A Maçã no Escuro

Clarice Lispector · Capítulo 24 de 30

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A Maçã no Escuro

Capítulo 4

4

Quando a segunda-feira amanheceu, o sol estava tão forte que a água nas poças arfava quente e as abelhas já rondavam as flores doídas, e era como se tivesse havido uma festa cujos enfeites não tinham sido retirados. Em breve um novo calor ali se instalara, feito de folhas de lã verde e de umidade de corpo, um calor despetalado, e já às nove horas a alma apodrecia entre mosquitos. Algumas frutas verdentas se haviam esborrachado no chão para a curiosidade das formigas; na superfície das poças d’água colavam-se empoeirados os fios caídos de teias de aranha. Se bem que certas aranhas diligentes já tivessem feito novas ligações faiscantes no ar. Era com uma atenção de inconsciente esperança que o olhar acompanhava os fios de seda caminharem rápidos de uma árvore para a outra, refazendo o espaço rebentado pelo dilúvio. Às nove horas só os fios de aranha eram delicados na luz. Tudo o mais tinha a brutalidade de uma satisfação, um ensopado de feltro que custa a secar, e o peso do próprio peso. Em toda a parte chovera.

Com força nova a mulata cantava na cozinha quente. A chuva da noite parecia ter sido uma imaginação de todos, o que se passa de noite não se usa de dia. Martim estava com os olhos avermelhados pela insônia. O cansaço revelara-se pior do que ele calculara e sua boca tinha um gosto de sono não dormido. “Estive ontem de noite no mato”, pensou ele reduzindo obstinadamente o que lhe acontecera a isto: estivera no bosque e na sua volta Ermelinda entrara no depósito. “Uma sem-vergonha”, pensou ele fatigado e sem malícia, olhando a moça de longe e vendo-a de cabelos de novo sensatamente arrumados em bandós como se nada tivesse acontecido. A noite do domingo pareceu ao homem um absurdo, e ele na verdade não se lembrava bem dos detalhes; ter estado no bosque “afinal não queria dizer nada” – e foi assim que ele cuspiu no prato em que comera. “Mais tarde, mais tarde pensarei”, disse-se ele, “tem tempo ainda”. Seria muito fácil pegar o caminhão ao anoitecer, e quando ouvissem o ruído do motor ele estaria longe. Tinha relativamente tempo: pois para o professor ele continuava sendo uma charada. “Mais tarde”, pensou ele.

A mulata cantava e Ermelinda tomando café lhe disse:

– Menina, esta noite tive um medo de morrer que você nem calcula! parecia que o mundo ia desabar!

– Sai azar, D. Ermelinda! disse a outra feliz.

Ambas riram. Mas calaram-se cúmplices quando ouviram os passos de Vitória atravessando a sala. De novo com as velhas calças pretas e de blusa aberta no peito, com os cabelos enrolados, Vitória vinha do campo. Não sabia em que hora tomara café, tão ativa amanhecera como se, com a chuva, tivesse perdido um tempo que era preciso recuperar.

– É hoje, murmurou a mulata mostrando Vitória com a cabeça, é hoje que vamos ter aborrecimento – e Ermelinda concordou em silêncio.

Mas passando pela cozinha Vitória não as olhou sequer. Estava preocupada com outros problemas – resolvera, por exemplo, que se deveria enfim abater a velha macieira que só dava fruta raramente e mesmo assim ácida; e sobretudo ocupava tanta terra boa. Mas agora chegara o momento de decidir, uma vez que um raio ou o vento haviam-lhe quebrado alguns galhos que se penduravam como um trapo pelas juntas.

Martim relutou um pouco: achava uma pena destruir a bela árvore. Vitória insistiu e ficava vermelha insistindo. Ele olhava-a, escutava-a argumentar, e opunha uma resistência muda. A mulher cada vez mais queria que a árvore fosse derrubada, como se a repugnância que o homem demonstrava por esse trabalho a excitasse.

Assim, depois que algumas ordens foram dadas a Francisco e outras providências tomadas, Vitória seguiu Martim e seu machado, e postou-se perto da árvore para assistir – e estava tão resoluta como se a derrubada fosse questão de minutos. Um de seus pés determinadamente se apoiara numa pedra.

Martim começou moroso a dar os primeiros entalhes circulares. Ela, como se estivesse preparada para assistir a uma destruição violenta e rápida, inquietou-se com a lentidão do homem, e mal controlava o rosto espicaçado pelo sol:

– Mais depressa, sussurrou afinal rápido e baixo, não se contendo mais.

Ele não se voltou nem interrompeu o ritmo lento das machadadas.

– Quanto tempo vai demorar até cair? perguntou a mulher inquieta.

– Depende.

– Talvez o senhor queira que eu mande Francisco ajudar? talvez o senhor não possa sozinho? sugeriu já impaciente pela resposta.

– Não precisa, disse ao mesmo tempo que vibrava nova queda total do machado. Vou devagar mas certo.

“Mas eu não quero devagar”, pensou ela batendo com a bota nas raízes que se espalhavam nodosas e ressurgiam em excrescências mesmo longe daquela velha e negra árvore que, potente, mal estremecia aos golpes do machado. Ficaram em silêncio, o sol subia e ganhava em força. Era um silêncio desassossegado, cheio de moscas. As machadadas foram tomando um ritmo regulado – pequenas lascas esvoaçavam úmidas e brancas mostrando quanto a árvore ainda era nova por dentro. A mulher sentou-se numa das saliências da raiz, e o homem sem parar o trabalho olhou-a rapidamente. O silêncio continuou, as moscas brilhavam imundas, azuladas, os cachorros inquietos se cheiravam. Ouviu-se de longe um assobio, ouviu-se de longe uma queda; as moscas brilhavam negras.

O coração da mulher começou a bater muito quando ela afinal perguntou com o rosto calmo, mas tão transtornada que não ouviu a própria voz:

– Por que é que o senhor veio para cá?

Nada ouviu em resposta. Só as machadadas se rebentavam tornando mais fundo o círculo no tronco. E com grande alívio ela chegou a acreditar que não falara e que apenas ouvira o próprio pensamento. Seus ouvidos, que se tinham preparado para uma resposta, perceberam apenas o gorgulho do rio. Mas ele respondeu:

– Eu me separei de minha mulher e vim embora.

Ainda sem notar que somente agora sabia que ele era casado, ela disse:

– Mas por que veio exatamente para cá?

– Tanto podia ser aqui, como podia não ser.

Ela percebeu que ele dissera ser casado:

– A primeira impressão que tive foi a de que o senhor estava fugindo! disse ela então com muita dureza.

– De algum modo, disse ele.

E tendo dito, interrompeu o trabalho sem pressa. Jogou o machado longe. Voltou-se e encarou-a de frente.

A mulher empalideceu um pouco. Um leve tique fez com que sua boca se crispasse ao mesmo tempo que o olho esquerdo, o que lhe deu o ar de falta de culpa dos capturados em flagrante.

– A senhora, constatou Martim sem cólera, quis que eu derrubasse esta árvore somente para me manter num lugar e poder me fazer perguntas.

– Eu? mas não! contestou ela, e a verdade lhe fora tão subitamente revelada que a mulher se sentiu inocente diante dela.

– Já disse: me separei de minha mulher e vim embora.

– Mas parecia fugindo... – não pôde ela se impedir de dizer cheia de curiosidade.

– Dessas coisas uma pessoa também foge, respondeu ele com extrema atenção, sem desviar por um segundo seus olhos frios do rosto da mulher.

Ficaram se olhando, a cara de ambos estava crua ao ar livre, e avermelhada de sol. Não havia uma ruga no rosto da mulher que não estivesse exposta mas como ela não o sabia ergueu de repente a cabeça com muita altivez.

Então, apesar da árvore grossa estar apenas ferida, Martim se voltou para ir embora como se tivesse terminado a tarefa.

– Fique, precipitou-se ela com dureza. Quero falar!

– Já lhe disse, repetiu ele mais áspero. Separei-me de minha mulher e vim embora. Será que o professor precisa saber mais do que isso? acrescentou tranquilo, cruel.

Ela não pareceu ter ouvido mas empalideceu:

– Não é sobre isso que quero falar! cortou rápida, surpreendida consigo própria.

Martim tomou um ar rígido de estrita espera como se pretendesse ir embora mal ela dissesse o que tinha a dizer.

– Quero – quero falar sobre Ermelinda, inventou ela de repente.

Ele ergueu as sobrancelhas em sincera surpresa, e as pálpebras por um instante mais abertas deixaram os olhos azuis rapidamente nus, em desconfiança. A mulher não prosseguiu imediatamente, como se estivesse certa de que o retinha mais com o silêncio do que com improváveis palavras.

– E então? perguntou ele olhando-a de lado em defesa.

– É o seguinte, disse ela pausada como se não tivesse mais pressa já que agora inexplicavelmente era ele quem parecia ter a pressa da curiosidade. É o seguinte, repetiu como se ainda não soubesse bem o que ia dizer.

Premida então pela espera agora autoritária do homem, repetiu:

– É o seguinte: Ermelinda é uma pessoa muito impressionável, sensível mesmo.

Ficaram se olhando.

– Qualquer coisa impressiona Ermelinda, qualquer coisa faz com que ela perca a compostura. Ela – disse Vitória lambendo os lábios – ela perde o equilíbrio à toa. Ela é muito impressionável, muito sensível mesmo. Quando ela veio morar comigo, logo depois que enviuvou, eu sabia muito bem que espécie de pessoa eu ia ter em casa, pois, não sei se o senhor sabe, ela passou a infância presa ao leito. Mas ela teria que morar em alguma parte e não tinha dinheiro, então veio para cá. Como Ermelinda é muito sensível, eu tenho um pouco de responsabilidade por ela, compreende? acompanho sempre de perto a vida dela, entende? Oh, por favor, ela não é desequilibrada, oh nem um pouco: nunca vi pessoa que se perca menos. Mas o que aconteceu é que ela, sendo muito bondosa e caritativa, não tomou as leis do espiritismo como símbolo apenas. Não entendeu bem o que é espiritismo e misturou um pouco com o catolicismo, compreende, e então ficou um pouco diferente de nós. Entenda que não quero dizer que ela não tenha a cabeça no lugar. Pelo contrário. Mas ela se deu os privilégios da insensatez sem ser insensata, disse Vitória com súbita avidez de admiração, e seu rosto se contraiu de inveja e amargura.

O homem intrigado fez sim com a cabeça. E ficou esperando pela continuação em vaga suspeita, embora sua cara em pressentimento já estivesse um pouco maliciosa.

– Então, disse Vitória depois de uma pausa e de novo passando a língua pelos lábios – então, como sou responsável por Ermelinda...

Fez outra pausa, e dessa vez olhou-o indecisa sem saber mais o que dizer. Mas ele, inapelável, esperava.

