A Herdeira das Sombras
Capítulo Dois
1 / Terreille
As batidas na porta soavam enérgicas, urgentes.
Dorothea SaDiablo ocultou as m ãos trêm ulas nas dobras da cam isola e ficou no centro do quarto, de costas para a única vela que ilum inava tenuem ente o aposento.
Já fazia sete m eses que procurava Daem on Sadi. Sob a forte luz do dia, com a corte à sua volta, quase conseguia se convencer de que ele não voltaria a Hay ll, de que perm aneceria no buraco que tinha encontrado para se esconder. Mas, à noite, tinha certeza de que ao abrir um a porta ou dobrar um a esquina o encontraria à sua espera. Ele prolongaria a sua dor além do im aginável e depois a m ataria. O insulto subj acente àquela violência era o de que não a destruiria por tudo o que ela tinha feito a ele, m as sim por causa daquela criança.
Aquela m aldita criança. A obsessão de Hekatah, o reaparecim ento do Senhor Suprem o, a m orte de Greer, a doença m isteriosa do seu filho Kartane, a fúria de Daem on, o ódio repentino de Lucivar por seu m eio-irm ão — tudo se resum ia àquela garota.
A m açaneta girou. A porta se abriu alguns centím etros.
— Sacerdotisa? — cham ou baixinho um a voz m asculina.
O alívio foi logo substituído pela irritação.
— Entre — ordenou rispidam ente.
O Sr. Valrik, Mestre da Guarda de Dorothea, entrou no quarto e fez um a reverência.
— Perdoe-m e a introm issão a esta hora da noite, Sacerdotisa, m as achei que gostaria de ser inform ada im ediatam ente sobre este assunto. — Ao estalar os dedos entraram dois guardas, que seguravam rudem ente um hom em pelos braços.
Dorothea olhou espantada para o j ovem m acho hay lliano dos Sangue que se encolhia de m edo entre os guardas. Na verdade, não era m ais do que um adolescente. E bonito. Do j eito que ela gostava. Até dem ais.
Deu um passo na direção do j ovem , satisfeita pelo m edo nos olhos vidrados.
— Você não serve na m inha corte — ronronou. — Por que está aqui?
— Fui enviado, Sacerdotisa. Disseram que eu d-devia satisfazê-la.
Dorothea observou o rapaz. Suas palavras pareciam insípidas, forçadas. Não eram , com certeza, suas próprias palavras. Havia feitiços de coação que podiam forçar um a pessoa a fazer certo tipo de coisa ainda que contra sua vontade.
Avançou m ais um passo.
— Quem o enviou?
— Não m e disse o n...
Antes que ele conseguisse term inar a frase, Dorothea invocou um punhal e cravou-o no peito do rapaz. O ataque foi tão rápido e violento que os guardas caíram no chão j unto com o j ovem . Então libertou a força de sua Joia Verm elha contra as lastim avelm ente inadequadas barreiras interiores do garoto e cauterizou sua m ente, esvaziando-a, não deixando restar nada que pudesse voltar para assom brá-la.
— Levem essa coisa para os bosques além da cidade, para quem quer que queira a carniça — disse, entre dentes.
Os guardas pegaram o corpo e saíram apressadam ente, seguidos por Valrik.
Dorothea com eçou a cam inhar de um lado para o outro, fechando e abrindo os punhos. Maldição, m aldição, m aldição! Deveria ter sondado a m ente do rapaz antes de destruí-lo por com pleto, deveria ter descoberto quem , de fato, o enviara. Mas era, com certeza, obra de Sadi! O desgraçado estava se divertindo com ela, tentando esgotar sua vigilância, tentando apanhá-la desprevenida.
Escondeu o rosto nas m ãos trêm ulas.
Sadi estava lá fora. Em algum lugar. Até que estivesse m orto... Não! Morto, não. Aí é que não haveria qualquer esperança de controlá-lo, e, um a vez dem ônio-m orto, ele e o Senhor Suprem o uniriam forças. Jam ais se esqueceria da am eaça de Saetan, a voz erguendo-se de um pesadelo em torvelinho: quando Daem on Sadi m orresse, Hay ll m orreria tam bém .
Exausta, Dorothea voltou à cam a. Hesitou por um m om ento e, por fim , extinguiu a cham a da vela. Na escuridão total, a segurança era m aior — se é que existia qualquer segurança.
Dorothea puxou o capuz para trás e inspirou fundo antes de entrar na pequena sala de estar do velho Santuário. Hekatah j á estava sentada em frente à lareira apagada, com o capuz puxado para a frente a fim de ocultar o rosto. Tinha diante de si um a taça vazia de vidro escuro.
Dorothea invocou um a garrafa de prata e colocou-a j unto à taça.
Hekatah deixou escapar um resm ungo irritado diante do tam anho da garrafa, contudo apontou um dedo para ela. A garrafa se abriu e elevou-se da m esa. Seu conteúdo quente e verm elho deslizou para a taça, que, por sua vez, deslizou pelo ar até a m ão de Hekatah, que bebeu com vontade.
