A Herdeira das Sombras
Capítulo Doze
1 / Kaeleer
Levando um globo de vidro e um a pequena taça de vidro nas m ãos, am bos azul-cobalto, Tersa cam inhou alguns m etros pelo j ardim dos fundos, os pés descalços afundados na neve até o tornozelo. A lua cheia brincava de se esconder entre as nuvens, assim com o a visão que a iludira ao longo do dia. Vivera em m eio a visões por tantos séculos que com preendia que aquela em especial teria de adquirir um a form a física, antes de se revelar.
Perm itindo que seu corpo fosse o instrum ento da paisagem onírica, usou a Arte para deslocar o globo e a taça pelo ar. Ao chegar ao centro do j ardim , os obj etos pousaram devagar sobre a neve.
Deu um passo em direção a eles para, em seguida, olhar para baixo. A cam isola se arrastava pela neve, rem exendo-a. Não serviria. Despindo-a, atirou-a para j unto à porta dos fundos da casa e continuou a cam inhada. Parou. Sim . Aquele era o local adequado para com eçar.
Um a cam inhada a passos largos para m anter a neve intacta entre as pegadas a partir de casa e as pegadas que orientariam sua visão. Colocando um pé à frente do outro com cuidado, o calcanhar de um colado aos dedos do outro, aguardou. Havia outra coisa, algo m ais.
Usando a Arte, afiou um a unha e cortou o peito de cada pé com a profundidade necessária para que o sangue corresse. Em seguida, cam inhou pela m atriz da visão. Quando voltou à prim eira pegada, saltou para alcançar a neve rem exida pelas pegadas arrastadas.
Ao virar-se para observar o padrão das pegadas, a assistente Viúva Negra que estava passando um as sem anas com ela gritou:
— Tersa? O que está fazendo aqui fora a esta hora da noite?
Rosnando, Tersa se virou e ficou de frente para a j ovem feiticeira.
A assistente observou seu rosto por alguns instantes. Pegou a cam isola que Tersa largara no chão, rasgou-a em tiras, envolveu seus pés para que o sangue fosse absorvido e depois se afastou.
A urgência apressou Tersa escada acim a, até o quarto. Ela abriu as cortinas e olhou para baixo, para as linhas que desenhara na neve com o próprio sangue.
Dois lados de um triângulo, fortes e ligados. O pai e o irm ão. O terceiro lado, o espelho do pai, estava separado dos outros dois, e o centro estava apagado. Caso se separasse totalm ente, j am ais teria força suficiente para com pletar o triângulo.
O pátio estava envolvido pelo luar e pelas som bras. O globo e a taça azul-cobalto, pousados no centro do triângulo, se transform aram em olhos azul-safira.
— Sim — sussurrou Tersa. — Os fios finalm ente estão no devido lugar. Chegou o m om ento.
Com sua perm issão tácita, Saetan entrou na sala de estar de Jaenelle. Olhou de relance para o quarto escuro onde Kaelas e Ladvarian estavam , acordados e inquietos. O que significava que Lucivar estaria prestes a aparecer. Nos cinco m eses decorridos desde que com eçara a servi-la, Lucivar tornara-se excepcionalm ente sensível aos estados de espírito de Jaenelle.
Saetan se sentou no descanso de pés em frente à cadeira forrada onde a garota estava aninhada.
— Sonho ruim ? — perguntou. Nas últim as sem anas, as noites agitadas e os pesadelos tinham sido m uitos.
— Um sonho — concordou. Hesitou por um instante. — Eu estava diante de um a porta de cristal escurecido. Não conseguia ver o que havia atrás dela, não estava certa se queria ver. Mas alguém tentava m e entregar um a chave dourada, e eu sabia que, se a aceitasse, a porta se abriria e eu teria de saber o que escondia.
— Você aceitou a chave? — Saetan m anteve a voz suave e tranquilizadora, enquanto o coração disparava.
— Acordei antes de tocá-la — sorriu Jaenelle, com um ar cansado.
Era a prim eira vez que se lem brava de um daqueles sonhos depois de acordar. Saetan tinha um a ideia precisa sobre as m em órias que se escondiam atrás daquela porta de cristal. O que significava que, em breve, teriam de falar sobre o passado. Mas não esta noite.
— Quer um chá para aj udá-la a dorm ir?
— Não, obrigada. Vou ficar bem .
Saetan beij ou a testa da filha e saiu.
Lucivar o aguardava no corredor.
— Problem as? — perguntou.
— Possivelm ente. — Saetan respirou fundo, expirando devagar. — Vam os até o escritório. Precisam os discutir um assunto.
2 / Kaeleer
–Gata! — Lucivar entrou de rom pante no salão principal. Ignorava o que a teria provocado, m as, depois da conversa com Saetan na noite anterior, não pretendia deixá-la ir sozinha para onde quer que fosse.
Por sorte, Beale m ostrava a m esm a relutância em deixar a Senhora sair porta afora sem inform ar o destino a ninguém .
Entre os dois, Jaenelle libertou as frustrações com um a fúria suficiente para que todas as j anelas estrem ecessem .
— Malditos sej am os dois! Preciso ir.