– O que quero dizer, recomeçou a mulher de repente em tom forte como se fosse falar de um assunto inteiramente diferente, o que quero dizer é que talvez fosse bom o senhor tomar certo cuidado. Quero dizer: sei perfeitamente que é muito o que vou lhe pedir, mas queria que o senhor evitasse que ela um dia viesse, digamos, a se interessar pelo senhor... Oh, nenhum sentimento muito forte, disse sutil como se entendesse a objeção que ocorrera a ele, nenhum sentimento muito forte! repetiu com súbita segurança por ter tido a oportunidade de interrompê-lo com sua penetração de espírito. Ermelinda é incapaz disso! Mas talvez o senhor pudesse... Bem, é que com ela não posso contar. Ela perde a compostura por qualquer coisa, quando se anima um pouco fica logo vermelha, dá gritinhos... veja, por exemplo, ela come pouco, mas se a gente encoraja ela com um pouco de amizade, ela parece pensar que corresponderá à amizade comendo muito, comendo com uma avidez de criada...

Parou de repente. É que, se antes o homem aguardara com olhos surpreendidos, agora a capacidade de rir estava clara no seu rosto.

– Sei, continuou estoica enxugando penosamente o suor da testa, sei que isso não depende do senhor, oh compreendo muito bem, o senhor não precisa argumentar comigo: sei muito bem que uma pessoa pode, digamos, se interessar por outra sem que essa outra, digamos, ao menos pressinta...

A horrível malícia no homem seria apenas aquela peculiar a seus traços, ou já era também de expressão? O mal-estar constrangeu-a, ela afastou a mosca do queixo.

– Mas é que, disse então nobre, não podendo contar com o bom-senso de Ermelinda, que tem, como eu ia há pouco dizendo, a possibilidade de um dia poder vir a se interessar pelo senhor, sou então obrigada a contar com o auxílio do senhor mesmo! concluiu com alívio como se enfim acabasse de expor um raciocínio muito lógico. Um ligeiro triunfo estremeceu na sua voz: jamais pensara conseguir enfim se livrar do pesadelo das frases.

O homem, este parecia contentíssimo. E olhou-a: ela estava tão imaculada e satisfeita!

– A senhora receia que um dia ela vá comigo para a cama? disse ele com enorme prazer, é isso o que a senhora receia? Mas isto jamais aconteceria, minha senhora! E mesmo agora já nem sobra mais tempo: a senhora é a pessoa que sabe disso, não é mesmo? a senhora e o professor! Mas o que sinceramente me espanta é que uma cabeça tão limpa como a sua tenha podido descer a ponto de imaginar tal coisa! por Deus que a senhora me escandaliza!

A mulher emudeceu, a boca entreaberta... O homem olhou-a com uma atenção minuciosa, cheia de delícia.

– O que quero dizer – respondeu ela de repente, passando com dificuldade pela grosseria dele – o que quero dizer é que, digamos, o mundo é demais para Ermelinda porque ela é muito sensível, disse a mulher forçando uma finura de salão e, sem sentir, sua mão subira ao decote fechando-o um pouco. O mundo, concluiu espantada sem prestar a menor atenção ao que dizia, é demais para Ermelinda, ela não pode aguentá-lo, acrescentou tola.

– Pode, disse inesperadamente o homem em tom moroso, sem encará-la mas sem fugir.

O coração da mulher se comprimiu. Não pelo que ele dissera e que ela mal ouvira. Mas talvez porque não tivesse esperado resposta nenhuma. Só agora se dava conta de que ali estavam os dois de pé conversando; só agora via que não estivera falando sozinha. E, por Deus, também não fora ela quem inventara aquela ferida inegável no tronco da árvore, e não inventara enfim aquela sensação de suave ofensa que vinha do homem para ela, nem inventara aquele sol que se manchou todo aos seus olhos: só agora se dera plenamente conta de que não estava sozinha. E sentir que se comunicara encheu-a de trêmula excitação como se depois de ter carregado um peso ela visse com deslumbramento que já o carregara. Avançara mais do que pensara ser capaz, e agora era tarde demais para retroceder. Mesmo que nada mais acontecesse, jamais poderia negar o que já acontecera... Avançara mais do que poderia retroceder, e sua pele se arrepiou como a pele de uma galinha. Tudo ao seu redor pareceu-lhe então contagiado pela mesma possibilidade de vir a se tornar real, uma possibilidade de súbito docemente revelada: a árvore quase intata no entanto pronta a se quebrar, o sol de hoje que não era senão a chuva de ontem, tudo o que era sólido no entanto sempre pronto a se quebrar – e até nos olhos do homem a mulher quase adivinhou o ponto comovido que há nos olhos de uma pessoa, nos olhos mais frios o ponto vulnerável: a possibilidade.

“E se eu realmente falasse?”, ocorreu-lhe. O homem a entenderia? Ou não? E por um instante – diante das variadas coisas desiguais que no entanto recebiam no campo o mesmo sol – por um instante não houve sequer contradição em que simultaneamente ele a entendesse e não a entendesse como se assim apenas pudesse ser. Se ela falasse? Mas como adivinharia naquele corpo teimoso do homem até que ponto ele a entenderia. E mais fundo ainda, mais inexplicável ainda – como saberia ela mesma até que ponto suas próprias palavras seriam as que falam ou as que silenciam.

Apenas iniciada na doçura da comunicação, qualquer obstáculo lhe pareceu intransponível como se a ela tivesse sido entregue o milagre da seiva que alimenta a planta e ela então dissesse: é impossível. Não sabia que certas coisas se faziam sozinhas ou então nunca se fariam. Habituada à própria força de determinação, terminara por pensar que andava porque queria e dormia porque assim resolvera. E agora pensava que antes de falar era essencial saber como é que se fala. Em leve desespero de felicidade olhou o campo e as ervas e as moscas: e tudo se fazia sozinho, tudo tinha a sabedoria do viver. Mas ela – ela não sabia como se fazer. Como sou infeliz, disse-se então tranquila. Mas seria infelicidade aquela iminência para a qual tudo de repente lhe pareceu debruçado, e aquele grande risco que uma pessoa corre? E se isto fosse exatamente a nossa felicidade. “Acho que isso é ser feliz”, pensou com curiosidade. Pois se ambos estavam ali conversando... pois se o rio corria gordo e lento... pois se levantando seus olhos a grossa copa da árvore se iluminou... pois se os besouros estalavam no ar... pois se os instantes jamais se repetem e de se saber disso é que temos esta delicada sede... que felicidade poderia desejar além desta? Queria que lhe assegurassem que aquilo que ela sentia era tão real a ponto de acontecer. Queria – queria que tudo o que ela sabia não estivesse mais oculto.

– O senhor não me entendeu, disse engolindo a saliva na severidade de sua alegria, não quero dizer que Ermelinda não aguente. Ermelinda poderia corresponder, digamos, mesmo ao amor, mas ela não resistiria. Ermelinda tem a doença da alma, como diz... – ia acrescentar “como diz o professor” mas calou-se a tempo.

O homem não respondeu. Vitória sentiu que não somente não o convencera como talvez ele achasse que ela falara demais. E se assim pensou é que, sem hábito de falar, tivera ela própria a penosa impressão de ter tagarelado com volúpia. Logo ela, ser acusada de falar demais! o orgulho picou-a misturado com dor:

– Tudo em Ermelinda é por um fio! gritou-lhe como numa ordem final.

– E na senhora? indagou ele muito calmo.

Antes mesmo de sentir a pergunta com um pequeno choque, pelo que esta implicava em ofensa pessoal, Vitória se descrispou toda: era suave ouvi-lo falar nela. “A senhora, a senhora, a senhora.” A palavra respeitosa e doce quebrava enfim alguma trama no seu peito, ela que sempre tivera medo de não ser respeitada.

– Eu não, respondeu sem vaidade. Eu sou forte.

Um instante mais, e ocorreu-lhe que na verdade acabara de dizer ao homem que ela era forte a ponto de suportar o amor. Teria ela simplesmente se oferecido a ele? Seus olhos piscaram várias vezes como se a esse pensamento eles tivessem ficado cegos de surpresa. Como falava pouco, já não sabia até que ponto as palavras costumavam revelar o pensamento, e seu coração bateu de horror: teria o homem compreendido? E o pior, pensou ela em revolta, é que era mentira: não era amor que ela queria!

No rosto calado de Martim afortunadamente a expressão era vazia. Ela tivera medo de que ele demonstrasse que compreendera. E logo em seguida, por um instante, ela quis que exatamente isto sucedesse: que ele dissesse que compreendera e que tudo desabasse enfim. No instante seguinte ela o mataria se ele ousasse compreender. Não tolerava a ideia de que ele achasse óbvio que ela o amasse, sobretudo porque não era verdade, revoltou-se ela.

– Bem, vou indo, disse Martim.

Saiu e suas botas já começavam a fazer um ruído oco na prancha de madeira.

– Espere, disse ela com voz áspera, não acabei de falar.

Ele voltou obediente, com o mesmo ritmo de passos com que se retirara.

– Quero lhe dizer, disse ela pálida, que não estava lhe fazendo perguntas sobre a sua vida, como o senhor julgou. Sua vida não me interessa. O senhor trabalha, o senhor ganha, e é tudo quanto preciso ou quero saber. Está bem entendido?

Ele riu. Pela primeira vez ele riu:

– Está.

Voltou-se de novo para ir embora.

– Espere, chamou ela. Quando eu acabar de falar é que o senhor irá embora, não estou habituada a que me deem as costas.

De novo então ele parou. E de novo dirigiu-se a ela. Mas dessa vez interrompeu os passos a uma distância maior da mulher como se soubesse que daí a pouco iria embora e daí a pouco de novo ela o chamaria: ficou pois a meio caminho.

Ela se mantinha de pé, dura. Estava mais branca.

– Quero lhe dizer também que o senhor não tenha a pretensão de julgar pelas aparências. O senhor não quer dizer nada sobre a sua vida, mas bem sei que o senhor também não quer que o julguem apenas pelo que parece, pois o senhor é um vaidoso e um disfarçado. Pois então também não julgue, ao ver uma mulher envelhecida cuidando de uma fazenda, que essa mulher é apenas uma mulher envelhecida cuidando de uma fazenda, disse com grande autoridade como se tivesse dito alguma coisa inteligível.

Quando dissera “envelhecida” ele nada retrucara mas ela julgou ter notado certa surpresa nos olhos dele, e seu coração se contraiu de alegria.

– Quero lhe dizer, prosseguiu com orgulho, que minha vida não é só isso – e mostrou com a mão trêmula as terras ensolaradas do sítio.

– Essas coisas não se dizem, murmurou ele pesado, fugindo com os olhos.

– Mas eu quero dizer! gritou ela depressa como se ele pudesse fisicamente impedi-la de continuar. Ouça, disse entre ordem e pedido, habituada que estava a comandá-lo, ouça.

– Não sou padre, disse ele com brutalidade.

– Mas ouça! repetiu com a mesma violência.

– Não quero suas confidências, disse ele então muito severo.

– O senhor tem medo, disse Vitória ilogicamente.

– Medo? ah isso também não – pois ele percebera a tempo que ela estava tentando arrastá-lo para a vida dela – ah isso também é ir longe demais. Não tenho medo: é que é inútil falar sobre essas coisas.

– Mas ouça! quero lhe dizer que minha vida não é só isso.

– Mas por que a mim? exclamou ele furioso.

