Terreille.

*Quanto tempo isso dura?* Os parentes tinham um sentido fluido do tempo, m as pelo m enos Fum aça com preendia as diferenças básicas entre dia e noite.

Fum aça inclinou a cabeça.

*Noite, dia, noite, dia... talvez noite.*

Logo, Jaenelle passaria esta noite e os próxim os dois dias tentando superar os pesadelos que espreitavam , esgotando o corpo j á exausto, que sucum biria im piedosam ente por falta de com ida, água e repouso. Que tipos de sonhos poderiam levar um a j ovem m ulher a tal crueldade m asoquista?

Naquela noite, descobriu a resposta.

A alteração na respiração de Jaenelle despertou-o bruscam ente de um sono leve. Apoiando-se num braço, ele estendeu o outro para tocar seu om bro.

*Não poder acordar quando chegar sonhos ruins.* Ao pé da cama, os olhos de Fum aça brilhavam ao luar.

*Por quê?*

*Não nos ver. Não nos conhecer. Tudo sonhos.*

Lucivar praguej ou em silêncio. Se cada som , cada toque fosse engolido pela paisagem onírica...

O corpo de Jaenelle se curvou, rígido.

Lucivar observou os m úsculos tensos e inflexíveis e voltou a praguej ar. Na m anhã seguinte, ela estaria com pletam ente dolorida.

A tensão abandonou o corpo. Jaenelle sucum biu no colchão, contorcendo-se, gem endo, suada.

Precisava acordá-la. Nem que fosse necessário colocá-la debaixo do chuveiro ou cam inhar com ela o resto da noite pelos cam pos, m as iria acordá-la.

Voltou a estender a m ão... e Jaenelle com eçou a falar.

Cada palavra era um golpe físico enquanto as m em órias j orravam .

Lucivar inclinou a cabeça e, com o corpo trem endo, ouviu Jaenelle falar sobre e com Marj ane, My rol, Rebecca, Dannie e, em especial, Rose. Ouviu os horrores testem unhados e suportados por m eninas num lugar cham ado Briarwood. Ouviu os nom es dos hom ens que m achucaram todas elas. E sofreu com Jaenelle enquanto ela revivia a violação que dilacerara seu corpo e estilhaçara sua m ente, a violação que a levara, em desespero, a tentar rom per a ligação entre o corpo e o espírito.

Mergulhando um a vez m ais no abism o inalcançável, respirou profunda e irregularm ente, m urm urou um nom e e sossegou.

Ficou olhando para ela durante vários m inutos até ter a certeza quase absoluta de que seu sono era profundo. Então, foi ao banheiro e vom itou em silêncio.

Bochechou, foi para a cozinha sem fazer barulho e serviu um a dose generosa de uísque. Saiu nu para o alpendre, perm itindo que a brisa noturna secasse o suor da pele enquanto bebia.

Fum aça saiu da cabana e ficou tão próxim o que seu pelo fazia cócegas na pele nua de Lucivar. Os dois j ovens lobos estavam aninhados na extrem idade m ais distante do alpendre.

*Nunca se lembra, não é?*, Lucivar perguntou a Fumaça.

*Não. As Trevas são bondosas.*

Talvez ela não estivesse preparada para enfrentar aquelas recordações. Com certeza, não iria forçá-la. Porém , tinha a sensação perturbadora de que chegaria o dia em que alguém ou algum a coisa a forçaria a abrir a porta, e, nesse m om ento, ela teria de enfrentar o passado. Até lá, m anteria certas questões em silêncio — e esperava que ela o perdoasse.

Percebera o sofrim ento de Jaenelle ao falar dos hom ens que a m achucaram . Percebera o seu sofrim ento ao falar sobre o hom em que a violara.

Mas na única vez em que havia m encionado Daem on, seu nom e soara com o um a prom essa, um a carícia.

Contendo as lágrim as e dom inando a culpa que sentia, Lucivar term inou o uísque e entrou na cabana.

 

2 / Kaeleer

Lucivar instalou-se no tronco da árvore que m arcava o ponto interm ediário habitual para os passeios. O verão havia term inado. Ele estava com pletam ente recuperado. Dois dias antes, com pletara com sucesso a Pista de Khaldharon. Ontem , com Jaenelle, fora às Ilhas do Fogo para brincar com os pequenos dragões de lá. Hoj e, passaria o dia à toa de bom grado, m as algum a coisa havia tirado Jaenelle da cabana naquela m anhã no m om ento em que voltavam , e, pela form a com o ela se esquivava das suas perguntas, era evidente que tinha a ver com ele.

Bem , com o não fora possível atrair a gatinha com um novelo de lã, com certeza um rápido m ergulho num a banheira de água fria a provocaria.

— Você podia ter m e avisado, Gata.

Jaenelle se agitou.

— Avisei para você prestar atenção no ângulo ao deslizar naquela onda. — Olhou de relance para o tronco de Lucivar. Mordeu o lábio inferior. — Lucivar, esse hem atom a negro tem um aspecto horrível. Tem certeza...

— Eu não estava falando da onda — disse Lucivar, entre os dentes. — Estava m e referindo às frutas azedas.

— Ah. — Jaenelle se sentou j unto ao tronco e olhou para ele de soslaio. — Bem , pensei que o nom e funcionasse com o aviso para um a pessoa não sair m ordendo um a fruta desconhecida.

— Eu estava com sede. Você havia m e dito que tinha bastante suco.

— E tem — reafirm ou Jaenelle, tão racional que ele ficou com vontade de lhe dar um a surra. Ela abraçou os j oelhos. — Os dragões ficaram bastante im pressionados com os sons que você em itiu. Não sabiam se estava dem onstrando pretensões territoriais ou se era um ritual de acasalam ento.

Lucivar estrem eceu ao se lem brar do m om ento em que m ordera aquele fruto com um nom e tão adequado. Cheio de suco, era verdade. Ao m ordê-lo, o líquido inundara sua boca, com um a doçura m aravilhosa por um instante. Logo os dentes se crisparam e a garganta se fechou ao sentir a acidez. Esperneara e gritara de tal form a que entendia por que os dragões acharam que estava fazendo um a dança de acasalam ento ey riena. Para piorar, os dragões tinham com ido as frutas azedas durante aquele seu ataque ridículo, enquanto Jaenelle as m ordia com elegância e observava a cena de olhos arregalados, apreensiva.

Aquela traidorazinha. Estava sentada ao seu alcance, a tolinha que confiava nele. Desarm ada. Queria sentir sua pele nas m ãos. O estrangulam ento seria rápido dem ais, definitivo. Podia puxá-la, deitá-la no seu colo e bater em seu traseiro até ficar com a m ão em brasa...

Jaenelle m udou de posição, saindo de seu alcance.

Lucivar sorriu, com os dentes cerrados, em reconhecim ento do m ovim ento.

Distanciando-se um pouco m ais, Jaenelle com eçou a arrancar a gram a.

— Um a vez, dei um a fruta azeda à Sra. Beale — disse, baixinho.

Lucivar tinha o olhar fixo nos cam pos. Nos últim os três m eses, havia escutado m uitas histórias sobre a cozinheira que trabalhava para a fam ília de Jaenelle.

— Disse a ela com o se cham avam ?

— Não. — Um sorriso vago e satisfeito surgiu nos lábios de Jaenelle.

Lucivar cerrou os dentes.

— O que aconteceu?

— Bem , Papai m e perguntou se eu sabia o m otivo daqueles berros que vinham da cozinha e eu disse que achava que sim . Ele respondeu: “Com preendo.” Em seguida m e enfiou em um a das nossas carruagens e disse a Khary para m e levar para a casa de Morghann, um a vez que Scelt fica do outro lado do Reino.