— Muito bem . — Lucivar se aproxim ou devagar, com a m ão erguida num gesto conciliador. — Vou acom panhá-la. Aonde vam os?
Jaenelle passou as m ãos no cabelo.
— Halaway. Sy lvia acabou de m e enviar um a m ensagem . Está acontecendo algum a coisa com Tersa.
Lucivar trocou um olhar com Beale. O m ordom o acenou com a cabeça. Saetan e Mephis chegariam a qualquer m om ento da reunião com Lady Zhara, a Rainha de Am darh, capital de Dhem lan — e Beale perm aneceria no salão principal até sua chegada.
— Deixem -m e passar! — lam uriou-se Jaenelle.
Graças às Trevas, ela não tinha pensado em usar a força contra eles. Poderia elim inar qualquer coisa que representasse um sinal de resistência sem dificuldade.
— Espere um m inuto — disse Lucivar, engolindo em seco quando os olhos da garota ficaram tem pestuosos. — Você não pode sair de m eias. Há neve por todo lado.
Jaenelle praguej ou. Lucivar invocou as botas de inverno e entregou-as a ela, enquanto um criado ofegante surgia com o sobretudo de inverno de Jaenelle e a capa de lã com cinturão e aberturas para as asas que servia de sobretudo a Lucivar.
Um m inuto depois, voavam em direção à casa de cam po de Tersa.
A Viúva Negra assistente abriu a porta logo que pousaram .
— No quarto — disse, com aflição na voz. — Lady Sy lvia está com ela.
Jaenelle subiu as escadas correndo, e Lucivar a seguiu.
Ao vê-los, Sy lvia apoiou-se na côm oda. O alívio em seu rosto ocultado pela grande preocupação. Lucivar abraçou-a, e ficou apreensivo pela form a com o ela se agarrou a ele.
Jaenelle deu a volta na cam a para ficar de frente para Tersa, que arrum ava freneticam ente um pequeno baú. Misturados às roupas que cobriam a cam a havia livros, velas e alguns obj etos que Lucivar reconheceu com o instrum entos que só poderiam pertencer a um a Viúva Negra.
— Tersa — disse Jaenelle, com a voz calm a, em bora autoritária.
Tersa sacudiu a cabeça.
— Preciso encontrá-lo. Chegou o m om ento.
— Quem você precisa encontrar?
— O rapaz. Meu filho. Daem on.
Lucivar ficou com um nó na garganta ao ver Jaenelle em palidecer.
— Daem on. — Jaenelle estrem eceu. — A chave dourada.
— Preciso encontrá-lo. — A voz de Tersa ecoava frustração e m edo. — Se o sofrim ento não term inar em breve, será sua destruição.
Jaenelle pareceu não ter ouvido nem com preendido as palavras.
— Daem on — m urm urou. — Com o pude esquecer Daem on?
— Preciso voltar a Terreille. Preciso encontrá-lo.
— Não — disse Jaenelle com sua voz de m eia-noite. — Eu vou encontrá-lo.
Tersa interrom peu os m ovim entos inquietos.
— Sim — disse devagar, esforçando-se para se lem brar de algum a coisa. — Ele confiará em você. Vai segui-la para fora do Reino Distorcido.
Jaenelle fechou os olhos.
Ainda abraçado a Sy lvia, Lucivar se apoiou na parede. Fogo do Inferno, por que o quarto estava girando lentam ente?
Quando Jaenelle abriu os olhos, Lucivar a encarou atônito, incapaz de parar. Nunca vira os olhos dela daquela form a. Esperava nunca m ais voltar a vê-los assim . Jaenelle saiu do quarto.
Deixando que Sy lvia se recom pusesse sozinha, Lucivar correu atrás dela, que cam inhava a passos largos em direção à teia de desem barque na entrada do povoado.
— Gata, o Paço fica para o outro lado.
Sem obter resposta, tentou segurá-la pelo braço. O escudo à sua volta era tão gelado que queim ou sua m ão.
Ela passou pela teia de desem barque e continuou a cam inhar. Lucivar cam inhou do seu lado, sem saber ao certo o que dizer, sem saber ao certo o que se atreveria a dizer.
— Macho teim oso e rabugento — resm ungou Jaenelle, enquanto seus olhos se enchiam de lágrim as. — Eu o avisei que o cálice precisava de tem po para sarar. Disse para você ir para um lugar seguro. Por que não m e escutou? Não podia ter m e obedecido uma só vez? — Parou de cam inhar.
Lucivar viu a dor se transform ar em raiva quando ela se virou em direção ao Paço.
— Saetan — disse Jaenelle, num sussurro m aléfico. — Você estava presente naquela noite. Você...
Lucivar não tentou acom panhá-la quando ela desatou a correr de volta para o Paço. Em vez disso enviou um aviso a Beale através de um fio Verm elho m asculino. Beale, por sua vez, inform ou-o que o Senhor Suprem o acabara de chegar.
Esperava que seu pai estivesse preparado para aquele com bate.
3 / Kaeleer
Saetan sentiu a chegada im inente de Jaenelle.
Nervoso dem ais para se sentar, encostou-se à m esa de m adeira escura, com as m ãos agarradas ao tam po com um a força incrível.
