A Infância de Jesus

Joseph Ratzinger · Capítulo 10 de 18

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A Infância de Jesus

2. O nascimento de Jesus

Reconhecidos representantes da exegese m oderna são de opinião que a inform ação fornecida pelos dois evangelistas, Mateus e Lucas, de que Jesus nasceu em Belém , seria um a afirm ação teológica, não histórica. Na realidade, Jesus teria nascido em Nazaré. Com as narrativas do nascim ento de Jesus em Belém , a história teria sido teologicam ente reelaborada de acordo com as prom essas, para poderem assim – com base no local do nascim ento – indicar Jesus com o o Pastor esperado de Israel (cf. Miq 5,1-3; Mt 2, 6).

Eu não vej o com o se possam aduzir, apoiando tal teoria, fontes verdadeiras. De fato, em relação ao nascim ento de Jesus, não tem os outras fontes além das narrativas da infância feitas por Mateus e Lucas. Vê-se que os dois dependem de representantes de tradições m uito diferentes; são influenciados por perspectivas teológicas diferentes, e inclusive as suas inform ações históricas divergem parcialm ente.

Parece que Mateus desconhecia que tanto José com o Maria habitavam inicialm ente em Nazaré. Por isso, quando voltam do Egito, a prim eira intenção de José é ir para Belém , e só a notícia de que na Judeia reina um filho de Herodes é que o induz a retirar-se para a Galileia. Ao passo que, para Lucas, é claro, desde o início, que a Sagrada Fam ília, depois dos acontecim entos do nascim ento, voltou para Nazaré. As duas linhas diversas de tradição concordam na inform ação de que o local do nascim ento de Jesus era Belém . Se nos ativerm os às fontes, fica evidente que Jesus nasceu em Belém e cresceu em Nazaré.

2. O NASCIMENTO DE JESUS

“Enquanto lá estavam [em Belém ], com pletaram -se os dias para o parto, e ela deu à luz o seu filho prim ogênito, envolveu-o com faixas e reclinou-o num a m anj edoura, porque não havia lugar para eles na sala” (Lc 2, 6-7).

Com eçam os o nosso com entário a partir das últim as palavras desta frase: “por não haver lugar para eles na sala”. A m editação, na fé, dessas palavras encontrou nessa afirm ação um paralelism o íntim o com as palavras, cheias de profundo conteúdo, que tem os no Prólogo de São João: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam ” (Jo 1, 11). Para o Salvador do m undo, Aquele para quem todas as coisas foram criadas (cf. Cl 1, 16), não há lugar. “As raposas têm tocas e as aves do céu, ninhos; m as o Filho do Hom em não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8, 20). Aquele que foi crucificado fora da porta da cidade (cf. Heb 13, 12) tam bém nasceu fora da porta da cidade.

Tudo isso nos deve fazer pensar, nos deve recordar a inversão de valores que se verifica na figura de Jesus Cristo, na sua m ensagem . Desde o seu nascim ento, Jesus não pertence àquele am biente que, aos olhos do m undo, é im portante e poderoso; e contudo é precisam ente esse hom em irrelevante e sem poder que Se revela com o o verdadeiram ente Poderoso, com o Aquele de quem , no final das contas, tudo depende. Por conseguinte, faz parte do tornar-se cristão este sair do âm bito daquilo que todos pensam e querem , sair dos critérios predom inantes, para entrar na luz da verdade sobre o nosso ser e, com essa luz, alcançar o j usto cam inho.

Maria colocou o m enino recém -nascido num a m anj edoura (cf. Lc 2, 7). Daqui, com razão, se deduziu que Jesus nasceu num estábulo, num am biente pouco confortável – vem -nos a tentação de dizer: indigno –, que todavia, proporcionava a discrição necessária para o acontecim ento sagrado. Desde sem pre, na região ao redor de Belém , se usaram as grutas com o estábulo (cf. Stuhlmacher, Die Geburt des Immanuel, p. 51).