Lucivar esforçava-se para m anter um a expressão séria. Apertou o pulso esquerdo com a m ão direita com força suficiente para doer. Aj udou.

— Na m anhã seguinte, a Sra. Beale encurralou papai no escritório e disse que eu tinha lhe dado um novo tipo de fruta e que, depois de pensar no assunto, ela havia decidido usá-la para realçar o sabor de vários pratos sim ples. Por isso gostaria que eu colhesse algum as. Em seguida, colocou um cesto de vim e na m esa de papai. Ele disse que não sabia de onde vinha a fruta e a Sra. Beale retrucou que obviam ente eu sabia. Então papai disse com toda a educação que eu não estava em casa e a Sra. Beale sugeriu que ele fosse m e procurar e que trouxéssem os a tal fruta. Assim , papai foi m e procurar e levam os a fruta. E com o as Ilhas do Fogo são um Território restrito, a Sra. Beale é invej ada por outras cozinheiras por esse tem pero especial.

Lucivar esfregou a cabeça com força, alisando depois o cabelo preto, que batia na altura dos om bros.

— A Sra. Beale é m ais forte que seu pai?

— Nem de perto — disse Jaenelle, ácida, para depois acrescentar, sentidam ente: — É que ela é bastante... volumosa.

— Gostaria de conhecer a Sra. Beale. Acho que estou apaixonado. — Reparou na expressão escandalizada de Jaenelle, então escorregou do tronco para o chão e riu. Não conseguiu parar de rir quando Jaenelle o tocou e disse, com ar preocupado: — Você estava brincando, não estava, Lucivar? Lucivar?

Dando um grito, puxou-a para cim a dele, abraçando-a com força suficiente para agarrá-la, m as sem assustar.

— Você devia ser ey riena — disse, assim que conseguiu conter as gargalhadas. — Está à altura.

Depois, afastou o cabelo do seu rosto.

— O que foi, Gata? — perguntou com gentileza. — O que você tem para m e dizer que é tão am argo assim que quis m e dar esta explosão de doçura antes?

Jaenelle passou os dedos pela clavícula de Lucivar.

— Você está curado.

Quase conseguia saborear a relutância.

— E?

Ela rolou por cim a dele, deu um salto e ficou de pé, num m ovim ento m ais gracioso do que qualquer criatura dom ada poderia realizar.

Lucivar levantou-se devagar, abriu as asas de repente para sacudir o pó e a gram a, voltou a se sentar no tronco da árvore e aguardou.

— Até m esm o depois da guerra entre Terreille e Kaeleer, as pessoas atravessavam os Portões — disse Jaenelle baixinho, com os olhos fixos no horizonte. — A m aioria havia nascido no local errado e procurava sua “terra natal”. E sem pre houve algum com ércio entre Terreille e a Pequena Terreille.

“Há alguns anos, o Conselho das Trevas aceitou um a convivência m ais aberta com Terreille e m uitos dos Sangue aristocratas com eçaram a ir para ver o Reino das Som bras. A quantidade de Sangue de classe m ais baixa que pretendia im igrar para Kaeleer deveria ter servido com o aviso ao Conselho sobre o estado das cortes em Terreille. No entanto, a Pequena Terreille abriu os braços para acolher os laços de sangue. Mas Kaeleer não é Terreille. A Lei dos Sangue e o Protocolo podem ter interpretações... diferentes.

“Foram m uitos os terreillianos que se recusaram a com preender que o que praticavam im punem ente em Terreille não era tolerado em Kaeleer e m orreram .

“Ano passado, em Dharo, três m achos terreillianos violaram um a j ovem feiticeira por diversão. E com tanta violência que sua m ente ficou estilhaçada, e nada restou para guiá-la de volta ao corpo. Tinha a m inha idade.”

Lucivar concentrou-se nos punhos cerrados, forçando-os a se abrirem .

— Pegaram os canalhas?

Jaenelle deu um sorriso sinistro.

— Os m achos de Dharo os executaram . Foi então que baniram todos os outros terreillianos de Dharo e os enviaram de volta à Pequena Terreille. Em seis m eses, a taxa de m ortalidade dos terreillianos na m aior parte dos Territórios estava acim a de noventa por cento. Até na Pequena Terreille estava acim a de cinquenta por cento. Com o a m atança consum iu os bons sentim entos entre os Reinos, o Conselho das Trevas aprovou algum as leis de im igração. Agora, um terreilleano que queira im igrar tem de servir a um a feiticeira de Kaeleer a seu bel-prazer durante um determ inado período. Os Sangue que não usam Joias têm de servir durante dezoito m eses. Os de Joias m ais claras têm de servir por três anos, e os de Joias m ais escuras, por cinco. As Rainhas e os Príncipes dos Senhores da Guerra de qualquer categoria têm de servir por cinco anos.

Lucivar se sentiu agoniado. Seu corpo estrem eceu, e teve por ele um a solidariedade indiferente. A seu bel-prazer. Isso significava que a vagabunda poderia fazer o que quisesse e ele teria de aceitar se quisesse perm anecer em Kaeleer.

Tentou rir. Soou apavorado.

Jaenelle aj oelhou-se a seu lado e acariciou-o com ansiedade.

— Lucivar, não será tão ruim assim . Sério. As Rainhas... Servir em Kaeleer não é com o servir em Terreille. Conheço todas as Rainhas do Território. Posso aj udá-lo a encontrar alguém adequado, um a Rainha a quem você vai gostar de servir.

— Por que não posso servir você? — Envolveu os om bros de Jaenelle com as m ãos, em busca de am paro, enquanto se debatia com dor e pânico. — Você gosta de m im ... pelo m enos parte do tem po. E form am os um a boa dupla.

— Ah, Lucivar — disse Jaenelle, com doçura, segurando seu rosto entre as m ãos. — Eu sem pre gosto de você. Mesm o quando é um chato. Mas você devia passar pela experiência de servir em um a corte em Kaeleer.

— Daqui a um ou dois anos, você vai constituir sua corte.

— Não vou constituir corte. Não pretendo ter esse tipo de poder sobre os outros. Além disso, você não quer m e servir. Você não m e conhece, não com preende...

Perdeu a paciência.

— O quê? Que você é a Feiticeira?

Ela pareceu chocada.

Lucivar m assageou seus om bros e disse, seco:

— Já que usa a Negra nessa idade, é um pouco óbvio, Gata. De qualquer form a, sei quem e o que você é desde que a conheci. — Tentou sorrir. — Na noite em que nos conhecem os, eu havia pedido às Trevas um a Rainha poderosa, que eu m e orgulhasse de servir, e você apareceu. Claro que era um pouco m ais nova do que eu im aginava, m as eu não ia m e im portar com isso. Gata, por favor. Esperei a m inha vida toda para servi-la. Farei o que quiser. Por favor, não m e m ande em bora.

Jaenelle fechou os olhos e encostou a cabeça no peito de Lucivar.

— Não é assim tão fácil, Lucivar. Mesm o que aceite o que eu sou...

— Aceito verdadeiramente o que você é.

— Há outras razões que poderão levá-lo a perder a vontade de m e servir.

Dentro de Lucivar, algum a coisa se acalm ou. Com preendia o costum e de realizar testes ou desafios para receber um privilégio. Percebesse ou não, ela estava lhe dando um a chance.

— Quantas?

Ela olhou para ele, confusa.

— Quantas razões? Diga um núm ero, agora. Se eu puder aceitá-las, então poderei optar por servi-la. É j usto.

