A Maçã no Escuro
Capítulo 9
9
Só quando Vitória foi de novo ao milharal com Francisco é que Ermelinda teve oportunidade de aparecer com uma cesta de comidas:
– Para um piquenique no depósito, disse ela esperando dele alegria pela surpresa.
Mas, aborrecido, ele murmurou qualquer coisa sobre a mania que mulheres têm de fazer piquenique, e por um instante ela murchou desapontada. Só por um instante precisou fazer o vago esforço de fingir que “tudo estava bem”. Porque, embora comesse sozinha os sanduíches, refez-se rápida, e agora falava com volubilidade, embriagada pela alegria que, “quisessem ou não”, existia num piquenique. Sem pestanejar, Martim recebeu cínico vários pingos de saliva no rosto. Por algum motivo, ele procurou ser irônico e manter-se acima da situação.
Mas a verdade é que para ele era um repouso ter aquela mulher que se dava fácil, como se tê-la à sua disposição já fosse um marco alcançado: até aí ele já dominara. Quanto mais tola, mais dele ela era: ela compensava a dificuldade que Martim estava tendo consigo mesmo. E, num alívio que lhe pareceu dever ter sido o do homem quando a mulher fora enfim criada – tirando-lhe enfim a liberdade e enfim impossibilitando-o de ser formidável – ele já sorrindo, mal a ouvia. A moça era uma dessas que permitiam, sem se ofenderem, que um homem ficasse ausente, o que ele fez com naturalidade como se fossem casados. E em breve, ausente, já sorrindo, ele estava lisonjeado pela tolice que fluía dela com doçura e que o adormentava em paz. A moça tinha um cheiro de caixa de pó de arroz que o nauseava um pouco.
– Você não queria tomar um banho? dissera-lhe ele um dia com muita delicadeza, é que não aguento esse cheiro, disse constrangido.
– Mas é de pó! falou ela surpreendida.
– Pois é, mas não aguento.
– Está bem, disse ela pensativa. E nunca mais cheirou a pó.
Ela agora acariciava seus cabelos com atenção, insinuante, distraída, pequena:
– Você acredita na outra vida? perguntou-lhe então, alisando-lhe imediatamente os cabelos com mais intensidade como se soprasse em cima da picada para que esta doesse menos. Por um instante ele se surpreendeu como se, com a aparência de um passarinho que belisca leve com o bico, ela fosse capaz de dar um bote. Mas foi apenas um instante de desconfiança, o dele, e ele sorriu pegando-a, tola e suave como ela era, e tão curiosa como uma mulher é curiosa, o que fez ele se lembrar de sua esposa.
– Não, não acredito, disse ele.
– Burro! disse ela rindo. Como na intimidade as pessoas costumavam se ofenderem, ofenderem-se seria uma intimidade, e assim eles se sentiam muito bem juntos. Por covardia de suportarem apenas amor, eles já o haviam com certa pressa ultrapassado, entrando na familiaridade e perdendo com alívio o tamanho maior das coisas.
Ali, enfim familiar, toda revelada para ele, o homem a examinou. Ela não seria bonita, se uma pessoa não a amasse. Mas tinha a beleza que se vê quando se ama o que se vê. Toda mãe de filha feia deveria prometer-lhe que ela seria bonita quando a sabedoria do amor esclarecesse um homem, pensou ele. Ao redor da pupilas escuras de Ermelinda, por exemplo, Martim viu um círculo levemente âmbar, o que sem amor escaparia. Viu também que o nascimento dos cabelos na nuca era mais suave, e esses fios curtos demais para se prenderem na trança pairavam em luz no ar. Nos braços os pelos claros douravam a moça como se ela não pudesse ser tocada. Uma vez amada, ela era de rara delicadeza e beleza. Ele olhou-a curioso, simpático. Ela era capaz de fazer a felicidade de um homem; mas estranhamente tivera que enganá-lo com truques até fazê-lo feliz, e só então é que lhe mostrara que não o enganara e que a felicidade que lhe dava era real.
