A Infância de Jesus
2. O anúncio do nascimento de João
A historiografia do cristianism o das origens consiste precisam ente em atribuir o próprio protagonista a essas Palavras ainda “à espera”. Foi a partir dessa correlação entre a Palavra “à espera” e o reconhecim ento do seu protagonista finalm ente aparecido que se desenvolveu a exegese tipicam ente cristã, que é nova, perm anecendo, ao m esm o tem po, totalm ente fiel à Palavra originária da Escritura.
2. O ANÚNCIO DO NASCIMENTO DE JOÃO
Depois dessas reflexões de fundo, chegou o m om ento de sondar os próprios textos. Estam os perante dois grupos de narrações, com diferenças características entre si, m as tam bém com grandes afinidades: o anúncio do nascim ento e a infância de João Batista e o anúncio do nascim ento de Jesus, o Messias, de Maria.
A história de João está radicada, de m odo particularm ente profundo, no Antigo Testam ento. Zacarias é sacerdote da classe de Abias; tam bém Isabel, sua esposa, é de ascendência sacerdotal: é descendente de Aarão (cf. Lc 1, 5). De acordo com o direito veterotestam entário, o m inistério dos sacerdotes está associado com a pertença à tribo dos filhos de Aarão e de Levi. Por conseguinte, João Batista é sacerdote. Nele, o sacerdócio da Antiga Aliança se encam inha para Jesus: torna-se um a alusão a Jesus, anúncio da sua m issão.
Parece-m e im portante que, em João, o sacerdócio inteiro da Antiga Aliança se torne um a profecia de Jesus, e assim – com o seu clím ax teológico-espiritual que é o Salm o 118 – rem eta para Ele e com ece a fazer parte do que Lhe é próprio. Quando se acentua unilateralm ente o contraste entre o culto sacrificial do Antigo Testam ento e o culto espiritual da Nova Aliança (cf. Rm 12, 1), perde-se de vista essa linha e tam bém a dinâm ica intrínseca do sacerdócio veterotestam entário, que não só em João, m as j á no desenvolvim ento da espiritualidade sacerdotal delineado pelo Salm o 118, é cam inho para Jesus Cristo.
E, na m esm a direção da unidade íntim a dos dois Testam entos, aponta tam bém a caracterização de Zacarias e Isabel no versículo seguinte do Evangelho de Lucas (1, 6). De am bos é dito que “eram j ustos diante de Deus e de m odo irrepreensível seguiam todos os m andam entos e estatutos do Senhor”. Quando tratarm os da figura de São José, considerarem os m ais de perto o atributo de “j usto”, em que se resum e toda a espiritualidade da Antiga Aliança. Os “j ustos” são pessoas que vivem as diretivas da Lei precisam ente a partir de dentro: pessoas que, com o seu “ser j ustas”, segundo a vontade de Deus revelada, avançam no seu cam inho e criam espaço para o novo agir do Senhor. Nelas, a Antiga e a Nova Aliança com penetram -se reciprocam ente, unem -se para form ar um a única história de Deus com os hom ens.
Zacarias entra no Tem plo, no am biente sagrado, enquanto o povo perm anece fora e reza. É a hora do sacrifício da tarde, durante o qual Zacarias coloca o incenso sobre os carvões em brasa. O perfum e do incenso que sobe para o alto é um sím bolo da oração: “Suba m inha prece com o incenso em tua presença, m inhas m ãos erguidas com o oferenda vespertina” – diz o Salm o 141, 2. Eis com o o Apocalipse descreve a liturgia do Céu: cada um dos quatro seres viventes e dos 24 anciãos “tinha um a cítara e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos” (5, 8). Nessa hora em que se unem a liturgia do céu e a da terra, aparece ao sacerdote Zacarias “o anj o do Senhor”, cuj o nom e, por enquanto, não é ainda m encionado. Está de pé, “à direita do altar do incenso” (Lc 1, 11). Erik Peterson descreve a situação da seguinte m aneira: “Era o lado sul do altar. O anj o está entre o altar e o candelabro de sete braços. No lado esquerdo do altar, ou sej a, a norte, estava a m esa com os pães da oferta” (Lukasevangelium und Synoptica, p. 22).