Já no m ártir Justino († 165) e em Orígenes († 254 aprox.) se encontra a tradição segundo a qual o lugar do nascim ento de Jesus teria sido um a gruta, que os cristãos na Palestina indicavam . O fato de Rom a – depois da expulsão dos j udeus da Terra Santa, no segundo século – ter transform ado a gruta num lugar de culto a Tam m uz-Adonis, pretendendo desse m odo, evidentem ente, suprim ir a m em ória cultual dos cristãos, confirm a a antiguidade de tal lugar de culto e m ostra tam bém a im portância com que era avaliado pelos rom anos; m uitas vezes as tradições locais são um a fonte m ais atendível que as inform ações escritas. Pode-se, portanto, reconhecer um a m edida notável de credibilidade na tradição local de Belém , à qual está ligada a própria Basílica da Natividade.

Maria envolveu o m enino com faixas. Sentim entalism os à parte, podem os im aginar o am or com que Maria aguardara a sua hora e terá preparado o nascim ento do seu Filho. A tradição dos ícones, com base na teologia dos Padres, interpretou teologicam ente tam bém a m anj edoura e as faixas. O m enino rigorosam ente envolvido com faixas aparece com o um a alusão antecipada à hora da sua m orte: Jesus é desde o início o Im olado, com o verem os de form a ainda m ais detalhada ao refletir sobre a palavra “prim ogênito”. Por isso, a m anj edoura era representada com o um a espécie de altar.

Agostinho interpretou o significado da m anj edoura com um pensam ento que pode, à prim eira vista, parecer quase inconveniente, m as, se exam inado m ais atentam ente, encerra um a verdade profunda. A m anj edoura é o lugar onde os anim ais encontram o seu alim ento. Agora, porém , j az na m anj edoura Aquele que havia de apresentar-Se a Si m esm o com o o verdadeiro pão descido do céu, com o o verdadeiro alim ento de que o hom em necessita para ser pessoa hum ana. É o alim ento que dá ao hom em a vida verdadeira: a vida eterna. Dessa form a, a m anj edoura torna-se um a alusão à m esa de Deus, para a qual é convidado o hom em a fim de receber o pão de Deus. Na pobreza do nascim ento de Jesus, delineia-se a grande realidade, em que m isteriosam ente se realiza a redenção dos hom ens.

Com o se disse, a m anj edoura faz pensar nos anim ais que encontram nela o seu alim ento. Aqui, no Evangelho, não se fala de anim ais; m as a m editação guiada pela fé, lendo o Antigo e o Novo Testam ento correlacionados, não tardou a preencher essa lacuna, reportando-se a Isaías 1, 3: “O boi conhece o seu dono, e o j um ento, a m anj edoura do seu senhor, m as Israel é incapaz de conhecer, o m eu povo não pode entender”.

Peter Stuhlm acher observa que provavelm ente teve influência tam bém a versão grega (dos Setenta, “LXX”) de Habacuc 3, 2: “No m eio de dois seres vivos, (…) tu serás conhecido; quando vier o tem po, tu aparecerás” (cf. Peter Stuhlm acher, Die Geburt des Immanuel, p. 52). Aqui, com os dois seres vivos, entende-se evidentem ente os dois querubins que, segundo Êxodo 25, 18-20, estavam colocados sobre a cobertura da arca da aliança, indicando e sim ultaneam ente escondendo a presença m isteriosa de Deus. Assim a m anj edoura tornar-se-ia, de certo m odo, a arca da aliança, na qual Deus, m isteriosam ente guardado, está no m eio dos hom ens e à vista da qual chegou, para “o boi e o j um ento”, para a hum anidade form ada por j udeus e gentios, a hora do conhecim ento de Deus.