Jaenelle olhou-o de form a estranha.

— E você vai ser honesto com você m esm o e com igo sobre poder aceitá-las, certo?

— Sim .

Afastou-se, sentando-se fora do alcance de Lucivar. Depois de alguns m inutos de silêncio tenso, disse:

— Três.

Três. Não eram doze ou nem nenhum outro núm ero grande dem ais para que se preocupasse. Apenas três. O que significava que tinha de encará-las com seriedade.

— Muito bem . Quando?

Jaenelle se levantou, com elegância.

— Agora. Faça a m ala para passar a noite. — Foi para a cabana num passo apressado.

Lucivar seguiu-a, em bora não tentasse alcançá-la. Três testes determ inariam os próxim os cinco anos da sua vida.

Jaenelle seria j usta. Gostasse ou não do resultado final, seria j usta. E ele tam bém .

Ao se aproxim ar da cabana, os lobos correram para cum prim entá-lo, oferecendo um conforto peludo ao m em bro adotivo da alcateia.

Lucivar afagou os lobos. Se tivesse de servir outra feiticeira, voltaria a vê-los?

Seria honesto. Não abusaria da confiança que Jaenelle depositava nele.

Mas iria vencer.

 

3 / Kaeleer

O coração de Lucivar batia acelerado. Nunca estivera no interior da Fortaleza, nem m esm o num pátio exterior. Um bastardo m estiço não era digno de entrar naquele local. Se nada tivesse aprendido nos cam pos de caça ey rienos, pelo m enos saberia que, não im portava as Joias que usasse ou a destreza com as arm as, suas origens tornavam -no indigno de lam ber as botas daqueles que viviam em Ebon Askavi, a Montanha Negra.

Agora, aqui estava, cam inhando ao lado de Jaenelle, pelos aposentos m aj estosos com tetos abobadados, pátios e j ardins a céu aberto, um labirinto de corredores am plos — e um arrepio o avisava de que algo o vigiava desde que entrara na Fortaleza. Algo que esvoaçava nas pedras, se escondia nas som bras, criava som bras onde não deveriam existir. Não era ruim — pelo m enos, por enquanto. Contudo, as histórias sobre o que se escondia na Fortaleza eram histórias contadas à lareira que assustavam os garotinhos e lhes tiravam o sono.

Lucivar retesou o om bro e seguiu a Senhora.

Quando chegaram aos andares superiores que pareciam m ais habitados, Lucivar com eçou a observar com ansiedade os bancos e cadeiras pelos corredores, prom etendo a si m esm o um gole de água na próxim a cascata decorativa ou fonte pela qual passassem .

Jaenelle nada dissera desde o m om ento em que deixaram a teia de desem barque no pátio exterior. Seu silêncio era solidário, em bora não fosse reconfortante. Com preendia isso. Ebon Askavi era a casa da Feiticeira. Se viesse a servi-la, teria de se adaptar ao local sem depender dela.

Ao chegar a um cruzam ento entre corredores, Jaenelle olhou para a esquerda e sorriu.

— Olá, Draca. Este é Lucivar Yaslana. Lucivar, esta é Draca. A Senescal da Fortaleza.

O odor psíquico de Draca, cheio de velhice e poder obscuro e antigo, o deixava nervoso, assim com o suas feições reptílicas. Fez um a reverência respeitosa, m as estava nervoso dem ais para um cum prim ento adequado.

Ela o encarou com aqueles olhos que não piscavam . Lucivar detectou um a raj ada de em oção que o deixou ainda m ais nervoso. Por algum a razão, ela achava graça nele.

— Então, você finalm ente veio — disse Draca. Quando Lucivar não respondeu, virou-se para Jaenelle. — É tím ido?

— De j eito algum — disse Jaenelle, com um ar divertido. — Mas acho que está um pouco atordoado. Fizem os um longo tour pela Fortaleza.

— E ainda esstá de pé? — Draca pareceu aprovar.

Lucivar teria apreciado ainda m ais essa aprovação se suas pernas não estivessem trem endo tanto.

— Tem oss visitass. Acadêm icoss. Desej a j antar em particular?

— Sim , obrigada — respondeu Jaenelle.

Draca saiu do cam inho, afastou-se com um a graciosidade cautelosa e antiquíssim a.

— Deixarei que prossigam a visita. — Voltou a encarar Lucivar. — Bem -vindo, Príncipe Yasslana.

Jaenelle o conduziu por outro labirinto de corredores.

— Tem outra pessoa a quem quero apresentá-lo. Até lá, Draca j á terá preparado um quarto de hóspedes para você, com um a banheira de m assagens. Vai ser bom para esses m úsculos tensos das suas pernas. — Estudou o rosto de Lucivar. — Ela o assustou?

Ele havia prom etido ser honesto.

— Sim .

Jaenelle balançou a cabeça, perplexa.

— Todo m undo diz a m esm a coisa. Eu não entendo. É um a pessoa m aravilhosa depois que a conhecem os.

Ele olhou de relance para a Joia Negra que pendia sobre o decote em V da túnica preta e elegante e decidiu que não tentaria lhe explicar.

Após outro lance de escadas e m uitos outros corredores, Jaenelle parou, por fim , em frente a um a porta. Esperava sinceram ente que aquela viagem estivesse term inando. Ao final do corredor, havia um a porta aberta. Do aposento, vinham vozes entusiasm adas e acaloradas, em bora não zangadas. Deviam ser os acadêm icos.

Ignorando as vozes, Jaenelle abriu a porta e eles entraram num a parte da biblioteca da Fortaleza. Um a grande m esa de m adeira escura ocupava um dos lados do am biente. Do outro lado era possível ver cadeiras confortáveis e pequenas m esas. A parede ao fundo era form ada por um a série de grandes arcos. À frente deles, pilhas de dicionários e enciclopédias se estendiam a perder de vista. No arco da extrem idade direita, havia um a porta em butida de m adeira.

— O resto da biblioteca é de referência geral, Arte, folclore e história — disse Jaenelle. — O que qualquer pessoa pode consultar e usar. Estas salas contêm o m aterial de referência m ais antigo, os textos de Arte m ais esotéricos e os registros dos Sangue que só podem ser consultados com a perm issão do Geoffrey.

— Geoffrey ?

— Sim ? — respondeu um a voz calm a e grave.

Era o hom em m ais pálido que Lucivar j á vira. Tinha pele com o m árm ore polido com binada com cabelo preto, olhos pretos, roupa preta e lábios de um verm elho profundo que pareciam tentadores de um j eito enervante. No entanto, havia algo estranho em seu odor psíquico, algo inexplicavelm ente diferente. Com o se o hom em não...

Guardião.

A palavra deixou Lucivar sem ar.

Guardião. Um dos m ortos-vivos.

Jaenelle fez as apresentações. Depois, sorriu para Geoffrey.

— Podem se conhecer m elhor. Quero pesquisar um a coisa.

Geoffrey pareceu angustiado.

— Pelo m enos diga-m e o nom e do volum e antes de sair. Da últim a vez que não consegui inform ar seu pai onde você tinha “pesquisado um a coisa”, ele m e brindou com algum as frases eloquentes que m e fariam corar se eu ainda pudesse.

Jaenelle afagou o om bro de Geoffrey e beij ou-o no rosto.

— Trago o livro aqui e até m arco a página.

— Você é m uito gentil.

Rindo, Jaenelle desapareceu entre os livros.

Geoffrey virou-se para Lucivar.

— Ah, bem . Então você finalm ente veio.

Por que o faziam se sentir com o se os tivesse deixado esperando?

Geoffrey pegou um decantador.

