A Maçã no Escuro

Clarice Lispector · Capítulo 27 de 30

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A Maçã no Escuro

Capítulo 7

7

Pouco depois Martim foi chamado.

O prefeito de Vila Baixa era um homem pequeno, limpo, com os cabelos alisados por gomalina e um ar de argentino. Os dois investigadores eram baixos e tranquilos. O professor movia-se intenso, as bochechas emagrecidas vibravam como se ele tivesse que atender a tudo ao mesmo tempo. Martim era o único alto no meio deles, como se uma turma de anões armados o rodeasse. Olhou atordoado. É que não havia a menor lógica no que lhe estava acontecendo. Já de saída, o fato de ser alto no meio dos baixos deixara-o fisicamente desajeitado, incompleto e em desvantagem.

Os outros esperavam pacientes: é que se via que aquele homem ainda não entendera o que se passava, e então eles lhe davam tempo. Vitória, muito pálida, tinha posto o seu vestido de receber visitas. O professor falava, falava. Martim abanou a cabeça assentindo sem ouvir e sorriu como se fosse isso talvez o que esperassem dele; até tomar pé, o melhor seria agir cautelosamente de acordo com o que os outros esperavam.

– ... o senhor tem que compreender! nós temos que ser castigados, sabe por quê? senão tudo perde o sentido! dizia o professor agitadíssimo, e Martim, aturdido demais para pensar em si mesmo, perdeu um tempo precioso em compreender enfim por que as duas mulheres chamavam o professor de bondoso; ele era; mesmo que não fosse; um homem que julga faz um sacrifício. – Temos que ser castigados! repetiu o professor lastimoso, o senhor é inteligente, tem que entender! estou apelando para um engenheiro! dirijo-me a um homem superior, o senhor tem que compreender por que fiz isso! e juro que não é por causa de mim que o senhor tem que compreender! porque eu, eu compreendo o que fiz, Deus me deu a inspiração de me compreender! é que se o senhor não compreender, está perdido! se o senhor não compreender, tudo o que fiz estará perdido, e o senhor não completará o que o senhor começou com o crime! O senhor tem que compreender que se não houver castigo o trabalho de milhões de pessoas se perde e fica inútil! gritou ele implorante. São as etapas da humanidade que têm que...

– Sim, sim, disse Martim tonto, apaziguando-o.

– O senhor é um engenheiro, um homem superior, tem que entender! ordenou o professor.

– Não sou engenheiro, disse então Martim. Sou estatístico, disse muito distraído passando a mão pela testa e perdendo um tempo valioso.

Ninguém soube o que retrucar. O professor, pouco à vontade, fez um gesto de aborrecimento súbito como se aquele homem bem pudesse lhes ter poupado a desagradável informação. Mas a tensão se tinha quebrado. Por um instante a situação se desligara de seus antecedentes e do que ainda ia acontecer. O que deixou todos indecisos.

– Que foi que ele fez? perguntou afinal Vitória ao investigador.

– Matei minha mulher, disse Martim.

E ele a olhou profundamente surpreendido. Teria ele esquecido?

– Matei minha mulher, repetiu então, experimentando o que dizia com muito cuidado.

Era só isso? Era só isso. Mas então por que não se dissera isso há mais tempo? ele piscou os olhos, deslumbrado. Vitória olhava-o boquiaberta.

– Mas por quê? gritou afinal aniquilada, mas por quê? por quê?! encolerizou-se ela.

– Porque eu estava quase certo de que minha mulher tinha um amante, disse Martim.

Era surpreendente como se tornara simples falar, e era surpreendente o que ele mesmo dissera. O investigador de fumo preto na lapela pigarreou:

– Ele tinha voltado de um jogo de pôquer e fez a besteira.

Houve um silêncio. Martim não estava compreendendo nada. Sorriu tolo, parecia um pouco encabulado, “tanta atenção”, pensou, “em torno de mim”. Uma crise de timidez tomou-o. Não estava compreendendo nada, só sentia que estava perdendo tempo, o que lhe dava uma urgência incômoda, física. Se nele próprio havia algum sentimento reconhecível era o de curiosidade: ele olhava com curiosidade. Só isso reconhecia. Pois desde o momento em que dissera a Vitória a surpreendente frase, tornara-se um estranho para si mesmo. Nada mais tinha a ver com o homem que acabara de acender uma fogueira. A ponto de ter a vertiginosa impressão de que antes de pronunciar a simples frase reveladora, ele mentira o tempo todo.

Mentira o tempo todo? Começou então a suar um pouco. Estava ali com um sorriso cristalizado. Num minuto recuperara a polidez de uma pessoa entre outras, a civilidade de um homem que transpira discretamente. Mas o mal-estar dava-lhe um peso no peito. Começou a suar um pouco mais e enxugou-se com finura, com tapinhas leves do lenço na testa. Embora agora mal conseguisse respirar. O suor frio de novo umedeceu-lhe o rosto, ele passou a mão trêmula pela boca. Mas o mal-estar aumentou: sorriu então com cuidado, com isenção irônica. Ainda não tinha nada a ver com o que estava lhe acontecendo. Até que subitamente lhe pareceu que o lugar físico de uma alma era no peito, ali aprisionada como a alma de um cachorro está presa no corpo de um cachorro. Abriu a boca sorridente, e tinha aquela mudez total, se ele quisesse falar sua alma, ele latiria. Ficou espantado, sorrindo.

Mas falara! Ele havia falado enfim. A frase sobre sua mulher fora das mais antigas, lentamente recuperada como um paralítico dá um passo. E havia ainda outras palavras que o esperavam, se a linguagem fosse recuperada... ele o descobrira com curiosidade quando dissera tão simplesmente que suspeitara um amante. O que, se não era a melhor verdade, era afinal uma verdade que tinha valor de troca... Com curiosidade, com o peso no peito, ele estava de novo trocando, comprando e vendendo. Fora isso então que lhe acontecera: suspeitara um amante. Só isso? E tudo o mais que pretendera, pensara ou quisera – tudo o mais começou a se tornar tão irreal que ele passou a mão delicada pela boca, o destino de um homem era inventado? Passou a mão pela boca seca, fascinado.

– Por ciúme, disse Vitória arrasada. Amara-a tanto que chegou a... – a mulher silenciou abismada, olhando aquele homem profundo.

Martim estremeceu assustadíssimo. “Amara-a tanto...”, dissera Vitória. Seria isso, então! Intrigado, Martim olhou-a.

E no meio dos quatro homens que ele agora examinou um a um, apagava-se de súbito o longo interregno de sonho. “Amara-a tanto”, havia dito Vitória explicando. Talvez não importasse sequer que ele na verdade nunca tivesse amado sua mulher. Mas, reduzido às próprias proporções, era assim que ele poderia compreender: “amara-a tanto”.

“Amara-a tanto?”, sobressaltou-se de novo, ainda não firme naquelas pernas que lhe estavam sendo dadas. Olhou sobressaltado os quatro homens e a mulher que aguardavam: “devia, pois, ser verdade”. A verdade dos outros tinha que ser a sua verdade, ou o trabalho de milhões se perderia. Não seria esse o grande lugar comum a todos? Seus olhos piscaram de esperteza e argúcia e curiosidade. Embora soubesse que não a amara, experimentou com alguma cautela fazer suas as palavras dos outros que afinal não podem ser vazias: “pois um homem ama a sua mulher”.

Com certa avidez, ele se apegava à sabedoria dos quatro homens pequenos – e de súbito, de súbito nem que fosse possível, ele não quereria fugir.

E então, como se há muito tempo não visse gente, olhou com curiosidade e alguma emoção os mensageiros. Tinha esquecido de como eles eram.

“Amara-a tanto?”, insistiu de novo surpreendido, forçando-se já com alguma impaciência a recuperar a verdade alheia. Sim, fora por amor. Martim ainda quis ver se daria certo estabelecer um compromisso entre a sua verdade e a verdade dos outros, tentando fazer de ambas as duas faces de um só: “sim, fora por amor, não por sua mulher, mas por amor”, pensou pestanejando, “um crime de amor... pelo mundo”, arriscou ele encabulado, tentando sem jeito a presunção. “Que tolice estou pensando?”, assustou-se, pois a cara cada vez mais objetiva dos quatro homens já agora não lhe permitia sequer o menor compromisso, só lhe exigia a dura escolha: “Crime de amor pelo mundo?” Martim se envergonhou: essas coisas não existiam! apenas os atos! existiam apenas as caras das pessoas!

Mas de novo tentou timidamente a insistência de uma ponte entre ele e os quatro homens: “um crime de extremo amor, sim, que não pudera tolerar senão a perfeição; um crime de piedade; de piedade e desilusão? e de heroísmo; num gesto de cólera, repugnância, desprezo e amor, ele cometera a violência como uma beleza”.

Martim quis continuar a pensar assim pois até que estava dando certo. Mas as caras dos homens começaram a se tornar um obstáculo cada vez maior. Se ele quisesse continuar a pensar assim, o remédio seria evitar aquelas caras de olhos abertos. Então ele desviou o olhar, como uma vez fizera quando estava comendo bife no restaurante e uma criança se postara quieta atrás do vidro da janela a contemplá-lo.

Perturbado, ele desviou os olhos: “Sim, um crime de amor. Num mundo de silêncio, ele falara.” Oh, que tolices estavam se passando na sua cabeça?, envergonhou-se Martim, embora antes não se tivesse envergonhado de muito pior. Mas é que desta vez estava realmente embaraçado pois, apesar de não olhar os homens, os quatro homens inegáveis estavam de pé. “Qual foi mesmo o meu crime?”, perguntou-se, continuando teimoso a não olhá-los, “qual foi o meu crime? substituí o ato verdadeiro, desconhecido e impossível – pelo grito de negação.” Esse talvez tivesse sido o sentido de seu crime.

“Mas de negação?” Como compreender o significado desta palavra, se a negação – sua greve – subitamente lhe parecia agora o mais obstinado tremor da esperança, e a mão mais estendida para os quatro homens. “Fora seu crime um grito de negação – ou de apelo?” Responda.

– Que foi mesmo que a senhora disse que eu amava, que foi mesmo? implorou ele extremamente confuso, pois aquele era um homem que jamais deveria se aprofundar, no fundo ele era para ser guiado.