– Porque preciso de uma testemunha! respondeu ela num desespero de cólera. Não pense que minha vida é só isso. Que é que o senhor diria, eu me pergunto o que o senhor diria com esse ar de quem despreza a vida dos outros, que é que o senhor diria se eu lhe dissesse que sou uma espécie de poetisa! gritou ela.

Martim olhou-a com tal espanto que ela ficou paralisada. Uma cor um pouco amarelada espalhou-se pelo rosto surpreendido da mulher.

– Pois olhe, disse ele de repente rindo e alçando os ombros, eu não diria nada.

– Sou uma espécie de poetisa, repetiu como se não tivesse ouvido a sua interrupção, só que não escrevo porque não tenho tempo. Mas coleciono provérbios e pensamentos, tenho uma coleção enorme, disse surpreendida e sabia que acabara de estragar sua coleção para sempre no seu segredo e que jamais copiaria de novo um só provérbio, porque não ser compreendida pelo homem a desorientava. Coleciono pensamentos, disse muito inquieta. Tenho muita vida interior. Sou uma curiosa da vida, exclamou então com súbito desembaraço, tudo neste mundo me interessa e eu estudo no livro aberto da vida. E minha vida interior é muito rica, disse e sacudiu os cabelos presos como se estes estivessem soltos em cachos.

Martim olhou rapidamente para a árvore como se ele e a árvore trocassem um fugitivo relance.

– Até comecei uma vez uma poesia, disse ela espantada, forçando-se a continuar pois pensava que falar consiste em dizer tudo, e ao mesmo tempo viu escorrer-se para o nada o seu pudor inutilmente sacrificado. A poesia começava assim: “As rainhas que reinavam na Europa no ano de 1790 eram quatro.” – Aquele homem ia saber tudo, e ela ficaria sem nada... – Mas a poesia não era para ser sobre rainhas, compreende? disse quase chorando de raiva, era só por causa da beleza, compreende? – mas ela sabia que ele não compreendia, sabia que só existiam sucesso e fracasso, e entre estes dois nada existia, e que por isso ela jamais sairia do limbo para provar que através da frase sobre as rainhas a poesia tomaria o seu sutil ímpeto; e como sabia que jamais provaria aos outros a graça infinita que pode se levantar em voo de uma frase simples, então ela, que só acreditava no sucesso, não acreditou na própria veracidade do que sentia; e ali estava enovelada na inexplicável frase poética que depois de pronunciada a deixara com quatro rainhas na mão canhestra. – Era só por causa da beleza! disse com violência.

Ficaram em silêncio. A mulher arfava. Mas o que não pôde dizer a ele, o que não pôde dizer é que ela era uma santa. Isso, abrindo a boca várias vezes em agonia, ela tentou e não pôde. Isso, isso não se dizia a ninguém.

– A senhora precisava de encontrar um amor, disse ele com ar grave, e achou tanta graça que fez uma careta para se impedir de rir.

Ela o olhou incrédula, boquiaberta.

– Que é que o senhor sabe de mim ou de qualquer coisa! disse afinal, e estava tão surpreendida com a ousadia que mal sabia o que retrucar.

– É verdade, não sei nada, concordou ele macio. Mas posso tentar saber. A senhora, por exemplo, acaba de me perguntar por que vim para cá. E a senhora, indagou ele entre divertido e cínico, por que veio para cá?

– Que estupidez, disse ela furiosa, é uma pergunta tão estúpida, mas tão estúpida. É como se eu – como se eu lhe perguntasse assim, como se eu lhe perguntasse: por que é que o senhor vive!

– Porque tenho um certo instante em vista, disse ele com suave rapidez.

Ela o encarou perplexa, afrontada. O homem, satisfeito consigo mesmo, olhou-a sorrindo com descaramento. Mas qualquer coisa no rosto da mulher fez com que ele pestanejasse numa sensação de desconforto. Como viciados que se reconhecessem, ele acabara de ver nela ele próprio. O que foi desagradável. Nela havia aquela coisa que também nele existia, e que ele só não acusou porque nele próprio também doía, e porque, quem a tinha, disso sofria. Martim desviou os olhos.

– De qualquer modo, disse ela se refazendo, se a questão for perguntar “quem” e “por que” alguém veio para cá, é a mim que cabe a pergunta e não ao senhor. O senhor positivamente não está em situação de perguntar, mas de responder.

Martim fez um gesto cansado de acordo que revelava quanto sua paciência estava no fim. E como ao mesmo tempo ele abrira a boca, a mulher julgou com surpresa que enfim o homem ia lhe responder e dizer por que viera ao sítio... Foi então que ela fez um movimento enérgico com a mão, impedindo-o de continuar. Como Martim não pretendera lhe responder, não entendeu o que ela quisera com um movimento tão súbito, e olhou-a intrigado.

Também ela se espantara com o automatismo inesperado do próprio braço. O gesto precedera-a na compreensão do gesto. Ela olhou para Martim, surpreendida, atenta, como se no rosto dele pudesse estar a explicação daquilo que só agora se revelara: que ela não queria saber o motivo de sua vinda ao sítio. Era como se, ao saber fatos, ela pudesse perder o direto conhecimento que só neste instante percebeu que tinha do homem – pois com surpresa descobriu que o conhecia profundamente. Apenas superficialmente é que o desconhecia. Mas na sua própria pele ela o conhecia, e desde o instante em que o vira pela primeira vez: o modo como o conhecera fora o modo como ela própria se aprumara ao vê-lo; um dos meios mais fundos de se conhecer estava na maneira como se respondia ao que se via. E agora, olhando Martim, a mulher teve medo de perder este contato insubstituível que a informava sobre a natureza mais secreta daquele homem ali em pé; e de quem, ignorando tudo, ela possuía o ilimitado conhecer que vem de se olhar e ver. Os fatos tantas vezes disfarçavam uma pessoa; se ela soubesse fatos talvez perdesse o homem inteiro.

Oh, era um conhecimento cego o seu. Tão cego que, conhecendo-o, ela no entanto não o entendia. Era um passo antes do saber. Como se ela atravessasse tudo o que ignorava dele e fosse direto às pancadas pacientes daquele coração. “Eu te conheço na minha pele”, pensou ela num arrepio desagradável, e o corpo recuou ressentido àquela intimidade que fazia dela ele próprio. E que fazia dela uma outra. Essa outra... De súbito ela teve medo do que jamais saberia de si. Pois na sua carne ela compreendia em silêncio que a noite de chuva fora mais que um pesadelo; que a noite de domingo tinha sido a escura abertura para um mundo do qual mal adivinhamos a primeira alegria, e sabia que uma pessoa morre sem saber, e que havia infernos a que ela não tinha descido, e modos de pegar que a mão ainda não adivinhara, e modos de ser que por grande coragem ignoramos. E que ela própria era a outra jamais usada. Em mais de cinquenta anos de vida nada aprendera de essencial que viesse se acrescentar ao que já sabia – e o que nesses anos se mantivera intato fora exatamente o que ela não aprendera.

E uma das coisas que ninguém lhe ensinara era aquele seu modo estranho de conhecer um homem.

– E a senhora, por que veio para cá? repetiu Martim resignado a perder tempo já que ela o retinha. Seu tom manso vinha de que ele sabia que, repetindo muitas vezes a pergunta, aquela mulher, que estava apenas à espera de um simulacro de insistência, terminaria falando.

Vitória fez um gesto impaciente, seu rosto preparou-se para responder à insolência. Mas inesperadamente aquietou-se e disse:

– Eu não tinha o que fazer no Rio. Vim para cá criar uma vida, fazer minha vida.

– E criou? perguntou ele irritado.

– Mas sei de uma coisa! explodiu ela. Que só a santidade salva! que é preciso ser o santo de uma paixão ou ser o santo de uma ação! ou de uma pureza, que só a santidade salva!

Martim olhou-a branco de cólera, trêmulo sem saber por quê.

– Que é? perguntou ela vigorosamente. Estou apenas usando a sua liberdade! que é, o senhor então não a reconhece? disse com grande austeridade.

Ela não sabia exatamente ao que estava se referindo, e ele entendeu sem saber exatamente ao que ela se referia. Mas se assim não fosse, pobre seria o mútuo entendimento, nossa compreensão que é feita através das palavras perdidas e das palavras sem sentido, e é tão difícil explicar por que alguém se alegrou e por que outro se desesperou – é que não levamos em conta o milagre das palavras perdidas; e é por isso que sempre valeu tanto viver pois muitas foram as palavras ditas que mal ouvimos mas elas foram ditas.

Por um instante ambos não hesitaram em se compreender dentro da incompreensão:

– Reconheço, sim, respondeu ele então entrando por breve segundo num mundo mais perfeito de entendimento, nós que temos uma finura de compreensão que nos escapa. De onde Martim imediatamente saiu para olhar com estranheza aquela mulher que nada dissera e com quem, no entanto, ele acabara de concordar. Olhou-a, e como sempre pareceu-lhe que não captava o principal dela ou de outros – embora fosse com esse principal que às cegas ele lidava.

– Pois então, disse a mulher, não estranhe o que o senhor mesmo provocou: a minha liberdade, disse ela, e então estranhou-se porque se deu conta de que não sabia o que estava dizendo e de que se perdera num jogo de palavras.

Então ficaram em silêncio como para dar àquela coisa, que tinha a fragilidade de um equívoco não discernível, tempo de ser reabsorvida pelo esquecimento.

Mas ao ver a cara sombria do homem, a senhora não soube interpretá-la e temeu tê-lo assustado. Apesar de maldosa, ela sempre tivera a cuidadosa piedade de não assustar os outros com a verdade:

– Não, disse então depressa e implorante, o senhor não pense que eu estava querendo dizer que era pura ou santa, explicou-lhe como uma mãe que assegura ao filho que ela não é senão mãe para que o filho não seja o filho de uma estranha e não se torne ele mesmo um estranho. O senhor não entendeu o que eu quis dizer quando falei em santidade. Não pense que eu estava dizendo com isso que sou boa, continuou ela porque, mais que tudo, não queria que ele a julgasse “superior” e então a admirasse com desprezo. – Não queria dizer que sou boa, repetiu, forçando-se a uma franqueza que lhe doeu mas que lhe deu quase imediatamente um alívio e uma resignação – nunca fiz nada para os pobres de Vila Baixa, tudo o que faço é sofrer por eles. Nem pense que quero dizer que sou santa... – Seu peito doeu de alegria porque, pelo menos de um modo negativo, ela estava lhe dizendo a verdade – e como dizer de outro modo a verdade, senão negando-a delicadamente? como dizer de outro modo a verdade, sem o perigo de lhe dar a ênfase que a destrói? e como dizer a verdade, se temos pena dela? mais que medo, pena.

A mulher se sentiu tranquila sabendo que não se confessara simplesmente porque o homem não a recebera em confissão: nada fora pois dito. Ela precisava falar, sim; mas evitava com tato ser compreendida. Do momento em que fosse compreendida, ela não seria mais aquela coisa profundamente intransmissível que ela era e que fazia com que cada pessoa fosse a própria pessoa – pois Vitória pensava que era isso o que sucedia na comunicação. Seria dessa entrega de si própria que ela se guardava? ou era medo da imperfeição com que as almas se tocam? Mas não só disso tinha medo. É que, faltando-lhe o aprendizado da comunicação, tinha a delicadeza instintiva de se abster.

