A Maçã no Escuro

Clarice Lispector · Capítulo 15 de 30

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A Maçã no Escuro

Capítulo 4

4

Nesse intervalo amanheceu.

E abrindo a primeira vala na luz da manhã, ao mesmo tempo que as mãos grossas lhe obedeciam, Martim já começara a se aplicar num trabalho de infinita exatidão e vigilância. Que era o de açambarcar-se e, consigo, o mundo? Era isso mesmo o que ele fazia? Mas será realmente importante saber o que ele fazia? Ele estava fazendo um sonho – que era o único modo como a verdade podia vir a ele e como ele podia vivê-la. Será então indispensável entender perfeitamente o que lhe acontecia? Se nós profundamente o entendemos, precisamos também entendê-lo superficialmente? Se reconhecemos no seu mover-se lento o nosso próprio formar-se – assim como se reconhece um lugar onde pelo menos uma vez se esteve – será necessário traduzi-lo em palavras que nos comprometem?

Às cegas, embora, e tendo como bússola apenas a intenção, Martim parecia querer começar pelo exato começo. E reconstruir a seu modo pela primeira pedra, até que chegasse ao instante em que houvera o grande desvio – qual fora o seu impalpável erro como homem? Até que chegasse de novo ao instante em que o grande equívoco uma vez se dera provocando a vastidão inútil do mundo. E quando, refeito pouco a pouco o caminho já andado, ele chegasse ao ponto em que o erro acontecera, então ele tomaria a direção oposta ao desvio. Na luz da manhã pareceu-lhe simples assim, e ele estava tão fresco e limpo como um menino que vai de manhã cedo à escola. Na luz da manhã pareceu-lhe simples assim: quando o mundo estivesse refeito dentro dele, ele então saberia agir. E sua ação não seria a ação abstrata do pensamento, mas a real.

Qual? “Qualquer que fosse”, disse ele com insolência tranquila. E se o tempo fosse curto, se Vitória o denunciasse antes dele estar pronto, e não lhe sobrasse liberdade para a ação – ele pelo menos teria chegado a saber qual é a ação de um homem. E isso também era um máximo. (Oh, bem foi avisado que se se explicasse ninguém entenderia, pois explicando como é que um pé segue o outro ninguém reconhece o andar.) Oh havia pouco tempo, sim, ele sabia. Quase podia ouvir o enorme silêncio com que ponteiros de relógio avançavam. Mas não se sentia revoltado por ser o guardião de tempo tão curto: o tempo de uma vida inteira também seria curto. Aquele homem já aceitara a grande contingência.

No primeiro dia, pois, ele pediu de si mesmo apenas a objetividade. O que se tornou uma fonte de cuidados e enganos. Por exemplo, um passarinho estava cantando. Mas do momento em que Martim tentou concretizá-lo, o passarinho deixou de ser um símbolo e de repente não era mais aquilo que se pode chamar de passarinho. Para compensá-lo, os galos e galinhas se tornaram a seus olhos rigorosos o próprio dia: andavam apressados, brancos entre a fumaça, a manhã de sol, se Martim não fosse rápido a perderia, os galos corriam, às vezes abriam as asas, as galinhas sem ocupação dos ovos eram livres, tudo isso era a própria manhã e quem não fosse rápido a perderia – a objetividade era um vertiginoso relance. Martim logo aprendeu a questão do ritmo: quando seus olhos tentavam mais do que descrever as coisas, de seu esforço restava uma forma vazia de galo. Aliás, no seu trabalho de construção da realidade, havia em desfavor de Martim a novidade das coisas não serem mais óbvias; ele esbarrava a cada momento. Contra si, também, havia a consciência do tempo precioso. Embora Martim tivesse uma grande vantagem: se a vida era curta, os dias eram longos. Ainda a seu favor ele tinha o fato de saber que devia andar em linha reta, pois seria pouco prático perder o fio da meada. A seu desfavor tinha um perigo à espreita: é que havia um gosto e uma beleza em uma pessoa se perder. A seu desfavor tinha ainda o fato de entender pouco. Mas sobretudo a seu favor tinha o fato de que não entender era o seu limpo ponto de partida.

Está bem: isso era uma primeira tentativa de reconstrução e com um limpo ponto de partida.

Mas – mas teria ele começado demais pelo começo?

Pois olhou para o campo vazio e pareceu-lhe que remontara à criação do mundo. No seu pulo para trás, por um erro de cálculo tinha recuado demais – e por um erro de cálculo pareceu-lhe que se colocara inconfortavelmente em face da primeira perplexidade de um macaco. Como macaco, pelo menos seria suprido pela sabedoria que faria com que ele se coçasse e com que o campo fosse gradualmente alcançável aos saltos. Mas ele não tinha os recursos de um macaco.

