A Infância de Jesus
3. A apresentação de Jesus no templo
E quantos cristãos se apressam hoj e quando se trata das coisas de Deus? E, no entanto, se há algo que m ereça pressa – talvez o evangelista nos queira dizer tacitam ente isso m esm o –, são precisam ente as coisas de Deus!
Aos pastores, o anj o tinha indicado com o sinal que iriam encontrar um m enino envolto em panos e deitado num a m anj edoura. Esse é um sinal de reconhecim ento, ou sej a, um a descrição daquilo que se poderia constatar com os olhos; não é um “sinal”, no sentido que a glória de Deus se teria tornado evidente, de m odo que se pudesse dizer com clareza: este é o verdadeiro Senhor do m undo. Nada disso! Nesse sentido, o sinal é ao m esm o tem po tam bém um não sinal: a pobreza de Deus é o seu verdadeiro sinal. Mas, para os pastores que viram refulgir o esplendor de Deus sobre as suas pastagens, esse sinal é suficiente. Eles veem a partir de dentro; veem isto: o que o anj o disse é verdade. Assim , os pastores regressam cheios de alegria: glorificam e louvam a Deus por aquilo que tinham ouvido e visto (cf. Lc 2, 20).
3. A APRESENTAÇÃO DE JESUS NO TEMPLO
Lucas conclui a história do nascim ento de Jesus com um a narrativa daquilo que aconteceu, segundo a lei de Israel, com Jesus no oitavo e no quadragésim o dia.
O oitavo é o dia da circuncisão. Assim , Jesus é form alm ente recebido na com unidade das prom essas que nasce de Abraão; agora pertence tam bém j uridicam ente ao povo de Israel. Paulo alude a esse fato, ao escrever na Carta aos Gálatas: “Quando, porém , chegou a plenitude do tem po, enviou Deus o seu Filho, nascido de um a m ulher, nascido sob a Lei, para rem ir os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssem os a adoção filial” (4, 4ss). Juntam ente com a circuncisão, Lucas m enciona explicitam ente a im posição do nom e preanunciado, Jesus (“Deus salva”) (cf. 2, 21), de m odo que, a partir da circuncisão, o olhar estende-se para o cum prim ento das expectativas que pertencem à essência da aliança.
Do quadragésim o dia, fazem parte três acontecim entos: a “purificação” de Maria, o “resgate” do filho prim ogênito Jesus através de um sacrifício prescrito pela Lei e a “apresentação” de Jesus no Tem plo.
Na narrativa da infância, tanto no seu conj unto com o nessa passagem do texto, pode-se facilm ente reconhecer o fundam ento j udaico-cristão da tradição da fam ília de Jesus. Ao m esm o tem po, porém , constata-se que tal fundam ento foi elaborado por um redator que escreve e pensa de acordo com a cultura grega e que se pode logicam ente identificar com o próprio evangelista Lucas. Nessa redação, torna-se visível, por um lado, que o seu autor não possuía um conhecim ento preciso da legislação do Antigo Testam ento e, por outro, que o seu interesse não estava nos detalhes da legislação, m as concentrava-se, antes, no núcleo teológico do acontecim ento, que ele pretendia tornar evidente aos seus leitores.
No livro do Levítico, está estabelecido que um a m ulher, depois do parto de um a criança do sexo m asculino, fica im pura (isto é, excluída dos atos litúrgicos) durante sete dias; no oitavo dia, o m enino deve ser circuncidado, e a m ulher perm anecerá ainda 33 dias em casa para se purificar do seu sangue (cf. Lv 12, 1-4). Em seguida, ela deve oferecer um sacrifício de purificação, um cordeiro com o holocausto e um pom binho ou um a rolinha pelo pecado. As pessoas pobres devem dar apenas duas rolinhas ou dois pom binhos.
Maria ofereceu o sacrifício dos pobres (cf. Lc 2, 24). Lucas, cuj o Evangelho inteiro é perm eado por um a teologia dos pobres e da pobreza, aqui nos faz com preender, um a vez m ais e de form a inequívoca, que a fam ília de Jesus se contava entre os pobres de Israel; leva-nos a com preender que precisam ente entre eles podia m aturar o cum prim ento da prom essa. Tam bém aqui percebem os de novo aquilo que quer dizer “nascido sob a Lei”, que significado tem o fato de Jesus dizer a João Batista que deve ser cum prida toda a j ustiça (cf. Mt 3, 15). Maria não necessita ser purificada depois do parto de Jesus: esse nascim ento traz a purificação do m undo. Mas ela obedece à Lei e é precisam ente assim que está ao serviço do cum prim ento das prom essas.
O segundo acontecim ento que se verifica é o resgate do prim ogênito, que é propriedade incondicional de Deus. O preço do resgate eram cinco siclos, e podia ser pago em todo o país a qualquer sacerdote.