Dorothea cerrou os punhos e aguardou. Chegando ao lim ite da paciência, disse com rispidez:
— Sadi ainda está à solta.
— E cada dia servirá para afiar ainda m ais o seu tem peram ento — retrucou Hekatah com aquela voz de m enina que não com binava com sua natureza cruel.
— Exatam ente.
Hekatah suspirou com o um a m ulher saciada.
— Isso é bom .
— Bom ? — explodiu Dorothea da cadeira. — Você não o conhece!
— Mas conheço o pai dele.
Dorothea sentiu um calafrio.
Hekatah pousou a taça vazia na m esa.
— Acalm e-se, Irm ã. Estou tecendo um a teia deliciosa para Daem on Sadi, um a teia da qual não conseguirá escapar, pois não terá vontade disso.
Dorothea voltou para a cadeira.
— Ele poderá, então, ser anelado novam ente.
Hekatah deu um a risada suave, m aliciosa.
— Ah, não, seria inútil para nós se estivesse anelado. Mas não se preocupe. Ele vai caçar presas m aiores do que você. — Brandiu um dedo na direção de Dorothea. — Estive m uito ocupada por sua causa.
Dorothea m anteve-se em silêncio, recusando-se a m order a isca.
Hekatah aguardou um m inuto.
— Ele irá atrás do Senhor Suprem o.
Dorothea olhou espantada.
— Por quê?
— Para vingar a m enina.
— Mas foi Greer quem a destruiu!
— Sadi não sabe disso — disse Hekatah. — Quando eu term inar de contar a ele por que isso aconteceu à m enina, a única coisa que ele vai querer fazer será arrancar o coração de Saetan. É óbvio que o Senhor Suprem o não vai sim plesm ente aceitar isso.
Dorothea reclinou-se. Fazia m eses não se sentia tão bem .
— O que precisa de m im ?
— Soldados para m e aj udarem a m ontar a arm adilha.
— Sendo assim , o m elhor é escolher m achos que sej am descartáveis.
— Não se preocupe com os guardas. Sadi não será um a am eaça para eles. — Hekatah levantou-se, num a despedida im plícita.
Quando j á estavam do lado de fora, Hekatah disse friam ente:
— Você não com entou nada sobre o m eu presente, Irm ã.
— Seu presente?
— O rapaz. Pensei em ficar com ele, m as achei que você tinha direito a um a com pensação pela perda de Greer. É um servo extrem am ente solícito.
— Sabe o que deve fazer? — perguntou Hekatah, entregando dois frasquinhos a Greer.
— Sim , Sacerdotisa. Mas tem certeza de que ele irá a esse local?
Hekatah acariciou o rosto de Greer.
— Qualquer que sej a a razão, Sadi tem visitado todos os Altares das Trevas indo para leste. Irá a esse tam bém . É o único Portão que resta antes do que fica j unto às ruínas do Paço dos SaDiablo. — Bateu com as pontas dos dedos nos lábios e franziu a sobrancelha. — A velha Sacerdotisa desse Altar pode representar um problem a. Mas a assistente dela é um a m oça pragm ática, um a característica bastante presente nos Sangue m enos dotados. Você conseguirá lidar com ela.
— E a velha Sacerdotisa?
Hekatah deu de om bros com delicadeza.
— Não se deve desperdiçar um a refeição.
Greer sorriu, fez um a reverência e saiu.
Cantarolando, Hekatah executou os prim eiros passos de um a dança de corte. Durante os últim os sete m eses, Sadi vinha escapando das arm adilhas que m ontara para ele e suas retaliações sem pre que era obrigado a se afastar de um Portão tinham feito com que até seus servos m ais fiéis no Reino das Trevas tivessem m edo de atacá-lo. Durante sete m eses falhara. Mas ele tam bém falhara.
Restavam poucas Sacerdotisas em Terreille capazes de abrir os Portões. As que não tinham passado à clandestinidade depois do prim eiro aviso de Hekatah haviam sido elim inadas.
Aquilo tinha lhe custado alguns dos seus dem ônios m ais fortes, m as Hekatah garantira que Sadi nunca teria tem po de descobrir sozinho com o acender as velas negras pela sequência correta para conseguir abrir um Portão. É claro que se tivesse ido diretam ente para Ebon Askavi, sua busca teria term inado m eses antes. Hekatah tinha passado século após século transform ando o assom bro natural diante do local num terror sutil — o que não era difícil, j á que, na única vez que entrara na Fortaleza, o local deixara até m esm o ela apavorada. Depois de seus esforços, porém , ninguém em Terreille iria lá de bom grado solicitar aj uda ou refúgio, a m enos que estivesse desesperado a ponto de arriscar o que quer que fosse — e, na m aioria das vezes, nem m esm o assim .
