A Maçã no Escuro
Segunda parte: Nascimento do herói
Segunda parte
NASCIMENTO DO HERÓI
1
Mas nessa mesma noite, andando excitado de um lado para outro dentro da pequenez do depósito, Martim mal se conteve com o que ganhara. Era a alegria. Não sabia o que fazer de si como se tivesse uma notícia e não houvesse a quem dá-la. Estava muito contente de ser uma pessoa, este era um dos grandes prazeres da vida. No entanto, inconsolável, parecia-lhe que jamais seria indenizado.
E pela primeira vez desde que fugira tinha necessidade de se comunicar. Sentou-se no bordo da cama, a cabeça feliz entre as mãos. Não sabia por onde começar a pensar. Então lembrou-se de seu filho que um dia dissera na hora do jantar: não quero esta comida! A mãe retrucara: que comida você quer? O menino terminara dizendo com o doloroso espanto da descoberta:
– Nenhuma!
Ele, Martim, então lhe dissera:
– É muito simples: se você não está com fome, não precisa comer.
Mas a criança começara a chorar:
– Não estou com fome, não estou com fome...
E como o rádio também estava ligado, o homem gritara:
– Já lhe disse que se você não tem fome não precisa comer! por que então está chorando?
O menino respondera:
– Estou chorando porque não estou com fome.
– Prometo que amanhã você vai ter fome, prometo!, dissera-lhe Martim perturbado, entrando por amor na verdade de uma criança.
Sentado na cama, com a cabeça entre as mãos, Martim fechou os olhos rindo muito emocionado. Era a alegria. Sua alegria vinha de que ele estava com fome, e quando um homem tem fome ele se alegra. Afinal uma pessoa se mede pela sua fome – não existe outro modo de se calcular. E a verdade é que na encosta a grande carência lhe renascera. Era estranho que ele não tivesse comida mas que se rejubilasse com a fome. Com o coração batendo de grande fome, Martim se deitou. Ouvia seu coração pedir, e riu alto, bestial, desamparado.
No dia seguinte Ermelinda cada vez mais sistemática voltou:
– O senhor pode pensar que sou doida, disse-lhe com o ar persistente dos cegos, mas tem um lugar dentro de mim onde vou quando quero dormir! ah, eu sei que isso é engraçado, mas é assim... Se esse lugar fosse perto, eu até podia dizer que ficava no canto esquerdo de minha cabeça – é que eu durmo deitada do lado esquerdo, explicou-lhe de passagem, lambendo os lábios – mas esse lugar é tão mais longe, é como se fosse muito depois que eu acabo... mas é ainda dentro de mim, sou eu ainda, entendeu?
Como eram os particulares detalhes de sua vida que a tornavam, a seus próprios olhos, insubstituível por outra pessoa, ao descrever suas especialidades ela tentava com esforço provar ao homem que ela era ela mesma. Como Martim não a olhara, então arriscou-se ainda mais:
– É um lugar que fica depois de minha morte, disse afinal, e tornou-se de repente tão pálida que, levado a fitá-la por causa do silêncio inesperado da moça, ele deixou de sorrir sem saber por quê.
Mas Ermelinda bem sabia que ainda era cedo para deixar de mentir e deixar de encantá-lo. Sabia que era cedo para se mostrar a ele, e que poderia afugentá-lo se fosse verdadeira, as pessoas tinham tanto medo da verdade dos outros. Só por meios indiretos conseguiria. A ideia de que, se não o divertisse, ela o afugentaria, apavorava-a: logo agora que já ganhara tanto terreno a ponto de conseguir que ele a ouvisse, mesmo que não a olhasse! Então, receosa de ter ido adiante demais e de tê-lo espantado, ela riu muito e disse brincando:
– Sei que para ir a esse lugar aonde vou quando estou com sono, se toma à esquerda, é assim que eu consigo dormir, imagine! Às vezes, para não ficar nervosa, quero levar para o sono uma coisa comigo, uma coisa do dia, entende? um lenço para torcer na mão, um livro de missa, só para me dar segurança e eu não ir sozinha, imagine só que bobinha que sou! disse com ternura, olhando-o bem fixo para ver se conseguira contagiá-lo com a ternura para consigo mesma. Mas não se pode levar coisa nenhuma ou alguém, senão não se vai. Parece um lugar só para se dormir ou para pensar. Eu, é claro, não quero nem gosto mesmo de voltar lá! Mas – disse desamparada – mas depois que a gente vai uma só vez, fica logo um vício. O senhor acredita – acrescentou gulosa – o senhor acredita que eu não consigo deixar de pensar no que penso? – mas não lhe disse no que pensava, e sentiu o prazer de quem se confessa à revelia de quem ouve, como se o roubasse enquanto ele dormia. – O senhor por acaso consegue não pensar no que pensa? É, como se costuma dizer, uma obsessão! uma verdadeira obsessão! – dizia tudo brincando, sem esquecer um instante que, num trabalho paciente e perfeito, devia sempre lisonjear o homem.
