A Herdeira das Sombras
Capítulo Onze
1 / Kaeleer
Enquanto esperava o j antar, Saetan voltou a sentir o estôm ago em brulhado.
Jaenelle estava em casa há um a sem ana, acom panhando Lucivar na adaptação à fam ília — e acom panhando a fam ília na adaptação a Lucivar —, quando chegou um a carta incisiva do Conselho das Trevas, recordando que a garota não concluíra a visita à Pequena Terreille.
Ele não entendeu o com entário enigm ático de Lucivar — “Joelhos ou ossos, Gata” —, m as Jaenelle saiu do Paço, furiosa, cuspindo palavrões em ey rieno, e Lucivar exibiu um a satisfação som bria.
Passaram -se três dias.
Naquela m esm a tarde, ela voltara de repente, resm ungado para Beale:
— Diga a Lucivar que usei o j oelho.
Em seguida, fechou-se no quarto.
Transtornado, Beale inform ara Saetan do retorno de Jaenelle e da observação dirigida a Lucivar, acrescentando que a Senhora parecia adoentada.
Jaenelle sem pre ficava com um ar adoentado depois das visitas à Pequena Terreille. Ele ainda não conseguira fazê-la explicar por que isso acontecia. O que a garota contava sobre as atividades de que participara não explicava seu olhar cansado e perturbado, a perda de peso, as noites agitadas que se seguiam e a falta de apetite.
A única pessoa além de Beale que vira Jaenelle após seu retorno foi Karla. E Karla, de olhos m arej ados e angustiada, provocara um a briga com a única pessoa que corresponderia: Lucivar.
Depois de suportar um m onólogo cruel sobre m achos, Lucivar arrastara a garota para o cam po e lhe entregara um bastão ey rieno, deixando que tentasse acertá-lo. Instigou-a e atorm entou-a até que os m úsculos e as em oções da garota cederam . Ele não dera qualquer explicação para aquilo, e a fúria em seu olhar advertia todos que não lhe perguntassem .
A porta da sala de j antar se abriu. Andulvar, Prothvar e Mephis j untaram -se a Saetan, a preocupação estam pada nos olhares dispensava palavras.
Karla chegou um m inuto depois, m ovendo-se com rigidez. Lucivar entrou logo atrás e passou o braço ao redor dos om bros dela — o que, por incrível que pareça, não provocou um acesso de m au hum or — e a aj udou a se sentar.
Beale entrou, parecendo tão tenso quanto Saetan.
— A Senhora inform a que não poderá j antar com vocês.
Lucivar puxou a cadeira à direita de Saetan.
— Diga à Senhora que ela se j untará a nós para o j antar. E que pode descer com os próprios pés ou sobre m eus om bros. A escolha é dela.
Beale arregalou os olhos.
Um ligeiro resm ungo de desaprovação veio, inesperadam ente, de Mephis.
A sala em anava perigo.
Com a intenção de evitar o confronto que se anunciava entre os hom ens da fam ília, Saetan acenou para Beale em apoio a Lucivar.
Beale se retirou às pressas.
Lucivar se recostou na cadeira e esperou.
Passados alguns m inutos, Jaenelle apareceu, com o rosto pálido, exceto pelas m anchas escuras em baixo dos olhos.
Com o sorriso indolente e arrogante, Lucivar puxou a cadeira a seu lado e aguardou.
Jaenelle engoliu em seco.
— D-desculpa. Não consigo.
Foi rápida. Lucivar foi m ais rápido ainda.
Atordoados, observaram em silêncio enquanto Lucivar arrastava-a para seu lugar à m esa e largava-a na cadeira. No m esm o instante, ela deu um salto, batendo no punho que Lucivar m antinha sobre sua cabeça. Aturdida, ela não protestou quando ele em purrou sua cadeira para a frente e sentou-se a seu lado.
Saetan tam bém se sentou, dividido entre a preocupação com Jaenelle e o desej o de tratar Lucivar com o m esm o tipo de afeto.
Andulvar, Prothvar e Mephis tom aram seus lugares, indignados. Se Lucivar reparou na fúria que dirigiam a ele, ignorou-a.
A arrogância de não reconhecer a desaprovação dos m achos da m esm a categoria ou de um a categoria m ais escura exasperava Saetan, m as ele segurou a língua e o tem peram ento. Mais tarde, teria tem po para soltá-los.
