A Infância de Jesus
Capítulo 2
O anúncio do nascimento
de João Batista e de Jesus
1. A CARACTERIZAÇÃO LITERÁRIA DOS TEXTOS
No início da atividade de Jesus, os quatro Evangelhos colocam a figura de João Batista e apresentam -no com o seu precursor. São Lucas antecipou a ligação entre as duas figuras e as respectivas m issões, colocando-a na narração da infância de am bos. Já na concepção e no nascim ento, Jesus e João são postos em relação entre si.
Antes de nos debruçarm os sobre o conteúdo dos textos, é necessária um a breve alusão à sua caracterização literária. Tanto em Mateus com o em Lucas, em bora de m odo diferente, os acontecim entos da infância de Jesus estão intim am ente relacionados com palavras do Antigo Testam ento: Mateus j ustifica, para o leitor, tais ligações indicando um a a um a as citações correspondentes do Antigo Testam ento, ao passo que Lucas fala dos eventos com palavras do Antigo Testam ento, com alusões que, no caso concreto, m uitas vezes podem ser quase acidentais e nem sem pre docum entáveis enquanto tal, m as que, no seu conj unto, form am inconfundivelm ente o tecido dos textos.
Na base de Lucas, parece haver um texto hebraico; na verdade, toda a descrição é caracterizada por sem itism os, que, em geral, não são típicos dele. Procurou-se com preender a caracterização destes dois capítulos, Lucas 1–2, a partir de um gênero literário hebraico antigo, designando-os com o um “m idraxe hagádico”, isto é, um a interpretação da Sagrada Escritura através de narrações. A sem elhança literária é inegável; e todavia é claro que a narrativa de Lucas da infância não se situa no antigo j udaísm o, m as no cristianism o prim itivo.
Trata-se de algo m ais… Aqui se narra um a história que explica a Escritura e, vice-versa, aquilo que quis dizer a Escritura, em m uitos lugares, só agora se torna visível, por m eio dessa nova história. Trata-se de um a narração que nasce totalm ente da Palavra, e todavia é precisam ente ela que dá à palavra aquele seu sentido pleno que antes não era ainda reconhecível. A história aqui narrada não é sim plesm ente um a ilustração das palavras antigas, m as a realidade que as palavras aguardavam . Essa realidade, nas palavras em si m esm as, não era reconhecível, m as as palavras alcançam o seu significado pleno através do evento em que elas se tornam realidade.
Sendo assim , pode-se perguntar: de onde Mateus e Lucas conhecem a história que narram ? Quais são as suas fontes? A esse respeito e com razão, Joachim Gnilka diz que se trata, evidentem ente, de tradições de fam ília. Às vezes, Lucas alude ao fato de que precisam ente Maria, a Mãe de Jesus, era um a das suas fontes; o faz de m odo particular em 2, 51, quando afirm a que “sua m ãe conservava a lem brança de todos esses fatos no seu coração” (cf. tam bém 2, 19). Só Ela podia referir o evento da Anunciação, que não tivera testem unhas hum anas.
Naturalm ente, a exegese “crítica” m oderna deixará entender que considera bastante ingênuas as deduções do gênero. Mas por que não deveria ter havido tal tradição, conservada e sim ultaneam ente m odelada teologicam ente no círculo m ais íntim o? Por que m otivo deveria Lucas ter inventado a afirm ação sobre a custódia das palavras e dos eventos no coração de Maria, se não houvesse a propósito qualquer referência concreta? Por que deveria falar do “m editar” de Maria sobre as palavras (2, 19; cf. 1, 29) se não se soubesse nada a respeito disso?
E eu acrescentaria que a própria aparição tardia, sobretudo, das tradições m arianas encontra a sua explicação na discrição da Mãe e dos círculos ao seu redor: os acontecim entos sagrados na “m anhã” da sua vida não podiam tornar-se tradição pública enquanto Ela m esm a estivesse viva.
Resum indo, Mateus e Lucas – cada um à sua m aneira – queriam não tanto narrar “histórias”, m as escrever história: um a história real, acontecida, em bora certam ente interpretada e com preendida com base na Palavra de Deus. Isso significa tam bém que não havia a intenção de narrar de m odo com pleto, m as de escrever aquilo que, à luz da Palavra e para a com unidade nascente da fé, se revelava im portante. As narrativas da infância são história interpretada e, a partir da interpretação, escrita e condensada.
Entre a palavra interpretativa de Deus e a história interpretadora existe um a relação recíproca: a Palavra de Deus ensina que os eventos contêm “história da salvação”, que diz respeito a todos. Mas os próprios eventos desvendam , por sua vez, a Palavra de Deus e levam agora a reconhecer a realidade concreta que se esconde nos diversos textos.
Há de fato, no Antigo Testam ento, palavras que ainda perm anecem , por assim dizer, sem atribuição. Por exem plo, nesse contexto, Marius Reiser cham a a atenção para Isaías 53. O texto podia aplicar-se a diversas pessoas – por exem plo, a Jerem ias –, m as o verdadeiro protagonista dos textos ainda se faz esperar. Só quando Ele aparece é que a Palavra recebe o seu significado pleno. Verem os que algo de sem elhante se pode dizer de Isaías 7, 14. O versículo faz parte daquelas Palavras que, de m om ento, ainda estão à espera da figura a que se referem .