A Maçã no Escuro

Clarice Lispector · Capítulo 22 de 30

Páginas do PDF

A Maçã no Escuro

Capítulo 2

2

No domingo límpido que parecia ter amanhecido antes da hora o homem teve a impressão de ter apenas inventado o perigo. No céu redondo os anjos seguravam a ponta das nuvens – foi assim que ele teve ideia de paz inofensiva.

Vendo mais tarde Ermelinda com os cabelos frisados tornou-se claro que ela desaparecera no dia anterior para ondular o penteado: fora apenas isso então! E – por que não? – a calmaria apenas significara talvez a véspera do último domingo do mês pois agora Martim compreendia o que representava como revolução a visita do professor e de seu filho: na manhã alegre duas galinhas aos gritos foram agarradas e apareceram mortas na cozinha. Da despensa saiu marmelada para rechear um bolo.

E às onze horas, detrás da porta do depósito, ele viu afinal um carro velho se aproximar. O homem baixo e gordo que descia nada tinha do alemão! e o rapaz desconfiado que o acompanhava olhou timidamente para Ermelinda e Vitória que aguardavam bem-vestidas no alpendre. Depois as visitas desapareceram dentro da casa...

Então tudo fora apenas imaginação sua! Quase rindo, passando a mão trêmula pela secura da boca, com alívio Martim ouviu durante tempo indeterminado sons de conversa que vinham da casa, rumor de pratos; os ruídos eram familiares, inocentes e asseguradores. Livre enfim da tensão, o homem caiu na cama e dormiu profundamente.

Quando acordou, a tarde se fizera tranquila e vasta. E pouco depois Vitória surgia. Parecia ainda mais cansada e vencida, ereta diante da porta do depósito:

– Como o senhor é engenheiro, disse-lhe, e ele é professor, os dois têm conversa.

Como Martim não respondesse, ela acrescentou mais fatigada ainda:

– O professor é inteligente, faz trocadilhos estupendos.

Fez uma pausa vazia.

– Estamos esperando o senhor, está bem?

Martim passou a mão pelo rosto áspero que havia dias não barbeara. Ela notou o gesto e fez um outro de inexplicável desânimo:

– Não tem importância, disse, o professor é pessoa superior a essas coisas.

Já ia embora, interrompeu os passos. Pareceu tomar uma resolução e explicou-lhe:

– Ele não é diretor mas manda na escola toda porque tem muita personalidade. Faz trocadilhos ótimos. É muito inteligente e superior.

O sono deixara Martim calmo e alimentado, e agora que não havia mais perigo olhou-a esperando.

– O professor manda mas é muito paternal com os alunos, a teoria dele é que um professor tem direito sobre os alunos.

Ele não fazia nenhuma pergunta e olhava-a sereno. Ela estava bonita e cansada. Ele nunca a vira tão enfeitada. Ela ainda esperou um pouco, e ambos estavam pela primeira vez falando de qualquer coisa que não fosse o trabalho. Foi então que Martim, tomando consciência da novidade, perscrutou-a desconfiado.

– Ele tem direito sobre os alunos, muito direito, repetiu ela monótona e não parecia prestar muita atenção ao que dizia. Um dia um aluno conversou na classe, e então no fim da aula, diante de todos, o professor chamou o aluno e fez um discurso tão comovente, chamando-o de filho e pedindo que ele elevasse seus sentimentos a Deus, que o menino arrependido não podia mais parar de soluçar. Ninguém ri do professor, isso ele não deixa. Os alunos riem dos outros professores, mas não dele.

– Sim, disse Martim como um médico a um doente.

– O aluno soluçou tanto, disse a mulher exausta, que foi preciso lhe dar água. Ele ficou um verdadeiro escravo do professor. O professor é muito culto. O menino ficou um verdadeiro escravo, ele é muito culto.

Pela primeira vez Vitória não parecia se impacientar com o silêncio de Martim. E ali em pé, como se não tivesse mais nada a fazer nem pretendesse ir embora, com os traços repuxados pela fadiga, continuou a recitar:

– O professor até hoje cita o menino como exemplo. O menino parece agora um anjo, ficou mais pálido, parece um santo. O professor gostou tanto do que fez, foi uma vitória moral tão grande, que ele até engordou um pouco, disse exausta.

– Engordou, repetiu Martim cauteloso como se temesse acordá-la.

– Engordou, disse ela despertando um pouco espantada. Mas ele sofria! acrescentou depressa como se Martim tivesse acusado o professor. Ele é bom, ele sofre como uma pessoa que manda! disse ela em revolta, ele tem o coração de ouro! disse olhando-o com certa raiva. Ele sofre o sofrimento dos outros, o sofrimento que os outros têm no coração! acrescentou com ardor súbito.