— Você vai com er — disse Lucivar, com calm a.
Jaenelle olhava fixam ente para a frente.
— Não consigo.
— Gata, se tiverm os de j ogar a sopa no chão para você poder vom itar na tigela, é isso que vam os fazer. Mas você vai com er.
Jaenelle rosnou.
Um criado pálido e trêm ulo entrou com a sopa.
Lucivar serviu um a concha cheia na tigela de Jaenelle, m as encheu a sua até o m eio. Pegou a colher e esperou.
O resm ungo de Jaenelle se intensificou ao pegar a colher com relutância.
Depois de olhar para Lucivar com os olhos sem icerrados e um ar reflexivo, Karla fez um a pergunta sobre um a lição de Arte na qual estava trabalhando.
Mephis respondeu, e a discussão se prolongou por todo o prim eiro prato.
Jaenelle com eu um a colher de sopa.
Andulvar m udou de posição na cadeira, e foi possível ouvir o ruído de suas asas.
Saetan olhou de relance para ele, advertindo-o para que ficasse quieto. Detectara o cheiro da raiva fem inina. Detectara a atenção de Lucivar centrada em Jaenelle e a fúria crescente da garota, algo que Lucivar conseguia provocar com um a facilidade assustadora.
Quando veio o segundo prato, Lucivar pegou com ida para ela, incitou-a, desarm ou seu autocontrole.
— Fígado? — perguntou Lucivar.
— Só se for o seu — vociferou ela, com os olhos brilhando de m odo singular.
Lucivar deu um sorriso vago.
No final do segundo prato, Jaenelle estava a ponto de explodir, e Saetan não entendia o m otivo da provocação.
Até o prato de carne.
Lucivar pôs um pedacinho de costeleta no prato de Jaenelle e serviu-se de duas grandes porções.
Jaenelle olhou para a carne m acia, rosada no m eio, por um longo m om ento. Depois, pegou a faca e o garfo e com eçou a com er com extrem a voracidade. Quando a carne desapareceu, virou-se para a direita e olhou para o prato de Karla.
A garota ficou lívida.
Quando Jaenelle se virou para a esquerda, e Saetan conseguiu ver claram ente os seus olhos, percebeu que Lucivar transform ara a refeição em um a dança violenta e brilhantem ente coreografada, cuj o intuito era trazer à tona o lado predador da Feiticeira.
Por fim , Jaenelle centrou as atenções no prato de Lucivar. Rosnando baixinho, lam beu os lábios e ergueu o garfo.
Com m ovim entos lentos e deliberados, Lucivar passou a segunda costeleta para ela.
Jaenelle espetou o garfo na carne e arreganhou os dentes para Lucivar.
Ele recolheu os talheres e as m ãos e retom ou a refeição calm o, enquanto Jaenelle devorava a carne.
Na hora da fruta e do queij o, a atenção de Jaenelle estava inteiram ente centrada em Lucivar e nas ofertas de com ida que ele fazia. Ao segurar a últim a uva, ela a encarou por um m om ento, torceu o nariz e se recostou com um suspiro de satisfação.
E a criança-m ulher que Saetan conhecia e am ava retornou.
Pela prim eira vez desde o início da refeição, Lucivar olhou para os outros hom ens sentados à m esa. Saetan sentiu um a profunda com paixão pelo filho, que tinha olhos dourados cansados pela batalha.
Durante o café, Lucivar respirou fundo e virou-se para Jaenelle.
— Aliás, você m e deve um anel.
— Que anel? — perguntou Jaenelle, desconcertada.
— O equivalente em Kaeleer ao Anel de Obediência.
Jaenelle se engasgou com o café.
Lucivar deu batidinhas em suas costas até ela fulm iná-lo com os olhos m arej ados. Sorriu.
— Você diz, ou digo eu?
Jaenelle olhou para os hom ens que com punham sua fam ília. Deu de om bros e disse, baixinho:
— Para preencher os requisitos de im igração, Lucivar m e servirá pelos próxim os cinco anos.
Desta vez, foi Saetan quem se engasgou.
— E? — incitou-a Lucivar.
— Vou pensar em algum a coisa — disse Jaenelle, irritada. — Em bora não consiga entender por que você quer usar um desses Anéis.