— Aceita um a taça de y arbarah? Ou outra bebida?

Com esforço, Lucivar conseguiu falar:

— Yarbarah seria ótim o.

— Já bebeu y arbarah algum a vez? — perguntou Geoffrey, curioso.

— Em algum as cerim ônias ey rienas — disse. Mas o cálice usado nessas cerim ônias continha apenas um a gota de vinho de sangue. Lucivar reparou, apreensivo, que Geoffrey enchia e esquentava dois copos inteiros.

— É de cordeiro — disse Geoffrey, oferecendo um copo a Lucivar e sentando-se num a cadeira ao lado da m esa.

Agradecido, Lucivar se acom odou num a cadeira em frente a Geoffrey e tom ou um gole do y arbarah. Naquela m istura, havia m ais sangue do que na usada nas cerim ônias ey rienas, e o vinho era m ais encorpado.

— O que acha? — Os olhos pretos de Geoffrey cintilaram .

— É... — Lucivar tentou encontrar algo inócuo para dizer.

— Diferente — sugeriu Geoffrey. — É um gosto que se vai adquirindo. Aqui bebem os por razões diferentes das cerim oniais.

Guardião. Será que o sangue m isturado com o vinho era por vezes hum ano? Lucivar bebeu outro gole e decidiu que não valia a pena perguntar só para m atar a curiosidade.

— Por que você nunca veio à Fortaleza, Lucivar?

Lucivar pousou o copo com cuidado.

— Achei que um bastardo m estiço não seria bem recebido.

— Com preendo — disse Geoffrey, m uito tranquilo. — Mas exceto por aqueles que zelam pela Fortaleza, quem é que tem o direito de decidir quem é bem -vindo e quem não é?

Lucivar forçou-se a encarar Geoffrey.

— Sou um bastardo m estiço — repetiu, com o se isso explicasse tudo.

— Mestiço. — Geoffrey parecia estar considerando a palavra. — Pela form a com o fala, parece pej orativo. Talvez fosse m ais exato pensar em linhagem dupla. — Ele se recostou, balançando o copo de vinho nas m ãos. — Algum a vez lhe ocorreu que, sem essa outra linhagem , você não seria o hom em que é? Que não teria a inteligência e a força que tem ? — Com o copo, indicou a Joia Cinza-Ébano de Lucivar. — Que nunca teria usado essas Joias? A despeito de tudo o que tem de ey rieno, Lucivar, você tam bém é o filho do seu pai.

Lucivar ficou petrificado.

— Você conhece m eu pai? — perguntou, com a voz em bargada.

— Som os am igos há m uitos anos.

Estava ali, à sua frente. Só precisava form ular a pergunta.

Precisou de duas tentativas para conseguir pronunciar as palavras.

— Quem é ele?

— O Príncipe das Trevas — disse Geoffrey, com gentileza. — O Senhor Suprem o do Inferno. É a linhagem de Saetan que corre nas suas veias.

Lucivar fechou os olhos. Não era de adm irar que a paternidade nunca tivesse sido registrada. Quem acreditaria num a m ulher que declarasse ter sido fecundada pelo Senhor Suprem o? E se alguém acreditasse nela, im agine o pânico que causaria. Saetan ainda cam inhava pelos Reinos. Mãe Noite!

Será que Daem on sabia quem era o progenitor deles? Teria ficado satisfeito com esta linhagem paterna.

O pensam ento o atravessou com o um a lança e Lucivar trancou-o a sete chaves.

Pelo m enos ainda tinha certeza de um a coisa. Talvez. Olhou para Geoffrey, tem endo qualquer um a das respostas.

— Ainda assim , continuo sendo um bastardo.

Geoffrey suspirou.

— Fico relutante em puxar o resto do tapete debaixo dos seus pés, m as não, não é. Ele o registrou no dia seguinte ao seu nascim ento. Aqui, na Fortaleza.

Não era bastardo. Eles...

— Daem on? — perguntou em voz alta.

— Tam bém está registrado.

Mãe Noite. Não eram bastardos. Lutou com unhas e dentes, com o se tentasse agarrar terra firm e que se transform ava em areia m ovediça.

— Não faz diferença algum a, j á que ninguém sabe.

— Algum a vez o encoraj aram a se tornar um reprodutor, Lucivar?

Fora encoraj ado, pressionado, encarcerado, castigado, sedado, sovado, forçado. Tinham conseguido usá-lo, m as nunca conseguiram fazê-lo procriar. Nunca tinha conseguido saber se havia algum m otivo físico ou se, de algum a form a, sua própria raiva o m antivera estéril. Várias vezes havia se perguntado por que desej avam tanto a sua sem ente. Sabendo quem era seu pai e a potencial força dos descendentes que produzisse... Sem dúvida teriam vislum brado m uitas situações para que Lucivar gerasse descendentes em assem bleias específicas, casas aristocráticas específicas com linhagens fracas.

Bebeu o y arbarah de um gole. Frio, parecia ter engrossado. Trem endo e engasgando, perguntou-se se vom itaria.

Um pequeno copo e um decantador apareceram .

— Aqui — disse Geoffrey, enchendo o copo rapidam ente e entregando-o a Lucivar. — Acho que uísque é a bebida apropriada para este tipo de abalo.

O uísque purificou sua boca, queim ando sua garganta. Estendeu o copo para m ais um a dose.

Depois de esvaziar o quarto copo, ainda trem ia, m as tam bém se sentia distante e entorpecido. Gostava dessas sensações.

— O que você fez com Lucivar? — perguntou Jaenelle, colocando o livro sobre a m esa. — Pensei que eu fosse a única capaz de deixá-lo assim .

— Distante e entorpecido — m urm urou Lucivar, encostando a cabeça em Jaenelle.

— Estou vendo — respondeu Jaenelle, afagando-o.

Lucivar sentiu-se cercado por um afeto com passivo. Isso tam bém era bom .

— Vam os, Lucivar — disse Jaenelle. — Vou colocar você na cam a.

Não queria que Jaenelle pensasse que quatro insignificantes copos de uísque o abateriam , por isso se levantou.

As últim as recordações antes de com eçar a sentir o aposento se m exer de um j eito im previsível foram o sorriso afável de Geoffrey e a com preensão nos olhos de Jaenelle.

 

4 / Kaeleer

Na m anhã seguinte, Jaenelle havia partido antes de Lucivar acordar, com a cabeça latej ante e agitado. Ao descobrir que ela o deixara na Fortaleza, quase sentiu ódio, acusando-a em silêncio de ser fria, cruel e insensível.

Nos dois dias de ausência de Jaenelle, explorou a Fortaleza e a m ontanha Ebon Askavi. Voltava na hora das refeições, pois assim esperavam que o fizesse, falando apenas quando necessário e retirando-se para o quarto à noite. Os lobos ofereciam um a com panhia silenciosa. Ele os afagava e os escovava. Finalm ente, fez a pergunta que o atorm entava.

Sim , respondeu Fum aça, relutante. Lucivar tinha chorado. Dor de coração. Dor com o se tivesse sido apanhado num a arm adilha. A Senhora o afagara e o afagara, cantara e cantara.

Sendo assim , não fora apenas um sonho.

Num a das paisagens oníricas que as Viúvas Negras teciam tão habilm ente, Jaenelle conhecera o rapaz que ele havia sido antes e retirara o veneno da ferida na alm a. Lucivar chorara pelo rapaz, por tudo o que não lhe tinha sido perm itido fazer, por tudo o que não lhe tinham perm itido ser. Porém , não chorara pelo hom em em que havia se tornado.