Portanto, na singular conexão entre Isaías 1, 3; Habacuc 3, 2; Êxodo 25, 18-20 e a m anj edoura, aparecem os dois anim ais com o representação da hum anidade, por si m esm a desprovida de com preensão, que, diante do Menino, diante da aparição hum ilde de Deus no estábulo, chega ao conhecim ento e, na pobreza de tal nascim ento, recebe a epifania que agora a todos ensina a ver. Bem depressa a iconografia cristã individuou esse m otivo. Nenhum a representação do presépio prescindirá do boi e do j um ento.

Depois dessa pequena divagação, voltem os ao texto do Evangelho. Nele lem os: Maria “deu à luz o seu filho prim ogênito” (Lc 2, 7). O que significa isso?

O prim ogênito não é necessariam ente o prim eiro de um a série em sucessão. O term o “prim ogênito” não alude a um a num eração em ato, m as indica um a qualidade teológica expressa nas m ais antigas coleções de leis de Israel. Nas prescrições relativas à Páscoa, aparece esta frase: “O Senhor falou a Moisés, dizendo: ‘Consagra-m e todo o prim ogênito, todo o que abre o útero m aterno, entre os filhos de Israel. Hom em ou anim al será m eu’ (Ex 13, 1-2). “Todo o prim ogênito do hom em , entre os teus filhos, tu o resgatarás” (Ex 13, 13). Assim a frase sobre o prim ogênito é j á um a alusão antecipada à narração sucessiva da apresentação de Jesus no Tem plo. Sej a com o for, com essa palavra acena-se a um a particular pertença de Jesus a Deus.

A teologia paulina, em duas etapas, desenvolveu ainda m ais esse pensam ento de Jesus com o prim ogênito. Na Carta aos Rom anos, Paulo designa Jesus com o “o prim ogênito entre m uitos irm ãos” (8, 29): com o Ressuscitado, Ele é agora de m odo novo “prim ogênito” e, ao m esm o tem po, o início de um a m ultidão de irm ãos; no novo nascim ento da ressurreição, Jesus j á não é apenas o prim eiro na ordem da dignidade, m as é Aquele que inaugura um a nova hum anidade. Agora, depois de se ter derrubado a porta férrea da m orte, são m uitas as pessoas que por ela podem passar j untam ente com Ele: todos aqueles que, no Batism o, m orreram e ressuscitaram com Ele.

Na Carta aos Colossenses, esse pensam ento é am pliado ainda m ais: Cristo é designado o “prim ogênito de toda a criatura” (1, 15) e “o prim ogênito dos m ortos” (1, 18); “n’Ele foram criadas todas as coisas” (1, 16). “Ele é o princípio” (1, 18). O conceito de prim ogenitura adquire um a dim ensão cósm ica: Cristo, o Filho encarnado, é, por assim dizer, a prim eira ideia de Deus e antecede toda criatura, que está ordenada para Ele e a partir d’Ele. Por isso, é tam bém princípio e fim da nova criação, que teve início com a ressurreição.

Em Lucas, não se fala de tudo isso, m as para os sucessivos leitores do seu Evangelho – para nós – sobre a pobre m anj edoura na gruta de Belém está j á presente este esplendor cósm ico: aqui o verdadeiro prim ogênito do universo entrou no m eio de nós.

“Na m esm a região havia uns pastores que estavam nos cam pos e que durante as vigílias da noite m ontavam guarda a seu rebanho. O Anj o do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor envolveu-os de luz” (Lc 2, 8-9). As prim eiras testem unhas do grande acontecim ento são pastores que estão de vigia. Muito se refletiu sobre o significado que possa ter o fato de os prim eiros a receber a m ensagem terem sido precisam ente pastores. Parece-m e que não sej a necessária dem asiada perspicácia para superar tal questão: Jesus nasceu fora da cidade, num am biente circundado por todo o lado de pastagens para onde os pastores traziam os seus rebanhos. Por isso, era norm al que os prim eiros a ser cham ados para ver o Menino na m anj edoura fossem os pastores que estavam m ais perto do acontecim ento.