– Eu disse... – Vitória, depois de ter começado automaticamente a obedecê-lo, olhou-o em silêncio, inexprimível. Agora que sabia fatos sobre Martim, agora que finalmente o olhava de olhos abertos, agora ela o desconhecia. E como um cego que tivesse recobrado a visão e não reconhecesse com os olhos aquilo que mãos sensíveis sabiam de cor, ela então fechou um instante as pálpebras, tentando recuperar o conhecimento íntegro anterior; abriu-as de novo e procurou fazer das duas imagens uma só. – Eu disse... – de novo ela o olhou quieta; mas porque não precisava mais dele para nada, pôde também olhá-lo com piedade e desprezo. – Eu disse, repetiu então amarga e intocável, que o senhor a amava tanto a ponto de, por ciúme –

– Sim, sim, agora já me lembro! interrompeu ele apressado, os olhos comovidos.

Tivera ciúme dela? Oh Senhor, mas eu tinha esquecido de uma das verdades capitais!

Os homens falavam baixo entre si.

– Talvez você fique triste, disse então com ironia o investigador de fumo preto na lapela, mas ela não morreu. A assistência chegou a tempo, e ainda se conseguiu salvar sua esposa.

Todos olharam Martim com curiosidade.

– Ótimo, disse afinal Martim, e seus olhos brilharam úmidos por um segundo.

E assim, ela nem morrera.

E assim apagava-se tudo. Nem o crime existia.

O que sucedera, então? Honestamente um homem deveria dizer: que tentara matar sua mulher porque tinha ciúme dela, pois, como qualquer pessoa adivinharia, ele amara tanto aquela esposa sonolenta. Então, imediatamente baseado nisso, Martim se indagou aflito: “Ela me perdoará? Quanto tempo ficarei preso? Ainda terei tempo de começar a amá-la, de modo que, o que terminará sucedendo, é que sempre a amei?” Ele se esforçava para construir uma verdade retrospectiva.

– E meu filho?! gritou em sobressalto, como um homem que acorda atrasado. Usando de novo palavras, ele estremeceu: “sempre fora doido por aquele seu menino” – e agora essas palavras lhe cabiam por direito e ele as tomou com sofreguidão. – E meu filho!

– Sua esposa, disse o prefeito com severidade, merecia mais do que estar casada com o senhor: ela escondeu tudo do menino. Seu filho pensa que o senhor anda viajando.

E essa, agora? Os olhos de Martim brilharam de lágrimas. E essa, agora? Que fazer, por exemplo, disso? Então aquela era a sua mulher! Grande mulher. Reviu-a quando ela bocejava diante do espelho enquanto coçava ativamente a axila. Valorosa e boa – tudo o que ele conhecera dela apagava-se agora diante dos quatro homens – e restava que ela era valorosa e boa. A outra verdade – uma verdade inteiramente inútil no meio dos quatro homens cuja força os simplificava e lhes dava tamanho – a outra verdade se tornara tão inexistente quanto o crime que não chegara a existir. Martim teve um prazer inesperado em usar as palavras que valiam no mundo: valorosa e boa. Eram palavras lindas – pois a existência de palavras ocas como essas haviam salvo a alma de seu filho!

A sentimentalização da decência tomou Martim em doloroso assalto.

– Valorosa e boa, disse então bem alto para que os homens vissem que ele era um deles.

Os quatro homens quietos olharam-no. Os quatro representantes. Representando, mudos e inapeláveis, a dura luta que diariamente se enceta contra a grandeza, nossa grandeza mortal; representando a luta que diariamente com coragem se enceta contra a nossa bondade, porque a bondade real é uma violência; representando a luta diária que encetamos contra a nossa própria liberdade, que é grande demais e que, com minucioso esforço, diminuímos; nós, que somos tão objetivos que terminamos sendo de nós mesmos apenas aquilo que tem uso; com aplicação, fazemos de nós o homem que um outro homem possa reconhecer e usar; e por discrição, ignoramos a ferocidade de nosso amor; e por delicadeza, passamos ao largo do santo e do criminoso; e quando alguém fala em bondade e sofrimento, abaixamos olhos ignorantes, sem dizer uma palavra em nosso favor; aplicamo-nos em dar de nós o que não espante, e quando se fala em heroísmo não entendemos. Os quatro homens de pé, representando...

Então, de repente – ó diabo, ó diabo! – de repente, a um relance ao rosto impassível de homens que tinham narizes, bocas, olhos, sinais particulares e uma testa – Martim percebeu espantado: eles sabem! Ele percebeu: que todo o mundo sabe a verdade. E que o jogo era assim mesmo: agir como se não soubesse... Essa era a regra do jogo. Que estúpido ele tinha sido! pensou estarrecido, abanando a cabeça com incredulidade. Que ridículo o seu, o de querer salvar uma coisa que estava se salvando. Todos sabem a verdade, ninguém a ignora! Espantado diante dos narizes e bocas com que nascemos, Martim olhou os quatro homens: todos sabiam a verdade. E mesmo que a ignorassem, o rosto das pessoas sabia. Aliás, todo o mundo sabe tudo. E uma ou outra vez alguém redescobre a pólvora, e o coração bate. A gente se atrapalha é quando quer falar, mas todo o mundo sabe tudo. Essa cara silenciosa com que teimosamente nascemos.

Os homens conversavam baixo. E enquanto isso, Martim tentava apalpar o seu erro: seu erro anterior fora tentar entender por meio do pensamento. E quando tentara refazer a construção, caíra irremediavelmente no mesmo erro. Mas, se a pessoa não se pervertesse em pensamento, a pessoa intata sabia a verdade. Que papelão o seu! descobriu ele envergonhado e enternecido. Como se tivesse ido dizer a uma mãe como amar seu filho, e a mãe abaixasse os olhos e o deixasse se espumar no discurso – e de repente ele compreendesse que, sem uma palavra e sem sequer entender, a mãe amava seu filho. E então, em vexame – uma dessas vergonhas pelas quais as pessoas muito ardentes passam – ele se retirasse na ponta dos pés, prometendo-se nunca mais, oh nunca mais fazer tanto barulho. Porque milhões de pessoas trabalhavam sem parar, salvando noite e dia. Só os impacientes não entendiam as regras do jogo. Ele pensara que as florestas dormiam intocadas, e de súbito descobria, pela cara com narizes que as pessoas têm, descobria que silenciosamente as formigas estavam roendo a floresta toda, diabo! nós somos intermináveis! O que ele não entendera é que havia um pacto de silêncio. E ridiculamente heroico viera com suas palavras. Outros, antes dele, já haviam tentado quebrar o silêncio. Ninguém conseguira. Pois, muito antes dos que têm o dom da palavra, os quatro homens e mais os outros sabiam.

Martim passou a mão pela testa, confuso. Os homens falavam, estudando o mapa. A verdade é que, contaminado pela cara calada dos homens que falavam sobre o mapa, Martim agora, como se também ele já fosse perdendo a fala, não conseguia mais pensar em termos de palavras, ele estava se metamorfoseando nos quatro homens, e transfigurando-se enfim em si mesmo – e penetrando nesse ultrapassamento cujo máximo é ter uma cara que sabe. E foi por isso que ele já não soube como exprimir, nem mesmo a si próprio, o seguinte: que tudo estava certo.

Miraculosamente certo. Oh, Martim sabia que em face da inteligência seria muito tolo dizer isso. Mas acontece que, enfim tão apoiado pelos quatro, ele não estava com medo de ser tolo. Oh, como explicar que tudo estava certo? Iniciado agora no silêncio – não mais no silêncio das plantas, não mais no silêncio das vacas, mas no silêncio dos outros homens – ele não sabia mais como se explicar, só sabia que se sentia cada vez mais um homem, cada vez mais ele se sentia os outros. O que, ao mesmo tempo que lhe parecia a grande decadência e a queda de um anjo, pareceu-lhe também uma ascensão. Mas isso só entende quem, em esforço impalpável, já se metamorfoseou em si mesmo. Martim nem sequer conseguiria explicar por que um homem teria como ideal a urgência de ser um homem. Oh, Martim a essa altura não sabia mais nada. Senão aquela mistura de cansaço, covardia e gratidão, onde ele enfim se mexeu com o gosto um pouco ignóbil e delicioso de um lagarto na lama. Oh, mas alguma coisa se criara.

Exausta, mas se criara.

Sobretudo Martim estava muito cansado. Um homem sozinho ficava tão cansado. Quisera ele próprio arcar com um fardo – “arcar com o fardo” era um dos símbolos antigos que ele precisara averiguar sozinho, resto de procissões e de jogos atléticos a que assistira. Ele próprio quisera arcar com o fardo e levá-lo adiante. Mas quem levava adiante eram os quatro homens tranquilos que protegiam com a paciência o que quer que eles levavam adiante. Ele próprio, além de tocar nos símbolos, nada pudera fazer. Mas os quatro homens protegiam o fardo com a ignorância. Ó diabo, não era propriamente fardo, era “tocha” o que em geral se carregava! Eles protegeriam com a ignorância o fardo, sem abrir-lhes o mistério, levando-o intato e assim por diante etc. Uma vez ou outra, então alguém inventava uma vacina que curava. Uma vez ou outra o governo caía. Às vezes a mulher parava de gritar e nascia um menino. Que diabo! pensou Martim arrepiado, como se tivessem hasteado a Bandeira Nacional à qual ele jamais pudera resistir.

“Oh, mas eu também tinha o direito de tentar!”, revoltou-se ele de repente, “eu queria o símbolo porque o símbolo é a verdadeira realidade! eu tinha o direito de ser heroico! pois foi o herói, em mim, que fez de mim um homem!”

Que é mesmo que aquele homem estava pensando?

Nada. Restos transfigurados de civismo e de colação de grau, leiteiros que não falham e entregam diariamente o leite, coisas assim que parecem não instruir, mas instruem tanto, uma carta que nunca se pensou que viria e que vem, procissões que dão voltas lentas pela esquina, as paradas militares onde uma multidão inteira vive da seta que lançou – aquele homem estava recuperando tudo de cambulhada. A memória termina voltando.