Logo, Sadi, sem um local seguro ao qual se dirigir e sem ninguém em quem confiar, continuaria se escondendo, procurando, fugindo. Quando chegasse, por fim , ao Portão onde ela o estaria aguardando, o esforço dos últim os m eses o deixaria ainda m ais suscetível em relação ao que planej ara.
— Dom ine o Inferno enquanto puder, grande filho da puta — exclam ou, abraçando-se. — Dessa vez tenho a arm a perfeita.
2 / Inferno
Saetan abriu a porta do escritório particular e deteve-se ao ver a Harpia no corredor puxando a corda do arco e apontando a flecha para o seu coração.
— Um a form a um pouco rude de solicitar um a audiência, não acha, Titian? — perguntou secam ente.
— Nenhum a das m inhas arm as é rude, Senhor Suprem o — retrucou Titian.
Saetan exam inou-a por um m om ento antes de voltar a entrar no escritório.
— Entre e diga o que veio dizer. — Apoiando-se na bengala, foi m ancando até a m esa de m adeira escura, encostou-se em um dos cantos e aguardou.
Titian entrou devagar, a raiva num turbilhão com o um a tem pestade de inverno. Deteve-se no outro lado do aposento, enfrentando-o, destem ida na sua fúria, um a Rainha Viúva Negra dos Dea al Mon dem ônia-m orta. Mais um a vez, o arco estava em riste, com a flecha apontada para o coração de Saetan.
A paciência de Saetan, j á pequena após aqueles im placáveis m eses, term inou de vez.
— Abaixe essa coisa antes que eu faça algo de que am bos nos arrependerem os depois.
Titian não vacilou.
— O senhor j á não fez algo de que se arrepende, Senhor Suprem o? Ou está tão coberto com o pus do ciúm e que não tem espaço para rem orsos?
As paredes do Paço ribom baram .
— Titian — disse, com dem asiada delicadeza —, não avisarei outra vez.
Com relutância, Titian fez desaparecer o arco e a flecha.
Saetan cruzou os braços.
— Na verdade, seu autocontrole m e surpreende, senhora. Esperava que esta conversa tivesse acontecido m uito tem po antes.
Titian sibilou.
— Então é verdade? Ela cam inha entre as cildru dyathe?
Saetan observou a tensão crescente em Titian.
— E se for?
Titian fixou o olhar em Saetan durante um terrível m om ento para depois inclinar a cabeça para trás e com eçar a chorar.
Saetan olhou com espanto para ela, abalado. Sabia que o boato se espalharia pelo Inferno. Sabia que Titian, tal com o Char, o líder das cildru dyathe, o procurariam . Contava com a sua fúria. Essa fúria poderia enfrentar. O ódio poderia aceitar. Mas não isto.
— Titian — disse, com um a voz insegura. — Titian, venha aqui.
Titian continuava chorando.
Saetan m ancou na sua direção. Ela não pareceu reparar que Saetan a tom ou nos braços e a abraçou com força, afagando seu longo cabelo grisalho, m urm urando palavras de pesar no Idiom a Antigo.
— Titian — disse suavem ente, quando o pranto se transform ou num resm ungo —, lam ento pela dor que causei, m as não pôde ser evitado.
Titian enterrou o punho no estôm ago de Saetan e o fez cair no chão.
— Você lam enta — rosnou ao cam inhar enfurecida pelo escritório. — Ora, eu tam bém . Lam ento que tenha sido sim plesm ente o m eu punho e não um a faca, ainda agora. Você m erece ser estripado por isso! Velho cium ento. Monstro! Não poderia tê-la deixado desfrutar de um rom ance inocente sem a dilacerar por despeito?
Conseguindo finalm ente recuperar o fôlego, Saetan apoiou-se num cotovelo.
— A Feiticeira não se torna cildru dyathe, Titian — afirm ou friam ente. — A Feiticeira não se torna dem ônio-m orto. Por isso, diga-m e o que prefere: que afirm e que ela cam inha entre as cildru dyathe ou que deixe um a m enininha vulnerável a outros ataques de inim igos?
Titian deteve-se, com um olhar em bargado nos grandes olhos azuis. Inclinou-se sobre Saetan, tentando ler sua expressão.
— A Feiticeira não pode se tornar dem ônia-m orta?
— Não. Mas, no Inferno, só quem sabe disso são você e Char.
— Adm ito — disse ela devagar — que a m elhor form a de enganar um inim igo é enganar um am igo. — Considerou esta afirm ação durante m ais um m om ento e, em seguida, ofereceu um a m ão a Saetan para aj udá-lo a erguer-se. Pegou sua bengala e olhou-o nos olhos. — Um a Harpia é um a Harpia pela form a com o m orreu. Isso contribuiu para a credibilidade dos boatos.
Aquilo era o m ais parecido com um pedido de desculpas que j am ais esperaria ouvir de Titian.
Saetan aceitou a bengala, agradecido.