– Eu não quis dizer com isso que sou pura – tentou ela tranquilizar o homem. Minha alma é suja, minha vida é truculenta, eu não sou boa, eu... – A santidade era uma violência a que ela não teria coragem; de algum modo uma pessoa ruim era mais caridosa que um santo, a santidade era um escândalo a que ela não tinha coragem. – Sou ruim, entendeu? Sou ruim como... sou ruim como uma mulher desiludida! disse inesperadamente com certa faceirice.

– Desiludida? disse ele inclinando-se cavalheiresco e aderindo sem sentir à dignidade que a mulher queria dar às suas confissões.

– De mim mesma, concluiu ela gloriosa, sacudindo os cabelos presos.

Oh Deus, como a senhora me chateia, pensou Martim.

“Não vê você”, pensou então Vitória num esforço de transmissão de olhar do qual Martim só percebeu o esforço mas não o sentido, “não vê que se eu quisesse estar pronta para tudo, minha vida tinha que ser pura? E eu queria estar pronta para tudo e me preparei todos os dias. Não pureza moral”, pensou ela. E nesse momento Vitória percebeu que, por equívoco, terminara caindo em pureza moral e que, como vida, ela jamais atingira a pureza... Foi mais ou menos isso o que pensou, e então lhe disse um pouco espantada:

– Eu não sou pura...

Como a senhora me chateia, pensou Martim. “Aquele emaranhamento de uma mulher que tinha medo de morrer – seria isso?”, perguntou-se ele, pois Ermelinda era tão viva como é viva uma flor, e a dualidade o confundiu; “e o emaranhamento de uma mulher que tinha medo de viver – seria isto?”, perguntou-se também confuso, pois aquela mulher tinha nas rugas cinzentas mais morte que vida, e no entanto era a vida que ela temia; “e o emaranhamento de um homem que... de um homem que não queria ter medo?” Sim, e enquanto isso as vacas sagradas. Era isso? Mas ter dado essas palavras a fatos que nem fatos eram, resultou insatisfatório para o homem. Então, falhando em definir o que lhes estava acontecendo, e porque Martim queria que, mesmo sem ela ouvi-lo, não houvesse a menor dúvida quanto a seus sentimentos, ele pensou bem claro: “Você me chateia. Tudo isso eu conheço e não me interessa. Pode ser que não haja outra coisa além dessa ânsia, mas não quero mais. Simplesmente quero que você vá para o inferno”, concluiu sombrio, “isso não interessa mais”. Olhou-a. Provavelmente um corpo empobrecido que tentava se refugiar em pensamentos? o corpo que, quando exacerbado, pode se tornar espírito.

A mulher confusa estava sendo tão sincera que as veias do pescoço estavam altas no esforço de falar a verdade – ou de mentir, a Martim não importava. Nada tinha a ver com isso. E teve a tentação de lhe dizer absurdamente: “sei que você está dizendo a verdade mas, para lhe ser franco, não acredito”. Oh, a fêmea chata. Às vezes aquele homem tinha um tal enjoo de mulher que isso o retemperava todo na própria limpa masculinidade. E agora, por pura saciedade, se aquela mulher estava numa extremidade ele queria exatamente a extremidade oposta.

Num cansaço súbito, encurralado pela mulher, tudo o que Martim neste instante pediria de homens e de mulheres é que eles fossem inconscientes de si mesmos, com apenas a pequena luz que é suficiente para não se ficar no escuro, a luz dos olhos do cão na escuridão do cão: era apenas isso o que agora, tão cansado, ele queria; pelo pouco que fosse, pelo bastante que era. “Você me cansa”, pensou ele pesado, grosseiro. A indiferença fazia com que ele a olhasse com a crua precisão com que olharia uma formiga se torcendo. “No ponto em que estou, mudo e cansado, tenho nojo de contorções de alma e nojo de palavras”, pensou ele. No ponto em que estava, estava grande e com as mãos cheias de calos, e a alma é grande, as árvores são grandes. O sol era grande e a terra extensa. Só faltava mesmo uma outra raça de homens e mulheres – a raça que ele criaria, se pudesse. Com súbita brutalidade, o homem achou que “viver era o único pensamento que se pode ter”, e que o resto eram apenas palavras de mulheres como Vitória, e viver era a conquista máxima e era o único modo de responder com dignidade a uma árvore alta. Pois, lembrando-se da nobre decência que havia no seu terreno terciário, naquele momento foi assim que Martim se quis.

E a mulher que estava ali... – ele olhou a estranha. Boca, dentes, ventre, mulher, braços, aquilo tudo que tivera a oportunidade de ser uma planta limpa. Mas tudo isso corroído e estragado e erguido pelo espírito. Você me chateia, você é um erro, você é o erro de uma planta. “De agora em diante”, descobriu ele com um cansaço que na hora tirou da descoberta o deslumbramento que um dia ele sentiria quando entendesse o que queria dizer e quando soubesse quanto amor havia nisso – “de agora em diante quero o que é igual um ao outro, e não o diferente um do outro. Você fala demais em coisas que brilham; há no entanto um cerne que não brilha. E é este que eu quero. Quero a extrema beleza da monotonia. Há alguma coisa que é escura e sem fulgor – e é isso o que importa. Você me aborrece com seu medo, que até este brilha. De agora em diante quero o que é igual um ao outro”. E ela ainda lhe vinha dizer que era uma desiludida...

– A senhora tem medo, disse ele usando futilmente uma gravidade qualquer e procurando, por certa gentileza, manter o tom de polêmica abstrata daquela mulher que, ao sol, fazia questão de ser fina.

A senhora mal acreditou no que ouvira:

– Medo?!

Medo? ela? Seu impulso foi o de rir, como se o riso pudesse retrucar ao absurdo. Medo! Abanou a cabeça, incrédula. Ela que dirigia a fazenda com pulso de homem? Ela que mandava naquele homem ali em pé, sem medo de si nem dele? Ela que surdamente lutara contra a seca e a vencera! ela que soubera esperar que chovesse. Medo! Ela que andava com suas botas sujas e com o rosto exposto sem ter medo de jamais ser amada. Ela que dilapidava corajosamente a herança do pai para manter aquela fazenda funcionando, sem sequer saber para quê, corajosamente à espera do dia incerto em que aquele sítio seria o maior da zona, e então ela pudesse enfim abrir as cercas. Medo?

Todo o seu corpo se revoltou contra o que havia de incompreensão no homem, e de injurioso na palavra, toda ela se preparou para um gesto que fizesse a sua própria indignação rebentar, mas nenhum lhe pareceu bastante forte. Medo! Olhou-o, surpreendida, amarga; que sabia dela, aquele homem. Como poderia ele jamais entender a sua grande coragem, aquele homem que ela agora olhava de face sem nenhum medo – pela primeira vez percebendo naquele rosto quanto ele era estúpido: na testa fechada se adivinhava a dificuldade de pensar, havia um esforço penoso na cara daquele homem. E ela balançou a cabeça, amarga, irônica. Pelo fato de sabê-lo engenheiro, nunca pensara verdadeiramente na inteligência dele. Mas olhando-o a nu, como ele era obstinado e lento. A cara do homem tinha a perseverança sonâmbula dos estúpidos.

– Medo, sim, disse ele paciente como se falasse com uma criança.

A injúria repetida fê-la estremecer, e dessa vez toda ela se preparou para revidar com um insulto. Medo, ela... sua boca se torceu em sarcasmo.

Mas em vez disso os traços de seu rosto de súbito cederam. Ela não podia mais. Medo, sim. Medo, sim. Lembrou-se de como ter medo fora a solução. Lembrou-se de como uma vez aceitara humilde o medo como quem se ajoelha e de cabeça baixa recebe o batismo. E de como sua coragem, daí em diante, fora a de viver com o medo. Medo, ela? E de repente, como se vomitasse a alma, gritou com orgulho os seus cinquenta anos de mudez:

– Medo, sim! que é que o senhor entende disso, medo, sim. Ouça então e aguente se puder, aguente se não tiver medo. Eu já senti medo. Cuidei de meu pai velho durante anos, e quando ele morreu fiquei só. – A mulher se interrompeu: quando o pai morrera, ela de chofre ficara consigo toda para si própria; e no impulso desajeitado dos que se iniciam tarde e já sem a graça, ela quisera pela primeira vez fazer o que se chamava “viver”, e que num primeiro e incerto passo de glória seria ir sozinha para um hotel e ficar sozinha e se concentrar e ter o mais alto de si mesma como um monge numa cela, e seria desse modo furtivo que ela faria a sua primeira reverência à... a quê? – Eu tinha ido para ficar sozinha e me concentrar, disse ela com vaidade, e me separei de todos e fui de barca com minha mala – mas já na barca, já na barca estava ficando aquele ruim que eu reconhecia, aquela provação, aquela sensação quase boa mas perigosa – mal eu tinha pisado naquela barca que se balançava tonta, e tudo já me tocava e me deixava dolorosa, curiosa, viva, cheia de curiosidade – mas não era isso mesmo o que eu queria? não era isso mesmo o que eu tinha ido buscar? era, mas por que é que eu não queria me dar conta do que estava acontecendo? por que olhava para tudo de cabeça levantada, fingindo? Cheguei na ilha ainda de tarde – meu coração se apertou espantado quando vi o hotel grande e velho com as salas de teto alto e as moscas no refeitório, e as pessoas estavam descansando no terraço e olharam eu passar entre elas, eu pedia licença; faltava ali a proteção que existe na pequenez de uma cela, eu tinha errado completamente. Eu não conhecia ninguém no terraço e não deixei ninguém adivinhar que isso me fazia o coração bater. Guardei a mala no quarto, mas meu impulso era o de tomar a barca e voltar, mas isso seria falhar! de algum modo eu tinha ido para sofrer o que estava me acontecendo, pois não era a vida que eu tinha querido? e se eu não soubesse aceitá-la, somente porque ela era mais crua do que eu esperara – seria o fracasso e a deserção. Mas muito mais forte que a vergonha de desertar era a antecipação do que seria uma noite sozinha naquele quarto, então desci as escadas, e sem nenhuma vergonha pedi o horário das barcas de volta, e para meu espanto o horror se confirmou: me disseram que só na manhã seguinte. Então saí calma para fora do hotel, mas lá fora era o ar aberto e claro, era de tarde, e tinha o mar azul com o horizonte de linha mais fina que já vi até hoje, e a beleza era uma tal dor, e eu estava tão viva, e o único modo como eu tinha aprendido a estar viva era me sentir sem amparo, eu estava viva, mas era como se não houvesse resposta para se estar viva. Então voltei depressa para o hotel, escorraçada pela luz da praia, e engoli com tanta coragem o meu jantar no meio dos estranhos. Depois do jantar tentei dar de noite um passeio fora do hotel, pois não era isso o que eu planejara? não era esse encontro com o próprio dia e o encontro com a própria noite? mas fora do hotel era a praia brilhando toda no escuro. Linda, toda branca de muita areia, com o mar escuro, mas a espuma, eu me lembro que a espuma era branca no escuro e eu pensei que a espuma parecia uma renda, não tinha lua mas a espuma era branca como uma renda no escuro. Então voltei depressa para o quarto e me transformei depressa na filha de um pai velho porque só como filha é que eu tinha conhecido calma e compostura, e só agora eu me dava conta da segurança que eu perdera com a morte de meu pai, e resolvi que daí em diante eu queria ser somente aquilo que eu antes sempre tinha sido, só isso. Botei uma camisola limpa e engomada porque esse era um prazer que eu antes costumava ter, e penteei muito os cabelos porque esses eram os hábitos em que eu me entendia e me conhecia, e alisei tanto meus cabelos com a escova até que consegui fazer de mim uma coisa que não era crua nem exposta. Eu estava cheia de bajulação comigo mesma: eu estava me tratando com cerimônia e procurando ver se conseguia um modo de sentir alguma camaradagem com a covarde assustada que eu estava sendo – e de quem eu tinha tanta repugnância – mas fingi que tudo estava perfeito, até suspirei de conforto na cama com o livro na mão, o livro que eu pensara jamais abrir na ilha. Eu sabia que meus olhos não estavam lendo, mas nunca me deixaria convencer de que estava fingindo, e de que não fora ler numa ilha o que eu viera buscar, eu procurava ignorar que Deus estava me dando exatamente o que eu pedira e que eu – eu estava dizendo “não”. Estava fingindo que não percebia ter construído uma esperança inteira no que finalmente estava me acontecendo, mas que ali estava eu de óculos com o livro aberto, como se eu amasse tanto que só pudesse gritar “não”. Mas eu também sabia que se naquele momento exato eu não pegasse o fio calmo de minha vida anterior, então jamais meu equilíbrio voltaria, e jamais minhas coisas seriam reconhecidas por mim. E por isso eu fingia que lia – mas eu ouvia as ondas do mar, eu ouvia, eu ouvia! Foi então que de repente a luz toda do hotel se apagou de uma vez. Assim, de uma vez só, sem um ruído, sem um pressentimento que avisasse, nada. Só no dia seguinte é que eu soube que às nove horas da noite as luzes se apagavam por economia de eletricidade, as luzes todas se apagaram, e eu fiquei com o livro aberto na mão, fiquei no escuro como nunca tinha estado, só ontem de noite é que fiquei pela segunda vez na minha vida nesse escuro – assim, com esse modo simples de estar no escuro, eu nunca tinha estado, e nunca tinha estado no escuro com mar. Era tão escuro como se eu procurasse o hotel e não soubesse onde ele ficava, a única coisa tocável era o livro na mão – o medo, o medo de que o senhor me acusou, não me deixava um movimento, mas depois que passou a surpresa – então rebentou o que eu mal e mal tinha contido até aquele instante – a beleza da praia rebentou, a linha fina do horizonte rebentou, a solidão a que eu tinha voluntariamente chegado rebentou, o balanço da barca que eu tinha achado bonito rebentou, e rebentou o medo da intensidade de alegria que sou capaz de atingir – e sem poder mais mentir, chorei rezando no escuro, rezando assim “nunca mais isso, oh Deus nunca mais me deixe ser tão audaciosa, nunca mais me deixe ser tão feliz, tire para sempre a minha coragem de viver; que eu nunca vá tão adiante em mim mesma, que eu nunca me permita, tão sem piedade, a graça”, porque eu não quero a graça, pois antes morrer sem ter jamais visto que ter visto uma só vez! porque Deus com sua bondade permite, ouviu, permite e aconselha que as pessoas sejam covardes e se protejam, seus filhos prediletos são os que ousam mas Ele é severo com quem ousa, e é benevolente com quem não tem coragem de olhar de frente e Ele abençoa os que abjetamente tomam cuidado de não ir longe demais no arrebatamento e na procura da alegria, desiludido Ele abençoa os que não têm coragem. Ele sabe que há pessoas que não podem viver com a felicidade que há dentro delas, e então Ele lhes dá uma superfície de que viver, e lhes dá uma tristeza, Ele sabe que tem pessoas que precisam fingir, porque a beleza é árida, por que é tão árida a beleza? e então eu disse para mim “tenha medo, Vitória, porque ter medo é a salvação”. Porque as coisas não devem ser vistas de frente, ninguém é tão forte assim, só os que se danam é que têm força. Mas para nós a alegria tem que ser como uma estrela abafada no coração, a alegria tem que ser apenas um segredo, a natureza da gente é o nosso grande segredo, a alegria deve ser como uma irradiação que a pessoa jamais, jamais deve deixar escapar. Sente-se um estilhaço e não se sabe onde: é assim que tem que ser a alegria: não se deve saber por que, deve-se sentir assim: “mas que é que eu tenho?” – e não saber. Embora quando se toque em alguma coisa, essa coisa brilhe por causa do grande segredo que se abafou – eu tive medo, porque quem sou eu sem a contenção? Quando no dia seguinte eu estava sentada na barca eu pensava que tinha morrido. Mas como se tivesse, antes de morrer, comungado.

Martim estava pálido. Oh o que daria para ofender aquele rosto nu e despudorado.

– Não acredito numa só palavra, disse ele.

Mas como se ambos se entendessem além do alcance das palavras, a mulher não se ofendeu com o que ele dissera. Nem ele o repetiu, como se na verdade não tivesse aberto a boca. Apenas desviou os olhos porque não quis ver aquela cara que doía. E ela, ela apenas suspirou. Estavam cansados como se tivessem feito um exercício violento. De algum modo a explosão estúpida da mulher lhes fizera bem, pois inexplicavelmente, além de fatigados, os dois estavam agora tranquilos.

Aliás nada parecia ter acontecido. Nada há de tão destruidor de palavras ditas quanto o sol que continua a queimar. Ficaram em silêncio, dando-se tempo de esquecer. Por um pacto tácito esqueceriam aquela coisa um pouco feia que acontecera. Ambos não eram moços e tinham alguma experiência: certas coisas a pessoa tinha que ter a hombridade de não notar, e ter a piedade de nós mesmos e esquecer, e ter o tato de não perceber – se se quisesse impedir que um momento de compreensão nos cristalizasse, e a vida se tornasse outra. Ambos não eram moços, e eram prudentes. Assim, pois, depois da explosão, mantiveram-se calados como se nada tivesse acontecido porque ninguém pode viver do espanto, e ninguém podia viver à base de ter vomitado ou ter visto alguém vomitar, eram coisas a não se pensar muito a respeito: eram fatos de uma vida.

A senhora enxugou o suor do rosto e olhou, num relance, aquela testa estreita, aqueles cabelos crespos. De novo na cara dele estava restaurada a calma estupidez humana, aquela opaca solidez obtusa que é a nossa grande força. Os dois se olharam no vazio dos olhos. Sem dor, um pareceu perguntar ao outro: quem é você? O principal um do outro, ao se olharem, eles não captavam, e no entanto era de novo com esse principal que eles lidavam. Até que, de vazios, os olhos começaram a se tornar cheios e ficaram individuais, e um já não estava mais aprisionado pela absorção no outro. Então eles se olharam francos, como tocados pelo mesmo sentimento: “vamos ser francos pois a vida é curta”. Mas se olharam apenas francos, sem nada ter a dizer, senão isso: a extrema franqueza. Depois desviaram os olhos sem mágoa, em comum acordo, experientes; e de novo esperaram um instante para que a franqueza, que nunca tem palavras, tivesse tempo de passar, e eles pudessem continuar a viver.

Sem insistência, ela disse calma como se acabassem de ter uma conversa amigável:

– Naturalmente, se naquela noite da ilha eu soubesse que tudo ia passar, eu teria me arriscado a ser mais infeliz. Mas na hora a gente pensa que é eterno. E acontece também que na hora eu não entendi que estava tendo exatamente aquilo que tinha ido buscar, não reconheci totalmente, e pensei que estava errando. Naturalmente, depois disso, minha aproximação passou a ser muito mais cuidadosa. Eu já sabia que não se deve ir assim diretamente, como fui. Nunca diretamente, disse ela como numa receita. Quero também lhe dizer que tive medo, sim, mas não por pena de mim. Eu não tenho pena de mim, disse sem vaidade.

E, por Deus, ela não tinha.

– Foi uma questão apenas de aprender que não se vai diretamente, disse então conciliadora. E aprendi isso sozinha. Sempre sozinha, acrescentou com alguma simplicidade.

– Por que a senhora nunca se lembrou de pedir a ajuda de alguém? perguntou ele chateado, sem saber bem o que estava a dizer.

– O senhor não compreende, disse ela de novo irritada, que eu não posso pedir? porque preciso de tanto que ninguém pode me dar? o senhor então não vê que eu pediria mais do que poderiam me dar? – Na sua exacerbação a senhora esquecia que não tinha direito de estar irritada, pois, se o homem a ouvia, era apenas por favor ou porque ela o obrigara a ouvir; e esquecia que ele, afinal, nada tinha a ver com isso.

– Ninguém, disse Martim inesperadamente enfático, ninguém pode pedir mais do que se poderia receber do outro! A natureza humana, disse ele muito satisfeito, é uma só: ninguém pode pedir mais do que o outro pode dar, porque pedir e dar é um ato só, e um não existiria sem o outro – e além do mais, ninguém inventa o que não existe, minha senhora: se se inventou pedir, é porque existe a resposta do dar! disse ele muito firme e contente.

– Mas pedir a quem? berrou ela.

– Bem, disse Martim atrapalhado e já perdendo o interesse, essa é que é a questão. Mas também existe o seguinte – acrescentou de repente sério e voluptuoso – também existe o seguinte: é preciso ter técnica para pedir! porque, minha senhora, as coisas também não são assim não, minha senhora! não é só dizer “me dá!”, e acabou-se! É preciso muitas vezes enganar a quem se pede, disse ele íntimo, sensual. É preciso, a modo de dizer, pedir disfarçando. A senhora, que é uma dama inteligente e lida, devia aprender isso também. Vamos, por exemplo, imaginar que a senhora fosse casada e precisasse de um par de sapatos, disse ele de repente interessadíssimo no problema, enquanto a mulher o fitava com olhos atoleimados de surpresa. Se a senhora precisava de um par de sapatos, o mais aconselhável seria jamais dizer ao marido: me dá sapatos! O aconselhável seria dizer aos pouquinhos todos os dias: meus sapatos estão velhos, meus sapatos estão velhos, meus sapatos estão velhos, disse Martim sem poder se impedir de rir. Compreende? disse, e seu marido um belo dia ia acordar de manhã e, sem ao menos saber por que, ia dizer assim: Vitória, meu amor, vou lhe dar um par de sapatos! Pois para pedir ajuda também é preciso técnica! Receber pedido assusta muito as pessoas que, no entanto, minha senhora, às vezes estão doidas para dar, entendeu bem? é preciso técnica! Para tudo, aliás, é preciso técnica! Por exemplo, prosseguiu ele entusiasmado, só se pode chegar a exprimir o que se quer dizer, por exemplo, quando se exprime bem! É preciso técnica. É preciso saber viver para viver, porque o outro lado, minha senhora, nos espreita a cada passo: um movimento desastrado e de repente um homem que está andando parece um macaco! um só descuido, e em vez de ficar perplexa a gente ri! Um desfalecimento, minha senhora, e amor é perdição. Requer-se arte, minha senhora, muita arte, pois sem ela a vida erra. E muita sagacidade: pois o tempo é curto, há de se escolher numa fração de segundo entre uma palavra e outra, entre lembrar e esquecer, é preciso técnica!

