A Infância de Jesus

Joseph Ratzinger · Capítulo 8 de 18

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A Infância de Jesus

5. O parto virginal: mito ou verdade histórica?

Sendo assim , que podem os dizer? De form a análoga ao que sucede com o grande cântico do Servo de YHWH em Isaías 53, a afirm ação relativa à virgem que dá à luz o Em anuel é um a Palavra à espera. No seu contexto histórico, não se encontra qualquer correspondência, pelo que perm anece um a questão em aberto: não é um a Palavra dirigida apenas a Acaz, nem som ente a Israel; m as dirige-se à hum anidade. O sinal que o próprio Deus anuncia não é oferecido para um a situação política concreta, m as diz respeito ao hom em e à história no seu todo.

Porventura não deviam os cristãos ouvir essa Palavra com o Palavra para eles? Porventura não deviam , tocados pela Palavra, chegar à certeza de que a Palavra, que ali perm anecia de form a estranha à espera de ser decifrada, se tornou agora realidade? Não deviam eles estar convencidos de que, no nascim ento de Jesus da Virgem Maria, Deus nos deu este sinal? O Em anuel veio. Assim resum iu Marius Reiser a experiência que fizeram os leitores cristãos com essa Palavra: “O vaticínio do profeta é com o um buraco de fechadura m iraculosam ente preparado, no qual a chave – Cristo – entra perfeitam ente” (Bibelkritik, p. 328).

Sim , eu creio que podem os hoj e, depois de toda a laboriosa pesquisa da exegese crítica, com partilhar, de m odo totalm ente novo, a m aravilha pelo fato de que um a Palavra do ano 733 a.C., que ficara incom preensível, se cum priu no m om ento da concepção de Jesus Cristo: na verdade, Deus deu-nos um grande sinal que diz respeito ao m undo inteiro.

5. O PARTO VIRGINAL: MITO OU VERDADE HISTÓRICA?

No final, porém , devem os pôr-nos m uito seriam ente a seguinte questão: aquilo que os dois evangelistas Mateus e Lucas, de form a diferente e com base em tradições diversas, nos dizem sobre a concepção de Jesus por obra do Espírito no seio da Virgem Maria é um acontecim ento histórico real ou é um a piedosa lenda que, a seu m odo, quer exprim ir e interpretar o m istério de Jesus?

Procurou-se, principalm ente a partir de Eduard Norden († 1941) e Martin Dibelius († 1947), fazer derivar a narração do nascim ento virginal de Jesus da história das religiões e fez-se aparentem ente, um a particular descoberta nas narrativas sobre a geração e o nascim ento dos faraós egípcios. Um segundo âm bito de ideias parecidas foi encontrado no j udaísm o antigo – sem pre no Egito – em Filón de Alexandria († depois de 40 d.C.). Todavia, esses dois âm bitos de ideias são m uito diferentes entre si: na descrição da geração divina dos faraós, em que a divindade se aproxim a corporalm ente da m ãe, trata-se em últim a análise da legitim ação teológica do culto ao soberano, de um a teologia política que quer colocar o rei na esfera do divino e assim legitim ar a sua pretensão divina; por sua vez, a descrição que Filón faz da geração, a partir dum a sem ente divina, dos filhos dos Patriarcas tem um caráter alegórico. “As esposas dos Patriarcas (...) tornam -se alegorias das virtudes; enquanto tais, ficam grávidas de Deus e dão à luz, para seus m aridos, as virtudes por elas personificadas” (Gnilka, Das Matthäusevangelium, I/1, p. 25). Até que ponto se considerem – alegoria à parte – as coisas tam bém reais, é difícil de calcular.

O resultado de um a leitura atenta é que nem no prim eiro nem no segundo caso tem os um verdadeiro paralelism o com a narração do nascim ento virginal de Jesus. O m esm o vale para os textos provenientes do am biente greco-rom ano, que se pensava poder citar com o m odelos pagãos da narração da concepção de Jesus por obra do Espírito Santo: a união entre Zeus e Alcm ena, da qual teria nascido Hércules, a união entre Zeus e Dânae, da qual teria nascido Perseu, etc.