Que é mesmo que ele estava pensando? Nada, aliás. O sol ainda se dourava, avermelhado, tranquilo. O mundo era bonito, isso não se discute. Pela janela o sol dourava o mapa que os homens estudavam. Oh o mundo era tão bonito! E tudo estava certo. Futuramente certo.

“O que é mesmo que está certo?”, atrapalhou-se Martim. Sua cabeça cansada se confundiu, ele não sabia muito bem o que é que está certo. Tentou então, com esforço sobre-humano, prosseguir. Mas parece que não podia.

Parece que não podia, e que sua boa vontade não bastava; aí é que estava o problema. E agora, que se achava quase no fim da jornada, tendo quase ao alcance uma certa palavra ou um certo sentimento – agora ele não tinha força para estender o braço fatigado e alcançar. Tinha que parar ali onde parara, e transferir para os outros a construção da marcha. E ali humildemente ficar. E de novo ter como ideal máximo, adivinhar.

Confuso, a modo de dizer, Martim apenas adivinhava. Mas quem sabe, força nenhuma jamais conseguisse mais do que estender ao máximo o comprimento de um braço de homem – e então não alcançar aquilo que, com mais um impulso, o derradeiro e o impossível, encheria com vida a mão. Porque braço de homem tem medida certa. E tem uma coisa que nunca saberemos. Tem uma coisa que nunca saberemos, você sente isso, não sente? embaraçou-se o homem, emocionado como se isso contraditoriamente significasse arriscar-se no primeiro passo de uma estranha esperança.

– Ela era valorosa e boa, disse interrompendo os homens para ver-lhes a cara, pois sentia que de novo estava se perdendo deles.

Os homens concentrados no mapa levantaram os olhos, olharam-no um segundo e, caceteados, voltaram ao mapa.

– Valorosa e boa, repetiu Martim interpretando a expressão deles como sinal de que não o tinham ouvido. E era preciso que eles ouvissem! Fazia questão cerrada de reduzir tudo o que lhe acontecera a alguma coisa compreensível pelos milhões de homens que vivem da lenta certeza que avança, pois esses homens se arriscaram também. E não podiam ser perturbados no seu trabalho de sono, e não deveriam jamais ter a certeza estremecida – sem que isto constituísse o crime maior.

Bem que Martim percebeu que de novo estava resvalando para o discurso. E que a realidade dos quatro homens nada tinha a ver com isso. Então ficou um pouco desarvorado: nada do que ele tinha a oferecer parecia servir. Ele queria entrar na festa a todo custo, mas tudo o que fazia era apenas espalhafatoso, por mais discreto que fosse. Ficou então um pouco desarvorado.

“Quero encontrar pela frente o homem que seja bastante macho para ter a ousadia de me dizer que não amo minha mulher!”, se disse ele de repente refazendo-se. Emocionou-se com a própria generosidade, ele que estava oferecendo vender a própria alma, contanto que a comprassem. Doeu-lhe mentir, mas a bravata lhe fez um bem enorme, com bruta boa vontade Martim queria que hoje fosse ele a pagar a bebida de todos, e que bebessem à vontade, e depois ele nem ao menos confessaria que ficara sem dinheiro – e então também ele teria um segredo de sacrifício, como os outros têm. Martim queria fazer o sacrifício de sua incredulidade. E nessa heroica amputação, ele só aceitaria em si mesmo aquilo que os homens pudessem compreender sem que, por terem compreendido, tivessem o caminho abalado: ele aceitava que lhe acontecera um crime passional.

Ele aceitou que cometera um crime passional, não somente porque, neste momento, lembrando-se dos seios de sua esposa uma raiva retrospectiva o tomou, como porque lhe pareceu que se tivesse cometido apenas um crime passional teria evitado o crime maior: o de duvidar. E afinal, a verdade é coisa secundária – se se quiser o símbolo. E ele agora tinha um novo símbolo a perseguir.

“Sou de vocês”, pensou ele então, ainda com o resto de uma gravidade que se envaidecia de si mesma. “Sou de vocês”, pensou entregue, atento, consciente. E a verdade é que, lhes entregando a própria consciência, ele afinal estava entregando apenas uma consciência que falhara; não era muito. Uma consciência que se deixara arrastar pela beleza. “É assim mesmo que devo fazer o ato de entrega?”, indagou-se, procurando concentrado acertar ao máximo. E, entregando aos homens pequenos e fortes a chave, ele voluntariamente se encostava ao muro para ser fuzilado.

“Oh, estaria exagerando a própria importância, e a importância do que lhes estava entregando?” Estava sim. Mas, sem exagerar, como viver? Como atingir, sem exagerar? O exagero era o único tamanho possível para quem era pequeno; preciso me exagerar – senão que é que faço de mim pequeno?

E assim é que, por maior que fosse a sua boa vontade, ele ainda não sabia como ser um outro homem. E estava se entregando enorme, desajeitado como um bonecão de borracha cheio de ar. Notou isso; e tentou corrigir ou pelo menos disfarçar. Pois esse modo de se entregar era como se ele ofendesse um pobre mostrando-lhe a caridade da riqueza, era como se estivesse escandalizando a modéstia dos quatro homens. Era como se ele tivesse pensado que “a coisa se faria muito certa” se ele se mostrasse de repente nu – e os outros desviassem os olhos sem ao menos uma reprovação: apenas demonstrando em silêncio que também não é assim não, e que a nudez é um caso puramente pessoal.

Está bem, errei, então. Mas então como é que um homem se torna o outro homem? Como? Por um ato de amor, ocorreu vagamente a Martim, o que por enquanto lhe pareceu grande tolice.

E como estava agora num beco sem saída, tentou rapidamente disfarçar sua total falta de tato: “pronto, acabou-se! não se fala mais nisso, está bem? vamos esquecer o que se passou, nem se toca mais no assunto! matei, não foi? pois então matei! aliás nem matar matei! mas também ninguém precisa ficar magoado comigo, o que passou, passou! vamos tocar para a frente!” Seus olhos estavam úmidos no desejo de ser aceito.

Os quatro homens continuavam inclinados sobre o mapa.

Eles tinham a grande vantagem prática de serem milhões; para cada milhão que errava, outro milhão se erguia. E alguma coisa sucedia através deles – devagar demais para a impaciência – mas sucedia. Só a impaciência do desejo lhe dera a ilusão de que o tempo de uma vida era tempo bastante. “Para a minha vida pessoal pedirei socorro ao que já morreu e ao que nascerá, só assim terei vida pessoal”, e só assim a palavra tempo teria o sentido que um dia ele adivinhara.

“Eu não sou nada”, disse-se então Martim, dessa vez por safadeza, pestanejando de prazer. É que, através de um raciocínio muito complicado, tinha chegado à conclusão de que fora uma bênção ele ter errado, porque, se tivesse acertado, provar-se-ia que a tarefa de vida era para um homem só – o que, contraditoriamente, faria com que a tarefa não se fizesse... Um homem sozinho chegava apenas a uma beleza superficial, como a beleza de um verso. Que, afinal, não se transmite pelo sangue. (Mentira! ele sabia que chegara a muito mais que isso.) Um homem sozinho tinha a impaciência de uma criança, e, como uma criança, cometia um crime, e depois olhava as mãos e via que nem sangue tinha nas mãos mas apenas tinta vermelha, e dizia então: “não sou nada”.

Foi isso o que ele pensou. E pensou também: em verdade posso descansar – esses homens não sabem que sabem, é apenas isso o que lhes acontece. Os quatro homens pequenos iam levando adiante – burros, pequenos, estúpidos – burros? burro sou eu! – iam levando adiante. O quê? Pro diabo, pensou Martim muito emocionado, não importa o quê. Em última análise, eles se levam adiante. E para levar adiante, eles se protegiam sendo pequenos e vazios – vazios coisa nenhuma! – e estúpidos; e se fraquejassem na dúvida, milhares de outros pequenos brotariam do chão e continuariam a tarefa da certeza.

Foi então que Martim, pela primeira vez, teve a certeza.

Exausto, como se já a tivesse tido alguma vez, ele a reconheceu. O único modo de descobrir era, aliás, reconhecer. Assim era.

E foi assim que aconteceu, sem mais nem menos: ele teve a certeza. Como? Oh, vamos dizer que uma pessoa tivesse um cérebro matemático mas ignorasse que existem números – de que modo então essa pessoa pensaria? tendo a certeza! Oh, também a esperança é um pulo. Martim então jogou tudo na certeza. E ficou muito quieto.

Ficou bem quieto. Do lugar onde se pusera de pé, a vida era muito bonita. Ele chegara a um ponto irredutível, não divisível sequer pelo número um. E então ficou quieto, cansado. Se saíra de casa “para saber se era verdade”, ele agora sabia que era. Aliás, ele sabia a verdade. Embora nunca pretendesse pronunciá-la, nem sequer sozinho consigo mesmo, pois, como se disse, ele se tornara um sábio – e a verdade, quando pensada, é impossível. Diabo! a verdade foi feita para existir! e não para sabermos. A nós, cabe apenas inventá-la. A verdade... – bem, simplesmente, a verdade é o que é, pensou Martim com uma profundeza que o depôs exatamente no vazio. A verdade nunca é aterrorizante, aterrorizantes somos nós. E também, como que “a verdade acontecerá”. Quem não acreditar que a verdade acontece que veja uma galinha andando por força do desconhecido. “Aliás a verdade tem acontecido muito” – a essa altura Martim já se tinha perdido na profundeza que sempre o aguardara irônica. Essa profundeza de onde – de onde uma grande onda de amor lhe nasceu no peito.

De início, não sabendo que fazer com o amor, sua alma cambaleou um pouco com tanta crueza. Então ficou quieto, estoico, aguentando firme.

Há poucas horas, junto da fogueira, ele atingira uma impersonalidade dentro de si: ele fora tão profundamente ele mesmo, que se tornara o “ele-mesmo” de qualquer outra pessoa, assim como a vaca é a vaca de todas as vacas. Mas se junto do fogo ele se tinha feito, neste instante ele se usava: agora acabara de atingir a impersonalidade com que um homem, caindo, um outro se levanta. A impersonalidade de morrer enquanto outros nascem. O altruísmo dos outros existirem. Nós, que vos somos. Que coisa estranha: até agora eu parecia estar querendo alcançar com a última ponta de meu dedo a própria última ponta de meu dedo – é verdade que nesse extremo esforço, cresci; mas a ponta de meu dedo continuou inalcançável. Fui até onde pude. Mas como é que não compreendi que aquilo que não alcanço em mim... já são os outros? Os outros, que são o nosso mais profundo mergulho! Nós que vos somos como vós mesmos não vos sois. Assim, muito concentrado no parto dos outros, num trabalho que só ele podia fazer, Martim estava ali tentando fazer corpo com os que nascerão.