Tivera dois anos para se preparar para este m om ento. Passara horas interm ináveis tentando encontrar as frases certas para explicar a brutalidade que quase a destruíra. Contudo, de um a form a ou de outra, o m om ento certo para falar com ela nunca chegara. Mesm o depois da noite anterior, quando percebeu que aquelas m em órias tentavam em ergir, adiara a conversa.
Agora era a hora. E, ainda assim , não se sentia preparado.
Ele tinha chegado em casa e encontrado Beale aflito no salão principal, aguardando para transm itir o aviso de Lucivar:
— Ela se lem brou de Daem on... e está furiosa.
Sentiu quando Jaenelle entrou no Paço e torceu para encontrar um a form a de aj udá-la a encarar aquelas m em órias à luz do dia, não nos sonhos.
A porta do escritório foi arrancada das dobradiças, despedaçando-se ao bater na parede oposta. A força negra se alastrou pela sala, desfazendo as m esas e destruindo o sofá e as cadeiras.
O m edo o invadiu. Mas Saetan reparou que ela não atingira os quadros e a escultura, que não poderiam ser substituídos.
Foi nesse m om ento que Jaenelle entrou no escritório, e nada poderia tê-lo preparado para a raiva fria concentrada nele.
— Maldito. — A voz de m eia-noite parecia calm a. Um som m ortífero.
Ela falava sério. Se a m alevolência e a aversão nos seus olhos fossem um a indicação da intensidade da sua raiva, então Saetan estava m esm o condenado.
— Seu desgraçado insensível.
A m ente de Saetan estava frenética, m as não conseguia produzir sequer um som . Torcia para que os sentim entos que a filha nutria por ele servissem para contrabalançar a fúria, m as sabia que isso não aconteceria, j á que Daem on fora acrescentado à equação.
Jaenelle avançou na direção de Saetan, dobrando os dedos, fazendo com que o Senhor Suprem o centrasse parte da atenção nas unhas afiadas com o um punhal, que agora tinha razões para tem er.
— Você o usou. Era um am igo e você o usou.
Saetan cerrou os dentes.
— Não havia outra opção.
— Havia outra opção. — Bateu na cadeira em frente à m esa, partindo-a ao m eio. — HAVIA OUTRA OPÇÃO!
A fúria crescente de Saetan em purrou o m edo para o lado.
— Perder você — disse, irritado. — Afastar-m e, deixar seu corpo m orrer e perder você. Não considerei essa opção, Senhora. Nem Daem on.
— Você não m e perderia se m eu corpo m orresse. Eu acabaria conseguindo reconstruir o cálice de cristal e...
— Você é Feiticeira, e Feiticeiras não se tornam cildru dyathe. Perderíam os você. Com pletam ente. Daem on sabia disso.
Esse argum ento a deteve por um m om ento.
— Dei a ele toda a força que eu tinha. Ele desceu m uito fundo no abism o, para tentar alcançar você. Quando tentei puxá-lo de volta, ele resistiu, e a ligação entre nós se partiu.
— Ele estilhaçou o cálice de cristal — disse Jaenelle com a voz som bria. — Estilhaçou a m ente. Consegui reconstruí-la, m as estava bastante fragilizada. Quando ele saiu do abism o, qualquer coisa poderia tê-lo danificado. A essa altura, bastaria um a palavra m ais dura.
— Eu sei — disse Saetan, com cautela. — Pude sentir.
A raiva fria voltou a invadir seu olhar.
— Mas você o deixou lá, não foi, Saetan? — perguntou, com um a delicadeza exagerada. — Os tios de Briarwood tinham chegado ao Altar, e você deixou um hom em indefeso à própria sorte.
— Ele deveria ter atravessado o Portão — respondeu Saetan irritado. — Não sei por que não fez isso.
— É claro que sabe. — A voz de Jaenelle era um sussurro sepulcral. — Nós dois sabem os. Se um feitiço de tem po não tivesse sido colocado nas velas para que se apagassem , fechando o Portão, alguém teria de ficar ali para fazê-lo. Naturalm ente, seria de se esperar que fosse o Príncipe dos Senhores da Guerra.
— Ele pode ter tido outros m otivos para ficar — disse Saetan, com cuidado.
— É possível — respondeu Jaenelle, com a m esm a prudência. — Mas isso não explica o fato de estar no Reino Distorcido, não é, Senhor Suprem o? — Deu um passo na direção de Saetan. — Não explica por que o abandonou lá.
— Eu não sabia que ele estava no Reino Distorcido até... — Saetan cerrou os dentes para im pedir que as palavras saíssem .
— Até Lucivar chegar a Kaeleer — Jaenelle concluiu por ele. Levantou a m ão com indiferença, antes de Saetan conseguir falar. — Lucivar estava nas m inas de sal de Pruul. Sei que não podia fazer nada. Mas você...
Saetan respondeu, pausando entre as palavras.
— O principal era trazer você de volta. Usei as m inhas forças para essa tarefa. Daem on teria entendido, teria exigido isso.