— Direi a você o que disse a Char — proferiu. — Se ainda m antiver sua am izade e se desej ar aj udar, há algo que pode fazer.
— E o que é, Senhor Suprem o?
— Continue com raiva.
Acendeu-se um fogo nos olhos de Titian. Nos seus lábios, entreviu-se um sorriso que logo desapareceu.
— Um a flecha errando por pouco seria m uitíssim o convincente.
Saetan ergueu um a sobrancelha e estalou a língua em reprovação.
— Um a feiticeira Dea al Mon errando o alvo?
Titian deu de om bros.
— Nem os Dea al Mon acertam sem pre.
— No caso de não conseguir errar, tente não m irar algo que sej a de im portância vital — disse Saetan secam ente.
Titian pestanej ou. Um leve sorriso voltou aos lábios.
— As Harpias m iram unicam ente um a área da anatom ia m asculina, Senhor Suprem o. Quão vital a considera?
— Pode ir — disse Saetan.
Titian fez um a reverência e saiu.
Saetan fixou a porta do escritório durante alguns m om entos antes de m ancar até um a cadeira. Deixou-se cair com um suspiro, esticando as pernas. Um m inuto depois, saiu do escritório, cam inhando pelos corredores em direção aos quartos acim a, no Paço, esperando que Mephis ou Andulvar estivessem por lá.
Ansiava por com panhia. Com panhia m asculina.
Ter Titian com o am iga não deixava um hom em m uito tranquilo.
3 / Terreille
Sob o luar, o vento fustigava os cam pos de um prateado fantasm agórico. Ao longo do dia quente de solstício de verão, nuvens de tem pestade tinham se acum ulado no horizonte, e ouvia-se à distância o estrondo dos trovões.
Surreal abotoou o casaco e se abraçou para se aquecer. O ar tinha esfriado. Dali a um a hora a tem pestade cairia sobre Beldon Mor. A essa altura, j á teria regressado à casa da Lua Verm elha de Dej e, com o convidada de honra do seu íntim o j antar de aposentadoria.
Depois daquela noite no Altar de Cassandra, j á não conseguia suportar o j ogo sexual, nem m esm o quando ele tinha por obj etivo facilitar um hom icídio. Não passaria fom e se deixasse de se prostituir. Lord Marcus, o adm inistrador de Sadi, tam bém cuidava de seus investim entos, e o fazia m uito bem . Além disso, sem pre tinha preferido ser assassina a prostituta.
Surreal balançou a cabeça. Poderia pensar no assunto depois.
Cam inhando devagar no pequeno j ardim de arbustos ao fundo do cam po, chegou à grande árvore com um galho perfeito para um balanço. Algum a coisa pendia do galho, m as não era um brinquedo de criança.
Surreal olhou para cim a tentando sentir a presença fantasm agórica, vislum brar a silhueta transparente.
— Você não vai encontrá-la — disse a voz de um a m enina. — Marj ane foi em bora.
Surreal virou-se e olhou espantada para a m enina com a garganta cortada e o vestido ensanguentado. Tinha conhecido Rose sete m eses antes, quando Jaenelle lhe m ostrara o terrível segredo de Briarwood. Na noite seguinte, ela e Rose tinham tirado Jaenelle de Briarwood, em bora tarde dem ais para evitar a cruel violação.
— O que aconteceu com ela? — perguntou Surreal, olhando de relance para a árvore. Um a pergunta idiota sobre um a m enina m orta havia m uito tem po.
Rose deu de om bros.
— Ela se dissipou. Todos os fantasm as antigos finalm ente voltaram às Trevas. — Estudou Surreal. — Por que está aqui?
Surreal respirou fundo.
— Vim m e despedir. Vou deixar Chaillot pela m anhã... e não voltarei.
Rose ponderou estas palavras.
— Se você segurar m inha m ão, talvez consiga ver Dannie. Não sei com o Jaenelle sem pre conseguia ver os fantasm as. Mesm o depois que m e tornei dem ônia, eu não conseguia ver os m ais antigos, a não ser que Jaenelle estivesse presente. Ela disse que era porque este era um dos Reinos dos vivos.
Surreal segurou a m ão de Rose. Dirigiram -se à horta.
— Jaenelle está bem ? — perguntou Rose, hesitante.
Surreal afastou do rosto o cabelo em aranhado pelo vento.
— Não sei. Tinha ferim entos bastante graves. Um a feiticeira no Altar de Cassandra levou-a para um lugar seguro. Pode ter chegado a um a Curandeira a tem po.
Pararam no canteiro das cenouras, onde duas irm ãs ruivas haviam sido enterradas em segredo. Mas não se viam ali silhuetas nem m urm úrios. Surreal não sentiu o horror entorpecedor com o da prim eira vez que visitara o j ardim . Sentia um a m istura de pesar e esperança de que as j ovens finalm ente estivessem para além da m em ória do que lhes tinha sido feito.