O lugar e a hora são sagrados: o novo passo da história da salvação está totalm ente inserido nos ordenam entos da Aliança divina do Sinai. No próprio Tem plo, durante a sua liturgia, tem início a novidade: m anifesta-se de m aneira extrem am ente forte a continuidade interior da história de Deus com os hom ens. Isso corresponde ao final do Evangelho de Lucas, quando o Senhor, no m om ento da sua ascensão ao Céu, ordena aos discípulos que retornem para Jerusalém a fim de receberem lá o dom do Espírito Santo, e de lá levarem o Evangelho ao m undo (cf. Lc 24, 49-53).
Ao m esm o tem po, porém , devem os ver a diferença entre o anúncio do nascim ento de João Batista a Zacarias e o anúncio do nascim ento de Jesus a Maria. Zacarias, o pai de João Batista, é sacerdote e recebe a m ensagem no Tem plo, durante a sua liturgia. A proveniência de Maria não é m encionada. A Ela, o anj o Gabriel é enviado por Deus. Este entra na sua casa, em Nazaré: um a cidade desconhecida nas Sagradas Escrituras e num a casa que por certo devem os im aginar m uito hum ilde e sim ples. O contraste entre os dois cenários não podia ser m aior: de um lado, o sacerdote, o Tem plo, a liturgia; do outro lado, um a m ulher j ovem desconhecida, um a pequena cidade desconhecida, um a casa particular desconhecida. O sinal da Nova Aliança é a hum ildade, a vida escondida: o sinal do grão de m ostarda. O Filho de Deus vem na hum ildade. Os dois elem entos andam j untos: a profunda continuidade na história da ação de Deus e a novidade do grão de m ostarda escondido.
Voltem os a Zacarias e à m ensagem com que se anuncia o nascim ento de João Batista. A prom essa é feita no contexto da Antiga Aliança, e não só no que diz respeito ao am biente, m as tudo o que aqui é dito e feito está perm eado por palavras da Sagrada Escritura, tal com o há pouco se salientou. Só através dos novos eventos é que as palavras adquirem o seu sentido pleno e, vice-versa, os eventos possuem um significado perm anente porque nascem da Palavra, são Palavra cum prida. Há dois grupos de textos veterotestam entários que se com binam aqui num a nova unidade.
Tem os, em prim eiro lugar, as histórias análogas da prom essa de um filho gerado de pais estéreis, aparecendo por isso m esm o com o que dado pelo próprio Deus. Pensam os sobretudo no anúncio do nascim ento de Isaac, do herdeiro daquela prom essa que Deus concedera a Abraão: O Senhor “disse: ‘voltarei a ti no próxim o ano; então tua m ulher Sara terá um filho’. (...) Ora, Abraão e Sara eram velhos, de idade avançada, e Sara deixara de ter o que têm as m ulheres. Riu-se, pois, Sara no seu íntim o. (...) Mas o Senhor disse a Abraão: ‘Por que se ri Sara?’ (...) Acaso existe algo de tão m aravilhoso para o Senhor?” (Gn 18, 10-14). Muito sem elhante é tam bém a narrativa do nascim ento de Sam uel. Ana, sua m ãe, era estéril. Na sequência da sua oração fervorosa, o sacerdote Eli prom ete-lhe que Deus atenderá ao seu pedido. Ela ficou grávida e consagrou seu filho Sam uel ao Senhor (cf. 1 Sm 1). Portanto, João situa-se na longa esteira daqueles que nasceram de pais estéreis graças a um a intervenção prodigiosa daquele Deus, para quem nada é im possível. E, visto que provém de m aneira particular de Deus, pertence totalm ente a Deus, m as tam bém e por isso m esm o existe totalm ente para os hom ens, para conduzi-los a Deus.