Naturalm ente pode-se desenvolver o pensam ento: talvez os pastores vivessem não só externam ente, m as tam bém interiorm ente, m ais perto do acontecim ento que os habitantes da cidade, que dorm iam tranquilos. Tam bém intim am ente não estavam longe daquele Deus que Se fez m enino. Coincide com isso o fato de pertencerem aos pobres, às alm as sim ples, pelas quais Jesus havia de bendizer o Pai, porque é sobretudo a elas que está reservado o acesso ao m istério de Deus (cf. Lc 10, 21-22). Os pastores representam os pobres de Israel, os pobres em geral: os destinatários privilegiados do am or de Deus.

Um novo realce foi aduzido m ais tarde, principalm ente pela tradição m onástica: os m onges eram pessoas que velavam . Queriam perm anecer acordados neste m undo: naturalm ente através da sua oração noturna, m as tam bém e sobretudo estar interiorm ente vigilantes, ser sensíveis à cham ada de Deus através dos sinais da sua presença.

Por últim o, pode-se ainda pensar na narrativa da escolha de Davi com o rei. Deus rej eitara o rei Saul; e Sam uel foi enviado a Belém para ter com Jessé, para ungir com o rei um dos seus filhos que o Senhor lhe havia de indicar. Dos filhos que se apresentam diante dele, nenhum é o escolhido. Falta ainda o m ais novo, m as está apascentando o rebanho, explica Jessé ao profeta. Sam uel m anda-o cham ar da pastagem e, por indicação de Deus, unge o j ovem Davi “na presença dos seus irm ãos” (cf. 1 Sm 16, 1-13). Davi vem do m eio das ovelhas que apascenta, e é constituído pastor de Israel (cf. 2 Sm 5, 2). O profeta Miqueias fixa o olhar num futuro distante e anuncia que de Belém sairia aquele que havia de apascentar um dia o povo de Israel (cf. Miq 5, 1-3; Mt 2, 6): Jesus nasceu entre os pastores; Ele é o grande Pastor dos hom ens (cf. 1 Ped 2, 25; Heb 13, 20).

Voltem os ao texto da narração do Natal. O anj o do Senhor aparece aos pastores e a glória do Senhor envolve-os de luz. “E ficaram tom ados de grande tem or” (Lc 2, 9). Mas o anj o dissipa o m edo neles e anuncia-lhes “um a grande alegria, que será para todo o povo: nasceu-vos hoj e um salvador, que é o Cristo-Senhor, na cidade de Davi” (Lc 2, 10-11). Com o sinal – é-lhes dito –, haviam de encontrar um m enino envolto em faixas e deitado num a m anj edoura.

“De repente, j untou-se ao anj o um a m ultidão do exército celeste, a louvar a Deus dizendo: ‘Glória a Deus no m ais alto dos Céus, e paz na terra aos hom ens que ele am a’ (Lc 2, 12-14). O evangelista afirm a que os anj os “dizem ”, isto é, falam ; m as, desde o início, para os cristãos era claro que esse falar dos anj os é um cântico, no qual todo o esplendor da grande alegria por eles anunciada se torna sensivelm ente presente. E assim , a partir daquele m om ento, nunca m ais cessou o cântico de louvor dos anj os; continua, através dos séculos, com form as sem pre novas e, na celebração do Natal de Jesus, ressoa sem pre de novo. Bem com preensível é que o povo sim ples dos crentes tenha depois ouvido cantar tam bém os pastores e, na Noite Santa, se j unte às suas m elodias, desde então até o fim dos tem pos, exprim indo a todos com o canto a grande alegria.

Mas, segundo a narração de São Lucas, o que é que cantaram os anj os? Eles unem a glória de Deus “nas alturas” com a paz dos hom ens “na terra”. A Igrej a retom ou essas palavras e, com elas, com pôs um hino inteiro. Nos detalhes, porém , é controversa a tradução das palavras do anj o.

