A Infância de Jesus
2. Quem eram os “magos”?
Juntam ente com a bênção de Jacó, é preciso ler tam bém um a palavra atribuída na Bíblia ao profeta pagão Balaão. Trata-se de um a figura histórica, para o qual existe um a confirm ação fora da Bíblia: em 1967, na Transj ordânia, foi descoberta um a inscrição onde aparece Balaão, filho de Beor, com o “vidente” de divindades prim itivas; um vidente a quem se atribuem vaticínios de fortuna e de desgraça (cf. Hans-Peter Müller, artigo Bileam, Lexikon für Theologie und Kirche, II, 457). A Bíblia apresenta-o com o adivinho a serviço do rei de Moab, que lhe pede um a m aldição contra Israel. Balaão pretende fazê-lo, m as se vê im pedido pelo próprio Deus, de m odo que, em vez de um a m aldição, o profeta anuncia um a bênção para Israel. Apesar disso, na tradição bíblica, é depreciado com o instigador à idolatria e tem um a m orte vista com o punição (cf. Nm 31, 8; Js 13, 22). Por isso, ainda m ais im portante é a prom essa de salvação atribuída a ele, não hebreu e servo de outros deuses; um a prom essa que, evidentem ente, era conhecida tam bém fora de Israel. “Eu o vej o, m as não agora; eu o contem plo, m as não de perto: um astro procedente de Jacó se torna chefe, um cetro se levanta, procedente de Israel” (Nm 24, 17).
Mateus, que gosta de apresentar acontecim entos da vida e da atividade de Jesus com o realização de Palavras do Antigo Testam ento, estranham ente não cita esse texto, que tem um papel im portante na história da interpretação da passagem dos m agos do Oriente. É certo que a estrela, de que fala Balaão, não é um astro; o próprio rei que deve vir é que é a estrela que brilha sobre o m undo e determ ina o seu destino. No entanto, a ligação entre estrela e realeza poderia ter gerado a ideia de um a estrela, que seria a estrela desse Rei e faria referência a Ele.
Desse m odo, certam ente pode-se supor que essa profecia não j udia, “pagã”, circulasse de algum a form a fora do j udaísm o e fosse obj eto de reflexão para as pessoas em um cam inho de busca. Devem os ainda voltar à questão de com o seria possível haver pessoas fora de Israel que vissem precisam ente no “rei dos j udeus” o portador de um a salvação que lhes dizia respeito.
2. QUEM ERAM OS “MAGOS”?
Mas, prim eiro, é preciso colocar a seguinte questão: Que gênero de hom ens eram aqueles que Mateus designa com o “m agos vindos do Oriente”? O term o “m agos” (mágoi) tem , nas respectivas fontes, um a gam a de significados notável, que vai de um sentido m uito positivo a um sentido m uito negativo.
O prim eiro dos quatro significados principais entende, com o term o “m agos”, m em bros da casta sacerdotal persa. Na cultura helenística, eram considerados “cultivadores de um a religião autêntica”; m as, ao m esm o tem po, as suas ideias religiosas eram consideradas “fortem ente influenciadas pelo pensam ento filosófico”, a ponto de os filósofos gregos serem m uitas vezes apresentados com o seus seguidores (cf. Delling, ThWNT, IV, 360). Talvez haj a, nessa opinião, algum fundo de verdade não bem definível; o próprio Aristóteles falou do trabalho filosófico dos m agos (cf. ibid.).
Os outros significados m encionados por Gerhard Delling são: detentor e profissional de um saber e de um poder sobrenaturais, bem com o feiticeiro; e, por fim , burlão e sedutor. Nos Atos dos Apóstolos, encontram os este últim o significado: um m ago, cham ado Bar-Jesus, é definido por Paulo com o “filho do diabo, inim igo de toda a j ustiça” (13, 10), e desse m odo é repreendido.
A am bivalência do term o “m ago”, que constatam os aqui, realça a am bivalência da dim ensão religiosa com o tal. A religiosidade pode tornar-se cam inho para um verdadeiro conhecim ento, um cam inho para Jesus Cristo. Mas, chegada à presença de Cristo, quando não se abre a Ele e se vira contra o único Deus e Salvador, aquela se torna dem oníaca e destruidora.