Quando se diz de João que “não beberá vinho nem bebida em briagante” (Lc 1, 15), é m ais um indício de que ele se insere na tradição sacerdotal. “Para os sacerdotes consagrados a Deus, vigorava esta norm a: ‘Quando vierdes à Tenda da Reunião, tu e os teus filhos contigo, não bebais vinho nem bebida ferm entada: isto para que não m orrais. É um a lei perpétua para todos os vossos descendentes.” (Lv 10, 9) (Stöger, Das Evangelium nach Lukas, p. 31). João, que será “pleno do Espírito Santo ainda no seio de sua m ãe” (Lc 1, 15), vive por assim dizer sem pre “na tenda da reunião”; é sacerdote não apenas em certos m om entos, m as com a totalidade da sua existência, anunciando assim o novo sacerdócio que aparecerá com Jesus.
Ao lado desse conj unto de textos, tirados dos livros históricos do Antigo Testam ento, há alguns textos proféticos dos livros de Malaquias e de Daniel que caracterizam o diálogo do anj o com Zacarias.
Com ecem os por ouvir Malaquias: “Eis que vos enviarei Elias, o profeta, antes que chegue o Dia do Senhor, grande e terrível. Ele fará voltar o coração dos pais para os filhos, e o coração dos filhos para os pais” (3, 23-24). “Eis que vou enviar o m eu m ensageiro, para que prepare um cam inho diante de m im . Então, de repente, entrará em seu Tem plo o Senhor que vós procurais; o Anj o [m ensageiro] da Aliança, que vós desej ais, eis que ele vem , diz o Senhor dos exércitos” (3, 1). A m issão de João é interpretada com base na figura de Elias: ele não é Elias, m as vem com o espírito e a força do grande profeta. Nesse sentido, cum pre na sua m issão tam bém a expectativa de que Elias haveria de voltar e purificaria e reergueria o povo de Deus, haveria de prepará-lo para a chegada do próprio Senhor. Desse m odo, João, por um lado, é inserido na categoria dos profetas, m as, por outro, é elevado acim a dela, porque o Elias que está para voltar é o precursor da chegada do próprio Deus. Assim , nesses textos, a figura de Jesus, a sua chegada, é tacitam ente identificada com a chegada do próprio Deus. Em Jesus é o próprio Senhor que chega e, desse m odo, confere à história a sua definitiva direção.
O profeta Daniel é a segunda voz profética que aparece no horizonte de fundo da nossa narração. Só no livro de Daniel é que aparece o nom e de Gabriel. Esse grande m ensageiro de Deus aparece ao profeta na “hora da oblação da tarde” (Dn 9, 21), trazendo notícias sobre o destino futuro do povo eleito. Perante as dúvidas de Zacarias, o m ensageiro de Deus revela-se com o “Gabriel, aquele que está diante de Deus” (Lc 1, 19).
No Livro de Daniel, incluem -se entre as revelações transm itidas por Gabriel m isteriosas indicações de núm eros sobre as próxim as grandes dificuldades e sobre o tem po da salvação definitiva, cuj o anúncio no m eio das angústias é a verdadeira m issão do Arcanj o. Por esses núm eros cifrados, interessaram -se repetidam ente tanto o pensam ento j udaico com o o cristão. Um a atenção particular m ereceu o vaticínio das 70 sem anas que “foram fixadas para o teu povo e a tua cidade santa (...) [para] instaurar um a j ustiça eterna” (9, 24). René Laurentin procurou m ostrar que a narração da infância em Lucas seguiria um a cronologia precisa, segundo a qual do anúncio a Zacarias até a apresentação de Jesus no Tem plo teriam se passado 490 dias, isto é, 70 sem anas de sete dias (cf. Structure et Théologie de Luc I-II, pp. 49ss). Se Lucas terá construído conscientem ente ou não tal cronologia, é questão que deve continuar em aberto.