O texto em latim , que nos é fam iliar, até há pouco era traduzido assim : “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos hom ens de boa vontade”. Mas essa tradução é rej eitada pelos exegetas m odernos – e com boas razões – enquanto unilateralm ente m oralizante. A “glória de Deus” não é algo que os hom ens possam produzir (“haja glória a Deus”). A “glória” de Deus existe, Deus é glorioso, e isto é verdadeiram ente um m otivo de alegria: existe a verdade, existe o bem , existe a beleza. Essas realidades existem – em Deus – de form a indestrutível.

Mais relevante é a diferença na tradução da segunda parte das palavras do anj o. Aquilo que até há pouco tem po era traduzido por “hom ens de boa vontade”, exprim e-se agora, na tradução da Conferência Episcopal Alem ã, pelas palavras: “Menschen seiner Gnade – hom ens da sua graça”. Na tradução da Conferência Episcopal Italiana, fala-se de “hom ens que ele am a”. Isto, porém , leva-nos a pôr a questão: Quais são os hom ens que Deus am a? Haverá tam bém alguns que Ele não am a? Porventura não am a a todos com o suas criaturas? Então que pretende dizer o apêndice: “por Ele am ados”? E um a pergunta sem elhante pode ser feita em relação à tradução alem ã. Quem são os “hom ens da sua graça”? Há pessoas que não gozam do seu favor? E, se sim , por que razão? A tradução literal do texto original em grego diz: paz aos “hom ens do [seu] agrado”. Naturalm ente, surge tam bém aqui a questão: Quais hom ens são do agrado de Deus? E por quê?

Assim sendo, para a com preensão desse problem a, encontram os um a aj uda no Novo Testam ento. Na narração do batism o de Jesus, Lucas conta que, enquanto Jesus estava em oração, o céu se abriu e veio de lá um a voz que dizia: “Tu és o m eu Filho am ado; em ti pus todo o m eu agrado” (Lc 3, 22). O hom em do agrado é Jesus; o é, porque vive totalm ente voltado para o Pai: vive com os olhos fixos n’Ele e em com unhão de vontade com Ele. Portanto, as pessoas do agrado são aquelas que têm o com portam ento do Filho: pessoas configuradas com Cristo.

Por trás da diferença entre as traduções está, em últim a análise, a questão sobre a relação entre a graça de Deus e a liberdade hum ana. Aqui são possíveis duas posições extrem as: num extrem o, tem os a ideia da exclusividade absoluta da ação de Deus, de m odo que tudo depende da sua predestinação; no outro extrem o, entretanto, aparece um a posição m oralizante, segundo a qual, no final das contas, tudo é decidido por m eio da boa vontade do hom em . A tradução anterior, que falava dos hom ens “de boa vontade”, podia ser m al interpretada nesse sentido; a nova tradução pode ser m al interpretada no sentido oposto, com o se tudo dependesse unicam ente da predestinação de Deus.

Todo o testem unho da Sagrada Escritura não deixa nenhum a dúvida sobre o fato de que nem um a nem outra dessas posições extrem as é correta. Graça e liberdade com penetram -se m utuam ente, e não podem os encontrar fórm ulas claras para exprim ir o seu operar um a na outra. A verdade é que não poderíam os am ar se prim eiro não fôssem os am ados por Deus; a graça de Deus sem pre nos precede, abraça e sustenta. Mas é verdade tam bém que o hom em é cham ado a tom ar parte nesse am or; ele não é um sim ples instrum ento, sem vontade própria, da onipotência de Deus: pode am ar em com unhão com o am or de Deus, com o pode tam bém recusar esse am or. Parece-m e que a tradução literal – “do agrado” (ou “do seu agrado”) – sej a a que m elhor respeita esse m istério, sem o dissolver unilateralm ente.