Devagar, saiu afinal de sua quietude. “Conto com vocês”, se disse tateando, “conto com vocês”, pensou grave – e essa era a forma mais pessoal de uma pessoa existir. Nós que, como o dinheiro, só temos valor enquanto inteiro. Martim teve mesmo vergonha de ter sido pessoal de outro modo, era um passado sujo o seu, fora uma vida individual, a sua. Mas pareceu-lhe também, perdoando-se, que ele não tivera escolha: que aquele fora o único modo como ele soubera ser os outros, já que somos tão parecidos e somos filhos da mesma mãe.

Então, quando pensou em “filhos da mesma mãe”, ele se sentimentalizou todo, ficou tenro e amolecido – o que foi praticamente ruim porque desviou o curso de seus pensamentos. “Agora sou obrigado a começar tudo do começo”, pensou muito perturbado. Mas agora era tarde para voltar com alguma frieza, pois estava todo emocionado com problemas de mãe e amor. Foi então que – fazendo dentro de seus limites um círculo perfeito, e a sorte dele era rara em poder voltar por meios obscuros a seu próprio ponto de partida – num círculo perfeito dentro de seus escassos limites, ele então quis ser bom. Porque, afinal, adiando sine die o mistério, essa era a hora imediata de um homem. E sobretudo porque, afinal, “o outro homem” é o pensamento mais objetivo que uma pessoa pode ter! ele que quisera tanto ser objetivo.

Olhou. E sem a menor sombra de dúvida, viu os quatro homens concretos. Eles eram inegáveis. Se Martim quisera um dia a objetividade, aqueles homens eram o pensamento mais nítido que Martim jamais tivera. E ser “bom” era afinal de contas o único modo de ser os outros.

Então, como muitas promessas nos foram feitas, uma delas ali mesmo se cumpriu: os outros existiam. Existiam como se ele, Martim, os entregasse a eles mesmos. Martim olhou intrigado o investigador de fumo preto. “Devolvo-te à tua grandeza”, pensou com esforço e com alguma solenidade. Uma das promessas se cumpria: os quatro homens. E ele, Martim, estava pronto para sentir a fome alheia como se seu próprio estômago lhe transmitisse a imperiosa ordem absoluta de viver. E se, como toda pessoa, ele era uma ideia preconcebida, e se saíra de casa para saber se era verdade o que preconcebera – era verdade, sim. De algum modo, o mundo estava salvo. Havia pelo menos uma fração de segundo em que cada um salvava o mundo.

O coração de Martim estava confuso. “A diferença entre eles e mim, é que eles têm uma alma, e eu tive que criar a minha. Eu tinha que criar para eles e para mim o lugar onde eles e eu pisávamos. Como o processo é sempre misterioso, não sei nem ao menos dizer de que modo o fiz: mas esses homens, eu os pus de pé dentro de mim. Para dizer a verdade, não tenho a menor vergonha de, não sendo nada, ser tão poderoso: é que nós somos modestamente o nosso processo. Eu pertenci a meus passos, um a um, à medida que estes avançavam e constituíam um caminho e construíam o mundo. Foi um longo caminho. E é verdade que menti muito; menti tanto quanto precisei: mas talvez mentir seja o nosso mais agudo modo de pensar; talvez mentir seja o nosso modo de agarrar; e eu agarrei muito; minhas mãos têm um passado; foi um longo caminho, e eu tive que inventar os passos; mas esta inocência que sinto em mim é a meta; pois sinto, também em mim! a inocência e o silêncio dos outros. Oh, talvez seja por um instante apenas! E depois? – depois entrego a nós todos a tarefa de viver. Nós somos as nossas testemunhas, não adianta virar o rosto para o outro lado. O consolo é que nem todos têm que depor e gaguejar, e só alguns sentem a danação de procurar compreender a compreensão.” Com a graça de Deus, o mundo que ele estivera prestes a construir jamais teria força de gravitar, e o homem que ele inventara estava aquém... ora, estava aquém do que ele mesmo era!

Estaria ele por acaso descobrindo a pólvora? Mas talvez seja assim mesmo: todo homem tem que um dia descobrir a pólvora. Ou então não houve experiência. E seu fracasso? como se conciliar com o próprio fracasso? Bem, toda história de uma pessoa é a história de seu fracasso. Através do qual... Ele, aliás, não falhara totalmente. Porque eu fiz os outros, disse-se olhando os quatro homens. E do fundo do inferno, subia o amor. Nós que estamos doentes de amor. Mas alguém aceitaria jamais o modo como ele chegara a amar? oh as pessoas são tão exigentes! comem o pão e têm nojo dos que pegaram na massa crua, e devoram a carne mas não convidam o açougueiro; as pessoas pedem que se lhes esconda o processo. Só Deus não teria nojo de seu torto amor.

Emocionado e generoso como estava, Martim se tornaria até inconveniente no seu luxo de bondade – como sua própria mãe que, bondosa e importuna, insistia emocionada para que as visitas bebessem e comessem. Assim, igual a sua mãe, ele olhou os quatro representantes. E sem saber o que lhes dar, esboçou um gesto de bater nas costas do investigador de fumo na lapela, abriu a boca para lhe dizer em maliciosa cumplicidade: “aí, hein, seu desgraçado?” – mas encabulou no meio, pois sua mãe também fora mulher moderada.

Então, sem saber que pensara na sua mãezinha, o que lhe aconteceu, em círculo perfeito, é que nossos pais não estavam mortos. Pelo menos não tão mortos assim.

“Que é? que é que eu pensei agora”, surpreendeu-se Martim assustado. De novo aquele homem pensara rápido demais em relação à sua própria lentidão. Toda vez que acertava, ele não se entendia, somos inteligentes demais para a nossa lentidão. Assim, sem entender por que cargas d’água pensara na sua mãe, agora apenas percebia que pensara; e grunhiu aprovando seu sentimento filial, com aquela tendência que ele tinha para homenagear. Estava um pouco intrigado por ter pensado na sua mãe. Embora concordasse; de um modo geral ele concordou. Não sabia com que, mas concordava. Que seria afinal de nós se não usássemos, como Deus, a obscuridade? Então, sem propriamente acompanhar o caminho de seu pensamento, descobriu – sozinho e sem auxílio de ninguém! – que Deus e as pessoas escrevem por linhas tortas! “Se escrevem direito, lá isso não me cabe julgar, quem sou eu para julgar”, concedeu com magnanimidade, “mas por linhas tortas”. E isso – isso ele descobriu sozinho!

Outro símbolo tinha sido, pois, tocado.

Excitado com o sucesso, Martim imediatamente pôs mãos à obra e pensou: “casa de ferreiro, espeto de pau!” – e parou para ver se também dava certo. Mas não formou sentido. Martim caíra em pura tagarelice, como um homem feliz e cansado. Desde menino, sempre que tinha um sucesso, terminava por se sair mal: quando jogava futebol e fazia um gol feliz, seu próximo chute alegre sempre terminava mandando a bola para fora do campo: ele era um homem de boa vontade. Não, casa de ferreiro não levava a parte alguma – e o homem sentiu a tempo que estava abusando de seu estado de graça e forçando um pouco a mão. Oh, como tudo é chato, pensou exausto, deslumbrado.

Quantos minutos se tinham passado? tinha-se passado a espécie de minutos em que o pensamento é o tempo.

– Com esse mapa já perdemos dez minutos, disse o investigador que Martim criara e que estava funcionando pela primeira vez depois que Martim o pensara – e funcionava logo com perfeição. Vamos terminar por viajar de noite, disse o investigador desgostado.

– Valorosa e boa, disse-lhe Martim recuperado, antigo, aliás recuperado demais e quase na Idade Média; sua armadura fulgurava.

Estava ansioso por agradá-los. É que há minutos ardia por perguntar-lhes se sua mulher tivera realmente um amante. Agora, pela primeira vez, isso tinha a maior importância. E eles deviam saber, eles eram fortes e bons, ele queria ser julgado por eles que, seguros e armados, também deviam ser caridosos – porque no novo sistema de Martim uma pessoa era fatalmente perfeita já que chegara ao ponto de viver, quando uma coisa chegava a nascer é porque já era completa. Com os olhos úmidos, ele queria perguntar-lhes humildemente como uma criança – queria ser a criança dos homens e aprender tudo de novo, e obedecer e ser severamente castigado se não obedecesse, e queria entrar naquele mundo que tinha a vantagem eminentemente prática de existir, que digo eu?! vantagem aliás insubstituível! – queria perguntar-lhes: minha mulher tinha mesmo um amante, tinha? E se eles dissessem que não, ele acreditaria: no que eles dissessem, acreditaria.

Lembrou-se a tempo do desprezo que as pessoas, sobretudo as armadas, tinham por um marido enganado. Ele era um marido enganado! Sentir-se classificado encheu-o de emoção e agradecimento.

– Minha mulher tinha mesmo um amante? perguntou-lhes com os olhos piscando de cobiça, pois agora Martim queria que tudo o que lhe acontecera fosse bem seu.

Os dois investigadores viram suas lágrimas e trocaram um olhar de ironia.

– Ele está chorando, disse o de fumo na lapela indicando-o com a cabeça. Além de ser um... – ia dizer a palavra mas lembrou-se a tempo da presença de uma senhora – além disso, chora como um covarde.