Assim , no Novo Testam ento, encontram os am bos os significados de “m ago”: na narrativa de São Mateus sobre os m agos, a sabedoria religiosa e filosófica é claram ente um a força que coloca os hom ens a cam inho; é a sabedoria que leva em últim a instância a Cristo. Nos Atos dos Apóstolos, pelo contrário, vem os o outro tipo de m ago; este usa o próprio poder contra o m ensageiro de Jesus Cristo, pondo-se assim do lado dos dem ônios, que aliás j á foram vencidos por Jesus.
Parece que aos m agos referidos em Mateus 2 deve-se aplicar, pelo m enos em sentido am plo, o prim eiro dos quatro significados. Em bora não pertencessem exatam ente à classe sacerdotal persa, eram portadores de um conhecim ento religioso e filosófico que se desenvolvera e achava-se ainda presente naqueles am bientes.
Naturalm ente, procurou-se chegar a classificações ainda m ais precisas. O astrônom o vienense Konradin Ferrari d’Occhieppo m ostrou que, na cidade de Babilônia – em época rem ota centro da astronom ia científica, m as nos tem pos de Jesus em estado de declínio –, continuava a haver “ainda um pequeno grupo de astrônom os j á em vias de extinção (...) Tábuas de terracota, repletas de inscrições com cálculos astronôm icos em caracteres cuneiform es (...), são prova segura disso m esm o” (Der Stern von Bethlehem in astronomischer Sicht. Legende oder Tatsache?, p. 27). A conj unção astral dos planetas Júpiter e Saturno no signo zodiacal dos Peixes, que teve lugar nos anos 7-6 a.C. – considerada hoj e a verdadeira data do nascim ento de Jesus –, poderia ter sido calculada pelos astrônom os babilônicos, tendo-lhes indicado a terra de Judá e um recém -nascido “rei dos j udeus”.
Mais à frente, voltarem os à questão da estrela. Por ora querem os dedicar-nos à questão sobre que gênero de hom ens seria aquele que se pôs a cam inho ao encontro do rei. Talvez fossem astrônom os; m as nem a todos os astrônom os que eram capazes de calcular a conj unção dos planetas e a observaram veio o pensam ento de um rei em Judá que era im portante tam bém para eles. Para que a estrela pudesse tornar-se um a m ensagem , deveria ter circulado um vaticínio do tipo da m ensagem de Balaão. Sabem os, por Tácito e Suetônio, que então circulavam expectativas segundo as quais sairia de Judá o dom inador do m undo – um a expectativa que Flávio Josefo interpretou indicando que tal figura era Vespasiano, com o resultado de ter caído nos seus favores (cf. De bello Iud., III, pp. 399-408).
Vários fatores podiam concorrer para fazer intuir na linguagem da estrela um a m ensagem de esperança. Mas tudo isso podia pôr a cam inho som ente quem fosse hom em dum a certa inquietação interior, hom em de esperança, à procura da verdadeira Estrela da salvação. Os hom ens de que fala Mateus não eram apenas astrólogos; eram “sábios”: representavam a dinâm ica de ir além de si próprio, que é intrínseca à religião; um a dinâm ica que é busca da verdade, busca do verdadeiro Deus e, consequentem ente, tam bém filosofia no sentido originário da palavra. Desse m odo, a sabedoria sana tam bém a m ensagem da “ciência”: a racionalidade dessa m ensagem não se detinha m eram ente no saber, m as procurava a com preensão do todo, levando assim a razão às suas possibilidades m ais elevadas.
Com base em tudo o que se disse, podem os fazer um a certa ideia sobre as convicções e os conhecim entos que levaram esses hom ens a encam inhar-se para o recém -nascido “rei dos j udeus”. Podem os, com razão, afirm ar que representam o cam inho das religiões para Cristo, bem com o a autossuperação da ciência rum o a Ele. De certo m odo encontram -se na esteira de Abraão, que parte após ser cham ado por Deus; por outro lado, encontram -se na esteira de Sócrates e do seu questionam ento, para além da religião oficial, sobre a verdade m aior. Nesse sentido, esses hom ens são antecessores, precursores, indagadores que desafiam todos os tem pos.