Dannie era a única naquele local. Surreal esforçou-se para não olhar para o coto fantasm agórico onde antes certam ente havia um a perna. Sentiu um nó no estôm ago quando se esforçou ainda m ais para não lem brar o destino dado àquela perna.
Deixando de lado a pena que sentia, Surreal enviou um fio psíquico de afeto e de am izade em direção à m enina-fantasm a.
Dannie sorriu.
Até na m orte os Sangue eram cruéis, pensou Surreal ao apertar a m ão fria de Rose. Com o deviam ter sido vazios e solitários os anos para aquelas que não eram fortes o bastante para se tornar dem ônias-m ortas, m as fortes dem ais para voltar às Trevas. Ali perm aneciam , acorrentadas às sepulturas, invisíveis, inaudíveis, sem ninguém para cuidar delas — à exceção de Jaenelle.
O que teria acontecido com ela?
Surreal e Rose voltaram para o j ardim de arbustos.
— Deveriam ser todos estripados — resm ungou Surreal, soltando a m ão de Rose. Encostou-se na árvore e olhou fixam ente para o edifício. A m aior parte das j anelas estava na escuridão, m as havia algum as luzes fracas acesas. Invocando seu punhal preferido, Surreal balançou-o com a m ão e sorriu. — Antes de partir, talvez eu possa alim entar o j ardim com um ou dois tios.
— Não — disse Rose bruscam ente, colocando-se à frente de Surreal. — Você não pode tocar em nenhum tio de Briarwood. Ninguém pode.
Surreal endireitou o corpo, com um a expressão selvagem nos olhos verde-dourados.
— Sou excelente no que faço, Rose.
— Não — insistiu Rose. — Quando o sangue de Jaenelle foi derram ado, a teia em aranhada que ela criou foi despertada. É um a arm adilha para todos os tios.
Surreal olhou para o edifício, depois para Rose. Tinha ouvido rum ores sobre um a doença m isteriosa que afetava vários m em bros superiores do conselho de Chaillot — com o Robert Benedict —, bem com o alguns dignitários especiais — com o Kartane SaDiablo.
— Esta arm adilha vai m atá-los?
— A seu tem po — disse Rose.
Um brilho m aldoso surgiu nos olhos de Surreal.
— E existe cura?
— Briarwood é o belo veneno. Não existe cura para Briarwood.
— Vai ser doloroso?
Rose deu um largo sorriso.
— Cada um receberá o que m erece.
Surreal fez desaparecer o punhal.
— Já que é assim , que os filhos da puta berrem de dor.
4 / Terreille
Sob a luz de duas tochas fum egantes, a j ovem Sacerdotisa verificou duas vezes as ferram entas que tinha colocado no Altar das Trevas. Tudo estava preparado: o candelabro com quatro velas negras, a pequena taça de prata e os dois pequenos frascos com um líquido escuro — um deles com um a rolha branca, outro com um a rolha verm elha.
Ao lhe entregar os frasquinhos, o desconhecido com as m ãos deform adas lhe garantira que o antídoto evitaria que ela fosse afetada pela infusão de feiticeira criada para subj ugar um Príncipe dos Senhores da Guerra.
A j ovem cam inhava de um lado para outro atrás do Altar, roendo a unha do polegar. Aquilo tinha parecido tão fácil, porém ...
Parou, sem se atrever a respirar, ao olhar para o corredor na penum bra, do outro lado do portão de ferro batido. Haveria algum a coisa ali?
Nada além do silêncio no silêncio da noite, um a som bra nas som bras, deslizando em direção ao Altar com a graça de um predador.
A Sacerdotisa foi para atrás do Altar, quebrou o lacre do frasco de rolha branca e engoliu apressadam ente seu conteúdo. Fez desaparecer o vidro e se levantou. Quando voltou a olhar na direção do portão de ferro batido, agarrou a Joia Am arela com o se esta pudesse protegê-la.
Ele estava do outro lado do Altar, observando-a. Apesar das roupas am arrotadas e do cabelo desgrenhado, em anava um a energia fria e carnal.
A Sacerdotisa passou a língua pelos lábios e esfregou as m ãos úm idas no m anto. Os olhos dourados do hom em pareciam sonolentos, ligeiram ente vidrados.
Foi então que ele sorriu.
Ela estrem eceu e respirou fundo.
— Veio em busca de aconselham ento ou auxílio?
— Auxílio — disse, com um a voz profunda e delicada. — Você tem os conhecim entos necessários para abrir o Portão?
Com o um hom em poderia ser tão belo?, pensava a Sacerdotisa, enquanto assentia com a cabeça.
— Isso tem um preço. — Sua voz pareceu ser engolida pelas som bras.
Com a m ão esquerda, o hom em retirou um envelope de um bolso interior do casaco e colocou-o no Altar.
— Será suficiente?
