A Infância de Jesus

Joseph Ratzinger · Capítulo 18 de 18

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A Infância de Jesus

Epílogo

Jesus aos 12 anos no Templo

 

Além da narração do nascim ento de Jesus, São Lucas deixou-nos ainda um precioso fragm ento da tradição sobre a infância; fragm ento este no qual transparece de m odo singular o m istério de Jesus. Narra ele que, todos os anos pela Páscoa, os pais de Jesus iam em peregrinação a Jerusalém . A fam ília de Jesus era piedosa, observava a Lei.

Sucede às vezes, nas descrições da figura de Jesus, que se dá realce quase só ao aspecto da contestação, à sua intervenção contra um a falsa devoção; desse m odo, Ele aparece com o um liberal ou um revolucionário. Realm ente, na sua m issão de Filho, Jesus introduziu um a nova fase do relacionam ento com Deus, em que inaugurou um a nova dim ensão da relação do hom em com Deus. Isso, porém , não é um ataque à religiosidade de Israel. A liberdade de Jesus não é a liberdade do liberal, m as a do Filho, ou sej a, a liberdade daquele que é verdadeiram ente piedoso. Com o Filho, Jesus traz um a nova liberdade, m as não a de alguém que vive sem qualquer vínculo; antes, é a liberdade d’Aquele que está totalm ente unido à vontade do Pai e aj uda os hom ens a alcançarem a liberdade da união interior com Deus.

Jesus não veio abolir, m as levar à perfeição (cf. Mt 5, 17). É precisam ente esta união – derivada do seu ser Filho – entre um a inovação radical e um a fidelidade igualm ente radical que se m anifesta na breve narração sobre Jesus aos 12 anos; antes, eu diria que tal união é o verdadeiro conteúdo teológico que a narrativa tem em vista.

Voltem os aos pais de Jesus. A Torah prescrevia que cada israelita, por ocasião das três grandes festas – da Páscoa, das Sem anas (Pentecostes) e das Cabanas – devia se apresentar no Tem plo (cf. Ex 23, 17; 34, 23-24; Dt 16, 16-17). Se as m ulheres tam bém estavam obrigadas a essa peregrinação ou não, era obj eto de discussão entre as escolas de Sham m ai e Hillel. Para os adolescentes, a obrigação vigorava depois de com pletarem 13 anos; entretanto, valia tam bém a prescrição de que eles deviam habituar-se pouco a pouco aos m andam entos e, para isso, podia servir a peregrinação j á aos 12 anos de idade. O fato de Maria e Jesus terem participado na peregrinação prova um a vez m ais a religiosidade da fam ília de Jesus.

Nesse contexto, fixem os a nossa atenção tam bém no sentido m ais profundo da peregrinação: indo três vezes por ano ao Tem plo, Israel perm anece, por assim dizer, um povo de Deus em peregrinação, um povo que está sem pre a cam inho do seu Deus e recebe a sua identidade e unidade sem cessar do encontro com Deus no único Tem plo. A Sagrada Fam ília insere-se nesta grande com unidade a cam inho do Tem plo e de Deus. Na viagem de regresso, sucede um im previsto. Jesus não parte com os outros, m as fica em Jerusalém . Os seus pais só percebem isso no fim do prim eiro dia do regresso da peregrinação; para eles, evidentem ente, era norm al supor que o filho estivesse em qualquer parte na grande com itiva; esta é designada por Lucas com a palavra synodía – “com unidade de cam inho” –, o term o técnico para dizer caravana. Com base na nossa im agem talvez dem asiado reduzida da Sagrada Fam ília, esse fato surpreende; e todavia o m esm o m ostra, de m aneira m uito bela, com o na Sagrada Fam ília estavam bem conciliadas a liberdade e a obediência. O adolescente de 12 anos era deixado livre para decidir se queria j untar-se aos coetâneos e am igos e ficar na sua com panhia ao longo do cam inho. Mas, à noite, esperavam -no os pais.