— Estive pesquisando durante sua ausência. Os m achos têm que usar um Anel Dom inador com o um dos requisitos de im igração.
Jaenelle deixou escapar um suspiro irritado.
— Lucivar, será que existe alguém tão insensato a ponto de lhe pedir que prove que está usando um ?
— Esse Anel é prova física de que sirvo a você, e eu o desej o.
Jaenelle deu um a olhadela suplicante para Saetan, que a ignorou.
— Muito bem . Vou pensar em algum a coisa — resm ungou, em purrando a cadeira. — Eu e Karla vam os dar um passeio.
Karla, controlando-se com um a rapidez superior à dos hom ens, levantou-se gem endo e arrastou-se atrás de Jaenelle.
Andulvar, Prothvar e Mephis logo encontraram m otivos para sair.
Assim que o conhaque e o y arbarah foram trazidos à m esa, Saetan dispensou os criados, com um a satisfação som bria pela im paciência em voltar à ala dos em pregados. Eles não com entavam nada com pessoas de fora, Beale e Helene certificavam -se disso, m as só um tolo poderia pensar que não conversavam entre si. A chegada de Lucivar provocara um grande rebuliço. Lucivar a serviço da Senhora...
Se hoj e fosse um a am ostra do que os esperava, seriam cinco anos interessantes — e m uito longos.
— Esse seu j ogo é m uito intrigante — disse Saetan, calm o, esquentando um copo de y arbarah. — E perigoso.
Lucivar deu de om bros.
— Não é assim tão perigoso se não pressioná-la além da fúria superficial.
Saetan exam inou a expressão cautelosam ente neutra de Lucivar.
— Mas você entende quem , e o quê, j az sob essa fúria superficial?
Lucivar sorriu, cansado.
— Sei quem ela é. — Deu um gole no conhaque. — Você não aprova que eu a sirva, não é?
Saetan fez o copo rolar entre as m ãos.
— Em três m eses você fez m ais pela saúde física e em ocional dela do que eu fui capaz em dois anos. Isso é um pouco perturbador.
— Os alicerces que você fundou são m ais fortes do que im agina. — Lucivar sorriu. — Além disso, um pai deve ser forte, solidário e protetor. Os irm ãos m ais velhos, por outro lado, são chatos por natureza e tendem a ser valentões superprotetores.
Saetan sorriu.
— Você é um valentão superprotetor?
— É o que sem pre m e dizem , com m uita veem ência.
O sorriso de Saetan desapareceu.
— Tenha cuidado, Lucivar. Há cicatrizes em ocionais profundas que você não conhece.
— Sei da violação. E de Briarwood. Quando se sente pressionada dem ais, ela fala durante o sono. — Lucivar voltou a encher o copo e se deparou com o olhar gélido de Saetan. — Dorm i com ela. Não m ontei nela.
Dorm iu com ela. Saetan m anteve a fúria sob controle enquanto exam inava m inuciosam ente as im plicações daquela afirm ação. Confrontou-a com a extensão de contato físico que Jaenelle perm itia sem recuar para aquele gelado vazio em ocional que sem pre assustava todos os que a cercavam .
— Ela não se opôs? — perguntou, com cautela.
Lucivar bufou.
— É claro que se opôs. Que m ulher não se oporia, depois de ter sido tão m achucada? Porém , se opôs m ais ainda a ver seu paciente dorm ir diante da lareira, e eu m e opus com a m esm a veem ência diante da ideia de ver a Curandeira que salvou m inha vida dorm ir diante da lareira. Por isso, chegam os a um acordo. Eu não m e queixaria do j eito que ela m onopolizava os travesseiros, enrolava os cobertores, ocupava m ais do que o lado dela da cam a, produzia aqueles sons bonitinhos que não cham am os de ronco, não im porta com o soarem , e resm ungava com tudo e todos até beber a prim eira xícara de café. E ela não se queixava da form a com o eu m onopolizava os travesseiros, enrolava os cobertores, ocupava m ais do que a m inha m etade da cam a, fazia sons esquisitos que a acordavam e que paravam no m om ento em que ela acordava, e tendia a ser exageradam ente bem -disposto pela m anhã. E am bos concordam os que nenhum de nós queria o outro para fazer sexo.