Ao estender a m ão para pegar o envelope, a Sacerdotisa olhou de soslaio para ele e sua m ão se deteve sobre o envelope branco e grosso. Havia algo naquela pergunta, em bora tivesse sido feita de form a educada, que a avisava que era m elhor que fosse o suficiente.
Ela se forçou a pegar o envelope, a olhar dentro dele, e, em seguida, apoiou-se no Altar para se equilibrar. Mil m arcos em ouro. Pelo m enos dez vezes m ais do que o desconhecido com as m ãos deform adas tinha lhe oferecido.
Porém , j á tinha feito um acordo com o desconhecido e teria tem po suficiente para guardar os m arcos antes de os guardas chegarem .
Colocou o envelope cautelosam ente na extrem idade m ais afastada do Altar.
— Muito generoso — disse, esperando não parecer m uito im pressionada.
Respirando fundo, ergueu a taça de prata acim a da cabeça e colocou-a à sua frente. Quebrou o lacre do frasco de rolha verm elha, despej ou o conteúdo na taça e estendeu-a a ele.
— A viagem pelo Portão é um em preendim ento árduo. Isto vai aj udá-lo.
Ele não pegou a taça.
A Sacerdotisa em itiu um ruído de im paciência e bebeu um gole da taça, tentando não ficar enj oada com o sabor am argo, e, depois, voltou a estendê-la ao hom em .
Ele pegou-a com a m ão esquerda e suas narinas se dilataram ao cheirar o líquido, m as não o bebeu.
Passou-se um m inuto. Dois.
Com um dar de om bros im perceptível, engoliu o conteúdo da taça.
A Sacerdotisa prendeu a respiração. Quanto tem po levaria para fazer efeito? Quanto tem po os guardas levariam para chegar?
Os olhos do hom em se alteraram . Ele se desequilibrou. Encostou-se no Altar e olhou na direção da Sacerdotisa, tal com o um am ante para a sua senhora. Não conseguia desviar os olhos dos seus lábios. Macios. Sensuais. Inclinou-se na sua direção. Um beij o. Um doce beij o.
Pouco antes de seus lábios tocarem os dela, o hom em agarrou-a pelo pulso com a m ão direita.
— Vagabunda — rosnou m ansam ente.
Surpresa, ela tentou se soltar.
À m edida que a m ão apertava cada vez m ais, a Sacerdotisa olhou para o anel com a Joia Negra.
As longas unhas do hom em perfuraram sua pele. Foi então que ela sentiu a picada do dente de serpente em baixo da unha do dedo anelar, o veneno gelando seu sangue.
Ela se debateu, tentando atingir seu rosto, gritar por socorro, enquanto sua visão em baçava e seus pulm ões se recusavam a receber o ar necessário.
Ele quebrou seus dois pulsos, partindo os ossos ao m esm o tem po que a em purrava para longe de si.
— O veneno do m eu dente de serpente não faz efeito tão rápido com o você poderia pensar — disse com dem asiada calm a, com dem asiada delicadeza. — No final você vai conseguir gritar. Vai ser um a agonia fazer isso, m as vai gritar.
E desapareceu, sem deixar nenhum traço além de um silêncio no silêncio da noite, um a som bra nas som bras.
Quando os guardas chegaram , a Sacerdotisa j á gritava.
5 / Terreille
O chão girava debaixo dos seus pés, castigando as pernas que j á trem iam sem forças e que latej avam devido à repugnante infusão de feiticeira.
Atrás daquela porta havia um lugar seguro. Ao alcançá-lo, o chão girou outra vez, fazendo-o tropeçar. Bateu com o om bro na porta e ouviu o estalo da m adeira velha e podre. Caiu pesadam ente de lado, no chão do aposento.
— Vagabunda — rosnou em voz m ansa.
Névoa Cinza. Um cálice de cristal estilhaçado. Velas negras. Cabelo louro.
Sangue. Tanto sangue.
As palavras mentem. O sangue, não.
— Cale a boca, Sacana — ordenou com rispidez.
O chão continuava a girar sob seus pés. Daem on cravou as unhas com pridas na m adeira, tentando se equilibrar, tentando pensar.
A febre estava perigosam ente alta e ele sabia que precisava de com ida, água e descanso. No m om ento, era presa fácil para quem quer que o procurasse naquela casa abandonada onde tinha passado os prim eiros anos da sua vida com Tersa, sua verdadeira m ãe.
Tudo tem um preço.
Se tivesse se rendido do lado de fora daquele Santuário três dias antes, se tivesse perm itido que os guardas hay llianos o encontrassem , talvez a infusão não o tivesse deixado tão doente. Contudo, havia forçado o corpo além do lim ite, para chegar ao Portão próxim o às ruínas do Paço dos SaDiablo.
E sem pre que o cansaço chegava, sem pre que a força de vontade dim inuía um pouco, um a brum a cinza com eçava a nublar sua m ente, um a brum a que ele sabia conter algo extrem am ente terrível. Algo que não desej ava ver.