Disso tudo o homem vagamente se dava conta, e olhava-a, sentindo a fina energia que dela se emanava e que ele próprio despertara nela. Que ela própria o obrigara a despertar nela – para que ela, como agora, pudesse lhe dar em troca essa fina energia. Em todo o cerco que Ermelinda fizera até capturá-lo, ela usara meios dúbios, mentirosos, desagradáveis; assim como por intermédio de uma suja arte se revelasse a vida. O amor de ambos ele lhe devia, e à sábia falta de escrúpulos dessa moça que, tendo conseguido o que queria, ali estava, inteiramente inocentada pelo seu próprio prêmio. Tudo isso o homem pensou, com tranquilidade e sabedoria, porque tinham acabado de se abraçar muito concentrados, e era assim que ele agora se sentia: meditativo e tranquilo.
Depois ela perguntou, tendo no rosto a inocência das pessoas muito curiosas:
– Você já gostou assim de outra mulher?
Ele então, no enevoamento que o repouso feminino lhe dava, de olhos semicerrados e quase sem tê-la ouvido, continuou o próprio pensamento sobre a outra mulher e disse assim:
– Ela me procurava, não porque eu era eu ou porque ela era ela, mas me procurava com a preguiça que tinha. Ela era muito preguiçosa, disse ele com prazer em recordar. E me interrompia para dizer que tinha ido ao dentista. Vivia me perguntando que horas eram. De vez em quando me dizia: que horas são.
– Oh, eu sou tão preguiçosa! disse Ermelinda, sou uma preguiçosa: eu só quero ser feliz mas não ter todo esse trabalho horrível de me fazer feliz. Sou uma pessoa tão diferente! muito preguiçosa mas querendo as coisas. Que é que você está pensando? perguntou então com súbita angústia – pois ele estava ali deitado, de repente inacessível como se uma circunferência de um centímetro de isolamento o rodeasse. Que é que você está pensando? implorou ela acusando.
– Em nada, disse ele simples.
Ela suspirou de leve, apaziguada e imediatamente sonhadora, imediatamente ela mesma se isolando garantida dentro de sua própria circunferência.
– Eu sempre quis uma coisa por assim dizer para sempre, disse ela.
Como em relação aos outros ele era muito sensato e usava um ofensivo tom de adulto, ele disse:
– Isso é absurdo.
– Pois é, disse ela concordando apenas para não ficar só, porque quando falava a verdade encontrava a súbita muralha dos outros se defendendo. É absurdo, concordou ela mentindo por sensatez.
Nenhum dos dois se questionou o que queriam dizer com a palavra absurdo, nem se deram conta de que haviam deixado de lado, intocada, a própria coisa sobre o que estavam falando. Assim se passou a conversa a respeito de “para sempre” – sobre a qual eles pensariam mais tarde, quando cada um tivesse de novo a garantia de estar só.
– Ela era bonita? indagou Ermelinda de repente gulosa.
Um pouco espantado, meio ofendido porque a esposa de um homem devia ser intocada pela amante de um homem, ele acordou ligeiramente e olhou-a:
– Não sei, disse muito desconfiado, tentando adivinhar se Ermelinda estava poluindo alguma coisa sagrada. Não sei, disse então mais sossegado, a lucidez do sono voltando. Não sei, há muito tempo já não nos víamos mais, já não falávamos diretamente um com o outro, como se só tivéssemos alma. Que horas são, me perguntava ela. Ela me dizia: que horas são? Hoje fui ao dentista! ela me dizia assim: hoje fui ao dentista.
– Há muito tempo eu não vou ao dentista. Graças a Deus tenho bons dentes, mas é até bom quando vou porque aproveito e passo uns dias em Vila, aproveito e faço compras, vou ao cinema, tenho uma saudade enorme de cinema.
– Ela também tinha bons dentes, disse ele um pouco aborrecido.
– Ora, não estou querendo dizer que ela não tivesse, estou falando exclusivamente de mim, porque afinal nem sei quem é “ela”, disse procurando ofendê-lo ao tratá-lo com súbita cerimônia.
Como o tom monótono e doce da moça enchesse o depósito, ele, do fundo da meia-luz em que pairava, disse-lhe:
– Imagine uma pessoa que tenha precisado de um ato de violência, um ato que fizesse com que o rejeitassem porque ele não tinha simplesmente coragem de se rejeitar a si mesmo. Uma pessoa covarde, talvez? – ele parou angustiado, e sentou-se na cama.