E foi assim que, com a nova palavra de classificação, Martim entrou de novo no mundo dos outros, de onde saíra para reconstruir. E reencontrou com humildade farejante – como um cão sem dentes mas com dono! – o mundo velho, onde ele era enfim alguma coisa, nós que precisamos ser alguma coisa que os outros vejam, senão os próprios outros correrão o risco de não serem mais eles mesmos, e que complicação então! Ele era a palavra que o investigador não ousara pronunciar diante de Vitória, e um covarde. Eles devem ter razão, pensou Martim com avidez, pulando com generosidade por cima da própria descrença, eles devem ter razão, eles sabem o que fazem, pensou contente como uma mulher. Estava tão emocionado com a bondade de todos. Eram tão bons que o aceitavam de volta, tinham até um lugar determinado para ele e dois nomes esperando-o. “Aceitavam-no de volta?”, oh, mas muito mais que isso: na verdade exigiam sua volta, tinham até vindo buscá-lo! Nenhum homem podia ser perdido, o avanço de milhões precisava de cada homem! E eles estavam inclusive dispostos a passar uma esponja – não sobre o crime, isso felizmente jamais! – mas sobre o que ele fizera de pior: a tentativa de romper o silêncio de que aqueles homens precisavam para avançar enquanto dormiam.

– Que música é esta? perguntou de repente, ele que nunca ouvira gramofone naquela casa.

– Ermelinda não quis ouvir o que se passa aqui e ligou a vitrola. Mas ela mandou dizer que vai dar adeusinho pela janela, disse Vitória.

A interrupção inesperada atrapalhou todos um pouco. Por um instante ficaram se olhando, procurando no fato do gramofone a sua particular importância. Até aquele momento, um ou outro dos presentes dirigira a situação. Mas agora esta parecia se fazer sozinha, a sessão estava sem um presidente, os acontecimentos se tinham tomado ao seu próprio cargo.

– Pois é, disse o prefeito com insegurança mas com severidade também, pois ele ali estava dentro de sua circunscrição e a ele cabia fazer com que tudo fosse claro.

É que todos, sem sentir, pareciam ter esquecido de algum objetivo, ou tinham por um instante se perdido daquilo que eles simbolizavam; as coisas se desmancham facilmente em certa bondade preguiçosa, em certa meditação vazia – que muitas vezes resulta em cada um voltar para casa e, enfim acordado de uma miragem, recomeçar a fazer o que realmente importa? E o que é que realmente importa? Não sei, talvez sentir com bondade irônica esse modo como as coisas mais reais e que mais queremos de repente parecem um sonho, e isso simplesmente porque sabemos muito bem que... que o quê?

– Ele vai ser preso? disse Vitória tolamente, passando a mão pela boca seca.

– Mas é claro! precipitou-se Martim olhando-a ressentido como se ela tivesse desajeitadamente ofendido os homens. Mas é claro! disse lisonjeando-os; sua voz estava doce e pouco viril.

Vitória olhou-o perplexa:

– Será que ele está bem, prefeito? sussurrou como se estivesse num quarto de doente.

Como um modesto hermafrodita, Martim abaixou os olhos escondendo o fato de estar tão completo e perfeito. Oh, ele se dava conta de muita coisa: de que certamente parecia abobalhado aos olhos dos outros; de que ele próprio estava voluntariamente se abobalhando; de que muitas das emoções que estava sentindo não eram verdadeiras; de que estava fingindo a verdade como modo de atingi-la. E de que estava à beira de um desastre, e que poderia de repente começar a tremer com febre ou então sentir de repente na própria carne a realidade do que lhe estava acontecendo. “Vocês por favor não reparem”, pensou, “é que estou exausto.”

O prefeito abanou a cabeça fitando-o e falando dele como se ele não estivesse presente:

– É assim mesmo, minha senhora. Na hora dá uma quebradeira daquelas. Antes eles pensam que são os tais, disse o prefeito examinando-o com uma curiosidade já um pouco fatigada pela longa prática, mas na hora de serem presos viram mulher, têm medo.

Medo? oh não, pensou Martim sinceramente espantado e sentido, eles não me entendem! Eles têm a vantagem de me prender, e não sabem sequer por quê! Baixou a cabeça, aniquilado, solitário. Seria ele preso à toa?

Mas como aquele homem era danado de difícil de derrubar, ele pensou: não faz mal, quem sabe se é exatamente na prisão que vou conseguir o que quero? Pois, como uma pessoa que já tivesse comido o bolo e no entanto continuasse a procurar o bolo, ele ainda continuava preso à ideia de “reforma”. Não faz mal, ele por exemplo poderia na tranquilidade da prisão escrever sua confusa mensagem. A minha própria história, pensou já refeito na fatuidade de que precisava para ter um mínimo de dignidade pessoal, a dignidade que o prefeito derrubara. Pois muito me resta a fazer! Porque afinal, diabo! – lembrou-se ele de repente – usei tudo o que pude, menos – menos a imaginação! simplesmente me esqueci! E imaginar era um meio legítimo de se atingir. Como não havia modo de escapar à verdade, podia-se usar a mentira sem escrúpulos. Martim se lembrou de si próprio quando tentara, no depósito, escrever; e de como, por mesquinheza, não usara a mentira; e de como fora mediocremente honesto com uma coisa que é grande demais para que possamos ser honestos com ela, nós que temos da honestidade a ideia que dela fazem os desonestos.

Mas com a imaginação ele escreveria na prisão a história muito torta de um homem que teve... Teve o quê? Digamos: pena e espanto?

“Sobretudo”, pensou ele, “juro que no meu livro terei a coragem de deixar inexplicado o que é inexplicável.”

Aliás – pensou então – a dificuldade não tinha a menor importância, pois por ser difícil de resumir é que ele usaria tantas palavras, tantas a ponto de se formar um livro de palavras. O que lhe agradou, já de início. Porque ele gostava de quantidade também, não só de qualidade, como se diz de goiabada; e, se estava cansado, ele também era um guloso, porque, afinal, o que é maior é sempre melhor do que é menor, embora nem sempre. Um grosso livro, pois. Ele o dedicaria assim: “Em homenagem aos nossos crimes.” Ou, quem sabe, talvez: “Aos nossos crimes inexplicáveis.”

Martim estava contente, atento, imaginando a história que ia escrever. “De algum modo cada um de nós oferecia sua vida a uma impossibilidade. Mas era verdade também que a impossibilidade terminava por ficar mais perto de nossos dedos que nós mesmos, pois a realidade pertence a Deus.” Martim pensou depois que temos um corpo e uma alma e um querer e os nossos filhos – e no entanto o que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós. E, quem sabe, a sua seria a história de uma impossibilidade tocada. Do modo como podia ser tocada: quando dedos sentem no silêncio do pulso a veia. Assim, aquele homem que um dia não soubera sequer anotar a lista de “coisas a saber”, queria escrever – seus olhos se entrefecharam em devaneio como uma mulher velha, que relembrando o passado, parece transpô-lo em esperança para o futuro. E sua armadura de novo faiscou. Não sabia senão por alto o que seria esse livro dedicado aos nossos crimes. De uma coisa, porém, estava serenamente quase certo, embora cautelosamente vago: terminaria o livro com uma apoteose, desde menino sempre tivera certa tendência para a celebração, o que era a parte mais generosa de sua natureza: essa tendência ao grandioso. Mas, afinal, tudo o que a gente tenta é mesmo preparar um finale perfeito. No que, é verdade, há o perigo de se começar a falar alto, e, afinal, só a doçura é potência, Martim estava começando a saber disso. Mas a tentação da apoteose era forte demais: ele sempre fora homem que quisera pagar a bebida de todos, ele sempre se emocionara em ser trouxa, e nunca tivera oportunidade por causa de sua esperteza e cobiça; sempre ansiara por uma generosa apoteose, sem nenhuma economia, como no final das revistas musicais, quando todos os membros da companhia vêm ao palco.

Oh Deus, Deus: ele estava exausto. Ele não queria nenhuma apoteose.

Agora sério, exausto, olhou de mãos caídas. Estivera brincando até agora, por pura excitação. Mas agora ele quis foi pobreza e doçura. Estava mole, cansado, ele queria... que é que ele queria? Que é que eu quero? Oh Deus, ajude-o, ele não sabe o que quer.

Ele não sabia. E num esforço sobre-humano de se dar, fez uma expressão de rosto que se soubessem ler saberiam o que ele queria, mesmo que não pudessem dizer o quê. Que é mesmo que ele queria? não sabia, uma pessoa substitui tanto que termina por não saber.

Oh, também não vamos complicar demais. Pois afinal tudo, em última análise, se reduz a sim ou não. Ele queria “sim”. Que poderia ser dado indiferentemente com a cabeça baixa ou com todos os membros da companhia no palco, é uma pequena questão de preferência pessoal, e gosto não se discute.

E a verdade é que Martim estava caindo de cansaço. Há meses aquele homem fazia um esforço superior à sua capacidade, pois tratava-se de uma pessoa menor. Seu fôlego era curto, a capacidade de seu estômago pequena. O próprio crime tinha sido uma performance esgotante. “Na prisão vou ver se tomo algumas vitaminas”, pensou vago, ele que sempre tivera o desejo secreto de ser um homem gordo. Seu fôlego era curto, e ele já estava nauseado de ser gente: engolira mais do que pudera digerir.

Por cansaço, então, em visão rápida e balsâmica, ele se refugiou nas plantas grossas de seu terreno – que deviam estar agora tranquilamente anoitecendo entre as ratazanas. “Vão para o diabo”, disse-se então olhando os homens, nauseado de ser gente. As plantas tranquilas chamavam-no. “Não ser”, esta era a vasta noite de um homem. “Mesmo não é sequer com a inteligência que se dorme com uma mulher”, pensou ele desvairando, e tão profundo que não entendeu propriamente o que queria dizer com isso. Pensou com desejo nas plantas do terreno terciário, com saudade das ratas negras. Uma moleza feita de sensualidade tirou-lhe a força de combate, deu-lhe uma nostálgica safadeza, uma melancolia à toa. Vagamente ainda tentou se aprumar e se refazer: “afinal sou brasileiro, que diabo!” Mas não conseguiu. Aquele homem estava saciado, queria refúgio e paz.

Mas para encontrar essa paz, teria que esquecer os outros.

Para encontrar esse refúgio, teria que ser ele mesmo: aquele ele mesmo que nada tem a ver com ninguém. Mas tenho direito a isso!, reivindicou cansado, que diabo! que tenho a ver com os outros! Há um lugar onde, antes da ordem e antes do nome, eu sou! e quem sabe se esse é o verdadeiro lugar-comum que saí para encontrar? esse lugar que é nossa terra comum e solitária, e aí é apenas como cegos que nos apalpamos – mas não é só isso o que queremos? Eu te aceito, lugar de horror onde os gatos miam contentes, onde os anjos têm espaço para na noite bater asas de beleza, onde entranhas de mulher são o futuro filho e onde Deus impera na grave desordem da qual somos os felizes filhos.

