A Infância de Jesus

Joseph Ratzinger · Capítulo 9 de 18

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A Infância de Jesus

Capítulo 3

O nascimento de Jesus em Belém

 

1. O QUADRO HISTÓRICO E TEOLÓGICO DA NARRAÇÃO DO NASCIMENTO NO EVANGELHO DE LUCAS

“Naqueles dias, apareceu um edito de César Augusto, ordenando o recenseam ento de todo o m undo habitado” (Lc 2, 1). Com essas palavras, Lucas introduz a sua narrativa sobre o nascim ento de Jesus e explica por que este aconteceu em Belém : um recenseam ento, com a finalidade de determ inar e depois cobrar os im postos, é a razão pela qual José com Maria, sua esposa que está grávida, se deslocam de Nazaré a Belém . O nascim ento de Jesus na cidade de Davi situa-se no quadro da grande história universal, em bora o im perador nada saiba dessa gente sim ples que, por causa dele, tem de viaj ar em um m om ento difícil e assim , aparentem ente por acaso, o m enino Jesus nascerá no lugar da prom essa.

Para Lucas, o contexto histórico-universal é im portante. Pela prim eira vez, é registrada “toda a terra”, a ecumene no seu todo; pela prim eira vez, há um governo e um reino que abraça o orbe; pela prim eira vez, há um a grande área que vive em paz, onde os bens de todos podem ser registrados e postos a serviço da com unidade. Só nesse m om ento, em que se verifica um a com unhão de direitos e bens em larga escala e em que um a língua universal perm ite a um a com unidade cultural a com preensão no pensam ento e na ação, pode entrar no m undo um a m ensagem universal de salvação, um portador universal de salvação: é realm ente “a plenitude dos tem pos”.

Mas a ligação entre Jesus e Augusto situa-se num a profundidade ainda m aior. Augusto não queria ser apenas m ais um soberano, com o os que vieram antes dele e haveriam de vir depois. A inscrição de Priene, que rem onta ao ano 9 a.C., faz-nos ver com o Augusto queria ser visto e considerado. Lá se diz que o dia do nascim ento do im perador “conferiu um a fisionom ia diversa a todo o m undo. Este teria ido à ruína, se nele que nasceu agora não tivesse brilhado um a felicidade com um (...). A providência, que divinam ente dispõe a nossa vida, cum ulou este hom em , para a salvação dos hom ens, de tais dons que o m andou a nós e às gerações futuras com o salvador (sōtēr) (...). O dia de nascim ento do deus foi para o m undo o início dos “evangelhos” com ele relacionados. A partir do seu nascim ento, deve com eçar um a nova contagem do tem po” (cf. Stöger, Das Evangelium nach Lukas, p. 74).

Com base em um texto desse gênero, é claro que Augusto era visto não apenas com o político, m as tam bém com o figura teológica, tendo em conta que a nossa separação entre política e religião, entre política e teologia, não existia de m odo algum no m undo antigo. Já no ano 27 a.C., três anos depois da sua tom ada de posse, o Senado rom ano tinha-lhe conferido o título de augustus (em grego sebastos) – “o adorável”. Na inscrição de Priene, é cham ado salvador (sōtēr). Enquanto, na literatura, esse título era atribuído a Zeus m as tam bém a Epicuro e a Esculápio, na tradução grega do Antigo Testam ento é reservado exclusivam ente para Deus. Aplicado a Augusto, tal título possui um a conotação divina: o im perador suscitou um a m udança no m undo, introduziu um novo tem po.

Na quarta écloga de Virgílio, j á encontram os essa esperança em um m undo novo, a expectativa do regresso do paraíso. Em bora em Virgílio – com o vim os – se apresente um horizonte m ais vasto, sente-se a influência do m odo com o se concebia a vida na era de Augusto: “Agora tudo deve m udar…”.

Queria ainda sublinhar de m odo particular dois aspectos relevantes da percepção de si m esm o, própria de Augusto e dos seus contem porâneos. O “salvador” trouxe ao m undo sobretudo a paz. Ele m esm o fez representar essa sua m issão de portador de paz, de form a m onum ental e para todos os tem pos, na Ara Pacis Augusti, cuj os restos preservados evidenciam ainda hoj e de m aneira im pressionante com o a paz universal, que ele garantiu por um certo tem po, teria perm itido às pessoas dar um profundo suspiro de alívio e esperança. A esse respeito, citando Antonie Wlosok, Marius Reiser escreve: no dia 23 de setem bro (aniversário do im perador), “a som bra deste relógio de sol avançava de m anhã até a noite, por cerca de 150 m etros, direto sobre a linha do equinócio, precisam ente até o centro da Ara Pacis; há, portanto, um a linha direta que vai do nascim ento deste hom em à pax e assim se dem onstra, de m odo visível, que ele é natus ad pacem (nascido para a paz). A som bra provém de um a esfera (...) [a esfera] é ao m esm o tem po a circunferência do céu e tam bém o globo da terra, sím bolo do dom ínio sobre o m undo que agora foi pacificado” (Wie wahr ist die Weihnachtsgeschichte?, p. 459).

Aqui transparece ainda outro aspecto da autoconsciência de Augusto: a universalidade, que o próprio Augusto – num a espécie de narração da sua vida e da sua obra, o cham ado Monumentum Ancyranum – docum entou com dados concretos e pôs em grande destaque.