— Voltei há dois anos, e agora não há nada esgotando suas forças. — Os olhos de Jaenelle ficaram repletos de sofrim ento e traição. — E, no entanto, você nem sequer tentou chegar até ele, não é?
— Sim , tentei! MALDITA SEJA, TENTEI! — Saetan inclinou-se sobre a m esa. — Pare de agir com o um a vagabundazinha arrogante. Ele pode ser seu am igo, m as tam bém é m eu filho. Você realm ente acha que não tentaria aj udá-lo? — Voltou a sentir o sabor am argo do fracasso. — Estive tão perto, criança-feiticeira. Tão perto. Mas ele estava fora do m eu alcance. E não confiou em m im . Se Daem on tivesse se esforçado um m iním o que fosse, eu teria conseguido trazê-lo. Poderia ter indicado a saída do Reino Distorcido, m as ele não confiou em m im .
O silêncio se arrastou.
— Vou trazê-lo de volta — disse Jaenelle, em um tom sereno.
Saetan se endireitou.
— Você não pode voltar a Terreille.
— Não m e diga o que posso ou não posso fazer — retrucou Jaenelle, ríspida.
— Ouça o que digo, Jaenelle — insistiu ele. — Você não pode voltar a Terreille. Assim que percebesse sua presença, Dorothea faria todo o possível para controlá-la ou destruí-la. E você ainda não atingiu a m aioridade. Seus parentes em Chaillot poderiam tentar recuperar sua custódia.
— Terei de arriscar. Não vou abandoná-lo sofrendo. — Deu as costas para sair.
Saetan inspirou fundo e expirou devagar.
— Com o sou pai dele, posso alcançá-lo sem necessidade de contato físico.
— Mas ele não confia em você.
— Posso aj udá-la, Jaenelle.
Ela se virou para olhá-lo, e Saetan se deparou com um a estranha.
— Não quero sua aj uda, Senhor Suprem o — respondeu, calm a.
Jaenelle foi em bora, e Saetan soube que estava fazendo m uito m ais do que sim plesm ente deixar um a sala.
Tudo tem um preço.
Lucivar encontrou-a nos j ardins algum as horas m ais tarde, sentada num banco de pedra, as m ãos apertadas entre os j oelhos com tanta força que chegavam a doer. Sentando-se no banco, ele se aproxim ou o m áxim o que conseguiu, sem tocá-la.
— Gata? — disse, em um tom dócil, receando que até m esm o o som pudesse destroçá-la. — Fale com igo, por favor.
— Eu... — Ela se arrepiou.
— Você se lem bra.
— Eu m e lem bro. — Deu um a gargalhada lancinante. — Eu m e lem bro de tudo. Marj ane, Dannie, Rose, Briarwood. Greer. Tudo. — Olhou-o de soslaio. — Você sabia de Briarwood. E de Greer.
Lucivar afastou um a m adeixa do rosto. Talvez tivesse que deixar o cabelo curto, com o de hábito entre os guerreiros ey rienos.
— Às vezes, quando você tem pesadelos, fala enquanto dorm e.
— Então vocês dois sabiam . E nada disseram .
— O que poderíam os dizer, Gata? — perguntou Lucivar, devagar. — Se a forçássem os a se lem brar de algo tão em ocionalm ente m arcante, você teria tido um ataque de fúria.
Os lábios de Jaenelle insinuaram um sorriso.
— É verdade. — O sorriso desapareceu. — Sabe o que é pior? Eu m e esqueci. Daem on era m eu am igo, e m e esqueci dele. Naquele Winsol, antes de... ele m e deu um a pulseira de prata. Não sei o que aconteceu com ela. Eu tinha um a fotografia dele. Tam bém não sei o que aconteceu com ela. E, além disso, Daem on deu tudo o que tinha para m e aj udar, e, no final, todos o abandonaram com o se ele não tivesse im portância.
— Se você tivesse se lem brado da violação quando voltou, teria ficado? Ou teria abandonado o corpo outra vez?
— Não sei.
— Portanto, esquecer Daem on foi o preço a pagar para m anter essas m em órias à distância até ficar forte o suficiente para enfrentá-las... Daem on diria que foi um preço j usto.
— É fácil afirm ar o que Daem on diria quando ele não está presente para se opor, não é? — Os olhos dela se encheram de lágrim as.
— Você está esquecendo um a coisa, feiticeirazinha — disse Lucivar, ríspido. — Daem on é m eu irm ão e um Príncipe dos Senhores da Guerra. Eu o conheço há m ais tem po e m elhor do que você.
Jaenelle se aj eitou no banco.
— Eu não o culpo pelo que aconteceu com ele. Mas o Senhor Suprem o...
— Se você vai exigir que o Senhor Suprem o arque com a culpa por Daem on estar no Reino Distorcido, terá de dividir um pouco dessa culpa com igo tam bém .
Jaenelle se virou para encará-lo, com um olhar frio.
Lucivar respirou fundo.
— Ele foi a Pruul m e libertar. Queria que eu fosse com ele. E eu recusei, pois pensava que tivesse m atado você, que a tivesse violado.
— Daemon?
Lucivar praguej ou com violência.
— Às vezes você consegue ser incrivelm ente ingênua. Não tem ideia do que Daem on é capaz, quando está frio.