Teria começado excessivamente pelo começo? E depois acontece que, apesar de seu heroísmo, havia uma questão prática: ele não tinha tempo material de começar de tão longe. Já era pouco o tempo que lhe restava para percorrer o que lhe levara quase quarenta anos para andar; e não só para percorrer de um modo novo o caminho já andado, mas para fazer o que não pudera fazer até então: atingindo a compreensão, ultrapassá-la aplicando-a. Já para isso era pouco o tempo. Quanto mais para começar, por assim dizer, do nada! No entanto, se quisesse ser leal para com a própria necessidade, não poderia enganá-la: tinha que começar pelo começo primeiro.

O que, cavando e cavando, de repente lhe pareceu de novo fácil. Pois cada minuto podia ser o tempo inteiro – se uma pessoa estivesse bastante livre para atender a esse minuto. Martim sabia disso porque uma vez, em um minuto já perdido, ele aceitara a cólera, e um caminho se abrira como um destino em um minuto. E mais tarde, em um minuto, ele não tivera medo de ser grande; e sem pudor, em um minuto, aceitara, como sendo seu, o papel de homem.

Foi assim, pois, que já tendo perdido na montanha a primeira modéstia, Martim foi perdendo sem sentir as derradeiras amarras, até que já não era monstruoso uma pessoa se dar função de pessoa e de “reconstruir”. O que lhe pareceu facílimo. Até hoje tudo o que vira fora para não ver, tudo o que fizera fora para não fazer, tudo o que sentira fora para não sentir. Hoje, que se rebentassem seus olhos, mas eles veriam. Ele que nunca tinha encarado nada de frente. Poucas pessoas teriam tido a oportunidade de reconstruir em seus próprios termos a existência. À nous deux, disse de repente interrompendo o trabalho e olhando. Porque era só começar.

Mas como se tivesse tido um sonho infantil olhou de novo o passarinho que cantava e se disse: que faço dele?

Pois já na sua primeira visão um passarinho não cabia. Tudo lhe fora dado, sim. Mas desmontado e aos pedaços. E ele, com peças sobrando na mão, não pareceu saber como montar a coisa de novo. Tudo era dele para o que quisesse fazer. No entanto a própria liberdade o desamparava. Como se Deus tivesse atendido demais o seu pedido e lhe entregasse tudo. Mas tivesse ao mesmo tempo se retirado. A campina era toda de Martim, e mais um passarinho que cantava. E dele também, nesse tempo curto, era a vida inteira. E ninguém e nada podia ajudá-lo: fora exatamente isso o que ele próprio preparara com cuidado, e até com um crime preparara. Mas se astuciosamente começara pelo mais fácil – que mais simples que um passarinho? – então perguntou-se embaraçado: que faço de um passarinho cantando?

Olhou então o passarinho com severidade. Mas ele – ele não soube deduzir. É verdade que, concentrado e cheio de muito boa vontade, à força de fixar o passarinho, conseguiu uma tensão máxima que se assemelhou a uma sensação de beleza. Mas só isso. Nada mais. Ver o passarinho cantando seria o limite de sua intuição? dois-e-dois-são-quatro é o grande pulo que um homem pode dar?

Como se vê, esse primeiro dia de objetividade foi sonambúlico. Se ele procurava passar do espírito de geometria para o de finesse, as coisas obstinadamente não tinham uma finesse alcançável pela sua grande boca e pelas suas mãos pouco hábeis. Foi, pois, grande esforço espiritual o seu. E um pouco chato. O que lhe valeu é que ele tinha a teimosia dos que, não sendo bastante previdentes para enxergar a dificuldade, não veem obstáculos. O que também lhe valeu é que, tendo se habituado ao fato de não ser brilhante, pensou que mais uma vez a dificuldade era apenas sua; de modo que se forçou. Até que chegou a um ponto de responsabilidade preocupada em que lhe pareceu que se ele não estivesse consciente de que as flores cresciam, as flores não cresceriam.

No entanto – no entanto, nesse mesmo dia houve momentos em que, à força de se aplicar em procurar entender, foi como se, batendo com uma vara na terra seca, ele sentisse que ali havia água. É verdade, também, que aí parava o seu engenho.

Foi de noite que Martim teve um pensamento mais ou menos assim: se a história de uma pessoa não seria sempre a história de seu fracasso. Através do qual... o quê? Através do qual, ponto. Em seguida, relutante em utilizar esse pensamento, refugiou-se no pensamento sobre seu filho. Pois o amor pelo seu filho era uma das verdades de que ele mais gostava.