A diferença das concepções é tão profunda que – de fato – não se pode falar de verdadeiros paralelos. Nas narrativas dos Evangelhos, continuam plenam ente preservadas a unicidade do único Deus e a diferença infinita entre Deus e a criatura; não existe nenhum a confusão, nem há nenhum sem ideus. A Palavra criadora de Deus, sozinha, realiza algo de novo. Jesus, nascido de Maria, é plenam ente hom em e plenam ente Deus, sem confusão e sem divisão, com o especificará o Credo de Calcedônia no ano de 451.

As narrações em Mateus e Lucas não são form as m ais desenvolvidas de m itos. Segundo a sua noção de fundo, estão solidam ente colocadas na tradição bíblica de Deus Criador e Redentor. Mas, quanto ao seu conteúdo concreto, provêm da tradição fam iliar; são um a tradição transm itida que conserva aquilo que aconteceu.

Eu consideraria com o a única explicação verdadeira daquelas narrativas aquilo que Joachim Gnilka, retom ando Gerhard Delling, exprim e sob a form a de pergunta: “Terá porventura o m istério do nascim ento de Jesus (...) sido anteposto ao Evangelho em um segundo tem po, ou não se dem onstra antes que o m istério era conhecido, só que não se queria falar dem asiado dele nem torná-lo um acontecim ento vulgar ao alcance da m ão?” (p. 30).

Parece-m e norm al que, só depois da m orte de Maria, se pudesse tornar público o m istério e entrar na tradição com um do cristianism o prim itivo; podia então tam bém ser inserido no desenvolvim ento da doutrina cristológica e relacionado com a confissão que reconhecia, em Jesus, o Cristo, o Filho de Deus. E não no sentido que de um a ideia se teria depois desenvolvido um a narração, transform ando a ideia num fato, m as ao contrário: o acontecim ento, um fato agora dado a conhecer, tornava-se obj eto de reflexão, à procura da sua com preensão. Do conj unto da figura de Jesus Cristo descia um a luz sobre esse evento e, vice-versa, a partir do evento com preendia-se ainda m ais profundam ente a lógica de Deus. O m istério do início ilum inava o que vinha a seguir e, vice-versa, a fé em Cristo j á desenvolvida aj udava a com preender o início, a sua densidade de significado. Assim se desenvolveu a cristologia.

Talvez sej a oportuno m encionar aqui um texto que, com o um presságio do m istério do parto virginal, fez o cristianism o ocidental refletir desde os prim eiros tem pos. Refiro-m e à quarta écloga de Virgílio, que pertence ao seu ciclo de poesias Bucólicas (poesias pastoris), com posto, aproxim adam ente, 40 anos antes do nascim ento de Jesus. No m eio dos versos j ocosos sobre a vida do cam po, de im proviso ressoa um tom m uito diferente: anuncia-se a chegada de um a nova grande ordem do m undo a partir do que é “íntegro” (ab integro). “Iam redit et virgo – j á retorna a virgem ”. Um a nova linhagem desce do alto do céu. Nasce um m enino, com o qual term ina a geração “de ferro”.

O que é que se prom ete aqui? Quem é a virgem ? Quem é o m enino a quem se alude? Com o no caso de Isaías 7, 14, tam bém aqui os estudiosos procuraram identificações históricas, que acabaram igualm ente em nada. Assim sendo, o que é que diz o texto? O quadro im aginário do conj unto deriva da representação antiga do m undo: na base, está a doutrina do ciclo das eras e do poder do destino. Mas essas ideias antigas adquirem um a ardente atualidade com a expectativa de que teria chegado a hora para um a grande m udança das eras; e o que fora até então apenas um esquem a longínquo, de im proviso torna-se presente. Na época de Augusto, depois de todos os desastres por causa de guerras e guerras civis, o im pério é atravessado por um a onda de esperança: agora deveria finalm ente com eçar um grande período de paz, deveria surgir um a nova ordem m undial.