— Você acreditou m esm o nisso?
Ele apoiou a cabeça nas m ãos.
— Havia m uito sangue, a dor era im ensa. Eu não consegui vencer o sofrim ento, pensar com clareza e duvidar do que tinham dito. E, quando o acusei, ele não negou.
Jaenelle ficou pensativa.
— Ele m e seduziu. Bem , seduziu a Feiticeira. Quando estávam os no abism o.
— Ele fez o quê? — perguntou Lucivar, com um a calm a m ortífera.
— Não sej a im pertinente — retrucou Jaenelle. — Foi um truque para que eu curasse m eu corpo. Ele não m e desej ava, de fato. A ela. Ele não... — Sua voz sum iu. Esperou um m inuto antes de continuar. — Disse que esperara pela Feiticeira a vida toda. Que nascera para ser seu am ante. Mas, depois, não quis ser seu am ante.
— Fogo do Inferno, Gata — explodiu Lucivar. — Você tinha doze anos e tinha acabado de ser violada. O que esperava que ele fizesse?
— No abism o, eu não tinha doze anos.
Lucivar sem icerrou os olhos, im aginando o que ela queria dizer.
— Ele m entiu para m im — disse Jaenelle, baixinho.
— Não, não m entiu. Ele sente m esm o tudo o que disse. Se você tivesse dezoito anos e ele lhe oferecesse o anel de Consorte, você teria descoberto m ais rápido. — Lucivar fitou o j ardim fora de foco. Pigarreou. — Saetan am a você, Gata. E você o am a. Tudo o que ele fez foi com o intuito de salvar sua Rainha. Fez o que qualquer outro Príncipe dos Senhores da Guerra faria. Se você não consegue perdoá-lo, com o vai conseguir m e perdoar algum dia?
— Ah, Lucivar. — Soluçando, Jaenelle o abraçou.
Lucivar tam bém a abraçou, afagou-a e sentiu um consolo penoso pela força com que ela o agarrava. As lágrim as silenciosas dele m olharam o cabelo dela. As lágrim as eram por ela, cuj as feridas da alm a tinham sido reabertas, e por ele próprio, que poderia ter perdido algo valioso pouco depois de ter encontrado. E tam bém por Saetan, que poderia ter perdido m uito m ais, e por Daem on. Acim a de tudo, por Daem on.
A luz do dia estava quase desaparecendo quando Jaenelle se afastou, delicada.
— Preciso falar com um a pessoa. Voltarei m ais tarde.
Preocupado, Lucivar observou os om bros curvados e o rosto pálido da irm ã.
— Onde... — A prudência entrou em conflito com o instinto, e ele vacilou.
Os lábios de Jaenelle transpareciam a som bra de um sorriso com preensivo.
— Não vou a nenhum lugar perigoso. Não sairei de Kaeleer. E não, Príncipe Yaslana, não é arriscado. Vou apenas visitar um am igo.
Ele a deixou partir, incapaz de agir.
Saetan fitava o vazio, m antendo o sofrim ento à distância, m antendo as recordações à distância. Se perdesse o controle e as deixasse fluir... não sabia se conseguiria sobreviver, nem m esm o se tentaria.
— Saetan? — Jaenelle estava na soleira da porta aberta do escritório.
— Senhora. — Protocolo. As cortesias tradicionais de quando um Príncipe dos Senhores da Guerra se dirigia a um a Rainha de categoria idêntica ou m ais escura. Perdera o privilégio de se dirigir a ela de outra form a, de representar algo m ais.
Quando Jaenelle entrou na sala, Saetan contornou a m esa. Não podia se sentar enquanto ela estivesse de pé, e não podia lhe pedir que se sentasse, j á que os outros m óveis do escritório tinham sido destruídos e ele perm itira que Beale lim passe a bagunça.
Jaenelle se aproxim ou, vacilante, m ordendo o lábio inferior e com as m ãos se entrelaçando, agitadas. Não olhou para Saetan.
— Falei com Lorn. — Sua voz trem ia. Ele piscava depressa. — Assim com o você, ele acha que não devo ir a Terreille... a não ser à Fortaleza. Decidim os que criarei um a som bra de m im m esm a que possa interagir com outras pessoas e procurar Daem on, enquanto m eu corpo ficará em segurança na Fortaleza. Só poderei fazer buscas durante três dias por m ês, devido ao esgotam ento físico que a som bra provocará, m as conheço alguém que talvez possa m e aj udar a procurar por ele.
— Você deve agir com o achar m elhor — disse, com prudência.
Jaenelle olhou para Saetan com aqueles belos olhos, antigos e perturbados, cheios de lágrim as.
— S-Saetan?
Com o era j ovem para tanto poder e sabedoria.
Abriu os braços, abriu o coração.
Agarrou-se a Saetan, trem endo violentam ente.
Jaenelle era a dança m ais penosa e m ais gloriosa da sua vida.
— Saetan, eu...
Ele colocou um dedo sobre seus lábios.