E como se soubesse que Martim não compreendera nada, olhou-o com rancor.

O professor ocupava a melhor poltrona da sala e na disposição da cena, a um relance, Martim entendeu o papel que o homem representava no pequeno grupo. Ermelinda acabara de se sentar ao piano, com seus cabelos muito frisados, com ar distraído e tenso. O mogno da mobília estava desempoeirado. Martim parou à porta e ninguém parecia tê-lo visto. Talvez apenas o professor que, com um sinal de dedo na boca pedindo silêncio, pareceu dirigir-se especialmente ao recém-chegado. O filho roía as unhas com os olhos baixos. Vitória mantinha a atenção num bordado, numa posição corcunda e feminina – Martim não pôde ver-lhe o rosto e procurou-o, buscando nele a severidade que era o que ele amava nos seus olhos. Martim sentou-se perto da porta.

Ermelinda tocava sem olhar o teclado:

– Consegui decorar, disse muito suave. Sentimento, acrescentou em ordem para si mesma.

O sentimento saiu de seus dedos com facilidade, do que ela pareceu tirar orgulho, considerando talvez o fato como indicação de aperfeiçoamento:

– Eu já toco sem mesmo prestar atenção, informou de novo virando a cabeça ligeiramente para trás.

– Não fale! disse de repente o professor como se sofresse, a música não deve ser interrompida com palavras! disse sofrendo com o fato dele próprio ter sido obrigado a falar.

Martim surpreendeu-se com a grosseria.

– O professor é espírita, disse Vitória de súbito para Martim como se isso explicasse.

Sem olhar o teclado e sem precisar mais prestar atenção, a música de Ermelinda saiu mecânica e leve na trégua do domingo. O piano estava o bastante desafinado para ter um som de cristal e de clavicórdio, e as notas pareciam se tocarem sozinhas com a delicada impersonalidade de uma pianola; o som de algum modo se escapava puro como quando se ouve e não se sabe quem toca. Ermelinda mesma pareceu enfim emocionar-se: a música aparentemente começara a lhe dizer tantas e tão confusas coisas – talvez de amor, a julgar pela expressão de ânsia e desejo triste no seu rosto – que ela parou de tocar e virou-se abruptamente no banco giratório com um ar surpreendido que nada comunicou aos outros.

– A música é o próprio espírito, disse o professor com muita segurança.

– Eu, disse o filho de repente, eu gosto é de ópera, para mim é o melhor.

O professor ficou vermelho, olhou para o chão.

– Já lhe expliquei, disse muito baixo e suave, que você está errado.

– Ópera é que é, repetiu o rapaz com obstinação corajosa; seu rosto era pálido e feio.

– Está errado! gritou o professor explodindo. Já disse ao senhor que está errado! gritou o professor com os olhos perdidos de sofrimento e cólera. Já lhe expliquei que ópera é hoje considerada música de segunda classe! você é o único que não obedece! já lhe expliquei!

– Pode ser, disse o rapaz com dolorosa altivez, mas para mim ópera é que é.

O professor olhou-o com olhos esbugalhados. A veia do pescoço latejava. O rapaz então perdeu a força, abaixou a cabeça e recomeçou a roer as unhas.

– O professor é pessoa muito emotiva, disse Vitória simplesmente para Martim.

Com essa frase de Vitória, o professor pareceu de súbito se acalmar, a cor pálida voltou à face gorda e como se inesperadamente ele tivesse resolvido esquecer o problema do filho, voltou-se resoluto e tranquilo para Martim:

– E então, disse com extrema atenção, o que diz de nossa Vitória?

Vitória abaixou a cabeça para o bordado e o rubor subiu-lhe ao rosto.

– Tanta secura – disse o professor – encobre, com perdão pela beleza das palavras, um coração que se quebra de amor.

Vitória tentou levemente protestar, afogueada:

– O professor – disse ela com voz confusa e implorante, e Martim não soube se o que ela disse era um elogio ou uma escusa – o professor devia escrever um romance!

– Não poderia! saltou o professor, aí é que está! não poderia, exclamou penoso, não poderia porque tenho todas as soluções! já sei como resolver tudo! não sei como sair desse impasse! para tudo, disse ele abrindo os braços em perplexidade, para tudo eu sei uma resposta!

Ninguém pareceu entender muito bem o que ele quisera dizer, nem por que é que isso faria com que ele não pudesse escrever romances. Como se ele próprio percebesse que ninguém entendera, de novo pareceu então abandonar o problema, deixou-o inacabado – e voltou-se para Martim com mais calma, já esfriado.