— Ah, Lucivar — disse Jaenelle com pesar, enquanto cam inhavam pela paisagem onírica. — Posso curar as cicatrizes do seu corpo, m as não as da alm a. Nem as suas nem as m inhas. Tem de aprender a viver com elas. Tem de decidir superá-las.

Não conseguiu se lem brar de m ais nada do sonho. Talvez fosse de propósito. Por isso, não chorara pelo hom em em que havia se tornado.

 

Lucivar e Jaenelle estavam num a das m uralhas de um dos pátios externos da Fortaleza, contem plando o vale.

Jaenelle m ostrou o povoado em baixo.

— Riada é o m aior povoado de Ebon Rih. Agio fica na extrem idade norte do vale. Doun está localizada na extrem idade sul. Há tam bém diversos povoados de plebeus e várias fazendas, dos Sangue e de plebeus. — Afastou os cabelos despenteados do rosto. — Fora de Doun, há um a grande casa de pedra, cercada por um m uro de pedra. Não há com o errar.

Lucivar aguardou.

— É para lá que vam os? — perguntou, por fim .

— Vou voltar para a cabana. Você vai para essa casa.

— Por quê?

Manteve os olhos fixos no vale.

— Sua m ãe m ora lá.

 

Um a grande casa de pedra, de três andares. Um m uro baixo de pedra separando dois cam pos cultivados das flores silvestres e das ervas. Horta, j ardim de ervas, j ardins de flores, j ardim de pedras. Num canto, um conj unto de árvores que sussurravam “floresta”.

Um lugar sólido que deveria ser acolhedor. Um lugar que não proporcionava conforto. Em oções em conflito, m uito fam iliares, m esm o depois de tanto tem po.

Doces Trevas, não perm ita que sej a ela.

Claro que era ela. E Lucivar se perguntou por que o teria abandonado tão pequeno que nem se lem brava dela e, m ais tarde, tolerado suas visitas quando j á era adolescente, sem dar a entender nem um a única vez que era sua m ãe.

Escancarou a porta da cozinha, m as não entrou. Até transpor a soleira da porta, sua presença não seria notada. Quantas vezes lhe sugerira am pliar o escudo territorial para além das paredes de pedra em que vivia, de m aneira a ficar de sobreaviso caso surgisse algum intruso?

Ela estava de costas para a porta, fazendo algum a coisa sem im portância no balcão. Lucivar a reconhecera, de qualquer form a, pela em blem ática m adeixa branca no cabelo preto e pelos m ovim entos rígidos e irritados.

Entrou na cozinha.

— Olá, Luthvian.

Ela deu a volta, com um a faca de lâm ina com prida na m ão. Ele sabia que não era pessoal. Ela detectara o odor psíquico de um m acho adulto e pegara a faca de m aneira autom ática.

Olhou estupefata para Lucivar, com os olhos dourados cada vez m ais arregalados, m arej ados.

— Lucivar — m urm urou. Deu um passo na direção dele. Depois outro. Em itiu um som engraçado, entre um a gargalhada e um soluço. — Ela conseguiu. Conseguiu m esm o. — Estendeu-lhe os braços.

Lucivar olhou de relance para a faca e não avançou.

A confusão logo se transform ou em fúria e depois em confusão outra vez. Lucivar pôde identificar o m om ento em que Luthvian percebeu que estava apontando um a faca para ele.

Mexendo a cabeça, ela pôs a faca sobre a m esa da cozinha.

Lucivar deu m ais alguns passos.

Os olhos de Luthvian, cheios de lágrim as, percorriam Lucivar não com o um a Curandeira estudando sua Arte de Irm ã, m as com o um a m ulher que se preocupava de verdade. Luthvian colocou um a m ão trêm ula na boca e estendeu-lhe a outra.

Esperançoso, ele agarrou a m ão dela.

E ela m udou. Com o sem pre fazia, com o sem pre tinha feito desde a prim eira vez em que ele aparecera na sua porta, um adolescente m eio anim al vadio, m eio bichinho de estim ação, com as roupas tradicionais de um guerreiro ey rieno. Ele havia aprendido, a duras penas, que a Curandeira Viúva Negra que pensava ser sua am iga não sentia o m esm o por ele depois de ela ter deixado de cham á-lo de “garoto” e de acreditar nisso.

Agora, ao se afastar dele, com os olhos repletos de um a desconfiança prudente, percebeu pela prim eira vez com o era j ovem . A idade e a m aturidade eram traiçoeiras para as raças de longevidade prolongada. Havia um crescim ento rápido seguido de longas estabilizações. A m adeixa branca no cabelo, a perícia na Arte, o tem peram ento e a atitude contribuíram para que Lucivar acreditasse que Luthvian era um a m ulher m adura, que lhe concedia sua com panhia, um a m ulher séculos m ais velha do que ele. Era séculos m ais velha — e m al chegara à idade de conceber e carregar um a criança no ventre até o parto.

— Por que você despreza tanto os m achos ey rienos? — Lucivar perguntou com toda a calm a.

— Meu pai era um deles.

Infelizm ente, não era necessário dar nenhum a explicação m elhor do que esta.

Foi nesse m om ento que a viu fazer o que j á fizera cem vezes antes — m udar sutilm ente a form a com o observava. Era com o se criasse um escudo de visão que fazia com que as asas de Lucivar desaparecessem , deixando-o sem o único atributo físico que distinguia ey rienos de dhem lanos e hay llianos.

Engolindo a raiva e um pouco de m edo, ele puxou um a cadeira e sentou-se com as pernas para os lados.

— Mesm o que eu perdesse as asas, não deixaria de ser um guerreiro ey rieno.

Movim entando-se freneticam ente pela cozinha, Luthvian pegou a faca e guardou-a no suporte das facas.

— Se você tivesse crescido em outro lugar, onde os m achos aprendem a ser hom ens decentes em vez de brutam ontes... — Lim pou as m ãos na cintura. — Mas você cresceu nos cam pos de caça com o os outros. É verdade, m esm o sem as asas não deixaria de ser um guerreiro ey rieno. É m uito tarde para se transform ar em outra coisa.

Lucivar ouviu o rancor, a m ágoa. Ouviu o que não foi dito.

— Se você tinha tanta certeza, por que não fez nada? — Manteve a voz inexpressiva. Seu coração estava se partindo.

Ela olhou para ele, as em oções visíveis em seus olhos. Resignação. Ansiedade. Medo. Puxou um a cadeira para j unto dele e se sentou.

— Não tive escolha, Lucivar — disse, suplicante. — Dar você a Pry thian foi um erro, m as naquele m om ento achei que era a única form a de escondê-lo...

... dele.

Tocou a m ão de Lucivar e afastou-a rapidam ente, com o se tivesse se queim ado.

— Queria m antê-lo em segurança — acrescentou com am argura. Nesse m om ento, a voz se encheu de entusiasm o. — Mas agora você está aqui e podem os ficar j untos. — Mexeu a m ão, silenciando-o antes que ele conseguisse falar. — Ah, eu sei m uito bem que existe a lei da im igração, m as estou aqui há tem po suficiente para ser considerada um a feiticeira de Kaeleer. O trabalho não seria duro e você ficaria com bastante tem po para passear pelos cam pos. Sei que você gosta disso. — Sorriu com um a anim ação exagerada. — Nem precisaria m orar aqui em casa. Poderíam os construir um a pequena cabana aqui perto para você ter sua privacidade.

Privacidade para quê?, perguntou-se Lucivar, com frieza, enquanto a porta interior da cozinha se abria. Sentiu que estava sendo acorrentado e fechado entre as paredes.

— O que você quer, Roxie? — perguntou Luthvian, ríspida.