Quanto à glória nas alturas, obviam ente resulta determ inante aqui o verbo “é”: Deus é glorioso, é a Verdade indestrutível, a Beleza eterna. Trata-se da certeza fundam ental e consoladora da nossa fé. Mas tam bém aqui, segundo os três prim eiros Mandam entos do Decálogo, existe subordinadam ente um a tarefa que nos cabe: em penhar-nos para que a grande glória de Deus não sej a m anchada nem deturpada no m undo, para que se preste a devida glória à sua grandeza e à sua santa vontade.

Devem os agora refletir sobre outro aspecto da m ensagem do anj o. Nela aparecem as categorias de fundo que caracterizam a visão do m undo e a com preensão de si m esm o que tinha o im perador Augusto: sōtēr (salvador), paz, ecumene – aqui naturalm ente alargadas para além do m undo m editerrâneo e referidas ao céu e à terra –, com o tam bém a palavra sobre a boa nova (euangélion). Esses paralelism os certam ente não são casuais; Lucas quer nos dizer o seguinte: aquilo que o im perador Augusto pretendeu para si realiza-se de m odo m ais sublim e no Menino que nasceu indefeso e sem poder na gruta de Belém e cuj os hóspedes foram pobres pastores.

Com razão, sublinha Reiser que, no centro de am bas as m ensagens, está a paz e que, sob esse aspecto, a pax Christi não está necessariam ente em contraste com a pax Augusti; m as a paz de Cristo supera a paz de Augusto, com o o céu se eleva acim a da terra (cf. Wie wahr ist die Weihnachtsgeschichte?, p. 460). Por conseguinte, a com paração entre os dois gêneros de paz não deve ser considerada unilateralm ente polêm ica. Com efeito, Augusto “trouxe 250 anos de paz, segurança j urídica e um bem -estar com que hoj e m uitos países do antigo Im pério Rom ano podem apenas sonhar” (ibid. p.458). À política, é absolutam ente deixado o espaço que lhe é próprio e a sua própria responsabilidade; m as, quando o im perador se diviniza e reivindica qualidades divinas, a política ultrapassa os próprios lim ites e prom ete aquilo que não pode cum prir. Na realidade, m esm o no período áureo do Im pério Rom ano, a segurança j urídica, a paz e o bem -estar sem pre correram perigo, e nunca foram plenam ente realizados. Um olhar à Terra Santa é suficiente para se reconhecer os lim ites da pax romana.

O Reino anunciado por Jesus, o Reino de Deus, é de caráter diferente. Não diz respeito apenas à bacia do Mediterrâneo nem apenas a um tem po determ inado; m as tem a ver com o hom em na profundidade do seu ser; abre-o para o verdadeiro Deus. A paz de Jesus é um a paz que o m undo não pode dar (cf. Jo 14, 27). Em últim a análise, a questão aqui é saber o que se entende por redenção, libertação e salvação. Um a coisa é óbvia: Augusto pertence ao passado, enquanto Jesus Cristo é o presente e o futuro: “é o m esm o ontem e hoj e; Ele o será para a eternidade” (Heb 13, 8).

“Quando os anj os os deixaram (...), os pastores disseram entre si: ‘Vam os j á a Belém e vej am os o que aconteceu, o que o Senhor nos deu a conhecer’. Foram então às pressas, e encontraram Maria, José e o recém -nascido deitado na m anj edoura” (Lc 2, 15-16). Os pastores foram apressadam ente. De form a análoga, o evangelista narrara que Maria, depois da alusão do anj o à gravidez da sua parenta Isabel, se dirigiu “apressadam ente” para a cidade de Judá, onde viviam Zacarias e Isabel (cf. Lc 1, 39). Os pastores foram apressadam ente, com certeza m ovidos pela curiosidade hum ana, ou sej a, para ver o prodígio que lhes fora anunciado; m as seguram ente sentiam -se tam bém cheios de ardor devido à alegria neles gerada pelo fato de agora ter nascido verdadeiram ente o Salvador, o Messias, o Senhor, de quem tudo estava à espera, e eles seriam os prim eiros a poderem vê-Lo.