Lucas com eça por citar explicitam ente o direito de reserva que Deus tinha sobre o prim ogênito: “Todo m acho que abre o útero será consagrado [isto é, pertencente] ao Senhor” (2, 23; cf. Ex 13, 2.12-13.15). Mas o fato peculiar da sua narrativa é que ele não fala do resgate de Jesus, m as de um terceiro acontecim ento, ou sej a, a entrega (“apresentação”) de Jesus. Pretende evidentem ente dizer: este m enino não foi resgatado nem voltou à propriedade dos pais; antes, pelo contrário, foi entregue no Tem plo pessoalm ente a Deus, totalm ente dado a Ele em propriedade. O term o paristánai, traduzido aqui por “apresentar”, significa tam bém “oferecer”, aplicando-se aos sacrifícios que se fazem no Tem plo. Nisso se vislum bra o elem ento do sacrifício e do sacerdócio.
A propósito do ato de resgate, prescrito pela Lei, Lucas não diz nada; em lugar disso, evidencia-se o contrário: a entrega do Menino a Deus, a quem deve pertencer totalm ente. Para nenhum dos referidos atos prescritos pela Lei era necessário apresentar-se no Tem plo. Mas, para Lucas, precisam ente esta prim eira introdução de Jesus no Tem plo, com o lugar do acontecim ento, é essencial. Aqui, no lugar do encontro entre Deus e seu povo, em vez do ato de retom ar o prim ogênito, tem lugar a oferta pública de Jesus a Deus, seu Pai.
Depois desse ato cultual, no sentido m ais profundo da palavra, Lucas coloca um a cena profética. O velho profeta Sim eão e a profetisa Ana – m ovidos pelo Espírito de Deus – aparecem no Tem plo e saúdam , com o representantes do Israel crente, “o Cristo do Senhor” (Lc 2, 26).
Sim eão é descrito com três qualidades: j usto, piedoso e à espera da consolação de Israel. Na reflexão sobre a figura de São José, vim os o que é um hom em j usto: um hom em que vive na e da Palavra de Deus, vive na vontade de Deus, com o está expressa na Torah. Sim eão é “piedoso”: vive num a atitude de íntim a abertura a Deus; interiorm ente próxim o do Tem plo, vive no encontro com Deus e espera a “consolação de Israel”. Vive voltado para a realidade redentora, para Aquele que deve vir.
No term o “consolação” (paráklēsis), ecoa a afirm ação j oanina sobre o Espírito Santo: Ele é o Paráclito, o Deus consolador. Sim eão é alguém que espera e aguarda, e precisam ente por isso j á repousa sobre ele o “Espírito Santo”. Poderíam os dizer que é um hom em espiritual e, por isso, sensível aos apelos de Deus, à sua presença. Desse m odo, agora fala tam bém com o profeta. Prim eiro tom a o m enino Jesus nos braços e bendiz a Deus, dizendo: “Agora, soberano Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra…” (Lc 2, 29).
O texto, tal com o Lucas no-lo transm ite, j á está liturgicam ente form ado. Nas Igrej as do Oriente e do Ocidente, desde os tem pos antigos, o m esm o faz parte da oração litúrgica da noite. Juntam ente com o Benedictus e o Magnificat – tam bém estes transm itidos por Lucas na narrativa da infância –, pertence ao patrim ônio de orações da m ais antiga Igrej a j udaico-cristã, em cuj a vida litúrgica, repleta de Espírito, podem os aqui brevem ente lançar um olhar. No texto dirigido a Deus, o m enino Jesus é designado com o a “tua Salvação”; ecoa a palavra sōtēr (salvador), que tínham os encontrado na m ensagem do anj o na Noite Santa.
Nesse hino, fazem -se duas afirm ações cristológicas: Jesus é “Luz para ilum inar as nações” e existe para a “glória de teu povo, Israel” (Lc 2, 32). Am bas as expressões são extraídas do profeta Isaías: a que fala da luz para ilum inar as nações provém do prim eiro e do segundo cântico do servo de YHWH (cf. Is 42, 6; 49, 6). Assim , Jesus é identificado com o o servo de YHWH, que no profeta aparece com o um a figura m isteriosa que aponta para o futuro. Pertence à essência da sua m issão a universalidade, a revelação às nações, às quais o Servo leva a luz de Deus. A referência à glória de Israel encontra-se nas palavras de consolação que o profeta dirige a Israel apavorado, anunciando-lhe um a aj uda pela força salvífica de Deus (cf. Is 46, 13).