Por que então lutar? Havia dentro de uma pessoa um lugar que era pura luz, mas não reverberava nos olhos nem os empanava; era um lugar onde, fora de brincadeira, se é; onde, sem a menor pretensão, se é; onde, modéstia à parte, se é; e também não vamos fazer, do fato de ser, cavalo de batalha! não vamos complicar a vida: pois a este tranquilo gozo temos direito! E nem é coisa sobre a qual se possa sequer discutir pois, além do mais, falta-nos a capacidade do argumento – e, para falar a verdade, muito antes de sabermos, já os cães se amavam; afinal, por direito de nascença, temos direito de ser o que somos – então vamos aproveitar, não vamos exagerar o fato dos outros serem importantes! pois existe em mim um ponto tão sagrado como a existência dos outros, os outros que se arranjem! um homem tem por nascença o direito de dormir tranquilo – porque as coisas também não são assim tão perigosas e o mundo não acaba amanhã, o medo confundiu um pouco a realidade com o desejo, mas o cão em nós conhece o caminho, que diabo! que culpa tenho eu da cara silenciosa dos homens, é preciso também confiar um pouco, pois nós, graças a Deus, temos fortes instintos e bons dentes, sem falar na intuição, e afinal temos por nascença essa capacidade de nos sentarmos de noite calados à porta de casa. Do que nascem algumas ideias...

Sim, pois assim lhe acontecera. Algumas ideias, e o espanto. O espanto, a cólera, o amor, e então a porta da casa se torna pequena, e não bastam esses sentimentos e esses direitos, falta nascer alguma coisa a mais... Que é que falta? Quando a casa própria se torna pequena, o homem parte de madrugada para trazer de volta alguma coisa.

Martim se refez rápido. A moleza passara. Aquela era a sua chance! Ele não poderia perdê-la por mero cansaço, ele que passara a vida toda sem saber que fazer do fato de ser pequeno, e que agora enfim achara o que fazer de si, pequeno como era – agregar-se aos pequenos. Ele se refez rápido – agora que tinha chegado finalmente a sua vez de uma apoteosezinha!

– Bom, vamos, disse o investigador dobrando o mapa.

– Espero, minha senhora, disse o prefeito, que ele não lhe tenha causado prejuízos. A senhora foi muita corajosa, poucas mulheres aguentariam sem medo saber que tinham um criminoso em casa. Perdão, poucas senhoras, quero dizer. Nós, da Prefeitura, esperamos que ele não lhe tenha causado prejuízos.

– Não, não, disse Vitória rapidamente, enrubescendo confusa.

Prejuízos? não, não, tivera dele o que quisera, não tivera?

– Vamos então, disse o investigador olhando Martim com uma repugnância um pouco fingida pois na realidade ele estava habituado a presos. Você não me parece dos que fogem, mas é melhor eu lhe avisar que qualquer movimento seu, é bala.

Grande e desarmado, Martim apressou-se:

– Não, vou me comportar muito direito! disse com prazer e atenção, procurando com gosto repetir alguma situação anterior de modo a que esta atual se tornasse compreensível. E não se esqueçam de que não reagi, viu? não se esqueçam de dizer isso ao juiz: que não reagi! Não vê que eu até podia ter fugido? disse sabido.

– Experimente para ver.

– Oh, não estou querendo dizer que posso fugir agora! corrigiu Martim com respeito. Quero dizer que poderia ter fugido antes! porque antes dos senhores terem vindo, não se esqueçam, eu tive meses para fugir!

O que acabara de lhe passar rapidamente pela cabeça fora o seguinte: seria a seu favor se ele mentisse dizendo que não fugira porque pretendera se entregar... Aliás – pensando bem, e nos novos termos – como entender que não tivesse fugido, senão porque pretendia se entregar? Que não tivesse fugido por outros motivos, era uma verdade que não existia mais. Por um instante Martim se lembrou da folha de papel onde escrevera seus propósitos, e lembrou-se de como não fugira porque quisera ter tempo de cumpri-los – mas isso agora se tornara tão incompreensível e de tal modo não cabia no sistema dos quatro homens, que só tinha um valor real e final: o de havê-lo impedido de fugir. O que seria chamado de falta de resistência. O que seria uma atenuante. Como tudo terminava por ser perfeito! pestanejou ele.

– Podia ter fugido coisa nenhuma, respondeu o investigador. Desde que esta senhora falou de suas suspeitas ao professor, as investigações começaram e você foi vigiado. Se não atacamos antes é porque nosso método é trabalhar com a certeza, acrescentou digno.

Martim abanou a cabeça com surpresa e curiosidade: tinha esquecido completamente de como, de um modo geral, as pessoas são estúpidas.

– Mas eu não podia adivinhar que estava sendo vigiado, podia? argumentou com paciência. Eu não sabia que estava sendo vigiado, e não tentei fugir, tentei?

– Não, lá isso é verdade, concordou o investigador relutante, olhando-o um pouco fascinado: havia ali um equívoco mas o investigador não saberia dizer qual.

– Ele na certa sabia que era impossível fugir, aventurou o de fumo na lapela que era uma das pessoas mais espertas que Martim criara. Ele sabia que era impossível fugir, disse procurando esclarecer a confusão em que o preso os havia lançado – e sabendo que estava cercado, resolveu não fugir para dar um ar de quem se arrepende e se entrega! sugeriu com sagacidade.

Martim olhou-o surpreendido. Por tudo ele teria que passar! Inclusive pela inocência. Acusado injustamente, pela primeira vez Martim experimentou a inocência. Seus olhos piscaram úmidos, agradecidos. Outro símbolo se realizara.

E Martim compreendeu agora por que seu pai, já pelo fim da vida, dizia teimoso, inexplicável: “sempre consegui o que quis”. Sim, de algum modo sempre se conseguia. E eu, que foi que consegui? Consegui a experiência, que é essa coisa para a qual a gente nasce; e a profunda liberdade está na experiência. Mas experimentar o quê? experimentar essa coisa que nós somos e que vós sois? É verdade que a maior parte do modo de experimentar vem com dor, mas também é verdade que esse é o modo inescapável de se atingir o único ponto máximo, pois tudo tem um único ponto máximo, e cada coisa tem uma vez, e depois nos preparamos para a outra vez que será a primeira vez – e se tudo isso é confuso, nisso tudo somos inteiramente amparados pelo que somos, nós que somos o desejo.

“Mas afinal que é que tive de tudo isso?” Muito. E muitas vezes nossa liberdade é tão intensa que desviamos o rosto. Sim, mas em tudo isso que tive, que fazer da maldade? Oh, mas é como se a maldade fosse a mesma coisa que a bondade, apenas com resultados práticos diversos: mas vem do mesmo desejo cego, como se a maldade fosse a falta de organização da bondade; muitas vezes a bondade muito intensa se transborda em maldade. Sendo que a maldade, naturalmente, é mais rápida como meio de comunicação. Mas de agora em diante organizarei minha maldade em bondade, agora que não tenho mais a mesma voracidade de ser bom. Agora que estou pronto para a minha própria alma, agora que eu amo os outros. “Será que consegui mesmo alguma coisa?” Mas consegui dar existência ao mundo! O que significa que eu agora entraria numa guerra de vingança ou de bondade ou de erro ou de glória, e que estou pronto para errar ou acertar, agora que enfim sou comum.

Com algum espanto, Martim compreendeu que não havia procurado a liberdade. Procurara se libertar, sim, mas apenas para ir sem empecilhos ao encontro do fatal. Quisera estar desimpedido – e na verdade se desimpedira com um crime – não para inventar um destino! mas para copiar alguma coisa importante, que era fatal no sentido em que era alguma coisa que já existia. E de cuja existência aquele homem sempre soubera, como quem tem a palavra na ponta da língua e não consegue se lembrar. Ele quisera estar livre para ir ao encontro do que existia. E que, nem por existir, era mais alcançável – era tão inatingível como inventar. Por mais liberdade que tivesse, ele só poderia criar o que já existia. A grande prisão. A grande prisão! Mas tinha a beleza da dificuldade. Afinal consegui o que quis. Criei o que já existe. E acrescentara ao que existia, algo mais: a imaterial adição de si mesmo.

– Vamos, disse Martim aproximando-se dos quatro homens e da segurança que eles lhe ofereciam. Vamos, disse com uma dignidade de bombeiro. Adeus, D. Vitória.

Lembrando-se com súbito prazer de uma frase muito antiga e humilde, palavras evangélicas, acrescentou então quase maravilhado, devagar, pouco a pouco:

– “Desculpe qualquer coisa que eu tenha feito sem querer.”

O que imediatamente perturbou Martim é que ele sentiu que não repetira a frase com exatidão. Não, não era assim a frase de que vagamente se lembrava! – e ele fazia questão de reproduzi-la sem o mínimo erro como se uma simples modificação de sílaba já pudesse alterar o seu velho sentido, e tirar a perfeição da fórmula perfeita de despedida – qualquer transformação no rito torna um homem individual, o que deixa em perigo a construção toda e o trabalho de milhões; qualquer erro na frase torná-la-ia pessoal. E, francamente, não havia necessidade de ser pessoal: se não fosse essa teimosia, a pessoa descobriria que já existem fórmulas perfeitas para tudo o que se queira dizer: tudo o que se quisesse que um dia viesse a existir, na verdade já existia, a própria palavra era anterior ao homem – e aqueles quatro representantes sabiam disso: sabiam que toda a questão está em saber profundamente como imitar, pois quando a imitação é original ela é a nossa experiência. Martim passou a entender por que as pessoas imitavam.

E de repente, sem mais nem menos, Martim se lembrou de como era a frase!

– “Desculpe qualquer palavra mal dita!”, corrigiu então com vaidade pois essa era a frase ritual!

– Ora, disse Vitória vermelha, desviando os olhos.

– Nós todos, disse Martim de repente ilógico, nós todos fomos muito felizes!

– Ora, repetiu Vitória.