– Deite-se, disse Ermelinda com ansiosa autoridade porque ela nunca o tivera à sua disposição por tanto tempo, e tinha tanta coisa ainda a dizer.
Ele olhou-a em suspeita por um momento, mas depois riu apaziguado:
– Não tem perigo que eu esteja lhe contando, disse-lhe gozando o fato dela não entendê-lo, porque estou contando o que sou, e ninguém pode denunciar o que os outros são, ninguém pode fazer sequer uso mental do que os outros são – Martim achou tanta graça em usar a palavra antiga “mental” que riu; era palavra estranha e vazia, e ele estava se caceteando um pouco. – Depois que eu acabar de falar, você me desconhecerá ainda mais: é sempre assim que acontece – quando a gente se revela, os outros começam a nos desconhecer.
– O quê? perguntou ela intrigada, interrompendo por um instante seus próprios pensamentos.
Ele percebeu então que falara demais, a ponto de interessá-la, e olhou-a rapidamente de lado. Mas ou ela não ouvira ou não se interessava. Então, estimulado pela sua presença sem importância, ele disse:
– Imagine uma pessoa – e repetiu tudo.
Depois, como um galo que tivesse orgulhoso cantado sozinho no terreiro, grunhiu com gosto e sacudiu a cabeça várias vezes, assentindo.
– Mas quando consigo ir a Vila, disse ela, tenho tanta coisa para comprar que não dá tempo. Meu ideal seria passar uma semana inteira em Vila, mas Vitória não quer.
– Você não gosta muito de mulheres, não é? disse ele com curiosidade.
– Bem, disse ela relutante se concentrando, numa ilha deserta eu preferia ficar com um homem.
Só depois que falou é que percebeu a malícia implícita, e sorriu excitada e modesta com a sua própria capacidade. Ele também riu um pouco, examinou-a com um carinho também feito de fria curiosidade. Nesse momento Ermelinda estava tranquilamente engolindo uma pílula tirada da cesta de piquenique.
– Por que você toma tanto calmante? perguntou ele sorrindo.
– Ah, disse ela com simplicidade, é assim: vamos dizer que uma pessoa estivesse gritando e então a outra pessoa punha um travesseiro na boca da outra para não se ouvir o grito. Pois quando tomo calmante, eu não ouço meu grito, sei que estou gritando mas não ouço, é assim, disse ela ajeitando a saia.
Embaraçado com a confidência dolorosa que ela fizera sem nenhuma dor, ele riu. Ermelinda notou de repente seu olhar, interrompeu-se, tomou consciência de si mesma – “sou alguém que faz outra pessoa me ver” – e fez um rosto falsamente animado, representando o papel que na certa ele esperava dela. Mas inesperadamente, como se dessa vez ela tivesse ouvido o próprio grito, disse-lhe intensa, dura, sem nenhuma esperança:
– Eu te amo.
– Sim, disse ele depois de uma pausa.
Ambos ficaram um instante calados, esperando que morresse a ressonância do que ela dissera.
Então, como ela se abaixasse por um momento, caíram de sua blusa cascas de maçã. O que, antes mesmo dele entender, confirmou de algum modo a doçura daquela moça. Ele sorriu apanhando as cascas, virou-as entre os dedos, e começou então a não compreender: não havia dúvida, eram mesmo cascas de maçã. Sem interromper a tagarelice, ela o viu com as cascas na mão e disse:
– É que os perfumes são tão caros.
– Mas as cascas estão murchas, disse ele perscrutando-a atento.
– Já? espantou-se ela examinando as cascas com muita curiosidade. Ora veja. Hoje boto outras.
Ela era simples e mulher, e ele podia rir dela – e como outra forma de rir, ele pela primeira vez acariciou seu rosto, afastou com muita delicadeza a espécie de bandós entrançados que lhe emolduravam a cara fina. E a cara que apareceu, despida e forte, fê-lo de súbito retirar as mãos como se ele tivesse pisado sem querer no rabo de um bicho.
Até que ponto ela mentia?! até que ponto se fingia ela de mulher? pois as mandíbulas daquela moça eram mais largas do que ele supusera, e lhe davam um duro ar de beleza que ele não queria nela. Fingira-se ela de fraca? pois com as mandíbulas à mostra, como as de um bicho de presa, ela se revelou encarniçada e suprema. Ele se assustou primariamente como uma criança se assusta quando toca numa coisa que se mexe, e olhou-a acusando-a.