O fato de Jesus não se apresentar não tem nada a ver com a liberdade dos j ovens, m as, com o se verá, rem ete para outro nível: a m issão particular do Filho. Para os pais, com eçaram assim dias cheios de ansiedade e preocupação. O evangelista conta que só depois de três dias é que eles encontraram Jesus no Tem plo, sentado no m eio dos doutores, enquanto os ouvia e interrogava (cf. Lc 2, 46).

Os três dias podem ser explicados de form a m uito concreta: Maria e José tinham cam inhado durante um dia para o norte, em pregaram outro dia para regressar e finalm ente, no terceiro dia, encontraram Jesus. Em bora os três dias sej am um a indicação de tem po m uito realista, é preciso dar razão a René Laurentin que aqui vê um a velada alusão aos três dias entre a Cruz e a Ressurreição. São dias de sofrim ento por causa da ausência de Jesus, dias dum a escuridão cuj a gravidade se sente nas palavras da Mãe: “Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu, aflitos, te procurávam os!” (Lc 2, 48). Assim , da prim eira Páscoa de Jesus, estende-se um arco até a sua últim a Páscoa, a da Cruz.

A m issão divina de Jesus rom pe todas as m edidas hum anas, tornando-se sem cessar, para o hom em , um m istério obscuro. Para Maria, algo daquela espada de dor que Sim eão m encionara (cf. Lc 2, 35) torna-se perceptível naquela hora. Quanto m ais um a pessoa se aproxim a de Jesus, m ais envolvida fica no m istério da sua Paixão.

A resposta de Jesus à pergunta da Mãe é im pressionante: Com o?! Andastes à m inha procura? Não sabíeis onde deve estar um filho? Não sabíeis que deve estar na casa do pai, “nas coisas do Pai” (Lc 2, 49)? Jesus diz aos pais: Estou precisam ente onde é o m eu lugar: com o Pai, na sua casa.

Nessa resposta, são im portantes sobretudo duas coisas. Maria dissera: “Teu pai e eu, aflitos, te procurávam os”. Jesus corrige-A: Eu sou com o Pai. O m eu pai não é José, m as um Outro: o próprio Deus. A Ele pertenço, com Ele estou. Porventura se pode exprim ir de form a m ais clara a filiação divina de Jesus?

Diretam ente relacionada com isso está a segunda coisa. Jesus fala de um “dever”, a que Ele se atém . O filho, o m enino, deve estar com o pai. A palavra grega deĩ, que Lucas usa aqui, reaparece nos Evangelhos sem pre em lugares onde é apresentada um a disposição da vontade de Deus, à qual Jesus está subm etido. Ele “deve” sofrer m uito, ser rej eitado, ser m orto e ressuscitar, com o diz aos discípulos depois da confissão de Pedro (cf. Mc 8, 31). Ora, esse “deve” tem valor j á neste m om ento inicial: Jesus deve estar com o Pai, e assim torna-se claro que aquilo que parecia desobediência ou liberdade inconveniente com os pais, na realidade é precisam ente expressão da sua obediência filial. Ele está no Tem plo, não com o rebelde contra os pais, m as precisam ente com o Aquele que obedece, com a m esm a obediência que O conduzirá à Cruz e à Ressurreição.

São Lucas descreve a reação de Maria e José às palavras de Jesus com duas afirm ações: “Eles, porém , não com preenderam a palavra que Ele lhes dissera”, e ainda “sua m ãe conservava a lem brança de todos esses fatos em seu coração” (Lc 2, 50.51). A palavra de Jesus é grande dem ais por então; a própria fé de Maria é um a fé “a cam inho”, um a fé que repetidas vezes se encontra na escuridão e, atravessando a escuridão, deve am adurecer. Maria não com preende as palavras de Jesus, m as guarda-as no seu coração e aqui lentam ente faz com que cheguem à m aturação.