Roxie observou-o e seus lábios form aram um sorriso e um beicinho.

— Quem é você? — perguntou, observando-o com olhos fam intos.

— Não é da sua conta — retrucou Luthvian com severidade. — Volte j á para seus estudos.

Roxie sorriu para Lucivar, acariciando o decote em V do vestido. Isso fez seu sangue ferver, m as não da form a que a garota im aginava.

Lucivar cerrou os punhos. Desfizera m uitos olhares de m uitos rostos ao longo dos séculos. Em sua voz havia fogo da batalha que m anteve sob controle.

— Tire essa vagabunda daqui antes que eu quebre o pescoço dela.

Roxie arregalou os olhos, horrorizada.

Luthvian levantou-se de repente, j ogou Roxie para fora da cozinha e bateu com a porta.

Leves trem ores percorreram seu corpo.

— Bem , agora entendo por que precisaria de privacidade. E seria algo positivo para a escola, não é? Suas alunas poderiam dispor de um poderoso Príncipe dos Senhores da Guerra. Você poderia garantir aos pais inquietos que suas filhas teriam um a Noite da Virgem segura. Eu nem m e atreveria a lhes proporcionar outra coisa, j á que a feiticeira a que devo servir tem de ser servida a seu bel-prazer.

— Não seria bem assim — insistiu Luthvian, agarrando-se às costas de um a cadeira. — Você tam bém teria vantagens. Fogo do Inferno, Lucivar, você é um Príncipe dos Senhores da Guerra. Precisa de alívio sexual regular para m anter o tem peram ento sob controle.

— Nunca precisei — resm ungou —, e não é agora que vou precisar. Consigo m anter m eu tem peram ento m uito bem controlado... quando quero.

— Então não acho que queira isso com m uita frequência!

— Não, não quero. Muito m enos quando m e levam para a cam a à força.

Luthvian esm agou a cadeira contra a m esa. Cerrou os dentes.

— À força. Ah, claro, é um a tarefa difícil proporcionar algum prazer, não é? À força! Parece...

... o seu pai.

Ele havia suportado seu m au hum or antes, os ataques de fúria. Sem pre tentava ser com preensivo. Continuava tentando agora. O que não entendia era por que o Senhor Suprem o havia desej ado copular e fecundar um a j ovem m ulher perturbada com o esta.

— Me fale sobre o m eu pai, Luthvian.

A cozinha foi inundada pelo desespero e por um a profunda raiva.

— Isso é passado. Acabou. Ele não faz parte das nossas vidas.

— Me fale.

— Ele não nos quis! Não nos amava! Am eaçou cortar seu pescoço no berço se eu não fizesse o que ele queria. — Entre eles havia toda a extensão da m esa. Luthvian estava de pé, trem endo e se abraçando.

Tão j ovem . Tão perturbada. E Lucivar podia aj udá-la. Eles se destruiriam em um a sem ana se tentasse ficar com ela naquela casa.

Luthvian sorriu para ele, vacilante.

— Podem os ficar j untos. Você pode ficar...

— Já sirvo a alguém . — Não pretendia dizer isso de um j eito tão rude, m as era m elhor do que dizer que j am ais aceitaria servi-la.

A vulnerabilidade virou rej eição, a rej eição se transform ou em raiva.

— Jaenelle — disse Luthvian, com um a voz perigosam ente inexpressiva. — Ela tem o dom de controlar os m achos. — Apoiou as m ãos sobre a m esa. — Quer saber sobre seu pai? Pergunte à sua am ada Jaenelle. Ela o conhece m elhor do que j am ais o conheci.

Lucivar deu um salto e ficou de pé, derrubando a cadeira.

— Não.

Luthvian sorriu com um a m alícia satisfeita.

— Cuidado com a form a com o brinca com os brinquedos do seu pai, Principezinho. Ele pode acabar arrancando suas bolas. Não que isso tenha im portância.

Sem desviar o olhar de Luthvian, Lucivar endireitou a cadeira e recuou até a porta da cozinha que dava para a rua. Anos de treinam ento m antiveram -no estável enquanto transpunha a soleira. Mais um passo. Dois.

A porta se fechou na sua cara.

Depois de um m om ento, ouviu pratos partindo-se no chão.

Ela o conhece melhor do que jamais o conheci.

 

No final da tarde, chegou à cabana. Estava suj o, esfom eado e trem endo por causa do cansaço físico e em ocional.

Aproxim ou-se lentam ente, m as não teve coragem de subir para o alpendre onde Jaenelle estava sentada, lendo.

Ela fechou o livro e olhou para ele.

Olhos sábios. Olhos antigos. Olhos perturbados e perturbadores.

Lucivar forçou-se a proferir as palavras.

— Quero conhecer m eu pai. Agora.

Jaenelle o exam inou. Quando respondeu, por fim , sua dócil com paixão infligia um a dor contra a qual Lucivar não tinha defesas.

— Tem certeza, Lucivar?

Não, não tinha certeza!

— Sim , tenho certeza.

Jaenelle perm aneceu sentada.

— Sendo assim , há algo que você deve entender antes de partirm os.

Ele ouviu a advertência subj acente à delicadeza e à com paixão.

— Lucivar, seu pai é tam bém m eu pai adotivo.

Petrificado, olhou-a estupefato, entendendo finalm ente. Poderia aceitar am bos ou rej eitar os dois, m as não lhe seria perm itido servi-la e lutar contra um hom em que j á tinha pretensões em relação ao seu am or.

Ela estava certa ao lhe dizer que havia razões que poderiam levá-lo a não querer ou não conseguir servi-la. Conseguiria lidar com a Fortaleza. Tam bém conseguiria lidar com Luthvian. Mas e com o Senhor Suprem o?

Só havia um a form a de descobrir.

— Vam os — disse Lucivar.

 

5 / Kaeleer

Jaenelle desceu da teia de desem barque.

— Esta é a sede da fam ília.

Lucivar a seguiu, relutante. Alguns m eses antes, cam inhara entre as ruínas do Paço dos SaDiablo em Terreille. As ruínas não preparavam ninguém para este edifício cinza-escuro, com o um a m ontanha. Fogo do Inferno, toda um a corte poderia viver neste local sem que j am ais interferissem na vida uns dos outros.

Foi então que percebeu o significado de Jaenelle viver no Paço. Virou-se para olhá-la com o se nunca a tivesse visto.

Todas as histórias divertidas que lhe contara sobre seu papai adorado e por ela im portunado — era sobre Saetan que falava. O Príncipe das Trevas. O Senhor Suprem o do Inferno. O hom em que havia construído a cabana para ela, aj udado-a a reconstruir a vida. Não conseguia se reconciliar com as im agens conflitantes daquele hom em , assim com o não conseguia reconciliar o Paço com a m ansão senhorial que havia im aginado.

E j am ais se reconciliaria com coisa algum a se ficasse ali parado.

— Anda, Gata. Vam os bater na porta.

A porta se abriu antes de chegarem ao últim o degrau. O hom em corpulento à entrada tinha a expressão estoica e fleum ática de um funcionário de nível superior, m as usava um a Joia Verm elha.

— Olá, Beale — cum prim entou-o Jaenelle, j á entrando.

Os lábios de Beale deixaram entrever um leve indício de sorriso.

— Senhora.

O sorriso desapareceu quando Lucivar entrou.

— Príncipe — disse Beale, fazendo um a reverência com a exata distância e cortesia.

O sorriso indolente e arrogante surgiu de im ediato.