— Não, criança-feiticeira — disse, com doce pesar. — O perdão não funciona assim . Você pode querer m e perdoar, m as ainda não consegue. Perdoar alguém pode levar sem anas, m eses, anos. Às vezes, até um a vida inteira. Até Daem on estar bem outra vez, tudo o que podem os fazer é tentar ser am áveis e com preensivos um com o outro, vivendo um dia de cada vez. — Ele a abraçou com força, aproveitando a sensação, sem saber quando a abraçaria desse j eito de novo, ou se algum a vez voltaria a fazê-lo. — Vam os, criança-feiticeira. Está quase am anhecendo. Agora você precisa descansar.
Saetan a acom panhou até o quarto, m as não entrou. Já em seus aposentos, sentiu a solidão se abater sobre si.
Aninhou-se na cam a, incapaz de conter as lágrim as que segurara ao longo de toda a longa e terrível noite. Levaria tem po. Sem anas, m eses, talvez anos. Sabia que levaria tem po.
Mas, por favor, Doces Trevas, que não sej a um a vida inteira.
4 / Terreille
Surreal cam inhou pela rua abandonada em direção à praça do m ercado, na esperança de que sua expressão fria contrabalançasse seu estado físico vulnerável. Não devia ter usado aquela infusão de feiticeira para suprim ir o período da lua do m ês anterior. No entanto, os guardas hay llianos que Kartane SaDiablo enviara atrás dela estavam prestes a capturá-la. Por isso, não se sentira segura para ficar indefesa nos dias em que seu corpo não toleraria o uso de poderes que não fossem da Arte básica.
Para as entranhas do Inferno com todos os m achos dos Sangue! Quando o corpo de um a feiticeira enfraquece, todos os m achos dos Sangue tornam -se potenciais inim igos. E, neste exato m om ento, havia m uitos inim igos com que se preocupar.
Buscaria alguns m antim entos no m ercado, para depois se refugiar em casa com dois longos rom ances.
Ouviu gritos abafados e assustados vindo do beco à frente.
Invocando um a faca de lâm ina com prida, Surreal deslizou até a esquina do beco e pôs-se à espreita.
Quatro hom ens hay llianos, enorm es e taciturnos. E um a garota que ainda era praticam ente um a criança. Dois deles se afastaram , observando, enquanto um de seus com panheiros segurava a garota e as m ãos de outro a despiam .
Droga, droga, droga. Era um a arm adilha. Não havia outra razão para que hay llianos viessem para esta zona do Reino, ainda m ais num a cidade m oribunda. Deveria apenas voltar para casa sem cham ar atenção. Se fosse cuidadosa, talvez não a encontrassem . Outros hay llianos deviam estar aguardando em locais onde Surreal poderia com prar um bilhete para um a Carruagem da Teia, que por isso estava fora de questão. Cam inhar pelos Ventos sem a proteção de um a Carruagem era quase o m esm o que sucídio.
No entanto, a garota estava ali. Se não fizesse nada, o destino daquela criança estaria nas m ãos dos quatro brutam ontes. Mesm o que alguém a “socorresse” depois, seria passada de hom em em hom em até que a ação contínua ou a brutalidade deles acabaria por m atá-la.
Respirando fundo, Surreal correu para o beco.
Um golpe vertical rasgou um dos hom ens da axila à clavícula. Surreal balançou o braço, passando a poucos centím etros do rosto da garota, e conseguiu fazer um corte superficial no peito do outro hom em , enquanto tentava libertar a m enina.
Nesse m om ento, os outros dois hom ens entraram na luta.
Surreal se abaixou para evitar um soco que teria esm agado a lateral da sua cabeça. Em seguida, se desequilibrou, levantou de um salto, deu dois passos rápidos e, com o ninguém a im pediu de prosseguir pelo beco, deu a volta para sair.
Os hay llianos bloqueavam a única saída da via.
Surreal olhou para a garota, querendo transm itir seu pesar.
A garota que estava sendo atacada deu um sorriso ávido, enquanto um dos hom ens que não tinham sido atingidos por Surreal colocava um saco de m oedas nas suas m ãos. Ela j untou as roupas e correu para fora do beco.
Vagabunda m ercenária.
Surreal tentou com todas as forças se lem brar das outras garotas que aj udara ao longo dos últim os cinco anos, m as recordá-las não abrandou o sentim ento avassalador de traição. Bem , chegara ao fim de um ciclo. Sobrevivera em becos noj entos. Agora, m orreria em um deles, pois não estava disposta a perm itir que Kartane SaDiablo a aprisionasse e a oferecesse à Sacerdotisa Suprem a de Hay ll.
Os hom ens avançaram , exibindo sorrisos cruéis.
— Deixem ela em paz.
A voz de m eia-noite, calm a e sinistra, soou atrás de Surreal.
Surreal olhou para os hom ens, viu o choque, a inquietação e o m edo se transform arem num olhar que, para um a m ulher, sem pre significou dor.
— Deixem ela em paz — repetiu a voz.
— Vá para o Inferno — disse o hay lliano m ais corpulento, avançando.
Surgiu um a névoa atrás dos hom ens, form ando um a parede de um lado ao outro do beco.
— Corte a garganta da vagabunda e acabe logo com isto — disse o hom em com o om bro ferido.