Mas sem também esquecer que tinha pressa. Ocorreu-lhe que, ao falar com ele, poderia sem querer deixar escapar o que ela era, e o homem então perceberia quanto ela precisava dele, e por isso não a quereria mais, como acontece com as pessoas. À simples possibilidade dele nunca vir a gostar dela, Ermelinda se arrepiou solitária, olhou os pássaros que voavam. Seu trabalho junto ao homem foi sempre tão delicado, e exigiu tanta precisão, que ela não o saberia fazer se apenas o decidisse ou se lhe mandassem fazê-lo. Era um labor de infinita cautela, onde um passo mais e o homem jamais a amaria, onde um passo a mais e ela mesma talvez deixasse de amá-lo: ela protegia ambos contra o erro. E às vezes mais parecia proteger ambos contra a verdade.
– É como uma obsessão! Você acha que sou doida? perguntou-lhe, pois ela sabia que vivia de uma ideia e que isso não era “normal”.
– Não.
– Mas as outras pessoas não parecem pensar que a morte... – Ermelinda disfarçou depressa a palavra reveladora com um sorriso de faceirice. Não mesmo? indagou coquete, não sou doida, hein? Sou tão bobinha que o senhor nem pode imaginar! disse-lhe como se lhe prometesse todo um futuro de atraente bobagem que ele perdia apenas porque queria.
– É doida porque fala, disse ele afinal, pesado.
– Ah, disse ela com o ar sabido de quem não se deixaria enganar, então já estou vendo tudo: você acha que sou doida! já vi tudo, você não me engana! disse toda risonha usando o “você” com intenção – mas seus olhos abertos estavam pensando em outra coisa.
Martim se lembrou de um homem que ele conhecera e que viajara sozinho durante muito tempo pelo interior e que, ao voltar, vivia falando sobre árvores e cobras e passarinhos, para o cansaço e a incompreensão de todos; até que o homem percebera que uma pessoa não fala sobre árvores e passarinhos e cobras, e parara de falar:
– Não, repetiu então olhando-a, e com um primeiro carinho de curiosidade na voz, você não é doida. É que você vive muito isolada e já não sabe mais o que se conta aos outros e o que não se conta – o homem parou e olhou-a, intrigado por ter falado tanto.
Ele nunca falara tanto, e o coração da moça começou a bater:
– Pois é, disse ela galante.
Com uma sabedoria instintiva, Ermelinda não demonstrou que notara o seu primeiro passo para ela, assim como não se dá um grito de alegria quando uma criança começa a andar para que esta não pare assustada por meses.
Quanto a ele, ele não percebia nada. Quanto a ele, aguardava com paciente ansiedade pelo momento de terminar o trabalho.
Para ir – não ao terreno das plantas, não às vacas do curral – mas, com a incerta determinação de uma geleia viva, ir de novo à encosta para retomar cada dia o instante de sua formação do dia anterior. Onde ficava de pé, bastando-lhe estar de pé, sem saber o que fazer. Essa necessidade que uma pessoa tem de subir uma montanha – e olhar. Esse era o primeiro símbolo que ele tocara desde que saíra de casa: “subir uma montanha”. E neste obscuro ato ele se fecundava. Aquele lugar era um velho pensamento jamais formulado. Como se o pai de seu pai o tivesse aspirado. E como se da invenção de uma lenda antiga tivesse nascido aquela realidade. Aquele lugar já lhe tinha acontecido antes, não importava quando, talvez apenas em promessa e em invenção.