— Lord Beale. — Colocou na voz m ordacidade suficiente para advertir o outro de que não se m etesse com ele, m as nada que expressasse um desafio. Jam ais desafiara um criado em toda a vida. Por outro lado, j am ais conhecera um Senhor da Guerra de Joia Verm elha que fosse m ordom o.

Ignorando as dem onstrações sutis e arrogantes de dom inância, Jaenelle invocou a bagagem e colocou-a no chão.

— Beale? Pode pedir a Helene para preparar um quarto na ala da fam ília para o Príncipe Yaslana?

— Com todo prazer, Senhora.

Jaenelle apontou para o fundo do salão principal.

— E papai?

— Está no escritório.

Lucivar seguiu Jaenelle até a últim a porta à direita, tentando, sem sucesso, pensar em outra razão, além do bom hum or, que j ustificasse o brilho repentino nos olhos de Beale.

Jaenelle bateu à porta e entrou antes de obter resposta. Lucivar seguiu-a de perto e tropeçou quando o hom em que estava de pé, em frente à m esa de m adeira escura, se virou.

Daemon.

Enquanto se entreolhavam , am bos m uito surpresos para reagir, Lucivar assim ilou os detalhes que o diferenciavam daquela im pressão inicial.

O obscuro odor psíquico era sem elhante, em bora houvesse um a diferença sutil. O hom em à sua frente era dois ou três centím etros m ais baixo do que Daem on e m ais esguio, ainda que se m ovesse com a m esm a graciosidade felina. O espesso cabelo preto era grisalho nas têm poras. O rosto — com rugas provocadas pelo riso e tam bém pelo peso dos fardos que carregava — era o de um hom em no fim do seu apogeu ou no m om ento im ediatam ente posterior a seu auge. Mas aquele rosto. Masculino. Belo. O m odelo m ais caloroso e grosseiro da beleza fria e delicada de Daem on. E o toque final — as unhas com pridas pintadas de preto e o anel com a Joia Negra.

Saetan cruzou os braços, encostou-se na m esa e disse, afável:

— Criança-feiticeira, vou esganá-la.

Por instinto, Lucivar cerrou os dentes e deu um passo à frente para proteger sua Rainha.

A aflição adolescente de Jaenelle o fez parar de m aneira abrupta.

— É a sexta vez em duas sem anas e quase não fiquei em casa!

A raiva invadiu Lucivar. Com o o Senhor Suprem o se atrevia a am eaçá-la?!

Mas sua am ada Gata não parecia nem um pouco intim idada, e Saetan parecia se esforçar para m anter um ar sério.

— A sexta vez? — disse Saetan, com a voz profunda ainda afável, m as com ares de diversão.

— Duas vezes por Prothvar, duas vezes por tio Andulvar...

O sangue esvaiu de Lucivar. Tio Andulvar?

— ... um a vez por Mephis e agora você.

Os lábios de Saetan trem eram .

— Prothvar está sem pre disposto a esganá-la, por isso não fico surpreso, e a verdade é que você leva j eito para provocar Andulvar. Mas o que fez para aborrecer Mephis?

Jaenelle enfiou as m ãos nos bolsos das calças.

— Não sei — lam uriou-se. — Ele disse que não podia falar sobre o assunto na m inha presença.

A gargalhada profunda e afetuosa de Saetan tom ou o escritório. Quando seu riso e e o m au hum or de Jaenelle ficaram sob controle, Saetan olhou com um ar cúm plice para Lucivar.

— E im agino que Lucivar nunca tenha am eaçado esganá-la, por isso não entende esse im pulso, m esm o quando não tem os intenção de colocá-lo em prática.

— Ah, não — respondeu Jaenelle. — Ele só am eaça m e bater.

Saetan ficou tenso.

— Perdão? — perguntou com suavidade, friam ente.

Lucivar voltou a se colocar em posição de com bate.

Surpresa, Jaenelle olhou para am bos.

— Vocês vão discutir sobre a palavra quando querem dizer a m esm a coisa?

— Não se m eta, Gata — rosnou Lucivar, observando o adversário.

Rosnando da m esm a form a, Jaenelle lhe deu um soco com tanta fúria que poderia ter quebrado seu m axilar, se ele não tivesse se esquivado.

A luta que se seguiu estava ficando divertida quando Saetan gritou:

— Chega! — Olhou furioso para os dois enquanto se separavam , e em seguida esfregou as têm poras, resm ungando. — Em nom e do Inferno, com o é que vocês dois conseguiram viver j untos e sobreviver?

Fitando Jaenelle com prudência, Lucivar sorriu abertam ente.

— Agora é m ais difícil prendê-la.

— Não exagere — resm ungou Jaenelle.

Saetan suspirou.

— Você podia ter m e avisado, criança-feiticeira.

Jaenelle entrelaçou os dedos.

— Bem , não havia form a de preparar Lucivar, por isso pensei que nenhum dos dois estivesse preparado, com eçariam em pé de igualdade.

Eles olharam boquiabertos para a garota.

Ela sorriu para eles com seu m elhor sorriso.

— Criança-feiticeira, vá aterrorizar outra pessoa agora.

Depois que Jaenelle deslizou para fora do escritório, eles se estudaram .

— Está com um aspecto m uito m elhor do que da últim a vez que o vi — disse Saetan, quebrando o silêncio. — Mas ainda parece prestes a desabar. — Afastou-se da m esa. — Aceita um copo de conhaque?

Dirigindo-se à parte m enos form al do escritório, Lucivar sentou-se em um a cadeira feita para acom odar asas ey rienas e aceitou o copo de conhaque.

— E quando foi a últim a vez que você m e viu?

Saetan sentou-se no sofá e cruzou as pernas. Brincou com o copo de conhaque.

— Pouco depois de Prothvar levá-lo para a cabana. Se ele não estivesse de sentinela nos Dragões Adorm ecidos, se não tivesse conseguido alcançá-lo antes de... — Passou o dedo pela borda do copo. — Acho que você não tem noção da gravidade de seus ferim entos. As lesões internas, os ossos quebrados... as asas.

Lucivar bebeu o conhaque. Não, não tinha noção. Sabia que eram graves, m as ao chegar à Pista de Khaldharon parou de se preocupar com o que lhe poderia acontecer fisicam ente. Se o que Saetan dizia fosse verdade...

— E você deixou um a Curandeira de dezessete anos cuidar de tudo sozinha — disse, esforçando-se para controlar a fúria crescente. — Deixou que ela fizesse todo aquele tratam ento sabendo o que aquilo lhe custaria, e sem um único assistente ou criado para cuidar dela.

Os olhos de Saetan se encheram de raiva, tam bém controlada com rédea curta.

— Eu estava lá para cuidar dela. Estive presente durante todo o tem po em que ela o recom pôs. Estive lá para convencê-la a com er quando ela conseguia. Estive presente para observar a teia durante os períodos de repouso para que ela pudesse dorm ir um pouco. E quando você finalm ente com eçou a despertar do sono regenerador, eu a abracei e lhe dei colheradas de chá com m el, enquanto ela chorava de cansaço e de dor, pois sua garganta estava dolorida de tanto cantar a teia curativa. Vim em bora um dia antes de você despertar, porque você j á tinha m uito coisa para enfrentar, e não era necessário ter tam bém que lidar com igo. Com o você se atreve a im aginar... — Saetan cerrou os dentes.

Estava pisando em terreno perigoso. Talvez houvesse m uitas coisas que ele j á não poderia se dar ao luxo de im aginar.

Lucivar voltou a encher o copo.

— Considerando a gravidade das lesões, não teria sido m elhor dividir o tratam ento entre duas Curandeiras? — Manteve a voz cautelosam ente inexpressiva. — Luthvian é um a vadia tem peram ental a m aior parte do tem po, m as é um a excelente Curandeira.