— Não podem os nos divertir nem brincar com a m estiça, por isso a outra terá de aprender a se com portar — disse o hom em corpulento.
Um a névoa espessa invadiu o beco. Olhos apareceram , com o pedras preciosas verm elhas e incandescentes, e ouviu-se um rosnado.
Surreal gritou sem fôlego ao sentir um a m ão agarrando seu braço esquerdo.
— Venha com igo — disse aquela voz de m eia-noite, incrivelm ente fam iliar.
A névoa girou e era m uito espessa para que fosse possível ver quem a guiava com tanta facilidade, com o se cam inhando em águas transparentes.
Mais rosnados. E, em seguida, gritos agudos e desesperados.
— O q-que... — gaguej ou Surreal.
— Cães de Caça do Inferno.
À direita de Surreal, algum a coisa caiu no chão, fazendo um barulho com o se tivesse caído na água.
Surreal tentou engolir, tentou não respirar.
Em seguida, saíram da brum a, voltando à paisagem acolhedora do beco abandonado.
— Você está m orando aqui perto? — perguntou a voz.
Surreal finalm ente olhou para sua salvadora, sentindo um a pontada de desilusão logo seguida por um a sensação de alívio. A m ulher era da sua altura, e o corpo no m acacão preto e j usto, em bora esguio, não pertencia totalm ente à criança da qual se lem brava. Contudo, o cabelo com prido era louro e os olhos se escondiam por trás de óculos escuros.
Surreal tentou se afastar.
— Agradeço por salvar m inha pele, m as m inha m ãe m e aconselhou a não dizer onde eu m oro para estranhos.
— Não som os estranhas, e tenho certeza de que esse não foi o único conselho de Titian.
Surreal tentou, outra vez, se libertar. A m ão que agarrava seu braço apertou com m ais força. Percebendo que ainda segurava a arm a na outra m ão, ela puxou a faca para trás, atacando com força o pulso da m ulher.
A faca passou pelo pulso com o se ele não existisse e desapareceu em seguida.
— O que é você? — arquej ou Surreal.
— Um a ilusão que se cham a som bra.
— Quem é você?
— Briarwood é o belo veneno. Não há cura para Briarwood. — A m ulher sorriu com frieza. — Isto responde à sua pergunta?
Surreal observou a m ulher, tentando encontrar algum vestígio da criança de que se recordava. Depois de um m inuto, disse:
— Você é m esm o Jaenelle, não é? Ou um a parte dela?
Jaenelle sorriu, em bora sem qualquer traço de satisfação.
— Sou eu m esm a. — Um a pausa. Em seguida: — Precisam os conversar, Surreal. Em particular.
Oh, é claro que precisavam conversar.
— Prim eiro tenho de ir ao m ercado.
A m ão com as unhas pintadas de preto e afiadas com o um punhal aliviaram o aperto por um m om ento antes de soltá-la.
— Está bem .
Surreal hesitou. Era possível ouvir rosnados e rangidos que vinham da névoa atrás delas.
— Você não precisa term inar a m atança?
— Isso não vai ser um problem a — disse Jaenelle, seca. — Pilhas de cocô de Cães de Caça não são um a am eaça para ninguém .
Surreal em palideceu.
Os lábios de Jaenelle se crisparam .
— Peço desculpas — disse, passado um m inuto. — Todos tem os diferentes facetas de personalidade. Esse episódio trouxe à tona as m inhas piores. Ninguém entrará no beco, e ninguém sairá de lá. As Harpias chegarão a qualquer m om ento e cuidarão do assunto.
Surreal seguiu até a praça do m ercado e com prou pães, frango, legum es, em padinhas de carne e fruta fresca.
— Vou preparar um a infusão m edicinal — disse Jaenelle, quando voltaram à casa de Surreal.
Ainda se perguntando sobre o que teria levado Jaenelle a procurá-la, Surreal assentiu com a cabeça antes de se retirar para o banheiro para se lim par. Quando voltou, havia um prato tapado sobre a pequena m esa da cozinha e um a caneca fum egante com um a infusão de feiticeira.
Sentando-se num a cadeira, Surreal bebeu a infusão e sentiu a dor no abdôm en dim inuindo aos poucos.
— Com o você m e encontrou? — perguntou.
Pela prim eira vez, o sorriso de Jaenelle tinha um ar divertido.
— Bem , querida, com o você é a única Joia Cinza em todo o Reino de Terreille, não é difícil de encontrar.
— Eu não sabia que era possível localizar alguém assim .
— Quem está atrás de você não pode se valer deste m étodo. Seria preciso que usasse um a Joia igual ou m ais escura do que a sua.
— Por que veio à m inha procura? — Surreal perguntou, calm a.
— Preciso da sua aj uda. Preciso encontrar Daem on.
Surreal fitou a caneca.
— Qualquer coisa que ele tenha feito no Altar de Cassandra aquela noite, foi para aj udar você. Será que ele j á não sofreu o suficiente?
— Dem ais.
A voz de Jaenelle transparecia m ágoa e pesar. Os olhos teriam transm itido m ais.
— Precisa m esm o usar esses óculos escuros ridículos? — perguntou Surreal, ríspida.
Jaenelle hesitou.