Depois de ter louvado a Deus, com o m enino nos braços, Sim eão dirige um a palavra profética a Maria, a quem , depois das alusões j ubilosas m otivadas pelo Menino, anuncia um a espécie de profecia da Cruz (cf. Lc 2, 34-35). Jesus “foi colocado para a queda e para o soerguim ento de m uitos em Israel, e para ser com o um sinal de contradição”. Por fim , é reservada à m ãe um a predição m uito pessoal: “Um a espada traspassará tua alm a”. Com a teologia da glória, está indivisivelm ente ligada à teologia da cruz. Pertence ao servo de YHWH a grande m issão de ser o portador da luz de Deus para o m undo. Mas essa m issão cum pre-se precisam ente na escuridão da cruz.
No horizonte de fundo da frase sobre a queda e o soerguim ento de m uitos em Israel, há a alusão a um a profecia extraída de Isaías 8, 14, na qual o próprio Deus é indicado com o um a pedra onde se tropeça e cai. Assim , precisam ente no oráculo sobre a Paixão, aparece a profunda ligação de Jesus com o próprio Deus. Deus e a sua Palavra – Jesus, a Palavra viva de Deus – são “sinais” e desafiam a um a decisão. A oposição do hom em a Deus perm eia toda a história. Jesus Se revela com o o verdadeiro sinal de Deus, precisam ente tom ando sobre Si, atraindo a Si a oposição a Deus até a oposição da Cruz.
Aqui não se fala de algo passado; todos nós sabem os até que ponto atualm ente Cristo é sinal de um a contradição que, em últim a análise, tem em vista o próprio Deus. Sem pre de novo, o próprio Deus é visto com o a lim itação da nossa liberdade, um a lim itação que tem de ser elim inada para que o hom em possa ser com pletam ente ele m esm o. Deus, com a sua verdade, opõe-Se à m últipla m entira do hom em , ao seu egoísm o e à sua soberba.
Deus é am or. Mas o am or pode tam bém ser odiado, quando exige do hom em que saia de si próprio para ir além de si m esm o. O am or não é um rom ântico sentim ento de bem -estar. Redenção não é wellness, bem -estar, um m ergulho na autocom placência, m as um a libertação do autofecham ento no próprio eu. Essa libertação tem com o preço o sofrim ento da Cruz. A profecia sobre a luz e a afirm ação acerca da Cruz cam inham j untas.
No fim , com o vim os, esse oráculo sobre o sofrim ento torna-se m uito concreto; torna-se um a palavra dirigida diretam ente a Maria: “Um a espada traspassará tua alm a” (Lc 2, 35). Podem os supor que essa frase tenha sido conservada na com unidade j udaico-cristã antiga com o palavra tirada das recordações pessoais de Maria. E lá se sabia, com base na m esm a recordação, o significado concreto que tivera essa frase; m as tam bém nós podem os sabê-lo, j untam ente com a Igrej a crente e orante. A oposição ao Filho atinge tam bém a Mãe e penetra no seu coração. A Cruz da contradição, tornada radical, torna-se para ela um a espada que lhe traspassa a alm a. De Maria, podem os aprender a verdadeira com -paixão, livre de qualquer sentim entalism o, acolhendo com o próprio o sofrim ento alheio.
Entre os Padres da Igrej a, considerava-se a insensibilidade, a indiferença diante do sofrim ento alheio com o típica do paganism o. A isso, a fé cristã contrapõe o Deus que sofre com os hom ens e, desse m odo, atrai-nos na com -paixão. A Mater Dolorosa, a Mãe com a espada no coração, é o protótipo desse sentim ento fundam ental da fé cristã.
Ao lado do profeta Sim eão, aparece a profetiza Ana, um a m ulher de 84 anos que, após sete anos de casam ento, vivera dezenas de anos com o viúva. “Não deixava o Tem plo, servindo a Deus dia e noite, com j ej uns e orações” (Lc 2, 37). É a im agem por excelência da pessoa verdadeiram ente piedosa. No Tem plo, ela sentia-se sim plesm ente em casa. De corpo e alm a, vive j unto de Deus e para Deus. Dessa form a, é verdadeiram ente um a m ulher cheia de Espírito, um a profetisa. Dado que vive no Tem plo – em adoração –, está presente na hora em que lá chega Jesus. “Com o chegasse nessa m esm a hora, agradecia a Deus e falava do m enino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém ” (Lc 2, 38). A sua profecia consiste no anúncio, na transm issão da esperança de que vive.
Lucas conclui a sua narração sobre o nascim ento de Jesus, de que fazia parte tam bém o cum prim ento de tudo o que determ inava a Lei (cf. 2, 39), com a inform ação do regresso da Sagrada Fam ília a Nazaré. “E o m enino crescia, tornava-se robusto, enchia-se de sabedoria, e a graça de Deus estava com Ele” (2, 40).