Martim estendeu uma mão impulsiva. Mas como a mulher não esperara o gesto, atrasou-se espantada em estender a sua. Nessa fração de segundo, o homem recolheu sem ofensa a própria mão – e Vitória, que já agora adiantara a sua, ficou com o braço inutilmente e dolorosamente estendido, como se tivesse sido iniciativa sua a de procurar – num gesto que se tornou de repente de apelo – a mão do homem. Martim, percebendo a tempo o braço magro estendido, precipitou-se emocionado com as duas mãos estendidas, e apertou calorosamente os dedos gelados da mulher, que não pôde conter um movimento de recuo e medo.

– Magoei-a?! gritou ele.

– Não, não! protestou ela aterrorizada.

Então ficaram em silêncio. A mulher não disse mais nada. Algo tinha definitivamente terminado. Martim olhou aquela cara vazia e trêmula de mulher, aquela coisa informe e humana com dois olhos.

E então a misericórdia pela qual ele esperara a vida inteira quebrou seu peito em peso e em impotência, o coração de Jesus exposto, a misericórdia assaltou-o como uma dor. Os olhos do homem se tornaram vidrados, os traços se congestionaram numa beleza de que só Deus não tem nojo, ele parecia prestes a ter um ataque de paralisia. Balbuciou:

– A senhora desculpe eu não ter... – e o pior do que ele disse felizmente não se conseguiu mais ouvir como se a paralisia já tivesse avançado até aquela boca entortada pela piedade.

Vitória ergueu a cabeça. Seu rosto insultado tornou-se branco, trágico e duro. Mas seu olhar não estremeceu e a cara esbofeteada manteve-se altiva e vazia. Martim teve consciência de que sua própria bondade era um golpe cruel – teria ele o direito de ser bom?

– Desculpe eu não ter..., murmurou ele se escusando como um impotente.

Mas ela não perdoaria jamais. Porque ele pedira perdão, ela não o perdoaria jamais. Se até agora não houvera questão de acusá-lo, nesse momento em que ele pedia perdão ele abria um ferimento irreparável. E isso, ele viu: que ela não o perdoaria. Isso ele viu, embora não fosse coisa que ela tivesse pensado nem dito. Mas ele sabia: ela não perdoaria jamais. Isso não foi coisa que se dissesse, mas era coisa que estava acontecendo, e não seria a ausência de palavras que faria deixar de existir o que estava existindo, e a planta sente quando o vento é escuro porque ela estremece, e o cavalo no meio do caminho parece ter tido um pensamento, e quando os ramos da árvore se balançam no entanto não houve uma só palavra, e um dia se há de descobrir o que nós somos: ele sabia que ela não perdoaria jamais. Então Martim se ajoelhou diante dela e disse:

– Perdoe.

Do alto da cabeça levantada, ela o olhou de cima para baixo, inapelável, como uma rainha terrível, as severas asas abertas.

“Que diabo estou fazendo?”, perguntou-se intrigado o homem de joelhos, e quase a ouviu anos depois dizendo a alguém: ele chegou a se ajoelhar.

Mas a mulher de repente segurou num movimento incoercível o ventre com as mãos, lá onde dói uma mulher, sua boca estremeceu atingida, o futuro era um parto difícil: num movimento de animal ela apertou o ventre, onde por destino uma mulher dói, e a alegria era tal miséria, sua boca estremeceu pobre, atingida.

– Que é que o senhor está fazendo! gritou-lhe.

Mas com o olhar implorante ele esperava, ele insistia implorante, ele agora queria mais que o gesto da mulher, esse gesto com o qual ela acabara de se conceder a si mesma enfim a misericórdia – ele queria também a sua misericórdia para com ele. E ela, involuntariamente, contra a sua própria força, fugindo torturada como podia – não pôde enfim deixar de obedecer, abaixou os olhos secos, e, fascinada, arrastada, com um gosto de sangue enchendo-lhe toda a boca, olhou-o com dura bondade – torturada obedecendo, glorificada obedecendo, em dores obedecendo. Oh não era coisa de que se pudesse escapar – assim já tinham sido esculpidas imagens de mulheres e de homens ajoelhados, havia um longo passado de perdão e amor e sacrifício, não era coisa de que se pudesse escapar. E fosse ela livre, estenderia obscuramente a mão sobre a cabeça do homem ajoelhado, há gestos que se podem fazer, ainda há gestos que se podem fazer:

– Que é que o senhor está fazendo! disse-lhe austera como se o erguesse.

O homem se levantou, limpou as calças. A mulher ergueu mais a cabeça. E foi só então que estranharam.

Mas então já era felizmente tarde demais: alguma coisa essencial se tinha feito. O que realmente acontecera – não se sabe, sobretudo nenhum dos dois sabia, a gente substitui muito. Acontecera algo essencial que eles não compreendiam e estranhavam, e que possivelmente não é para ser compreendido, quem sabe se o essencial não foi destinado a ser compreendido, se somos cegos por que insistimos em ver com os olhos, por que não tentamos usar estas nossas mãos entortadas por dedos? por que tentamos ouvir com os ouvidos o que não é som? E por que tentamos, de novo e de novo, a porta da compreensão? o essencial é destinado apenas a se cumprir, glória a Deus, glória a Deus, amém. E um dos indiretos modos de entender é achar bonito. Do lugar onde estou de pé, a vida é muito bonita. Um homem, impotente como uma pessoa, se ajoelhara. Uma mulher, ofendida no seu destino, erguera a cabeça sacrificada pelo perdão. E, por Deus, algo acontecera. Algo acontecera com cuidado, para não ferir a nossa modéstia.

Os dois evitaram se olhar, emocionados com eles próprios, como se enfim fizessem parte daquela coisa maior que às vezes chega a conseguir se exprimir na tragédia. Como se houvesse atos que realizam tudo o que não se pode, e o ato transpõe o poder; e quando este se cumpre, realiza-se alguma coisa que o pensamento não faria, nós que somos de uma perfeição atroz – e a dor é que não estamos à altura de nossa perfeição; e quanto à nossa beleza, nós mal a suportamos – Martim, por exemplo, olhou neste momento para os sapatos, oh por que disfarçamos tanto? encabulado na hora de sua morte, ele seria capaz de disfarçar assobiando. Como se tivessem acabado de realizar de novo o milagre do perdão, constrangidos com aquela cena miserável, evitaram se olhar, aborrecidos, há muita coisa inestética a perdoar. Mas, mesmo coberta de ridículo e de trapos, a mímica da ressurreição se tinha feito. Essas coisas que parecem não acontecer, mas acontecem.

Pois senão como explicar – sem a ressurreição e sua glória – que aquela mulher ali mesmo tivesse nascido para a vida diária; que ela, ali em pé, enfim, enfim nascida para o mistério da vida diária, fosse a mesma que amanhã daria ordens a Francisco; como explicar que aquela mulher ferida, e talvez só porque fora mortalmente ferida, fosse a mesma que amanhã se voltaria para o plantio, de novo inteira como uma mulher que teve um filho e cujo corpo de novo se fechou? Senão como explicar que aquele homem, esfrangalhado, desamparado, continuasse no entanto a ser aquela coisa a se olhar e a ser reconhecida até por olhos de criança: um homem, um homem com um futuro. A ressurreição, como fora prometida, se fizera. Desimportante como mais um milagre. Cuidadosamente discreta para não nos escandalizar. Exatamente como nós nos prometemos; e podeis deixar a nós a tarefa, e Deus é nossa tarefa, nós não somos a tarefa de Deus. Podeis deixar a nós a vida, oh nós bem sabemos o que fazemos! e com a mesma impassibilidade com que os mortos deitados sabem tão bem o que fazem.

O homem limpou de novo as calças, passou as costas da mão pelo nariz. Não olhou para a mulher porque estava envergonhado com o próprio exibicionismo, essa coisa de se ajoelhar; no entanto é também verdade que uma pessoa tem que se exprimir. Seus olhos pestanejaram várias vezes: também porque ele se dava conta de que na cena toda havia alguma coisa a lhe escapar. Ele se sentiu meio confuso, não estava entendendo muito bem e nem tinha tempo ou propriamente vontade de entender mais. Mas pelo menos fungou de novo, e de novo passou a mão pelo nariz molhado. Mas sentia que, além de ter “descortinado”, acabara de cumprir outro lugar-comum atrás do qual andara em busca desde a infância: essa história de ajoelhar-se sempre o perseguira.

Afinal pode-se dizer que ele estava realizando tudo o que planejara, mesmo que não tivesse conseguido anotar no papel o que queria. É verdade também que muitas vezes aquele homem forçara a mão. Mas fora necessário. Não pudera ser de outro modo. Então, incerto, ansioso, desamparado, ele pensou: consegui o que queria. Não era muito. Mas afinal de contas é tudo, não é? Diga que é. Diga. Faça esse gesto, aquele que custa mais, o mais difícil, e diga: sim.

Então, com esforço sobre-humano, ele disse sim. E então – abatido, cansado – cumpriu-se para ele a outra promessa. Porque “sim” é, afinal, o conteúdo do “não”. Ele acabara de tocar no objetivo do não. Ele acabara, enfim, de tocar no conteúdo de seu crime.

A náusea o tomou, aquele gosto suave como se tivesse atingido o outro lado da morte, aquele ponto mínimo que é o ponto vivo do viver, a veia no pulso. Em agonia, Martim desviou de si mesmo o rosto e procurou a cara compensadora dos outros.

Os outros esperavam curiosos depois de assistirem ao melodrama da genuflexão. Martim pestanejou várias vezes, indeciso, cansado: aquelas caras. Aquelas caras. E olhando os quatro homens e a mulher, uma esperança tão absurda o envolveu que só podia ser uma fé. E que nada tinha a ver com o que lhe sucedia, nem com os homens que esperavam, nem com ele próprio. De novo tivera, por um nauseante relance, o seguinte: a certeza. Que era uma esperança impessoal a um ponto de lágrimas. Como se esperança não significasse esperar, mas atingir. Com a esperança absurda, Martim atingia assim como um homem com uma criança pela mão.

Estonteado, sem saber a quem se dirigir, sob o golpe do cansaço ele os olhou um a um. E cada vez mais se aproximava de uma verdade que de tal forma se impôs que, mesmo ele não a entendendo, ela continuou a se impor. Não a entendendo? Mas sim, de algum modo ele entendeu! Ele compreendeu como se compreende um número: é impossível pensar num número em termos de palavras, é apenas possível pensar num número com este próprio número. E foi desse modo inescapável que ele compreendeu – e se tentasse saber mais, então – então a verdade se tornaria impossível.