Tendo, porém, no seu espanto, retirado as mãos – os bandós imediatamente caíram no lugar, e um rosto de novo indeciso desmentiu a visão que involuntariamente ele tivera. E agora, sem a força do queixo, os olhos perderam a horrível expressão vitoriosa que viera confirmar a Martim certos vagos pensamentos, logo afastados, de que aquela moça o usava para algum fim – o que o irritava. Ele criara a liberdade de ser só e de fugir dos emaranhamentos, mas cada vez mais o círculo invisível se apertava em torno dele: como nós nos comemos! Vitória sempre mais atenta, como estranho modo de exigir dele alguma coisa; Ermelinda com as mandíbulas da ambição reveladas por um instante. E ele, diante daquelas mulheres fortes, se sentiu abjetamente inocente, com espanto ele parecia ser o mais puro de todos. E se esquivava para não ser contaminado; a vida de todos começava a se entremear obscuramente com a sua. Mas ele próprio? ele próprio, disfarçando a ansiedade, quantas vezes já procurara divisar a filha da mulata, sem sequer saber por que queria tanto o contato de uma criança, como se só ela fosse tão pura quanto ele. O homem antigo voltara? o homem antigo que parecia precisar de uma pureza da qual ele não saberia fazer uso? De novo, em algum momento indeterminado, errara ele de caminho, e voltara a ser o homem antigo?
– De que é que você gostou em mim? perguntou Martim autoritário.
– Ah, disse Ermelinda voluptuosa como se enfim ele tivesse tocado no ponto melhor da questão, e toda a sua atitude agora era a de quem ia ter finalmente uma boa conversa entre mulheres. Pois não sei! disse íntima, e o homem teve a sensação desagradável de que ela não estava falando para ele mas contando a respeito de ambos a uma terceira pessoa. Começou, disse, com uma espécie de curiosidade, e depois foi indo, e foi indo, e quando vi não era curiosidade, não era mais nada: era você e eu!
– Mas, disse ele um pouco irritado, que é que você gostou em mim?
Ermelinda o olhou um pouco espantada, quase ressentida. Imediatamente dentro dela alguma coisa se fechou com dureza: e ela o olhou sem nenhum amor. Veio-lhe à cabeça uma tentação de ofendê-lo com a verdade que ele tão perigosamente pedia – como se a verdade é que não o amava. Mas ela bem sabia que o amava, e teve um riso de alívio como se mudasse de assunto:
– Eu tinha uma espécie de fascinação formidável pelo que você é! disse ela como se inventasse uma história, pois acabara de escolher uma outra verdade igualmente verdadeira, só que esta ela podia lhe participar sem mentir. Eu não sei exatamente o que você é, mas sou tão fascinada por isso. Aconteceu pouco a pouco, em pouco tempo. Não posso lhe dizer o que gosto em você, não consigo separar você em partes. Acho que sinto você como uma pessoa inteira, disse ela muito fina.
– Mas como é que aconteceu você gostar de mim? disse ele duro como se a moça o estivesse deixando amorfo.
– Não sei, certas pequenas coisas, não sei, coisas pequenas que já não sei mais quais são.
O olhar exigente do homem fê-la recuar e, porque ela estava ferida com a falta de cuidado com que ele fazia pergunta tão perigosa, a moça de repente se tornou insolente e irônica:
– Se eu me apaixonar de novo, anotarei todos os dias o que senti para poder depois fazer relatório! Mas tenho certeza, disse ela com desprezo generalizado por pessoas, que olhando minhas anotações eu terei uma mão cheia de poeira.
Pois uma mão cheia de poeira era o que ela estava tendo agora. E o que a moça tinha agora era um passado cheio de desilusão a ponto de ser irônica.
Mas de tarde, seu corpo sendo muito mais esperto do que ela, ela teve uma dor de cabeça que a exprimiu perfeitamente. De tarde, deitada no seu quarto, lidando enfim com uma boa, sólida, satisfatória dor de cabeça, como quem tem uma boa e nutritiva refeição.