Você é meu instrumento.
Palavras com o relâm pagos negros saíam da brum a, am eaçando cauterizar sua alm a.
As palavras mentem. O sangue, não.
Estava a m enos de dois quilôm etros do Portão.
— Lucivar — sussurrou. Mas estava sem forças para se sentir zangado com a traição do irm ão.
Você é meu instrumento.
— Não. — Tentou se pôr de pé, m as não conseguiu. Ainda assim , algo no seu interior ainda resistia — Não. Não sou seu instrum ento. Sou... sou... Daem on... Sadi.
Fechou os olhos e foi engolido pela névoa cinza.
Com um gem ido, Daem on virou-se de costas e abriu os olhos devagar. Até isso era difícil. A princípio, achou que estivesse cego. Depois com eçou a distinguir vultos na escuridão.
Noite. Era noite.
Respirando lentam ente, com eçou a avaliar os danos físicos.
Sentia-se seco com o m adeira velha, rígido com o um a pedra. Os m úsculos ardiam . O estôm ago doía de fom e e a sede era intensa. A febre havia baixado em certo m om ento, m as...
Havia algo errado.
As palavras mentem. O sangue, não.
As palavras ditas por Lucivar pairavam à sua volta, crescendo cada vez m ais, tornando-se sólidas. Atingiram a m ente de Daem on, fragm entando-a ainda m ais.
Daem on gritou.
Você é meu instrumento.
Enquanto as palavras de Saetan ecoavam dentro dele, a dor aum entou — e o m edo surgiu. Medo de que a névoa que preenchia a sua m ente pudesse se dissipar, revelando algo terrível.
Daemon.
Agarrando-se furiosam ente à m em ória de Jaenelle e sussurrando seu nom e com o um a carícia suave, Daem on pôs-se de pé. Conseguiria m anter as vozes afastadas, desde que se lem brasse do nom e dela.
Suas pernas estavam m uito pesadas, m as ele conseguiu deixar a casa e seguir os vestígios de energia que o levariam ao Paço. Ainda que cada passo fosse um a agonia, quando chegou ao Paço m ovia-se praticam ente com sua graça habitual.
No entanto, ainda havia algo terrivelm ente errado. Era difícil lem brar-se de que seu nom e era Daem on Sadi, Príncipe dos Senhores da Guerra, era difícil lem brar-se de quem ele era. Precisava resistir um pouco m ais. Precisava.
Reunindo suas últim as energias e força de vontade, Daem on se aproxim ou com cuidado do pequeno edifício onde ficava o Altar das Trevas.
Hekatah rondava o pequeno prédio que se erguia à som bra das ruínas do Paço dos SaDiablo. Erguia os punhos no ar, m ais frustrada do que j ulgava ser possível por conta dos últim os três dias. Ainda assim , sem pre que dava a volta pelo Altar, olhava de relance para a parede que havia atrás, tem endo que se transform asse num a névoa e que Saetan atravessasse o Portão para enfrentá-la.
Contudo, ultim am ente, o Senhor Suprem o andava ocupado dem ais com suas próprias ocupações para prestar atenção nela.
Seu principal problem a no m om ento era Daem on Sadi.
Depois de ingerir a bebida que ela tinha preparado, era impossível ele ter deixado aquele Altar das Trevas, apesar do que j uravam aqueles guardas idiotas. Mas se ele estivesse realm ente vindo para aquele Portão... no m om ento, a segunda parte da sua infusão, a parte que tornaria a m ente de Daem on receptiva às suas palavras ensaiadas com todo o cuidado, estaria no auge. Ela planej ara sussurrar-lhe palavras envenenadas enquanto cuidava dele durante seu estado de febre e de dor, para que, quando a febre baixasse, essas palavras tivessem se consolidado com o um a verdade terrível da qual ele não poderia escapar. E então, toda aquela força, toda aquela raiva se tornariam um punhal apontado para o coração de Saetan.
Todos os seus planos cuidadosam ente elaborados estavam à beira da ruína porque...
Hekatah parou de repente.
Havia som ente o silêncio no silêncio da noite.
Olhou para as tochas apagadas nas paredes e decidiu não acendê-las. O luar proporcionava luz suficiente.
Sem querer desperdiçar energia num escudo de visão, Hekatah se escondeu num recanto som brio. Assim que ele entrasse na sala do Altar, sairia de trás dele e o pegaria de surpresa.
Esperou. Quando j á com eçava a achar que havia se enganado, lá estava ele, sem aviso, na entrada do portão de ferro batido, olhando fixam ente para o Altar. Mas não entrou na sala.
Franzindo a sobrancelha, Hekatah virou um pouco a cabeça a fim de olhar para o Altar. Tudo estava com o deveria. O candelabro suj o não tinha brilho e a cera das velas negras que havia queim ado com tanto cuidado para que não parecessem ter sido usadas recentem ente pendiam com o estalactites dos braços de prata.