“Mas em quê? em que tinha ele esperança?”, indagou-se, de repente estranhando de novo. Uma certa pena do mundo fez com que ele evitasse levar seu pensamento até o fim.

Então, sem responder a essa pergunta, já que em se fazê-la far-se-ia o absurdo, sem sequer tentar responder, ele pensou: que era na sua própria extrema carência que ele tinha esperança. Como se um homem fosse tão pobre que – que “assim não pode ser”. Havia uma lógica secreta nesse pensamento absurdo, só que ele não conseguia tatear e localizar essa lógica impalpável. Se Martim soube que acertara, é porque doeu. Mas não poderia jamais explicar, e há alguma coisa que nunca saberemos. Mas nossa carência nos sustenta, disse-se ele, já que enfim perdera os limites da compreensão e admitia o que não se sabe.

Foi então que o homem de repente se animou de fato, e fungou. Não há dúvida, também concordo: a coisa é ilógica, e ter esperança é ilógico, pensou animadíssimo, pagando a bebida de todos. É tão ilógico, pensou ele sabido, como dois-e-dois-são-quatro, que até o dia de hoje ninguém jamais provou. Mas se na base de dois-e-dois-são-quatro você pode construir a própria realidade, então, por Deus, por que ter escrúpulos? Ora, se a coisa é assim mesmo, vamos aproveitar, pessoal! que a vida é curta! – Martim olhou com alguma imoralidade para os homens, o cinismo estava na sua cara. Mas ele não estava cínico, ele estava – ele estava tentando diverti-los e alegrá-los, e a impossibilidade faz o palhaço – ele estava dando por amor, por puro amor – Amor! – uma cambalhota para diverti-los, oh divertir os outros é um dos modos mais emocionantes de existir, é verdade que às vezes os artistas de rádio se exacerbam e se suicidam, mas é que às vezes se entra em contato com a dificuldade do amor.

Seu cinismo, ou o que quer que fosse, não se sustentou muito tempo.

Oh Deus, como aquele homem estava cansado e incerto, aquele homem não sabia muito bem o que era esperança. Bem que ele tentou raciocinar a esperança, oh bem que ele tentou. Mas, em vez de pensar no que se propôs pensar, pensou como uma mulher ocupada: “explicar nunca levou ninguém a nenhum lugar, e entender é uma futilidade”, disse ele como uma mulher ocupada em dar de mamar ao filho.

Mas não! mas não! ele tinha que pensar, ele simplesmente não podia embarcar assim, sem mais nem menos! Então, perdendo o pé, ele se argumentou e se justificou: “Não ter esperança era a coisa mais estúpida que podia acontecer a um homem.” Seria o fracasso da vida num homem. Assim como não amar era pecado de frivolidade, não ter esperança era uma superficialidade. Não amar, era a natureza errando. E quanto à perversão que havia em não ter esperança? bem, isso ele entendeu com o corpo. Além do mais – em nome dos outros! – é pecado não ter esperança. Não se tinha direito de não ter. Não ter esperança é um luxo. Oh, Martim sabia que sua esperança escandalizaria os otimistas. Ele sabia que os otimistas o fuzilariam se o ouvissem. Porque a esperança é assustadora. Há que ser homem para ter a coragem de ser fulminado pela esperança.

E então Martim se assustou de fato.

– Você está consciente, meu filho, do que está fazendo?

– Estou sim, meu pai.

– Você está consciente de que, com a esperança, você nunca mais terá repouso, meu filho?

– Estou sim, meu pai.

– Você está consciente de que, com a esperança, você perderá todas as outras armas, meu filho?

– Estou sim, meu pai.

– E que sem o cinismo você estará nu?

– Estou sim, meu pai.

– Você sabe que esperança é também aceitar não acreditar, meu filho?

– Sei sim, meu pai.

– Você está consciente de que acreditar é tão pesado a carregar como uma maldição de mãe?

– Estou sim, meu pai.

– Você sabe que o nosso semelhante é uma porcaria?

– Sei sim, meu pai.

– Você sabe que você também é uma porcaria?

– Sei sim, meu pai.

– Mas você sabe que não me refiro à baixeza que tanto nos atrai e que admiramos e desejamos, mas sim ao fato de que o nosso semelhante, além do mais, é muito chato?

– Sei sim, meu pai.

– Você sabe que esperança consiste às vezes apenas numa pergunta sem resposta?

– Sei sim, meu pai.

– Você sabe que no fundo tudo isso não passa de amor? do grande amor?

– Sei sim, meu pai.

– Mas você sabe que a pessoa pode encalhar numa palavra e perder anos de vida? E que esperança pode se tornar palavra, dogma e encalhe e sem-vergonhice? Você está pronto para saber que olhadas de perto as coisas não têm forma, e que olhadas de longe as coisas não são vistas? e que para cada coisa só há um instante? e que não é fácil viver apenas da lembrança de um instante?

– Esse instante...

– Cale a boca. Você sabe qual é o músculo da vida? se você disser que sabe, você está ruim; se você disser que não sabe, você está ruim. (O pai estava começando a descarrilhar.)

– Não sei, respondeu sem convicção, mas porque sabia que esta é a resposta que se deve dar.

– Você tem “descortinado” muito ultimamente, meu filho?

– Tenho, pai, disse contrafeito com a intrusão de intimidade, toda vez que o pai quisera “compreendê-lo”, deixara-o constrangido.

– Como vão suas relações sexuais, meu filho?

– Muito bem, respondeu com vontade de mandar o pai para o inferno de onde o tirara.

– Você sabe que o amor é cego, que quem ama o feio bonito lhe parece, e que seria do amarelo se não fosse o mau gosto? e que em casa de ferreiro espeto de pau, e quem não tem cão caça com gato, e boca-não-erra? disse o pai descarrilhando um pouco mais, não faltava muito para começar a contar o que fazia com mulheres antes naturalmente de ser casado com tua mãe. Você sabe que esperança é duro combate que aos fracos abate, e aos fortes etc.?

– Sei sim, meu pai.

– Meu filho. Você está consciente de que de agora em diante, para onde você vá, será perseguido pela esperança?

– Estou sim, meu pai.

– Você está disposto a aceitar o duro peso da alegria?

– Estou sim, meu pai.

– Mas, meu filho! você sabe que é quase impossível?

– Sei sim, meu pai.

– Você ao menos sabe que esperança é o grande absurdo, meu filho?

– Sei sim, meu pai.

– Você sabe que há que ser adulto para ter esperança!!!

– Sei, sei, sei!

– Então vai, meu filho. Ordeno-te que sofras a esperança.

Mas já na primeira nostalgia, a última como antes de nunca mais, Martim gritou pelo amparo:

– Que luz é essa, papai? gritou já solitário na esperança, andando de quatro para fazer seu pai rir, fazendo uma perguntinha bem antiga e tola contanto que adiasse o momento de assumir o mundo. Que luz é essa, papaizinho! perguntou gaiato, com o coração batendo de solidão.

O pai hesitou severo e triste no seu túmulo.

– É a do fim do dia, disse apenas por piedade.

E assim era.

Era quase noite, e a beleza pesava no peito. Martim disfarçou-a como pôde, assobiou vagamente sem som, olhando para o teto.

De onde, devagar e com cautela, desceu os olhos para os outros – e olhou o próximo, um a um. Quem sois? Eram caras com narizes. Deveria ele investir toda a sua pequena fortuna num gesto de confiança? No entanto era uma vida que não se repete, a dele, aquela que ele lhes entregaria. Quem sois? Era difícil lhes dar. Amar era um sacrifício. E mesmo, e mesmo havia a descontinuidade: mal começara, e já havia a descontinuidade. Seria preciso aceitar também isto? a descontinuidade com que ele os olhou e – quem eram esses homens? quem sois? que coisa dúbia sois, como se eu absurdamente já tivesse visto tempos melhores e conhecido outra raça de gente e não pudesse vos aceitar, mas apenas vos amar? Em verdade, sois? e até que ponto? E – e poderei amar essa coisa que sois?

Ele os olhou, cansado, incrédulo. Ele os desconhecia. Uma pessoa era esporádica: ele já os desconhecia. Humilde, ainda quis se forçar a aceitar também isto: desconhecê-los.

Mas não suportou, ele não suportou. Como posso continuar a mentir! Eu não creio! eu não creio! E olhando os quatro homens e a mulher, ele só quis plantas, as plantas, o silêncio das plantas. Mas com a atenção ligeiramente desperta, ele repetiu devagar: não creio. Vagarosamente deslumbrado: não creio... Deslumbrado, sim. Porque, aleluia, aleluia, estou de novo com fome. Com tanta fome que preciso ser mais de um, preciso ser dois, dois? não! três, cinco, trinta, milhões; um é difícil de carregar, preciso de milhões de homens e mulheres, e da tragédia da aleluia. “Não creio”: a grande carência renascera. Sua extrema penúria levou-o a uma vertigem de êxtase. Não creio, disse ele com fome, procurando na cara dos homens aquilo que um homem procurara. Estou com fome, repetiu desamparado. Deveria agradecer a Deus a sua fome? pois a necessidade o sustentava.

Estonteado, sem saber a quem se dirigir, examinou-os um a um. E ele – ele simplesmente não acreditava. Eppur, si muove, disse com uma teimosia de burro.

– Vamos, disse então aproximando-se incerto dos quatro homens pequenos e confusos. Vamos, disse. Porque eles deviam saber o que faziam. Eles certamente sabiam o que faziam. Em nome de Deus, eu vos ordeno que estejais certos. Porque toda uma carga preciosa e podre estava entregue nas mãos deles, uma carga a jogar no mar, e muito pesada também, e a coisa não era simples: porque essa carga de culpa devia ser jogada com misericórdia também. Porque afinal não somos tão culpados, somos mais estúpidos que culpados. Com misericórdia também, pois. Em nome de Deus, espero que vocês saibam o que estão fazendo. Porque eu, meu filho, eu só tenho fome. E esse modo instável de pegar no escuro uma maçã – sem que ela caia.

Washington, maio de 1956