E assim chegam os de novo ao registro de todos os habitantes do im pério, fato este que liga o nascim ento de Jesus de Nazaré com o im perador Augusto. Sobre essa cobrança de im postos (o recenseam ento), há um a larga discussão entre os estudiosos, em cuj os detalhes não precisam os entrar.

Um prim eiro problem a ainda é bastante fácil de esclarecer: o recenseam ento teve lugar no tem po do rei Herodes, o Grande, que, porém , m orreu j á no ano 4 a.C. O início da nossa contagem do tem po – a determ inação do nascim ento de Jesus – rem onta ao m onge Dionísio, o Exíguo († aprox. 550), que evidentem ente errou alguns anos nos seus cálculos. Portanto, tem os de fixar a data histórica do nascim ento de Jesus algum ano antes.

Mas tem os outras duas datas que causaram grandes controvérsias. De acordo com Flávio Josefo, a quem principalm ente devem os os nossos conhecim entos da história j udaica na época de Jesus, o recenseam ento ocorreu no ano 6 d.C. sob o governador Quirino e – porque nele se tratava em últim a análise de dinheiro – levou à insurreição de Judas, o Galileu (cf. At 5, 37). Além disso, a ação de Quirino no am biente siro-j udaico ter-se-ia verificado apenas naquele período e não antes. Esses fatos, porém , em si m esm os não são seguros; de todos os m odos, há indícios de que Quirino, por encargo do im perador, j á atuava por volta do ano 9 a.C. na Síria. Desse m odo, revelam -se convincentes as indicações de diversos estudiosos – por exem plo, Alois Stöger –, segundo as quais o “recenseam ento” nas circunstâncias de então se desenrolava lentam ente estendendo-se por alguns anos. Aliás, o m esm o efetuava-se em duas etapas: prim eiro, a inscrição de todas as propriedades em terras e im óveis, e depois – em um segundo m om ento – a determ inação dos im postos concretos a pagar. Assim , a prim eira etapa ocorreu nos dias do nascim ento de Jesus; e a segunda etapa, que para o povo era m uito m ais irritante, suscitou a insurreição (cf. Stöger, Das Evangelium nach Lukas, p. 372ss).

Por últim o, obj etou-se tam bém que, para tal inventário, não teria sido necessária a deslocação de “cada um na sua própria cidade” (Lc 2, 3). Mas, por várias fontes, sabem os que os interessados deviam apresentar-se na localidade onde tinham as terras de sua propriedade. De acordo com isso, podem os supor que José, da casa de Davi, possuísse um terreno em Belém , pelo que tinha de ir lá para a cobrança dos im postos.

Acerca de m uitos detalhes, poder-se-á sem pre discutir. Perm anece difícil lançar um olhar na vida diária de um organism o tão distante de nós e tão com plexo com o foi o Im pério Rom ano. Mas os conteúdos essenciais dos fatos referidos por Lucas perm anecem , apesar de tudo, historicam ente credíveis, j á que ele resolveu expô-los – com o diz no prólogo do seu Evangelho – “após acurada investigação de tudo” (1, 3). Tal investigação foi feita, obviam ente, com os m eios à sua disposição. Entretanto, Lucas estava m ais perto das fontes e dos acontecim entos do que nós, apesar de toda a erudição histórica, o possam os pretender.

Voltem os ao contexto global do m om ento histórico em que sucedeu o nascim ento de Jesus. Com a referência ao im perador Augusto e à “ecumene inteira”, Lucas criou deliberadam ente um quadro ao m esm o tem po histórico e teológico para os acontecim entos que ia narrar.

Jesus nasceu num período que se pode determ inar com precisão. No início da atividade pública de Jesus, Lucas oferece m ais um a vez um a datação detalhada e cuidadosa daquele m om ento histórico: é o décim o quinto ano do governo de Tibério César; além disso, são m encionados o governador rom ano daquele ano e os tetrarcas da Galileia, da Itureia e da Traconítide, bem com o de Abilene, e depois os sum os sacerdotes (cf. Lc 3, 1-2).

Jesus não nasceu nem apareceu em público naquele indefinido “um a vez”, típico do m ito; m as pertence a um tem po, que se pode datar com precisão, e a um am biente geográfico exatam ente definido: o universal e o concreto tocam -se m utuam ente. N’Ele, o Logos, a Razão criadora de todas as coisas entrou no m undo. O Logos eterno fez-Se hom em , disso faz parte o contexto de lugar e tem po. A essa realidade concreta está ligada a fé, ainda que depois, em virtude da ressurreição, o espaço tem poral e geográfico fique superado, e aquele “vos precede na Galileia” (Mt 28, 7) por parte do Senhor lance na vastidão aberta da hum anidade inteira (cf. Mt 28, 16ss.).

Im portante é ainda outro elem ento. O decreto de Augusto para o registro fiscal de todos os cidadãos da ecumene leva José, j untam ente com a sua esposa Maria, a Belém , à cidade de Davi, e desse m odo favorece o cum prim ento da prom essa do profeta Miqueias, segundo a qual o Pastor de Israel havia de nascer naquela cidade (cf. 5,1-3). Sem o saber, o Im perador contribui para o cum prim ento da prom essa: a história do Im pério Rom ano e a história da salvação, iniciada por Deus com Israel, entrelaçam -se um a na outra. A história da eleição feita por Deus, até então lim itada a Israel, entra na vastidão do m undo, da história universal. Deus, que é o Deus de Israel e de todos os povos, dem onstra ser o verdadeiro guia de toda a história.