– Técnica? repetiu ela estupidificada.

– Pois é, disse ele aborrecido com a sabedoria a que ela o forçara.

A senhora o olhava, inteiramente apalermada. O homem sorriu constrangido, sem saber como sair da entalada em que se metera:

– Vou ao curral, disse então baixo, com pudor discreto como se pedisse licença para ir ao banheiro.

Mas ela de repente acordou:

– Ouça.

A insistência na mesma palavra começava a tirar a fibra do homem e a fazê-lo sucumbir. Ele parou de novo. Sentia-se usado por aquela mulher como se ela o estivesse pouco a pouco efeminando: havia mulheres assim, que iam tocar e quebravam. Como um sugadouro de ventosa, ela extorquia algo dele; algo que não era precioso, mas afinal de contas era ele. O que ela fazia do que extorquia, ele não sabia. Olhou-a sem prazer, sem curiosidade. Já não parecia ter força contra a palavra “ouça” que afinal o vergou, resignado. Com lentidão, sem defesa nenhuma, ele se dispôs a ouvi-la.

– Ouça, repetiu ela então, mais mansa como uma mãe que assustou o filho com um grito involuntário. Ouça: antes de vir para cá, eu era diferente, disse então como se remontasse ao começo dos começos, o que deu ao homem um cansaço prévio, e a seu rosto uma disposição heroica de sacrifício. Não que eu fosse mesmo diferente, acrescentou a senhora com certa bondade, mas é que nem sempre tive este sítio.

Fez uma pausa. Pois – ocupada em demonstrar consideração pelo homem que ela de algum modo estava anulando – escapara-lhe o sentido do que tinha querido dizer. O calor os deixara úmidos e salgados.

– Eu vivia no Rio, continuou, e seu tom tentou ser despretensioso como se ter vivido na cidade a engrandecesse demais aos olhos do homem. Mas fui eu mesma que quis vir para cá. Sei, sei que foi um erro, não precisa dizer, acrescentou a senhora com aquela sua vaidade que se suscetibilizava tão facilmente. Mas eu me enganei, que é que se há de fazer? errar é humano, eu me enganei como uma mulher que tivesse sido enganada pelas promessas de um homem – oh, não, não houve nenhum homem, se é isso o que o senhor quer dizer ou pelo menos está pensando, interrompeu-se lisonjeada pela hipótese que poderia ter ocorrido a Martim. Mas como é que vou lhe explicar? perguntou, como se ele estivesse ansioso por entender, embora no rosto conformado do homem não houvesse nenhuma pergunta. É que eu pensei que pudesse encontrar aqui...

Que viera ela, na verdade, procurar? A paixão de viver? Sim, viera procurar a paixão de viver, descobriu a mulher desapontada, e uma gota de suor pingou-lhe triste do nariz.

– Vou lhe contar como aconteceu, disse então com esforço, e provavelmente aquela mulher já tinha seu discurso preparado há anos. Foi assim que começou: uma vez uns parentes vieram nos visitar no Rio, e eu deixei Ermelinda cuidando de meu pai, e fiquei mostrando a cidade para eles, quero dizer para meus parentes. Nós íamos sempre de carro, meu tio alugou um carro. Já estava fazendo frio... Nós íamos tão longe, mas tão longe, passeando, passeando... Eu nunca vi estradas tão largas, fazia frio, eu usava todos os dias um vestido azul novo que eu nunca tinha tido uma boa ocasião de usar. E comíamos muito em restaurantes! para nos divertirmos e conhecermos os restaurantes. Era a primeira vez que eu fazia coisas assim... comia carnes guisadas com molhos... Preciso lhe dizer – informou ela – que eu sempre tive certo nojo de comidas gordas, sempre preferia o que era seco, minha comida era sempre tão simples! pois se eu até já tinha terminado por adotar a dieta de meu pai...

– Mas nesse tempo, continuou a mulher com o rosto de repente clareado pelo prazer e pelo inesperado acesso a um ideal inatingível, nesse tempo vinham em pratos enormes as costeletas de porco cheias de gordura, e quando eu saía do restaurante, via que as frutas nas quitandas se esborrachavam e então... – Calou-se. Interromper-se, no entanto, só fez com que ela sentisse, como trazido pela brisa, o cheiro que vinha de dentro das quitandas, o bafo de ananases podres e de penas quentes de galinhas – e ela então sorriu com o rosto claro, misterioso.

– Quando eu saía do restaurante, botava o casaco também novo nos ombros, mas nem era de frio, era só porque me parecia que alguma coisa estava me acontecendo. Não sei, disse enxugando penosamente o suor, mas era como se eu visse que as coisas são muito mais que a casca seca, o senhor por acaso me entende? era como se eu visse que, se antes sentira nojo, era porque já então eu sabia que o perigo estava sob a secura – não sei por que, mas naqueles dias de passeio me pareceu que tudo o que existia era – era horrivelmente maduro, sabe como é? e eu me sentia tão cansada como se fosse adoecer. Para lhe dizer a verdade, nem parecia inverno. É incrível, mas não parecia, e os carros buzinando, as quitandas tão cheias de frutas... as frutas quase podres, quase – quase não sei o quê, disse Vitória doce, amorosa, e, por pura intimidade com o homem, não tentou se explicar melhor.

Martim tirou do bolso o lenço sujo e enxugou o rosto. A mulher viu que ele não entendia. Mas agora era docemente tarde demais para parar, agora já nem sequer importava que ele não entendesse. Permaneceu por um instante de olhar esgarçado, reduzida a se lembrar sozinha de como no restaurante a boca ficava luzindo com o molho que escorria, o que dava um pouco de repugnância; de como naqueles dias lhe parecera que era forçoso emocionar-se com o que é feio; e então, com um nojo que subitamente não pudera se separar de amor, ela admitira que as coisas são feias. O cheiro da quitanda parecia um quente cheiro de pessoas sujas, e era forçoso emocionar-se com aquelas coisas que eram tão imperfeitas que pareciam pedir-lhe sua compreensão, seu apoio, seu perdão e seu amor; a felicidade lhe pesava no estômago, naqueles dias. Sim, e ela sentira que se podia amar aquilo tudo. Era surpreendente, era horrível; como se fossem núpcias.

Neste instante a mulher estremeceu, ao se lembrar de que exatamente esses estranhos dias de felicidade haviam-na levado mais tarde a ousar ir sozinha para a ilha – para buscar mais. E que, então, falhara.

Olhou cismarenta para o homem, sem vê-lo. Já não lhe doía mais sequer que Martim não a entendesse. É que uma mulher uma vez tem que falar.

– Naqueles dias de passeio, informou-lhe ela com humildade, era como se eu fosse adoecer...

– Talvez porque a comida fosse gordurosa? sugeriu ele com a cabeça fervendo ao sol e os cabelos estalando secos.

“Um homem sem vocação deveria ao menos ter a vantagem de ser livre”, divagou Martim absorto. Mas todos o chamavam a exercer um mister. E a verdade é que, ao sol, ele estava tão definitivamente emaranhado quanto o fora antes; em qualquer lugar onde um homem pisava, instalava-se uma cidade, só faltavam os bondes e os cinemas. Ermelinda queria que ele... o que queria mesmo Ermelinda? E Vitória forçava-o a recebê-la em confissão. Era difícil não colaborar. Vagamente então nasceu em Martim uma nova explicação para o seu crime – esse crime que cada vez se tornava mais elástico e amorfo, e o homem já se afastara tanto dele que na verdade lhe parecia ter cometido um crime abstrato, e na verdade seu crime agora parecia mais com um pecado de espírito, apenas. Assim, no sol, perseguido pela presença de Vitória, ele pensou assim: “que o único meio de ser livre, como um homem sem vocação tinha direito, fora cometer um crime, e fazer com que os outros não o reconhecessem mais como semelhante e nada exigissem dele; mas se essa explicação era a certa, então seu crime fora inútil: enquanto ele próprio sobrevivesse, os outros o chamariam”. Queimando ao sol, pareceu àquele homem cansado pela noite de domingo não dormida, que esta era a mais razoável explicação de seu crime. Inquieto, ele também sabia que apenas divagava.

Foi então que lhe ocorreu que estava mesmo na hora de ser preso. Para que lhe dissessem, afinal, qual fora o seu crime. Estava na hora de ser preso e deixar que os outros o julgassem, pois ele – ele já fizera uma lenda de si próprio.

– É possível, disse Vitória angustiada, é possível que as carnes fossem mesmo muito gordurosas, e há tempo eu comia a dieta de meu pai! acrescentou distraída.

Ficaram em silêncio, o homem se coçou.

– A senhora não consultou um especialista de estômago? perguntou Martim, não exatamente porque não a compreendesse mas porque tentou ver se, reduzindo honestamente o que ela dizia a uma questão de se curar no médico, tudo ficaria nas verdadeiras proporções.

– O fato é que foi um pouco por causa desses dias de passeio que, anos depois, achei que não devia vender o sítio que herdei de minha tia, e decidi morar aqui, concluiu ela inesperadamente, espantada como se tivesse chegado à meta muito antes do que calculara, e sem ao menos estar preparada para chegar.

– Ah, fez ele como se tivesse entendido.

De novo ficaram em silêncio. A mulher deixara enfim de torcer as mãos.

– Acho, disse ela num suspiro final, acho que eu imaginava poder encontrar neste sítio aquilo que me aconteceu nos dias de passeio. Quero dizer, aquelas coisas que eu via quando saía dos restaurantes. É claro, não do modo impossível como eu quis encontrar na ilha. Encontrar aqui, sim, mas ao meu alcance, diariamente e pouco a pouco ao meu alcance – disse, ela própria se sentindo irremediavelmente obscura, e soçobrando no inexplicável.

E de repente tudo lhe pareceu realmente inexplicável. É verdade que viver no campo viera dar uma paixão à sua pureza; é verdade que nos primeiros meses ela fora tocada pela plenitude da preguiça com que as plantas cresciam eretas, e que nos primeiros meses a natureza viera dar um ardor à sua confusão. Sim, isso era verdade... Mas era também verdade que, por caminhos já impossíveis de serem retraçados, ela terminara caindo na brutalidade truculenta de uma pureza moral; e suas artérias se haviam enrijecido como as de um juiz.

No entanto não era esta a única verdade! reivindicou ela, pois ali estava ela, dura mulher, desabrochando tão simples diante de um homem que nem ao menos a ouvia, como uma gota d’água que já não suporta o próprio peso e tomba onde tombar; a coisa tivera força bastante de autodireção para se fazer sozinha. E também era verdade que ao mesmo tempo em que endurecera numa moral que ela própria não entendia, aproximara-se por dentro, sem ao menos saber, de despojamento em despojamento, de alguma coisa viva.