O que, para Jaenelle, teria feito toda a diferença.
— Você presta atenção especial a quem im igra para Kaeleer? — perguntou Lucivar, de repente.
— Não m uita — respondeu Saetan, com cautela.
Lucivar exam inou o conhaque.
— Você não saberia se um hay lliano cham ado Greer chegasse, não é?
A pergunta congelou Saetan.
— Greer está m orto.
Lucivar fixou o olhar na parede da sala de j antar.
— Com o Senhor Suprem o do Inferno, você poderia m arcar um a reunião, não é?
Por que Lucivar estava se esforçando para m anter a respiração regular?
— Greer está morto, não é um habitante do Reino das Trevas.
O m axilar de Lucivar se retesou.
— Merda.
Saetan cerrou os dentes. Doces Trevas, o que Lucivar tinha a ver com Greer?
— Por que tanto interesse nele?
Lucivar cerrou os punhos com força.
— Foi o canalha que violou Jaenelle.
A raiva de Saetan explodiu. As j anelas da sala de j antar se estilhaçaram . Fendas se abriram ao longo do teto. Com um a enxurrada de palavrões, ele redirecionou a energia para o cam inho da entrada da frente, transform ando o cascalho em pó.
Greer. Outra ligação entre Hekatah e Dorothea.
Saetan afundou as unhas na m esa, rasgando a m adeira, num exercício inútil, j á que o que queria dilacerar era carne.
A tradição era forte dem ais. Malditas fossem as Trevas, era forte dem ais. Não podia m atar um a feiticeira a sangue-frio. E, se fosse quebrar o código de honra sob qual vivera a vida inteira, deveria tê-lo feito cinco anos antes, quando teve a chance de fazer diferença, quando teve a chance de salvar Jaenelle. Não agora, que ela j á estava m arcada pelas cicatrizes. Não agora, pois nada m udaria.
Duas m ãos agarraram seus pulsos. Apertaram . Apertaram um pouco m ais.
— Senhor Suprem o.
Devia ter despedaçado aquele canalha na prim eira vez que ele perguntou por Jaenelle. Devia ter triturado a m ente dele. Qual era o seu problema? Tinha se tornado m uito subm isso, m uito dócil? Qual era sua intenção ao aplacar aqueles tolos insignificantes do Conselho das Trevas, aqueles que estavam m agoando sua filha, sua Rainha?
— Senhor Suprem o.
E quem era aquele tolo que se atrevia a pôr as m ãos no Príncipe das Trevas, o Senhor Suprem o do Inferno? Já chega. Já chega.
— Pai.
Saetan inspirou, esforçando-se para controlar a m ente. Lucivar. Lucivar estava prendendo suas m ãos na m esa.
Batidas fortes soaram na porta.
— Saetan! Lucivar!
Jaenelle. Doces Trevas, não. Não podia vê-la neste m om ento.
— SAETAN!
— Por favor — sussurrou. — Não perm ita que ela...
A porta se estilhaçou.
— Saia, Gata — disse Lucivar, ríspido.
— O que...
— SAIA!
A voz de Andulvar.
— Suba, garota. Nós cuidam os disto.
Vozes discutiam , desapareciam .
— Yarbarah? — perguntou Lucivar, depois de um longo e tenso silêncio.
Saetan estrem eceu, balançou a cabeça. Se sentisse o sabor de sangue antes de se acalm ar, acabaria desej ando quente, direto das veias.
— Conhaque.
Lucivar colocou um copo em sua m ão.
Saetan engoliu a bebida de um só gole.
— Você devia ter saído daqui.
Lucivar ergueu o copo com a m ão pouco firm e e sorriu, vacilante.
— Tenho um pouco de experiência em lidar com a Negra. Pensando bem , você não é assim tão perigoso. Daem on sem pre m e assustava m uito quando ficava irritado. — Esvaziou o copo e voltou a enchê-lo. — Espero que não tenha redecorado este aposento recentem ente. Vai precisar refazer, m as não acho que o teto vá desabar.
— De qualquer form a, as garotas não gostavam m esm o do papel de parede.