Faz parte dessa atm osfera de expectativa da novidade tam bém a figura da virgem , im agem da pureza, da integridade, do com eço “ab integro”. E faz parte dela a expectativa do m enino, do “rebento divino” (deum suboles). Por isso, talvez se possa dizer que a figura da virgem e a do m enino divino fazem parte, de algum m odo, das im agens prim ordiais da esperança hum ana que em ergem em m om entos de crise e de expectativa, sem que haj a figuras concretas no horizonte.

Voltem os às narrativas bíblicas sobre o nascim ento de Jesus da Virgem Maria, que concebera o m enino por obra do Espírito Santo. Trata-se de um a realidade verdadeira? Ou porventura foram aplicadas às figuras de Jesus e sua Mãe as ideias de tais arquétipos?

Quem lê as narrativas bíblicas e as com para com as tradições sem elhantes de que antes se falou brevem ente, vê im ediatam ente a diferença profunda. Tanto a com paração com as ideias egípcias acenadas com o o sonho da esperança que encontram os em Virgílio conduzem -nos para m undos de caráter m uito diferente.

Em Mateus e Lucas, não há nenhum indício de um a guinada cósm ica, nada de contatos físicos entre Deus e os hom ens: é-nos narrada um a história m uito hum ilde e, todavia, por isso m esm o, de um a grandeza enorm e. É a obediência de Maria que abre a porta para Deus. A Palavra de Deus, o seu Espírito, cria nela o m enino; cria-o através da porta da sua obediência. Assim , Jesus é o novo Adão, um novo com eço “abintegro”, ou sej a, da Virgem que está plenam ente à disposição da vontade de Deus. Acontece assim um a nova criação, que todavia está ligada ao “sim ” livre da pessoa hum ana de Maria.

Talvez se possa dizer que os sonhos secretos e confusos da hum anidade a propósito de um novo início realizaram -se nesse acontecim ento: num a realidade com o só Deus podia criar.

Por conseguinte, o que dizem os no Credo – “Creio (...) em Jesus Cristo, seu [de Deus] único Filho, nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo; nasceu da Virgem Maria” – é verdade?

A resposta, sem qualquer hesitação, é sim . Karl Barth fez notar que, na história de Jesus, há dois pontos nos quais o agir de Deus intervém diretam ente no m undo m aterial: o seu nascim ento da Virgem e a ressurreição do sepulcro, donde Jesus saiu e não sofreu a corrupção. Esses dois pontos são um escândalo para o espírito m oderno. A Deus é concedido agir sobre as ideias e os pensam entos, na esfera espiritual, m as não sobre a m atéria. Isso incom oda; ali não é o seu lugar. Mas é precisam ente disto que se trata: que Deus é Deus, e não Se m ove apenas no m undo das ideias. Nesse sentido, em am bos os pontos, trata-se precisam ente de Deus ser Deus. Está em j ogo a questão: tam bém Lhe pertence a m atéria?

Naturalm ente não se podem atribuir a Deus coisas insensatas ou não razoáveis ou que estej am em contraste com a sua criação. Ora, aqui não se trata de algo não razoável ou de contraditório, m as precisam ente de algo de positivo: do poder criador de Deus, que abraça todo o ser. Por isso, estes dois pontos – o parto virginal e a ressurreição real do túm ulo – são pedras de toque para a fé. Se Deus não tem poder tam bém sobre a m atéria, então Ele não é Deus. Mas Ele possui esse poder e, com a concepção e a ressurreição de Jesus Cristo, inaugurou um a nova criação; assim , enquanto Criador, Ele é tam bém o nosso Redentor. Por isso, a concepção e o nascim ento de Jesus da Virgem Maria são elem entos fundam entais da nossa fé e um lum inoso sinal de esperança.