A Infância de Jesus

Joseph Ratzinger · Capítulo 14 de 18

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A Infância de Jesus

3. A estrela

Assim com o a tradição da Igrej a leu, com toda a naturalidade, a narrativa de Natal tendo por horizonte de fundo Isaías 1, 3 e, desse m odo, o boi e o j um ento chegaram ao presépio, assim tam bém leu a narrativa dos m agos à luz do Salm o 72, 10 e de Isaías 60. E assim os sábios vindos do Oriente tornaram -se reis e, com eles, entraram no presépio os cam elos e os drom edários.

Se a prom essa contida nesses textos estende a proveniência destes hom ens até o extrem o Ocidente (Társis = Tartessos, na Espanha), a tradição encarregou-se de desenvolver ainda m ais a universalidade dos reinos desses soberanos, interpretando-os com o reis dos três Continentes conhecidos de então: África, Ásia, Europa. Deles sem pre faz parte o rei negro: não há distinção de raça nem de proveniência, no reino de Jesus Cristo. N’Ele e por Ele, a hum anidade une-se sem perder a riqueza da variedade.

Mais tarde, foram relacionados com os três reis tam bém as três idades da vida do hom em : a j uventude, a idade adulta e a velhice. Trata-se de m ais um a ideia razoável, que m ostra com o as diversas form as da vida hum ana encontram o respectivo significado e a sua unidade interior na com unhão com Jesus.

O pensam ento decisivo que nos fica é este: os sábios do Oriente constituem um início, representam o encam inhar-se da hum anidade para Cristo, inauguram um a procissão que percorre a história inteira. Não representam apenas as pessoas que encontraram o cam inho até Cristo, m as tam bém a expectativa interior do espírito hum ano, o m ovim ento das religiões e da razão hum ana ao encontro de Cristo.

3. A ESTRELA

Devem os agora voltar à estrela que, segundo a narrativa de São Mateus, im peliu os m agos a porem -se a cam inho. Que tipo de estrela era? Existiu verdadeiram ente?

Abalizados exegetas, com o Rudolf Pesch, são da opinião de que essa questão teria pouco sentido; tratar-se-ia de um a narrativa teológica, que não devíam os m isturar com a astronom ia. Na Igrej a antiga, São João Crisóstom o desenvolvera um a posição sem elhante: “Que não se tratasse de um a estrela com um – antes, a m eu ver, não era de fato um a estrela m as um poder invisível que adotara tal fisionom ia – parece resultar, antes de m ais nada, do cam inho que ela fizera. De fato, não há um a única estrela que se m ova naquela direção” (In Matth. Hom., VI, 2: PG 57, 64). Em grande parte da tradição da Igrej a, aparece sublinhado o aspecto extraordinário da estrela: Inácio de Antioquia († aprox. 100 d.C.) vê o sol e a lua girarem em volta da estrela; e, segundo um antigo hino para a Epifania do Breviário Rom ano, a estrela teria superado em beleza e brilho o sol.

Apesar disso, não se podia deixar de pôr a questão de que se tratou ou não de um fenôm eno celeste passível de ser astronom icam ente determ inado e classificado. Seria errado rej eitar a priori tal questão invocando o caráter teológico da narrativa. Com o despontar da astronom ia m oderna, cultivada tam bém por cristãos crentes, colocou-se de novo a questão acerca desse astro.

Johannes Kepler († 1630) adiantou um a solução que é substancialm ente reproposta tam bém por astrônom os atuais. Kepler calculou que, na passagem entre os anos 7 e 6 a.C. – considerado hoj e, com o se disse j á, o ano provável do nascim ento de Jesus –, se verificou um a conj unção dos planetas Júpiter, Saturno e Marte. No ano de 1604, ele próprio observara um a conj unção sem elhante, à qual se j untara ainda um a supernova (com este term o, indica-se um a estrela débil ou m uito distante na qual acontece um a explosão enorm e, de m odo que, durante sem anas e m eses, irradia um brilho intenso). Kepler considerava a supernova um a nova estrela; e era de opinião que, à conj unção verificada na época de Jesus, tam bém deveria estar associada um a supernova; desse m odo tentou explicar, astronom icam ente, o fenôm eno da estrela m uito brilhante de Belém . Um dado interessante, nesse contexto, pode ser o que o erudito Friedrich Wieseler de Göttingen parece ter encontrado em tábuas cronológicas chinesas, ou sej a, que no ano 4 a.C. “aparecera e foi vista durante longo tem po um a estrela brilhante” (Gnilka, Das Matthäusevangelium I/1, p. 44).