Receando que Daem on fosse em bora, Hekatah se aproxim ou do portão de ferro batido.
— Estava à sua espera, Príncipe.
— É m esm o? — Sua voz parecia entorpecida, exausta.
Perfeito.
— É a você que devo agradecer pelos dem ônios nos outros Altares? — perguntou ele.
Com o poderia saber que ela era um a dem ônia? Saberia quem ela era? De repente, perdeu a confiança para lidar com este filho tão parecido com o pai, m as balançou a cabeça com grande pesar.
— Não, Príncipe. No Inferno só existe um poder capaz de dom inar os dem ônios. Estou aqui porque tinha um a j ovem am iga que era m uito especial para m im . Um a am iga, creio, que tínham os em com um . Por isso o aguardava.
Fogo do Inferno! Será que não havia alguma expressão naqueles olhos que lhe indicasse que estava conseguindo afetá-lo?
— Jovem é um term o relativo, não acha?
Estava brincando com ela! Hekatah cerrou os dentes.
— Um a criança, Príncipe. Um a criança especial. — Forçou um tom de súplica na voz. — Esperei aqui correndo grande risco. Se o Senhor Suprem o descobrir que tentei dizer aos am igos dela... — Olhou de relance para a parede atrás do Altar.
O hom em do outro lado do portão continuava sem reagir.
— Ela cam inha entre as cildru dyathe — disse Hekatah.
Um longo silêncio.
— Im possível — disse Daem on por fim . Sua voz era inexpressiva, com pletam ente destituída de em oções.
— É verdade. — Estaria errada em relação a ele? Estaria ele apenas tentando escapar de Dorothea? Não. Nutria sentim entos pela garota. Hekatah suspirou. — O Senhor Suprem o é um hom em cium ento, Príncipe. Não partilha aquilo que reivindica para si próprio... m uito m enos o corpo de um a fêm ea. Ao descobrir o afeto da m enina por outro m acho, nada fez para im pedir que fosse violada. E podia ter im pedido, Príncipe. Podia. Ela conseguiu escapar. Com o tem po e com aj uda, teria se restabelecido. Mas o Senhor Suprem o não queria que ela se recuperasse, e por isso, sob pretexto de aj udá-la, usou outro m acho para term inar o que j á tinha sido iniciado. Destruiu-a com pletam ente. Seu corpo m orreu e sua m ente foi dilacerada. Agora ela é um bichinho de estim ação m orto e de olhar vazio com o qual ele brinca.
Hekatah levantou os olhos e quis gritar de frustração. Teria ele ouvido algum a coisa do que ela dissera?
— Ele deveria pagar pelo que fez — guinchou. — Se tiver coragem o suficiente para enfrentá-lo, posso abrir o Portão para você. Quem quer que se lem bre do que ela poderia ter sido deveria exigir que ele fosse punido pelo que fez.
Durante m uito tem po, Daem on ficou olhando para ela. Por fim , deu m eia-volta e foi em bora.
Praguej ando, Hekatah com eçou a andar de um lado para outro. Por que ele não dissera um a única palavra? Era um a história plausível. Oh, ela sabia que Daem on fora acusado do estupro, m as sabia tam bém que isso não era verdade. E não estava totalm ente convencida de que ele estivera de fato no Altar de Cassandra naquela noite. Todos os m achos que j uravam tê-lo visto tinham vindo de Briarwood. Poderiam ter contado essa história para que as Rainhas de Chaillot não os investigassem . Certam ente...
Um grito estilhaçou a noite.
Hekatah deu um salto, abalada pelo horrível som . Besta, anim al, hum ano. Nada disto e tudo isto. O que quer que produzisse um som assim ...
Acendeu rapidam ente as velas negras e aguardou im paciente que a parede se transform asse em nevoeiro. Pouco antes de transpor o Portão, lem brou-se de que não haveria ninguém para apagar as velas e fechar a entrada para os outros Reinos. Se aquela coisa...
Hekatah ergueu a m ão e trancou o portão de ferro batido com a Verm elha.
Outro grito rasgou a noite.
Hekatah cruzou rapidam ente o Portão. Podia ser um a dem ônia, m as não desej ava que aquilo a seguisse no Reino das Trevas.
As palavras giravam à sua volta, ferindo sua m ente, ferindo sua alm a.
A névoa cinza se dissipou, deixando aparecer um Altar das Trevas.
Sangue. Tanto sangue.
... usou outro macho...
O m undo se estilhaçou.
Você é meu instrumento.
Sua m ente se estilhaçou.
... destruiu-a completamente.
Gritando em agonia, fugiu pela brum a, por um a paisagem banhada de sangue e repleta de cálices de cristal estilhaçados.
As palavras mentem. O sangue, não.
Voltou a gritar, caindo na paisagem interior estilhaçada, que os plebeus cham am de loucura e os Sangue, de Reino Distorcido.