— Dez boas razões para controlar a fúria. Dez boas razões para libertá-la. E sem pre, sem pre, para os m achos dos Sangue com o ele, a tênue linha na qual era preciso cam inhar para m anter o equilíbrio entre dois instintos conflitantes. — As Harpias executaram Greer — revelou de repente. — Elas têm um a sensibilidade diferente para esse tipo de situação.
Lucivar concordou.
Estabilidade. Precisaria de estabilidade nos próxim os dias.
— Lucivar, tente convencer Jaenelle a lhe m ostrar Sceval. Você devia conhecer Kaetien e os outros unicórnios.
Lucivar observou-o com atenção.
— Por quê?
— Tenho assuntos a tratar. Preciso ficar na Fortaleza em Terreille por alguns dias e preferia não ter Jaenelle por perto fazendo perguntas ou querendo saber do m eu paradeiro.
Lucivar refletiu por um m om ento.
— Acha que vai conseguir?
Saetan suspirou, cansado.
— Não vou saber se não tentar.
2 / Terreille
Saetan prendeu o anel de Joia Negra no centro da enorm e teia em aranhada com cuidado. Passara dois dias pesquisando os arquivos da Am pulheta de Geoffrey para descobrir a resposta. Levara m ais dois dias para construir a teia. Concedera-se dois outros dias tensos para descansar e reunir, lentam ente, as forças.
Draca não dissera nada quando ele solicitou um quarto de hóspedes e um a sala de trabalho na Fortaleza de Terreille, m as cedera um a sala com dim ensão suficiente para conter a teia em aranhada. Geoffrey nada dissera sobre os livros solicitados, em bora tivesse acrescentado alguns outros de que Saetan não tinha se lem brado.
Saetan respirou fundo. Chegara o m om ento.
Um a Viúva Negra precisava de contato físico para guiar alguém para fora do Reino Distorcido. No entanto, os laços de sangue às vezes eram capazes de ultrapassar fronteiras que seriam im possíveis de atravessar de outra form a, e ninguém possuía um a ligação m ais forte com Daem on do que Saetan. A ligação de um pai com o filho. Mais do que isso, o vínculo daquela noite no Altar de Cassandra.
E o Sangue há de cantar ao Sangue.
Espetando o dedo, Saetan deixou cair um a gota de sangue em cada um dos quatro fios de apoio que prendiam a teia à estrutura de m adeira. O líquido escorreu pelos fios de cim a e subiu pelos fios de baixo. Ao atingir o anel, Saetan tocou a Joia Negra de leve, cobrindo-a de sangue.
A teia se ilum inou. Saetan entoou o feitiço para abrir a paisagem onírica que o levaria àquele que procurava.
Um a paisagem atorm entada, repleta de sangue e de cálices de cristal estilhaçados.
Respirando fundo m ais um a vez, Saetan concentrou os olhos no anel de Joia Negra e iniciou a viagem interior até a loucura.
*Daemon.*
Ergueu a cabeça.
As palavras em círculo aguardavam por ele. As m argens da pequena ilha desm oronaram um pouco.
* * Daemon.
Conhecia aquela voz. Você é meu instrumento.
* * Daemon!
Olhou para cim a. Estendeu-se no chão m ole.
Um a m ão pairava sobre ele, tentando alcançá-lo. Um a m ão de pele m orena clara, com unhas com pridas pintadas de preto. Um pulso surgiu. Parte de um antebraço se esforçava para alcançá-lo.
Conhecia aquela voz. Conhecia aquela m ão. Odiava-as.
*Daemon, me dê a sua mão. Posso lhe mostrar o caminho de volta.*
As palavras mentem. O sangue, não.
A m ão trem eu com o esforço de alcançá-lo.
*Daemon, me deixe ajudá-lo. Por favor.*
Estavam separados por centím etros. Só precisava levantar a m ão e poderia sair da ilha.
Os dedos se contraíram .
*Daemon, confie em mim. Posso ajudá-lo.*
Sangue. Tanto sangue. Um m ar de sangue. Iria se afogar nele. Por ter confiado um a vez naquela voz, tinha feito algo... tinha...
*MENTIROSO!*, gritou. *Jamais confiarei em você!*
*Daemon.* Uma súplica angustiada.
*JAMAIS!*
A m ão com eçou a desaparecer.