– Suponho, disse ela para o homem, que eu imaginava poder encontrar na fazenda aquilo tudo. Mas depois – acrescentou surpreendida como se só agora se desse conta – depois me confundi um pouco..., disse e sorriu constrangida, perdoável, com o encanto do desamparo no rosto.

O que Martim menos esperara fora um sorriso. E acordou intrigado. Tornando-se retrospectivamente mais alerta, conseguiu reproduzir nos ouvidos o final da frase da mulher: “me confundi um pouco”. Foi, no entanto, essa frase que, menos elucidativa que outra qualquer, pareceu transmitir ao homem uma espécie de compreensão total, como se, por ternura, ele nada mais ignorasse daquela mulher. No esforço de olhá-la e de entendê-la, a matéria do rosto do homem enfim se esgarçara, e à tona subiu uma expressão bondosa, sombra talvez de um pensamento.

Vitória notou-o, emocionada, triste, modesta:

– Como eu ia dizendo, foi por causa disso que vim para cá. Foi um erro. Mas faço tantas outras coisas por esse mesmo motivo que não sei explicar! disse simples, perplexa. É como se houvesse um acontecimento que me espera, e então eu tento ir para ele, e fico tentando, tentando. É um acontecimento que me cerca – ele me é devido, ele se parece comigo, é quase eu. Mas nunca se aproximou. Se o senhor quiser, pode chamar de destino. Pois tenho tentado ir ao encontro dele. Sinto esse acontecimento como se sente uma aflição. E é como se, depois dele acontecer, eu fosse me tornar outra, acrescentou tranquila. Às vezes tenho a impressão de que meu destino é apenas ter um pensamento que ainda não tive. Anseio por esse acontecimento, sim, mas ao mesmo tempo tenho feito tudo para adiá-lo, não sei como lhe explicar. Eu até já tenho saudade deste tempo de agora, em que vivo sem ele – pois me habituei a um modo em que pelo menos cada coisa está, bem ou mal, num lugar. Várias vezes senti que se eu deixasse, mas realmente deixasse, o acontecimento se aproximaria. Mas como tenho medo, evito. Até mesmo antes de dormir eu leio para não dar lugar a que ele aconteça... Mas uma vez – disse serena – uma vez, enquanto eu estava esperando um bonde, distraí-me tanto que quando dei fé, quando dei fé tinha vento na rua e nas árvores, e as pessoas estavam passando, e eu vi que os anos estavam passando, e um guarda fez sinal para uma mulher atravessar a rua. Então, o senhor entende? então senti que eu, eu estava ali – e foi por assim dizer a mesma coisa como se o acontecimento estivesse ali... Eu não sei sequer que acontecimento era, porque quase antes de senti-lo, eu já o reconhecia – e sem mesmo me dar o tempo de saber-lhe o nome, eu por assim dizer já tinha caído de joelhos diante dele, como uma escrava. Juro que não sei o que me deu, mas meu coração batia, eu era eu, e aquilo que tem que acontecer estava acontecendo. Oh, sei que se fiquei tão assustada é porque estar na rua nada tinha a ver com meu pai, nem com minha vida, nem comigo mesma, era uma coisa tão isolada como se fosse um acontecimento – e no entanto, apesar disso, eu estava ali rodeada de vento, o bonde passando, com o coração batendo como se tivesse acabado de ter um pensamento. Essa foi uma das vezes em que tive maior contato com o que costumo chamar de “meu destino”. Senti ele como se sente uma coisa com a mão.

O homem a olhou austero, grave, sem compreender. É que a beleza estava no rosto da mulher.

– O que a senhora precisaria era de alguém a seu lado que garantisse a senhora, disse ele como um padre. Tudo o que a gente não entende, se resolve com amor. A senhora precisaria de encontrar um amor.

Mas em vez de se irritar ela respondeu com voz rouca:

– Já tive muitos, disse rouca. Quando eu era mocinha tive muitos.

Ambos se olharam com interesse, mas um pouco cansados.

– Uma vez, disse ela com estabanamento súbito, uma vez eu estava passando férias com minha tia, engraçado, aqui mesmo! foi aqui mesmo! disse fingindo espanto só para dar interesse à história. – Foi aqui mesmo, enquanto minha tia vivia! que coincidência curiosa, meu Deus, a vida tem cada coisa.

Como a mulher tivesse parado, ele disse sem muita paciência:

– E então?

– Era a primeira vez que eu pisava neste sítio, e nunca pensei que ele terminaria sendo meu, continuou ela insistindo na nota da coincidência. Eu estava de férias e vi um rapaz acendendo uma fogueira no descampado. Fiquei de pé olhando, tinha um menino olhando também! exclamou garantindo a veracidade do fato, esse menino até já morreu, disse rouca. Vi o rapaz acendendo a fogueira, a poeira quente das folhas voava, esquentava – esquentava uma pessoa. O menino que já morreu disse uma coisa, se não me engano acho até que ele disse assim: olhe a fogueira. O rapaz estava calado e ia dando alimento à fogueira, a cara dele ia ficando cada vez mais escura, cada vez mais escura com as chamas, também porque já era quase de noite. E eu... estava ali – eu, muito moça, muito linda, louca oh louca que eu era e ninguém sabia, quando me lembro do que me passava pela cabeça, eu era tão idealista! eu estava de pé, assim mesmo, e eu – eu amava esse rapaz, eu amava esse rapaz e amava a fogueira que ele acendia. Ele não disse uma só palavra! uma só palavra.

Já que ela falara em amor, quase a contragosto e vencendo uma discrição súbita, o homem olhou seu corpo num relance, olhou-o a cru, sem piedade, sem maldade. Para falar a verdade, ela não era nada má. Martim de repente olhou-a atento, desconfiado, como se o tivessem ludibriado até agora: é que ela era o “igual”, ela não era o “diferente”. Ele então desviou o olhar, com cautela:

– E ele com certeza amava a senhora, disse disfarçando o desconforto.

– Mas ele sabia que eu estava ali, reivindicou ela. Eu era moça, eu não tinha um pingo de pintura no rosto, eu era linda, idealista, eu estava com o casaco vermelho novo, ele sabia que eu estava ali.

– E foi esse então o seu amor? perguntou Martim com uma delicadeza de que ela não o julgara capaz.

– É, disse um pouco decepcionada, enxugando o suor. Esse também foi o meu amor.

– Durou tanto quanto a fogueira, disse Martim tolamente, talvez procurando copiar situações passadas ou coisas lidas; mas seu tom soou incerto, ele não sabia como poupá-la de encarar a pobreza de sua história de amor.

– Durou tanto quanto a fogueira, repetiu ela surpreendida olhando-o. Mas se o senhor visse – disse de repente arrastada pela doçura – se o senhor visse como havia – havia uma pequena aurora – e um pequeno horizonte por causa da fogueira. Havia tudo isso. Nós dois – acrescentou subitamente implorante como se pedisse a Martim que também este detalhe tão suave fosse levado em consideração – nós dois estávamos de pé, ele quase todo o tempo de costas para mim. – Oh, gritou então incompreendida, o senhor precisa não se esquecer de que eu era diferente do que sou, eu respondia tão depressa a tudo, quando uma folha caía, eu via logo. Não era felicidade no sentido em que hoje se fala de felicidade, os tempos mudaram tanto, hoje a gente exige mais da gente.

Silenciou, um pouco tonta. Um cobiçoso amor pela sua própria história a tomara. Ali estava ela naquele momento de pé – rica, tonta, pesada, ganhando ali mesmo, enquanto falara, um passado de que jamais suspeitara... “Mas eu tenho ainda todo um passado para trás!”, gritou-se subitamente em arrebatamento de surpresa. Até bonita ela fora! até jovem ela fora – coisas que jamais seria no futuro. Estremeceu ao pensar que se não tivesse contado a Martim sobre o rapaz da fogueira, talvez ficasse para sempre ignorando acontecimentos seus, seus de direito. Pois só ao contar é que ela se lembrara... Como se somente agora soubesse que um rapaz e uma fogueira também eram sentimentos, e que também isso era vida sua, ah, quem sabe se a veemência se devia dar ao que se esquecera, quem sabe.

A mulher então se perguntou absorta se não haveria mil outras coisas que lhe tinham acontecido... E das quais ela simplesmente ainda não sabia. Perguntou-se, com a gravidade de uma descoberta, se ela na verdade não tinha escolhido viver de alguns fatos passados, quando poderia viver de outros que tinham igualmente acontecido – e tinha direito a eles – assim como neste instante ela estava vivendo do rapaz da fogueira. Ali estava ela, tonta e pesada; o seu passado revelava-se tão cheio de possibilidades quanto o futuro. Oh mais que o futuro. Porque o passado tem a riqueza do que já aconteceu.

– E, naturalmente, a senhora não gostará mais de ninguém, disse Martim com ironia.

– Por quê? respondeu distraída. Mas esse foi um amor.

– E onde está o rapaz da fogueira? perguntou ele polido.

– Mas como posso saber?, disse espantada porque com esta pergunta o homem revelava que não compreendia nada.

Estava reduzida, pela incompreensão de Martim, a se lembrar sozinha. Aliás, neste momento ela não pedia mais que isto: pensar sozinha, como alguém que recebeu uma carta e se impacienta pelo momento imperturbado de lê-la. Nos primeiros passos cautelosos em direção a um passado inexplorado, Vitória procurava se lembrar melhor do rapaz da fogueira. Naquele inferno de fogo, na tarde suave, aquele rapaz que se movia com a sombria delicadeza que um animal tem... Foi assim que Vitória viu o rapaz no seu próprio passado. E dizer que o rapaz sempre estivera ali! Aquele homem moço, grande, escuro, mexendo no fogo, mexendo-se pela sua própria existência autônoma e irradiando o próprio calor. E a vida era grande nele, a vida tinha espaço dentro dele. Ele não era nervoso, oh nem um pouco. Havia pessoas assim: a vida era grande nelas mas isso não as deixava nervosas. Oh quantas lembranças tinha, e jamais tocara nelas! ávida que fora de viver, quando... quando na verdade já vivera. Quando na verdade o acontecimento já tinha acontecido. E ela não soubera.

Lembrou-se inesperadamente de um outro homem. Tão parecido com o da fogueira, surpreendeu-se ela. Os acontecimentos se repetindo e insistindo – e ela cega não percebera. “Mas eu sempre estive vivendo!” Lembrou-se daquele outro rapaz que estava jogando pingue-pongue e que repetira, para ela, a existência do rapaz da fogueira. Vira-o jogando no clube aonde levara o pai para distraí-lo. Há vinte anos! Há vinte anos isto sucedera. Oh a riqueza de envelhecer, quanto mais se envelhecia, mais desconhecido era o passado. A mulher piscou surpreendida: há vinte anos um rapaz jogara pingue-pongue ágil e calmo, e – enquanto o mundo continuara a se mover – ela, Vitória, parara na porta da sala do clube e, há vinte anos, ela o olhara. E olhando-o, ela soubera que era assim que se podia amar: pois que vira, por um minuto e para sempre, aquele rapaz jogando pingue-pongue.