O citado astrônom o Ferrari d’Occhieppo punha de lado a teoria da supernova. Segundo ele, para a explicação da estrela de Belém , era suficiente a conj unção de Júpiter e Saturno no signo zodiacal de Peixes, e pensava poder determ inar com precisão a data de tal conj unção. A esse respeito, é im portante o fato de o planeta Júpiter representar o principal deus babilônico, Marduq. Ferrari d’Occhieppo resum e-o nestes term os: “Júpiter, a estrela da m ais alta divindade babilônica, aparecia no seu m áxim o esplendor no m om ento da sua aparição de noite ao lado de Saturno, o representante cósm ico do povo dos j udeus” (Der Stern von Bethlehem…, p. 52). Deixem os de lado os detalhes. A partir desse encontro de planetas – diz Ferrari d’Occhieppo – os astrônom os babilônicos podiam deduzir um evento de im portância universal: o nascim ento no país de Judá de um soberano que havia de trazer a salvação.

Que podem os dizer perante tudo isso? A grande conj unção de Júpiter e Saturno no signo zodiacal de Peixes nos anos 7-6 a.C. parece ser um fato confirm ado. Podia orientar astrônom os do am biente cultural babilônico-persa para o país de Judá, para um “rei dos j udeus”. Saber detalhadam ente com o esses hom ens chegaram à certeza que os fez partir e os levou, finalm ente, a Jerusalém e a Belém , é um a questão que tem os de deixar em aberto. A constelação estelar podia ser um im pulso, um prim eiro sinal para a partida exterior e interior; m as não teria conseguido falar a esses hom ens se eles não tivessem sido tocados tam bém de outro m odo: tocados interiorm ente pela esperança daquela estrela que devia surgir de Jacó (cf. Nm 24, 17).

Se os m agos, que andavam à procura do rei dos j udeus guiados pela estrela, representam o m ovim ento dos povos para Cristo, isso significa im plicitam ente que o universo fala de Cristo, m as a sua linguagem não é totalm ente decifrável para o hom em nas suas condições reais. A linguagem da criação oferece variadas indicações: suscita no hom em a intuição do Criador; além disso, suscita a expectativa, antes a esperança de que um dia este Deus se m anifestará; e ao m esm o tem po suscita a consciência de que o hom em pode e deve ir ao encontro d’Ele. Mas o conhecim ento que brota da criação e se concretiza nas religiões pode tam bém perder a j usta orientação, deixando de im pelir o hom em para se pôr em m archa para além de si próprio e induzindo-o antes a fixar-se em sistem as pelos quais j ulga possível enfrentar os poderes ocultos do m undo.

Na nossa narração, aparecem am bas as possibilidades: a estrela conduz os m agos, prim eiro, só até a Judeia. É plenam ente norm al que eles, à procura do recém -nascido rei dos j udeus, fossem à cidade régia de Israel e entrassem no palácio do rei; presum ivelm ente, deveria ter nascido lá o futuro rei. Mas eles, para encontrar definitivam ente a estrada para o verdadeiro herdeiro de Davi, precisam ainda da indicação das Sagradas Escrituras de Israel, das palavras do Deus vivo.

Os Padres sublinharam ainda outro aspecto. Gregório Nazianzeno diz que, no próprio m om ento em que os m agos se prostram diante de Jesus, teria chegado o fim da astrologia, porque a partir de então as estrelas teriam girado na órbita estabelecida por Cristo (Poem. dogm., V, 55-64: PG 37, 428-429). No m undo antigo, os corpos celestes eram considerados com o forças divinas que decidiam o destino dos hom ens. Os planetas têm nom es de divindades. Segundo a opinião de outrora, aqueles dom inavam de algum a form a o m undo, e o hom em devia procurar pôr-se de acordo com tais forças. A fé no único Deus, testem unhada pela Bíblia, bem cedo realizou aqui um a desm istificação, quando a narrativa da criação, com m agnífica sim plicidade, designa o Sol e a Lua – as grandes divindades do m undo pagão – “luzeiros” que Deus m antêm suspensos, j untam ente com toda a série das estrelas, no firm am ento celeste (cf. Gn 1, 16-17).