Daem on foi invadido pelo m edo. Não queria ficar sozinho naquele m ar de sangue rodeado por palavras que queriam cortá-lo. Queria agarrar aquela m ão com toda a força. Desej ava as m entiras que pudessem abrandar aquela dor por alguns m om entos.
Mas devia esta dor a alguém , pois fizera algo...
Carniceiro filho da puta.
Aquela voz, aquela m ão o tinham levado a m achucar alguém . No entanto, doces Trevas, com o desej ava confiar, com o desej ava se agarrar.
*Daemon.* Um som sussurrado.
A m ão se dissipou, desapareceu.
Esperou.
As palavras giravam em volta. A ilha desm oronou um pouco m ais.
Aguardou. A m ão não voltou.
Estendeu-se no chão m ole e chorou de alívio.
Saetan caiu de j oelhos. Os fios da teia em aranhada estavam negros e se desfazendo. Pegou o anel que caía do centro da teia e colocou-o no dedo.
Tão perto. À distância de um a m ão, no m áxim o. Um m om ento de confiança. Bastava isso para iniciar a viagem para longe daquele sofrim ento e daquela loucura.
Bastava isso.
Estendendo-se no chão frio, Saetan apoiou a cabeça nos braços e chorou lágrim as am argas.
3 / Kaeleer
Saetan olhou para Lucivar e balançou a cabeça.
— Bem — com eçou Lucivar, com a voz tensa —, pelo m enos você tentou. — Um m inuto depois, acrescentou: — Estão cham ando você na cozinha.
— Na cozinha? Por quê? — perguntou Saetan, enquanto Lucivar o conduzia para o território incontestado da Sra. Beale.
O outro sorriu e pousou um a m ão am iga no om bro de Saetan.
O gesto lhe deu um m au pressentim ento.
— Com o foi a viagem ?
— Viaj ar com a Gata é sem pre um a aventura.
— Vou m esm o querer saber do que se trata?
— Não — respondeu Lucivar anim ado —, m as m esm o assim vai acabar sabendo.
Jaenelle estava sentada de pernas cruzadas no chão da cozinha. Um cachorrinho de Scelt m arrom e branco pulava diante dela. No seu colo havia um grande e branco... gatinho?
— Olá, papai — cum prim entou Jaenelle, subm issa.
*Papai*, disse o cachorro. Vendo que Saetan não respondia, o cachorro olhou para Jaenelle. *Papai?*
— Parentes. — Saetan pigarreou. Sua voz ganhou o tom grave de um barítono. — Os sceltas são parentes?
— Nem todos — disse Jaenelle, defensiva.
— Mais ou m enos na m esm a proporção dos Sangue em relação aos plebeus — respondeu Lucivar, com um grande sorriso. — Você está aceitando isso m uito m elhor que Khardeen. Ele se sentou no m eio da estrada e ficou histérico. Tivem os que arrastá-lo para um canto, para não ser atropelado por um a carroça.
Um a risadinha abafada veio do balcão onde a Sra. Beale cortava um pedaço de carne com esforço.
— E bastou essa pequena explicação para que os hum anos finalm ente entendessem por que alguns sceltas am adurecem tão tarde e possuem expectativa de vida m ais longa — acrescentou Lucivar, com um a j ovialidade irritante. — Depois de Ladvarian esclarecer que a Gata lhe pertencia...
*Minha!*, interrompeu o cachorro.
O gatinho ergueu um a pata branca enorm e e peluda e derrubou o cachorro.
*Nossa!*, disse o cachorro, contorcendo-se para sair de debaixo da pata.
— ... preparam os um sedativo potente para o Senhor da Guerra, que acabara de descobrir que sua cadela era tam bém um a Sacerdotisa.
— Mãe Noite. — Saetan desviou a conversa para um fio m asculino Verm elho.
*Por que um scelta macho teria um nome com a terminação feminina ey riena?*
*Ele disse que se chamava assim. Quem sou eu para perguntar?*
— Depois — prosseguiu Lucivar —, Khary nos arrastou para Tuathal a fim de que visitássem os Lady Duana, que fez alguns com entários m ordazes sobre não ter sido inform ada da existência de parentes no seu Território.
Sim , estava certo de que a Rainha de Scelt fizera alguns com entários, e que teria m ais a fazer para ele.
Jaenelle escondeu o rosto no pelo do gatinho.