— Meus olhos podem perturbá-la.
— Aceito correr o risco.
Jaenelle tirou os óculos.
Aqueles olhos pertenciam a alguém que sobrevivera aos pesadelos m ais distorcidos da alm a.
Surreal engoliu em seco.
— Entendo o que quer dizer.
Jaenelle colocou os óculos.
— Posso trazê-lo de volta do Reino Distorcido, m as preciso estabelecer um a ligação com o corpo.
Se Jaenelle tivesse vindo alguns m eses antes.
— Não sei onde ele está — disse Surreal.
— Mas pode procurá-lo. Só posso m anter esta form a durante três dias a cada m ês. O tem po está se esgotando para Daem on, Surreal. Se o cam inho não for indicado em breve, não restará nada dele.
Surreal fechou os olhos. Merda.
Jaenelle colocou o resto da infusão na caneca de Surreal.
— Nem m esm o o período da lua de um a feiticeira de Joia Cinza deveria causar este sofrim ento.
Surreal m udou de posição. Encolheu-se.
— Suprim i o período do m ês passado. — Envolveu a xícara com as m ãos. — Daem on viveu com igo por uns tem pos. Até alguns m eses atrás.
— O que aconteceu depois?
— O que aconteceu foi Kartane SaDiablo — respondeu com a voz cruel, e sorriu em seguida. — O seu encantam ento, ou teia ou o que quer que tenha tecido para os tios de Briarwood funcionou perfeitam ente com ele. Você não reconheceria o desgraçado. — Fez um a pausa. — A propósito, Robert Benedict está m orto.
— Que pena — m urm urou Jaenelle, com veneno escorrendo pela voz. — E o prezado Dr. Carvay ?
— Vivo, m ais ou m enos. Não por m uito tem po, pelo que ouvi dizer.
— Me conte sobre Kartane... e Daem on.
— Na últim a prim avera, Daem on apareceu na casa onde eu estava m orando.
Os nossos cam inhos se cruzaram algum as vezes desde... — Surreal vacilou.
— Desde a noite no Altar de Cassandra.
— Pois é. Ele estava do m esm o j eito que Tersa. Aparecia, ficava uns dias e voltava a desaparecer. Da últim a vez, ficou. Foi então que Kartane apareceu. — Surreal esvaziou a caneca. — Parece que ele j á estava atrás de Daem on há algum tem po, m as, ao contrário de Dorothea, parecia saber onde procurar. Com eçou a exigir que Daem on o aj udasse a se libertar do terrível feitiço que alguém arm ara para ele, com o se não tivesse feito nada para m erecê-lo. Quando percebeu que Daem on estava perdido no Reino Distorcido e era inútil, olhou para m im ... e reparou nas m inhas orelhas. Quando se deu conta de que eu era a filha de Titian — e dele tam bém —, Daem on explodiu e o expulsou.
“Acho que ele percebeu que levar Daem on a Dorothea não seria de grande aj uda, m as levar seu único descendente possível seria um belo negócio. E um a descendente fêm ea que pudesse dar continuação à linhagem seria um forte incentivo, m esm o m estiça.
“Daem on insistiu que partíssem os de im ediato, pois Kartane voltaria ao escurecer, com guardas. E foi o que aconteceu.
“Antes de pegar o Vento para sair dali, Daem on e eu tínham os decidido ir para um a cidade em outro Território. Ele estava logo atrás de m im , viaj ando perto. Mas depois não estava. Não o vi desde então.
— E desde então você tem fugido.
— Exato. — Surreal se sentia m uito cansada. Queria se perder num livro, no sono. Mas agora seria m uito arriscado. Os guardas hay llianos com eçariam a se perguntar sobre a ausência daqueles quatro hom ens, logo com eçariam as buscas.
— Com a, Surreal.
Surreal deu um a m ordida no pão e se perguntou por que não provara a infusão — e por que não se im portava com isso.
Jaenelle verificou o quarto e, em seguida, exam inou o sofá velho na sala de estar.
— Você prefere se acom odar na cam a ou deitar ali?
— Não posso — balbuciou Surreal, aborrecida por sentir que estava prestes a chorar.
— Pode sim . — Retirando alm ofadas e um edredom do quarto, Jaenelle transform ou o sofá em um ninho acolhedor. — Posso ficar m ais dois dias. Ninguém a incom odará enquanto eu estiver aqui.
— Eu te aj udo a procurar — disse Surreal, se enroscando no sofá.
— Eu sei. — Jaenelle sorriu com frieza. — Você é a filha de Titian. Não poderia ser diferente.
— Não sei se gosto de ser tão previsível — protestou Surreal.
Jaenelle providenciou outra caneca de infusão m edicinal, deixou Surreal escolher entre dois novos rom ances e se instalou num a cadeira.
Surreal bebeu a infusão, leu duas vezes a prim eira página do rom ance e desistiu. Olhando para Jaenelle, m il perguntas vinham à sua m ente.
Não queria ouvir a resposta de nenhum a delas.
Por ora, bastava saber que, logo que encontrassem Daem on, Jaenelle o tiraria do Reino Distorcido.
Por ora, bastava se sentir segura.