A Infância de Jesus

Joseph Ratzinger · Capítulo 15 de 18

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A Infância de Jesus

4. Parada intermediária em Jerusalém

Ao entrar no m undo pagão, a fé cristã devia enfrentar novam ente a questão das divindades astrais. Por isso Paulo, nas Cartas do cativeiro aos Efésios e aos Colossenses, insistiu fortem ente no fato de que Cristo ressuscitado venceu todo principado e potestade do ar e dom ina o universo inteiro. Nessa linha, se situa tam bém a narrativa da estrela dos m agos: não é a estrela que determ ina o destino do Menino, m as o Menino que guia a estrela. Caso se queira, poder-se-ia falar de um a espécie de guinada antropológica: o hom em assum ido por Deus – com o aqui se m ostra no Filho Unigênito – é m aior do que todos os poderes do m undo m aterial e vale m ais do que o universo inteiro.

4. PARADA INTERMEDIÁRIA EM JERUSALÉM

É hora de voltar ao texto do Evangelho. Os m agos chegam ao local que supunham ser o do vaticínio – o palácio real, em Jerusalém – e perguntam pelo recém -nascido “rei dos j udeus”. Esta é um a expressão tipicam ente não j udaica; em am biente j udaico, ter-se-ia dito rei de Israel. Na verdade, a citada expressão “pagã” reaparece apenas no processo de Jesus e na inscrição da Cruz, usada em am bos os casos por um pagão, Pilatos (cf. Mc 15, 9; Jo 19, 19-22). Por isso pode-se dizer que aqui – no m om ento em que os prim eiros pagãos perguntam por Jesus – j á transparece de algum a form a o m istério da Cruz, indivisivelm ente ligado com a realeza de Jesus.

O referido m istério preanuncia-se, de form a bastante clara, na reação à pergunta dos m agos sobre o rei recém -nascido: “O rei Herodes ficou alarm ado e com ele toda Jerusalém ” (Mt 2, 3). Os exegetas observam que a perturbação de Herodes perante a notícia do nascim ento de um m isterioso pretendente ao trono era certam ente bem com preensível; m as j á o seria m enos o m otivo que levou, naquele m om ento, Jerusalém inteira a ficar perturbada. Isso podia ser sim plesm ente um a alusão antecipada à entrada triunfal de Jesus na Cidade Santa, nas vésperas da sua Paixão; a propósito de tal entrada, diz Mateus que “a cidade inteira agitou-se” (21, 10). Entretanto, desse m odo, as duas cenas em que aparece a realeza de Jesus estão ligadas entre si e tam bém com o tem a da Paixão.

Parece-m e que a notícia da perturbação da cidade se pode explicar tam bém com o que sucede no m om ento da visita dos m agos. A fim de esclarecer a pergunta pelo pretendente ao trono – pergunta extrem am ente perigosa, aos olhos de Herodes –, ele convoca “todos os chefes dos sacerdotes e escribas do povo” (Mt 2, 4). Tal reunião e o seu m otivo não podiam ficar secretos. O nascim ento, suposto ou real, de um rei m essiânico não podia trazer consigo senão contrariedades e infortúnios para os hierosolim itas; conheciam bem Herodes... Aquilo que, na grande perspectiva da fé, é um a estrela de esperança, na perspectiva da vida cotidiana constitui, inicialm ente, apenas causa de transtorno, m otivo de preocupação e tem or; é que Deus atrapalha a nossa com odidade diária. A realeza de Jesus e a sua Paixão cam inham j untas.

Que resposta saiu de tão ilustre reunião para a pergunta acerca do lugar do nascim ento de Jesus? Segundo sentenciou Mateus 2, 6 com estas palavras tom adas do profeta Miqueias e do segundo livro de Sam uel: “E tu, Belém , terra de Judá, de m odo algum és m enor entre as principais cidades da Judeia; pois de ti sairá um chefe [cf. Miq 5, 1] que apascentará Israel, o m eu povo” [cf. 2 Sm 5, 2].

Ao citar as palavras em questão, Mateus introduziu duas alterações sutis. Enquanto a m aior parte da tradição textual, nom eadam ente a tradução grega dos Setenta, diz: “[Tu és] a m enor entre as principais cidades de Judá”, Mateus escreve: “De m odo nenhum és a m enor entre as principais cidades da Judeia”. Em bora de form a diferente, am bas as versões do texto dão a entender o paradoxo da ação de Deus, que atravessa todo o Antigo Testam ento: o que é grande nasce daquilo que parece, segundo os critérios do m undo, pequeno e insignificante, enquanto aquilo que é grande aos olhos do m undo se desintegra e desaparece.

Sucedeu assim , por exem plo, na história da vocação de Davi. O m ais novo dos filhos de Jessé, que naquele m om ento apascentava as ovelhas, foram -no cham ar para ser ungido rei: não conta o aspecto nem a elevada estatura, m as o coração (cf. 1 Sm 16, 7). Um a frase de Maria no Magnificat resum e esse persistente paradoxo de Deus: “Depôs os poderosos de seus tronos e a hum ildes exaltou” (Lc 1, 52). A versão veterotestam entária do texto, onde Belém é qualificada com o pequena entre as principais cidades de Judá, põe claram ente em evidência essa m aneira do agir divino.

Quando Mateus, por sua vez, escreve “de m odo algum és a m enor entre as principais cidades da Judeia”, só aparentem ente é que elim inou esse paradoxo. A pequena cidade, considerada em si insignificante, torna-se agora reconhecível na sua verdadeira grandeza: dela sairá o verdadeiro Pastor de Israel. Nessa versão do texto, aparecem sim ultaneam ente a avaliação hum ana e a resposta de Deus. E, com o nascim ento de Jesus na gruta fora da cidade, o paradoxo confirm a-se ainda m ais.