Nem sempre as coisas aconteciam iguais. Pois na próxima vez em que estiveram juntos, a perfeição a envolveu. Ali no depósito sujo, Ermelinda se irradiava. Vitória estava longe, o campo era inteiramente cortado pela porta fechada do depósito. E a moça estava como queria: esquecida de seu medo, numa felicidade crepitante, falando sem parar. Tudo nessa tarde lhe pareceu estar tão seguro que ela até podia se gostar em devaneios: enfim presa e concreta, já não temia ir longe demais e não ter para onde voltar. Estava ancorada, e arriscava-se enfim na liberdade, sem temor da possibilidade de ultrapassar a linha divisória quase inexistente entre ela e o campo. Enfim tão segura que podia até mentir. E podia, como agora fazia, se apenas quisesse, inventar um tipo que, mesmo que não a simbolizasse, agradava-lhe como escolha: assim, falando com Martim, ela inclinava a cabeça para trás, o que lhe dava um ar entre ousado, ambicioso e cruel, não tendo ela própria nenhum dos três atributos, nem desejando tê-los.
Ou então fingia de ausente e pensativa, embora na verdade estivesse tão atenta ao seu trabalho de fingimento como uma costureira com os detalhes de sua costura. Viver com Vitória, que a conhecia demais, era horrivelmente restritivo: Vitória sabia demais como lidar com ela. Ao passo que Martim não a conhecia, e com ele ela podia inventar vida nova. E sobretudo um engenheiro, “um homem culto” – quem sabe ele lhe diria antes de ir embora a palavra que lhe tirasse para sempre o medo? Tinha esperança nele porque ela conhecera vários homens cultos que não acreditavam em Deus e não acreditavam que se vivia depois de morrer.
Oh, ele iria embora, sim. Mas ela não se importaria. Contanto que ele deixasse com ela a palavra, talvez de descrença, que lhe desse para sempre a mesma segurança que sua presença lhe dava. Aquele homem teria que deixar ali a parte viva de sua vida. Aquela coisa que faz com que uma pessoa exista aos olhos de uma outra: Ermelinda o olhou ávida e alguém poderia dizer que ela o odiava, mas era ambição apenas, e fome apenas. Um pouco mais pálida, então, porque o tempo era curto e agora era o momento de lhe pedir a palavra – um pouco mais pálida, tomando cuidado para não ser clara demais e se revelar, ela disse com um riso agudo e desagradável:
– Por exemplo, eu não entendo o que é o infinito! ora veja só!
Através da gargalhada com que se disfarçou, ela o olhou intensa como através de um buraco de fechadura, e seu coração batia.
Martim estava nessa tarde pregando algumas tábuas soltas da parede do depósito, e olhou-a de través, divertido.
– Aposto, disse ela bem faceira sacudindo o dedo perto de seu rosto, aposto que um engenheiro sabe dessas coisas!
Martim afastou sem pressa o dedo incômodo de seu rosto, e continuou a trabalhar.
– Como é, continuou ela lutando por manter a coqueteria, tentando tirar do rosto a expressão de urgência, e dos olhos o pedido de socorro – como é que o mundo, por exemplo, nunca acaba? e nem nunca começa, por exemplo... Isso é horrível! não é?
A voz da moça tremeu um pouco e ele, que estava sorrindo lisonjeado pelo fato dela ser ignorante, olhou-a rapidamente: de súbito ela estava tão implorante e emocionada que, ilogicamente, pareceu ao homem que ela viera com sua irritante cesta de piquenique para, através de todos os labirintos, fazer esta pergunta: como é que o mundo nunca acabava nem nunca começava. Martim estava intrigado e riu de novo:
– A ideia é realmente monstruosa, concedeu ele.
Ela se prendia aos lábios do homem com uma atenção tão completa e, pela primeira vez, estava tão desatenta de si mesma, que seu rosto ficou todo exposto – e Martim viu uma cara pálida, nem feia nem bonita, de traços que pareciam ter sido feitos para uma única expressão: a da expectativa.
– Que é que é monstruoso? perguntou assustada como se em vez de lhe ter dado a mão para soerguê-la, ele a tivesse empurrado ainda mais fundo.