Lucivar, m aldita fosse sua alm a, parecia apreciar aquele m om ento, agora que podia j ogar o problem a para cim a de alguém .
Com o Jaenelle não estava participando da conversa, Lucivar prosseguiu a narrativa.
— Na discussão acalorada que se seguiu, tam bém descobrim os que há duas raças de equídeos que são parentes.
Saetan cam baleou. Lucivar o conteve.
Os sceltas eram cavaleiros notáveis. As fam ílias de Khary e de Morghann, em especial, eram entusiastas de cavalos.
— Im agine a surpresa quando descobriram que os cavalos podiam lhes responder — disse Lucivar.
Saetan se aj oelhou ao lado de Jaenelle. Pelo m enos, se desm aiasse agora, j á não cairia tão longe.
— E o nosso Irm ão felino?
Os dedos de Jaenelle apertaram com força o pelo do gatinho. Seu olhar era obscuro e perigoso.
— Kaelas é arceriano. E órfão. A m ãe dele foi m orta por caçadores.
Kaelas. No Idiom a antigo significava “m orte branca”. Indicava um tipo de tem pestade de neve que chegava sem avisar — repentina, violenta e m ortífera.
Outra vez, Saetan voltou a conversa para um fio m asculino.
*Imagino que ninguém tenha lhe dado esse nome.*
*Não, senhor*, respondeu Lucivar.
Saetan não apreciou a prudência com edida no tom de Lucivar. Estendeu a m ão para fazer festa no gatinho.
Kaelas tentou lhe dar um a patada.
— Ei! — disse Jaenelle rispidam ente. — Não se deve bater no Senhor Suprem o.
Kaelas rosnou, revelando dentes de leite im pressionantes. As garras tam pouco podiam ser ignoradas.
— Aqui, docinho — disse a Sra. Beale, em um tom carinhoso, colocando duas tigelas no chão da cozinha. — Carninha e leitinho m orno.
Saetan fitou a cozinheira. Esta a m esm a m ulher que o confrontava sem pre que os filhotes de lobo perseguiam os coelhos pela horta? Olhou, então, para a tigela de carne cortada e franziu a sobrancelha.
— Essas não eram as carnes frias que você ia servir no alm oço?
A Sra. Beale fulm inou-o com o olhar. Lucivar deu um prudente passo atrás.
Deixando a cozinha para a Sra. Beale e seus afazeres, Saetan foi para seus aposentos. Lucivar o acom panhou.
— O cachorro é bonitinho — disse. Se aquilo era o m elhor elogio que conseguia fazer, sem dúvidas precisava descansar.
— Não se deixe enganar pelos encantos dele — respondeu Lucivar, calm o. — É um Senhor da Guerra, dentro daquela cabecinha peluda há um a inteligência sagaz. Se com binada com um enorm e Príncipe dos Senhores da Guerra predador, eis aí um a parceria que deve ser tratada com todo o cuidado.
Saetan parou à porta de seus aposentos.
— Lucivar, os gatos arcerianos podem atingir que tam anho?
O outro deu um sorriso.
— Digam os que você devia com eçar logo a colocar feitiços de reforço na m obília.
— Mãe Noite — m urm urou Saetan entre dentes, cam inhando aos tropeções até a cam a. A papelada sobre a m esa podia esperar. Não precisava procurar problem as.
Estava prestes a dorm ir quando sentiu que era observado. Virando-se na cam a, piscou ao ver Ladvarian e Kaelas. Bufou. Alguém j á tinha ensinado Ladvarian a cam inhar pelo ar. É verdade que ele balançava um pouco, m as, no fim de contas, era apenas um filhote.
Gem endo, Saetan voltou à posição inicial, na esperança de que eles fossem em bora.
Dois corpos pousaram na cam a.
Bem , não precisava se preocupar em rolar para cim a do scelta. Não se atrevia a virar para os lados com Kaelas j unto às suas costas, a não ser, talvez, para o chão.
E onde estava Jaenelle?
A Senhora, disseram , estava tom ando banho. Eles queriam tirar a sesta. Já que papai Senhor Suprem o tam bém tiraria a sesta, podiam lhe fazer com panhia.
Com firm e determ inação, Saetan fechou os olhos.
Não precisava arranj ar problem as. Os problem as tinham acabado de cair em cim a dele.