Saetan hesitou.

— Ela se ofereceu. Não perm iti, por causa das asas.

— Ela as teria rem ovido. — Lucivar sentiu um nó de m edo no estôm ago.

— Jaenelle tinha certeza de que conseguiria reconstruí-las, o que exigiria um tratam ento sistêm ico: apenas um a Curandeira cantando a teia, pois tudo teria de ser atraído para ela. Não poderia haver distrações, hesitações, falta de em penho. Seguindo o m étodo de Luthvian, as duas poderiam curar todo o organism o, com exceção das asas. O m étodo de Jaenelle era tudo ou nada — ou você sairia dali íntegro ou não sobreviveria.

Lucivar podia vê-las — duas m ulheres determ inadas, um a a cada lado da cam a onde repousava seu corpo m utilado.

— Foi você que decidiu.

Saetan esvaziou o copo e voltou a enchê-lo.

— Fui eu que decidi.

— Por quê? Am eaçou cortar m inha garganta no berço. Por que lutar por m im agora?

— Porque é m eu filho. Porém , teria cortado sua garganta. — Era possível ouvir a tensão na voz de Saetan. — Que as Trevas m e aj udem ... Se ela te tivesse cortado suas asas, era o que eu teria feito.

Cortar suas asas. Lucivar sentiu-se agoniado.

— Por que a fecundou?

Saetan pousou o copo e passou as m ãos pelo cabelo.

— Não era m inha intenção. Quando concordei em acom panhá-la na Noite da Virgem , achava, sinceram ente, que j á não era fértil, e ela j urou que havia tom ado a infusão para prevenir a gravidez. Jurou que não estava no seu período fértil. E nunca m e disse que era ey riena. — Levantou os olhos, repletos de sofrim ento. — Eu não sabia, Lucivar, j uro por tudo aquilo que sou, até ver as asas, eu não sabia. No entanto, você é ey rieno de alm a. Alterar sua aparência física não m udaria nada.

Lucivar esvaziou o copo e se perguntou se arriscaria fazer a pergunta. Aquele encontro estava ferindo tanto Saetan quanto a ele m esm o — se não m ais. Mas tinha vindo ali perguntar a fim de que pudesse tom ar um a decisão honesta.

— Você não podia ter estado presente algum as vezes? Mesm o que em segredo?

— Se você tem algum a obj eção a fazer por eu não ter participado da sua vida, é a sua m ãe que deve culpar. Foi um a opção dela, não m inha. — Saetan fechou os olhos. Os dedos apertaram o copo. — Por razões que nunca consegui explicar racionalm ente nem a m im m esm o, concordei que tentaria fecundar um a Viúva Negra para trazer de volta um a linhagem poderosa e negra às raças de longevidade prolongada. Dorothea foi a escolha da Am pulheta hay lliana, m as não a m inha. — Hesitou. — Você conhece Tersa?

— Sim .

— Um a feiticeira extraordinariam ente talentosa. Dorothea j am ais teria conseguido o dom ínio que tem hoj e sobre Terreille se Tersa tivesse sobrevivido à Noite da Virgem . Tersa foi a m inha escolha. E Tersa engravidou.

De Daemon. Daem on saberia disso, teria algum dia sequer im aginado?

— Algum as sem anas depois, ela m e pediu para acom panhar um a am iga na Noite da Virgem , um a j ovem Viúva Negra com forte potencial que, sem o m eu auxílio, acabaria quebrada e estilhaçada. Eu ainda era capaz de prestar esse tipo de serviço e não negaria nada a Tersa, desde que fosse razoável. Todos se dispunham a receber Tersa nessa época. Ninguém queria que ficasse estressada, arriscando-se a abortar, pois não haveria um a segunda chance.

“Algum as sem anas depois de acom panhar Luthvian na Noite da Virgem , ela m e disse que estava grávida. Na propriedade havia um a casa vazia, a cerca de um quilôm etro e m eio do Paço. Insisti para que Luthvian e Tersa vivessem ali, com o alternativa à corte de Dorothea. Tersa não era m uito m ais velha do que Luthvian, m as seus conhecim entos eram m ais abrangentes, sobretudo no que dizia respeito a Guardiões. Ela ficava satisfeita com a com panhia que eu lhe fazia. Luthvian era m ais suscetível e descobrira os prazeres da cam a. Ansiava por sexo. Durante algum tem po, consegui dar a ela o tipo de intim idade que queria. Quando não pude m ais, ela perdeu o interesse. No entanto, depois de se recuperar do parto, o desej o ardente voltou. Nessa época, eu conseguia satisfazê-la de outras form as, m as não do j eito pelo qual ela ansiava.

“Entre as discussões sobre educar você em Dhem lan — com o ela queria — ou em Askavi — que eu acreditava ser o lugar adequado — e a m inha incapacidade sexual, nossa relação se deteriorou a tal ponto que, quando ela com eçou a ouvir m eias-verdades sobre os Guardiões, resolveu acreditar.

“Dorothea sabia escolher o m om ento certo de pôr seus planos em prática. Com a aj uda de Pry thian, perdi os dois. Num dia, perdi os dois.”

Não Luthvian. Daem on.

Saetan estrem eceu ao suspirar.

— Lucivar, se lhe serve de consolo, nunca lam entei sua existência. Lam entei o sofrim ento a que foi subm etido, m as nunca você. E estou m uito feliz que tenha sobrevivido.

Sem conseguir pensar em algo para dizer, Lucivar assentiu com a cabeça.

Saetan hesitou.

— Se puder, responda-m e um a coisa?

Lucivar sabia o que Saetan estava prestes a perguntar. Não tinha certeza sobre o que pensava do hom em que lhe tinha dado a vida, m as, pelo m enos neste m om ento, podia enxergar além dos títulos e do poder e ver o hom em que perguntava por um dos seus filhos.

Fechou os olhos e disse:

— Ele está no Reino Distorcido.

Saetan estava deitado no sofá do escritório, desesperadam ente satisfeito por estar sozinho.

Tudo tem um preço.

Mas não esperava que fosse tão alto.

Os rem orsos de nada serviam . E a culpa, tam pouco. O dever prim ordial de um Príncipe dos Senhores da Guerra é para com sua Rainha. Mas Daem on...

Fragm entos de m em órias lhe vieram à cabeça, atorm entando seu coração.

Tersa no fim da gravidez colocando a m ão de Saetan na sua barriga.

O círculo constante de raiva e de apetite sexual de Luthvian.

Daem on em seu colo enquanto lia para ele um a história de ninar.

Lucivar voando pela sala, rindo contente e fora do alcance de Saetan.

Jaenelle virando o escritório de pernas para o ar na prim eira vez em que tentou lhe ensinar a usar a Arte para deslocar os sapatos.

A loucura de Tersa. A fúria de Luthvian.

Lucivar deitado na cam a da cabana, com o corpo dilacerado.

Daem on no chão do Altar de Cassandra, com a m ente tão fragilizada.

Jaenelle ascendendo do abism o depois de dois anos terríveis.

Fragm entos. Com o a m ente de Daem on.

O que explicava por quê, durante as buscas m inuciosas que em preendera nos últim os dois anos, não tinha conseguido encontrar o filho, que era com o um reflexo seu. Havia procurado no lugar errado.

Um rem orso, tão inútil com o qualquer outro, entranhou-se nele.

Poderia encontrar Daem on, m as a única pessoa que sem dúvida poderia tirá-lo do Reino Distorcido era Jaenelle. E Jaenelle era a única pessoa que não poderia saber o que ele pretendia fazer.