– A ideia de um mundo que nunca tenha começado nem jamais acabe, disse ele um pouco aborrecido pelo fato da moça o ter posto em situação de dizer uma coisa que nem ela nem ele compreendiam.
– Então? disse, toda ela aguardando de cabeça torta, então?
Ele não entendeu o que ela esperava, e repetiu:
– Então o quê?
– Então? repetiu ela como se a insistência em si mesma fosse esclarecedora.
Ele alçou os ombros, bateu mais um prego na tábua, e disse:
– Bem, então imagine o contrário: um mundo que um dia começasse e que um dia acabasse. Pois a ideia é igualmente monstruosa.
Ermelinda continuou a esperar como um surdo estende um ouvido surdo. Mas, dando-se inesperadamente conta de que estava muito séria e que isso não agrada aos homens, ela teve um riso – que no entanto se esgotou rápido demais. Sua boca então pareceu sofrer, torceu-se várias vezes involuntariamente:
– Vou embora, disse devagar, levantando-se e sacudindo as migalhas do colo.
No dia seguinte, logo que Vitória desapareceu, Ermelinda, no seu trabalho minucioso, falou com Martim sobre a morte de um peru, e sobre o que estaria agora acontecendo com o peru que fora comido. E tão bem guiou Martim que ele terminou por dizer, talvez inspirado pelo ditado de que o peru morre na véspera:
– A coisa é tão bem-feita, disse ele, que ninguém morre um dia antes. Morre-se exatamente no instante da própria morte, nem um minuto antes, a coisa é perfeita, disse ele.
Mas se era exatamente dessa perfeição que ela tinha medo! Ermelinda olhou-o rígida. Martim ficou um pouco embaraçado. Mas guiado por uma intuição que nascia do próprio modo carinhoso como ele sempre a tratava, ele disse ilógico, tateando e sentindo-se generoso sem saber em relação a quê:
– Não se sabe de onde se vem e não se sabe para onde se vai, mas que nós experimentamos, nós experimentamos! e é isto o que temos, Ermelinda, é isto o que temos!
Martim não soube interpretar o olhar branco da moça onde as pupilas pareceram de repente mais um traço inexpressivo do rosto, e não algo com o qual se enxergar. Era como se ela tivesse acabado de cortar em si a possibilidade de pensar. O que fez com que Martim se mexesse inconfortável: ele não sabia que valor tinha o que ele acabara de dizer, nem para ela nem para ele próprio. “Nós já começamos a nos dizer coisas que ficam nadando no ar”, pensou ele como se este fosse o sinal de uma transição inescapável e o delicado modo como as coisas se corrompem, sem que nada se possa fazer. Martim notara que ambos já estavam “conversando”.
Mas no dia seguinte, mal Vitória se afastou, Ermelinda voltou e, com uma altivez de quem já não tem muito a perder ou a resguardar, perguntou ao homem: “como era o destino”.
Desta vez, porém, sem que entendesse por que o engenheiro estava tão colérico a manhã toda – talvez porque já estivesse cansado dela? – desta vez, em lugar de responder, ele repetiu atordoado: o destino? como é o destino?!, repetiu ele com uma surpresa que deixou Ermelinda magoada. Depois, a impossibilidade que ele teve de exprimir a própria cólera deu ao rosto do homem, por um instante, um ar estarrecido que Ermelinda, rejubilando-se, interpretou como participação – até descobrir que a repetição da pergunta era apenas uma violência e um cansaço: qualquer que fosse a palavra seguinte, esta viria como um murro. Ela esperou intimidada.
– Que destino, que nada! disse ele afinal, furioso.
A moça não chorou. Passou imediatamente a falar de coisas que pudessem lisonjeá-lo: a dizer que o sítio mudara tanto depois que ele viera, que tudo tinha agora um aspecto consertado e novo, “que agora era outra coisa”. E se isso não chegou a transformar a expressão carrancuda do homem, pelo menos acalmou-o e agradou-o. E a moça calculou rápida, com os olhos piscando, que ainda tinha o direito de voltar ao depósito algumas vezes. Poucas, pois o tempo passava... seu rosto se crispou na antecipação. Com uma esperança que tentou ser mais forte que sua incredulidade, ela se prometeu: quem sabe se da próxima vez... Não se interrompia mais um instante para se perguntar honestamente o que esperava de Martim.