“E ele amava a senhora?”, perguntaria Martim se ela lhe contasse também esse fato, esse fato que de agora em diante, sim, de agora em diante seria o seu futuro.

“Como posso saber?”, responderia ela. Porque logo depois saíra do clube roçando as plantas baixas. E consigo levava a impressão que hoje, agora, neste momento, enfim se revelava. Como se tivesse guardado em si o que não tinha valor. Mas tivesse guardado tanto tempo que o acontecimento enfim exalasse um maduro odor de fruto, e o vinho que fora novo tivesse ganho espessura e essa qualidade que ilumina uma taça.

O homem que neste momento aguardava ao sol não entendia nada, ela o sabia. Mas Vitória não parecia precisar mais dele – como se tivesse escolhido viver da grande liberdade que se pode ter quanto ao que já aconteceu. Olhou para Martim, num suspiro fundo, cansado. Ele não entendia nada. Mas ela não poderia sequer culpá-lo. Pois olhando agora absorta ao redor de si, nem ela própria saberia de que modo tornar lógico e racional o fato de seu profundo amor estar espalhado, o fato do mistério estar guardado, o fato de uma vez ou outra o sinal da riqueza apontar num aviso, o fato dela ter sempre procurado, na sua vocação humilde, certa glória íntima. E de que modo tornar racional o fato de que tudo isso misturado era a fonte da beleza e da bondade austera de um santo, e no entanto era também a fonte de sofrimento de uma mulher, e como tornar racional o fato de que um rapaz diante da fogueira estava lhe esquentando hoje o rosto, e como explicar que ela esperava que algo um dia vencesse nela assim como um dia S. Jorge pisou o dragão, e como explicar que sozinha na fazenda ela era a rainha de um mundo onde de noite se podia olhar para as entranhas e não mais se surpreender – oh não mais se surpreender, porque uma pessoa não é ela mesma, uma pessoa é outra; e como tornar racional o fato de que sozinha ela estava caminhando para aquele pensamento que uma pessoa deve ter pelo menos uma vez na vida, e como explicar que amor não é só amor, amor era tudo isso, e quanto pesava, ah quanto pesava. Como poderia ela culpar Martim de não compreender, se também ela não entendia...

– Por que a senhora nunca se casou? disse Martim sem perceber que a conversa havia terminado.

– É que nunca encontrei um homem honesto e compreensivo, respondeu ela simples. Todas as pessoas que conheci até o dia de hoje, quando vou ver de perto, vejo que elas são livres demais. Nunca encontrei ninguém que viesse ao encontro de minha necessidade de ordem e de respeitabilidade.

– Como a senhora é convencional! disse ele meio galanteador, e, procurando homenageá-la e à sua retidão de caráter, ele a julgou de um modo bem convencional, como as pessoas esperam ser julgadas, e para isso trabalham a vida inteira. Como a senhora é convencional, disse ele com algum respeito.

– Convencional? repetiu ela. Não, explicou-lhe devagar, é que sempre precisei de uma forma de viver. Porque também eu sou uma pessoa tão livre que procuro uma ordem onde aplicar minha liberdade.

Na restrição, pensou ela, sou uma santa. O que não disse ao homem, por causa do equívoco sobre santos.

Nem Martim entendeu bem o que ela dissera – pois não só a vida alheia ainda lhe parecia muito abstrata, como ele era mais alerta quanto a seus próprios pensamentos que aos dos outros – nem ela própria entendeu totalmente o que dissera. Mas, se ela não dissera a verdade em todas as palavras da verdade, dissera alguma coisa reconhecível. E a mulher tomou um ar vagamente satisfeito. Ambos, aliás, tiveram a tranquila impressão de algo enfim justificado.

O calor do sol estava insuportável, era meio-dia. O homem via com olhos reverberados a blusa da mulher ensopada nas axilas. Quis desviar os olhos mas alguma coisa naquela umidade escura prendia seu olhar solto como se o fascinasse. Vitória, sem se dar conta de que silenciara há um tempo e de que a confusão maior se passara, na realidade, em seu próprio pensamento – fechou então a boca, silenciando ainda mais.

– Então? disse o homem cansado.

– Então o quê? perguntou ela despertando espantada.

Como se tivesse lhe mostrado misturadamente tudo o que tinha a mostrar, a senhora nada mais tinha para ele. O que quisera de Martim? Pois tudo o que lhe dissera nada tinha a ver com a vida purificada e inútil que ela um dia escolhera, tudo o que lhe dissera nada tinha a ver com a noite de sapos que passara. E nada tinha a ver com o fato dela ter acabado de descobrir que, sem saber, já vivera. E se o conhecimento de si própria não a levara até agora a parte alguma, senão a um fundo rochoso além do qual ela não pudera ir – agora era como se a rocha se tivesse tornado friável e lhe desse passagem, enfim passagem para um passado. Oh, ela se devia isso: experimentar enfim a sua própria experiência. – E aquele homem? o que quisera ela dele? Olhou-o sem surpresa, e ele era um estranho. Ela até esquecera de lhe dizer que o denunciara, de novo esquecera. Agora que ela possuía todo um passado pela frente, ele era um estranho familiar.

E o estranho? O estranho a olhava com uma atenção gentil e curiosa. Ao olhar aquela mulher, ele estava pensando assim: as pessoas ruins são de uma tal ingenuidade! Pois o rosto de Vitória era apenas suave e cansado. Contraditoriamente, ele estava pensando: o perigo está apenas nos atos das pessoas ruins pois estes têm consequência, mas elas próprias não são perigosas, são infantis, são cansadas, precisam dormir um pouco. E olhou-a curioso, com um sorriso de cordialidade. Foi quando o olhar de ambos se encontrou – e não há como fugir: nós todos sabemos as mesmas coisas. O homem então se emocionou um pouco e, numa desenvoltura de amor generalizado, disse de repente muito jovem:

– Que diabo, minha senhora, a vida não é séria assim!

Vitória ficou um pouco chocada. Por um instante, é verdade, passou-lhe pelo rosto um ar quase astuto como se ela tivesse entrevisto nesse modo de ver, tão novo, oportunidades insuspeitas e liberdades não perigosas. Mas foi um instante só, e logo em seguida ela se perdeu do que tinha sentido e do que Martim quisera dizer. E ficou apenas com o sorriso do homem.

Ele sorria... E – e ela se sentiu tão compreendida que se recolheu rígida, como se o homem tivesse sido obsceno. Sobressaltou-se. Ela, que agora queria ficar sozinha com o seu passado, ela se sobressaltou: ainda era perigoso qualquer gesto de bondade em sua direção! ela não queria o seu sorriso! ainda era muito cedo para ela ser tentada, ela ainda não tinha envelhecido bastante! Um rápido estertor a percorreu: “não me compreenda porque senão... porque senão eu ficarei de novo livre”. E, oh Deus, ela não queria ter de novo a experiência da liberdade que a levaria a procurar de novo e de novo, e a gritar que não queria apenas um passado. A senhora se assustou pois sabia que estava perigosamente madura para receber uma caridade. “Não quebre meu poder!”, pensou ela – pois mal acabara de construir toda uma vida para trás – “não seja polido comigo, não sorria para mim, sempre foi perigoso ser bom para mim!” Aquele homem que inocentemente estava lhe jogando um osso. “Não me destrua com a compreensão”, implorou ela por dentro – ela sabia que, esquecendo o medo, iria de novo diretamente buscar o que pertence a uma pessoa, se esta pessoa...

A senhora olhou aquele homem, aquele homem que era cruamente o dia de hoje, o impossível dia de hoje, e como tocar diretamente no dia de hoje, nós que somos hoje? ela teve horror do homem, assim como temera a grande praia solitária brilhando em graça e expectativa de felicidade, e tudo é teu se tiveres coragem – mas ela só tinha coragem de olhar de frente quando já era impossível olhar de frente, e só agora pudera olhar o desaparecido rapaz da fogueira, e o passado devia estar cheio de coisas que ela enfim poderia olhar sem perigo. Mas – mas de súbito, naquele homem ali, o tempo viera de tão longe para se esborrachar em: hoje! o urgente instante de agora. “Não me compreenda”, pensou já menos convulsiva e, para sua própria sorte, um pouco mais triste, “não me ame nem por um segundo, eu já não sei mais ser amada, é tarde demais, adeus.” Ela não sabia como ser amada. Ser amada era tão mais grave que amar. Aquela mulher não sabia nada. Por erro de vida – e bastava um erro, nessa coisa frágil que é a direção, para que a pessoa não chegue – por um erro de vida ela jamais usara o silencioso pedido que usamos e que faz com que os outros nos amem. E, espoliada, se tornara tão, tão orgulhosa. E agora – agora ela já não sabia mais ser amada.

No entanto – no entanto, quem sabe se...?

Então Vitória desviou seus olhos dos olhos sorridentes e bons do homem. “Não”, disse de novo sua alma, assim como dissera uma noite na ilha. Não.

E o desprezo por si mesma deixou-a corcunda e pequena entre as grandes árvores, porque de novo ela dissera não.

Que sentiu então? O que ela sentiu foi assim: oh Deus, que faço desta felicidade ao meu redor que é eterna, eterna, eterna, e que passará daqui a um instante porque o corpo só nos ensina a ser mortal? Foi isso o que a senhora sentiu porque, ao dizer de novo “não”, ela, ferida como estava, vira ao mesmo tempo as árvores, e por puro reconhecimento da beleza, ela amara a beleza que não era sua, e amara a tristeza que era sua, e, altiva como era, sentira-se por um instante muito, muito feliz, só por orgulho, só por insolência.

O que Martim guardou de Vitória foram imagens sobrepostas e indecisas. Ora era a imagem de uma mulher confusa que suava embaixo dos braços – e então ele se perguntou se não teria simplesmente inventado perigo quanto à sua própria permanência no sítio, pois uma mulher suada não era perigosa. Ora aparecia-lhe, solta, a imagem de um rosto – e ele já não poderia dizer que o conhecia, esbarrando no peculiar mistério de uma cara; e então a mulher se tornava perigosamente imprevisível, com seus dois olhos ocos. Mas depois a imagem que ele tinha da mulher se tornava de algum modo tão familiar como se ele tivesse tocado em seu corpo todo, ou como se ambos ao sol não tivessem se dado conta de que vários anos de intimidade se haviam passado. Mas então, como se realmente eles tivessem vivido juntos vários anos de comum amor, dentro da familiaridade, ele de repente de novo a desconhecia.

Quando, porém, ele se lembrou dela dizendo-lhe que era uma poetisa – então alguma coisa como o ridículo cobriu a lembrança da mulher ossuda, e a poetisa não se tornou mais perigosa, ela com suas quatro rainhas. Quem, na verdade, lhe garantira que Vitória o denunciara? Ninguém. O que acontecera, provavelmente, é que a dona do sítio, intrigada, mencionara sua presença ao professor pois este, aparentemente, se fizera guia espiritual daquelas mulheres incertas e menstruadas. Não havia, pois, de que ter medo.