E só Deus sabe que Martim não sabia o que vinha fazer na encosta. Mas tanto é verdade que alguma coisa objetiva devia lhe estar acontecendo ali que – já que ele se habituara a revalidar sua própria natureza com o argumento final da natureza dos animais – que bastava ele se lembrar de como um boi fica de pé no morro. Olhando. Essa coisa objetiva como um ato: olhar. Às vezes também um cachorro olha, embora rápido e logo em seguida inquieto, pois um cachorro não tem tempo, ele precisa muito de carinho e é nervoso, e tem um sentimento aflito do tempo que passa, e tem nos olhos o peso de uma alma intransmissível, só o amor cura um cachorro. Mas acontece que aquele homem, por circunstâncias casuais, estava mais perto da natureza do boi, e olhava. Se é verdade que se lhe perguntassem para que, não saberia responder, é também verdade que se uma pessoa fizesse apenas o que entende, jamais avançaria um passo.
Oh, pode-se dizer que nada acontecia enquanto ele estava na encosta. E nem ele exigia ainda que algo acontecesse. Parecia bastar-lhe a tarde de luz rasgada, o ar nu e o espaço vazio. Até mesmo uma palavra pensada afundaria o ar. Ele se abstinha. Ali, existir já era uma ênfase. Como se já fossem uma audácia e um avanço uma pessoa estar de pé na claridade. E era como se ali Martim se tornasse o símbolo dele mesmo. Ele que, enfim, se encarnara em si próprio. Os passarinhos, escapulindo da luz, se mantinham dentro da escuridão dos galhos cheios. A claridade restava solitária, azul, fina. Era a tarde. E Martim olhava como se olhar fosse ser um homem. Ele gozava seu estado. Era uma generosidade do mundo para com ele. Recebia-a sem pejo. Pois, não se sabe por quê, ele não tinha mais vergonha.
Ao ponto de um dia, diante da claridade inóspita e sem nenhum sentido, ele ter enfim pensado, um pouco inquieto e avançando: “por Deus, se não criássemos um mundo, este mundo apenas divino não nos receberia”. Foi quando começou a escurecer. Cachorros apareceram atentos ao longe. Os passarinhos saíram da folhagem, e cada um se arriscou um pouco mais. Aos poucos o ar se adensou, os sentimentos começaram enfim a mostrar sua natureza pouco divina, um desejo profundamente confuso de ser amado misturou-se ao cheiro humano da noite, e um vago suor começou a porejar, espalhando seu cheiro bom e ruim de terra e de vacas e de rato e de axilas e de escuridão – esse furtivo modo como aos poucos tomamos conta da terra: tínhamos enfim criado um mundo e tínhamos lhe dado a nossa vontade. O máximo de claridade cedera à nossa habitada escuridão: seria isso talvez o que Martim cada dia aguardava ali em pé? Como se nesse vergar-se da claridade lhe ensinassem como se faz a união harmoniosa – não inteligível mas harmoniosa, não com uma finalidade mas harmoniosa – como se nesse vergar-se da claridade para a escuridão se fizesse enfim a união das plantas, das vacas e do homem que ele começara a ser. Cada vez, pois, que o dia se tornava noite, renovava-se o domínio do homem, e um passo era dado para a frente, às cegas, finalmente às cegas como é o avanço de uma pessoa no querer.
Martim não se indagou por que na encosta ele se completava tão bem, ficando ele próprio harmonioso – ininteligível mas harmonioso – enquanto olhava a imortalidade do campo. Por enquanto isso lhe bastava. Um homem que andou muito tem o direito de ter um prazer inexplicável, harmonia apenas, mesmo sem entender – por enquanto sem entender. Pois, com tranquila presunção, ele se dizia: “é cedo ainda”. Não era, porém, apenas presunção. É que agora ele aprendera a contar com o amadurecimento do tempo, assim como as vacas disso vivem taticamente. Ele agora parecia entender que não se podia brutalizar o tempo, e que o largo movimento deste era insubstituível por um movimento voluntário.
Assim, cada dia, quando se livrava das ordens de Vitória, ia esperar na encosta pela volta daquele instante quando, entorpecido, se aproximara da fazenda pela primeira vez e pela primeira vez fora alertado. E de novo e de novo voltava. Repetir lhe parecia essencial. Cada vez que se repetia, algo se acrescentava.
Tanto que Martim já estava começando a se perturbar – ele era um homem, mas restava algo inquieto: que é que um homem faz?