As palavras de Jesus não cessam j am ais de serem m aiores que a nossa razão; superam , sem pre de novo, a nossa inteligência. A tentação de reduzir e m anipular as palavras de Jesus, para fazê-las entrar na nossa m edida, é com preensível; faz parte de um a reta exegese precisam ente a hum ildade de respeitar essa grandeza, que m uitas vezes nos supera com as suas exigências, e não reduzir as palavras de Jesus com a pergunta sobre aquilo de que podem os “crê-Lo capaz”. Ele considera-nos capazes de grandes coisas. Crer significa subm eter-se a essa grandeza e pouco a pouco crescer rum o a ela.

Nisso, Maria é apresentada por Lucas deliberadam ente com o aquela que crê de m odo exem plar: “Feliz aquela que acreditou” – dissera-lhe Isabel (Lc 1, 45). Com a observação, repetida duas vezes na narrativa da infância, de que Maria guardava as palavras no seu coração (cf. Lc 2, 19.51), Lucas rem ete – com o se disse – para a fonte, onde bebe a sua narração. Ao m esm o tem po, Maria aparece não só com o a grande crente, m as tam bém com o a im agem da Igrej a, que guarda a Palavra no seu coração e a transm ite.

“Desceu, então, com eles para Nazaré e era-lhes subm isso. (...) E Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos hom ens” (Lc 2, 51-52). Depois do m om ento em que refulgira a obediência m aior em que vivia, Jesus retorna à situação norm al da sua fam ília, na hum ildade da vida sim ples e na obediência aos seus pais terrenos.

Depois de afirm ar que Jesus crescia em sabedoria e em estatura, Lucas acrescenta a fórm ula extraída do prim eiro livro de Sam uel, onde aparece referida ao j ovem Sam uel (cf. 2, 26): crescia em graça (benevolência, sim patia) diante de Deus e dos hom ens. Assim o evangelista recorre m ais um a vez à correlação entre a história de Sam uel e a história da infância de Jesus, correlação essa que apareceu pela prim eira vez no Magnificat, o cântico de louvor de Maria por ocasião do encontro com Isabel. Esse hino de j úbilo e de louvor a Deus que am a os hum ildes é um a nova versão da oração de gratidão com que Ana, a m ãe de Sam uel, que até então não tinha filhos, agradece pelo dom do m enino com que o Senhor tinha posto term o à sua am argura. Na história de Jesus – diz-nos o evangelista com a sua citação – repete-se, a um nível m ais elevado e de m odo definitivo, a história de Sam uel.

Tam bém é im portante aquilo que Lucas diz acerca do crescim ento de Jesus não só em idade, m as tam bém em sabedoria. Por um lado, na resposta de Jesus com 12 anos, tornou-se evidente que Ele conhece o Pai – Deus – a partir de dentro. Só Ele conhece Deus, e não através de pessoas hum anas que dão testem unho d’Ele, m as reconhece-O em Si m esm o. Com o Filho, encontra-Se diretam ente com o Pai; vive na Sua presença; vê-O. João diz que Ele é o Unigênito, que “está no seio do Pai” e, por isso, pode revelá-Lo (Jo 1, 18). É precisam ente isso que se torna evidente na resposta daquele adolescente de 12 anos: Jesus está com o Pai, vê as coisas e os hom ens na Sua luz.

No entanto, é verdade tam bém que a sua sabedoria cresce. Enquanto hom em , Jesus não vive em um a onisciência abstrata. Mas está enraizado num a história concreta, num lugar e num tem po, nas várias fases da vida hum ana, e de tudo isso tom a form a concreta o seu saber. Manifesta-se aqui, de m odo m uito claro, que Ele pensou e aprendeu de m aneira hum ana.

Concretam ente, torna-se evidente que Jesus é verdadeiro hom em e verdadeiro Deus, com o exprim e a fé da Igrej a. A profunda ligação entre am bas as dim ensões, em últim a análise, não podem os defini-la; perm anece um m istério e todavia m anifesta-se de form a m uito concreta na breve narração sobre Jesus aos 12 anos; um a narração que dessa m aneira abre, ao m esm o tem po, a porta para o conj unto da sua figura que depois nos é narrado pelos Evangelhos.

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