Sentindo os olhos atentos do professor sobre si, Martim abaixou os seus e procurando controlar-se pegou a pele de vaca já meio curtida que estava no canto da sala. Quando se acalmou, deu fé que também pegara no martelo e que agora martelava a pele curtindo-a. Vitória olhou-o espantada como se ele tivesse ousado demais, e perscrutou inquieta o professor. Este, a custo engolindo o desaforo, fechou os olhos por um instante e sua cara parecia pedir a Deus humildade. Quando abriu os olhos, realmente já sorria compreensivo e irônico, e pôde olhar impassível aquele homem que sem avisar martelava um couro.

– Desde de manhã, disse Ermelinda não suportando mais o silêncio, desde de manhã estou com uma sede! Uma sede, como se diz, canina.

– Acho que não é assim que se diz, se me permite – disse polido o professor, mas com uma rapidez de arraia – é fome canina que se diz, se me permite, repetiu com uma mesura, entre cerimonioso e desgostado.

– Mas se é sede o que eu tenho..., arriscou ela muito tímida.

Vitória destruiu-a com os olhos. A outra desviou o olhar e cruzou as mãos.

Vitória voltara ao bordado. Martim martelava baixo. A tarde se espalhara suave, entrava pela sala e fazia o silêncio. Nada havia que tornasse a tarde mais evidente que o bater espaçado do martelo: a cada pancada, mais longe se tornava a distância, mais frondosos os galhos, mais perdido o que se perdera, uma galinha cacarejou na sombra. E um vago desejo pareceu nascer como quando se sonha. O filho do professor, entregue a si mesmo, roía as unhas com voracidade melancólica. Vitória mantinha um rosto escurecido sobre o bordado. Ermelinda sentada no banco, de costas para o piano aberto, enfrentava todos com um sorriso intenso e imóvel como se sua cara brilhasse por si mesma já sem auxílio de pensamento. Martim de cabeça baixa aplacava cadenciadamente a pele de vaca. O cheiro de couro e as marteladas tiravam da cena a sua total imobilidade e deu-lhe um caminhar progressivo: pouco a pouco o cheiro mais intenso e as marteladas levaram a situação a um final – Vitória ergueu do bordado os olhos alargados, o filho do professor tossiu e assustado consigo mesmo olhou para o pai, Ermelinda esmaeceu um pouco o sorriso, o lábio seco ficou ligeiramente preso por um dente. Martim, autor inconsciente do destino dos momentos, continuou a martelar. O professor mantinha os olhos entrefechados, sombrios, onde um ponto arguto pensava. Vitória percebeu-o com inquietação e precipitou-se:

– Sonhei, disse ela alto, que estava rodeada de navios.

– Iluminados ou escuros? perguntou imediatamente Ermelinda despertando.

– Que diferença faz! explodiu Vitória.

Ermelinda abaixou a cabeça.

– É que iluminado é mais bonito, disse Martim olhando com suavidade para Ermelinda.

Vitória voltou-se rápida para ele, magoada. O professor imediatamente examinou-o, entrefechando mais os olhos: era a primeira vez que Martim falara.

Passado um segundo de espanto, Ermelinda riu muito:

– Iluminado é mais bonito, é sim! iluminado é mais feliz, repetiu com gosto.

– De fora, minha cara amiga, disse o professor com grande frieza, de fora um navio é muito mais total que de dentro, disse com um sorriso experimentado e amargo.

De novo ninguém entendeu e ninguém pareceu se alterar por não entender.

Percebendo-o, o professor piscou várias vezes os olhos. A noite descera. Vitória se ergueu devagar e acendeu as lâmpadas.

O professor agora falava calmo, todo recostado na poltrona, o que deixava o ventre gordo em saliência. Martim não sabia se esperavam que ele saísse ou ficasse.

– Dividamos o caminho da humanidade em etapas, dizia o professor.

As marteladas haviam cessado, os sapos coaxavam. O professor falava e brincava com o molho de chaves, girava-o no ar e sem soltá-lo abocanhava-o com a mão. Foi quando as chaves caíram.

Martim automaticamente abaixou-se para apanhá-las. Mas o professor, aparentemente sem se apressar, foi mais ágil que Martim e apanhou-as. E como se tivesse tranquilamente demonstrado do que era capaz, sorriu para o outro. Ainda com o gesto esboçado nas mãos, Martim olhou-o com surpresa: não teria imaginado que aquele homem pequeno e gordo fosse capaz de movimento tão lépido. Então o professor, compreendendo, riu ainda mais e recomeçou a girar as chaves.

O homem estava demonstrando alguma coisa – a boca de Martim ficou um pouco seca, ele não tirava os olhos da chave. Também Vitória acompanhava com olhos fascinados o movimento rotativo da pequena mão do professor.

– Dividindo o caminho da humanidade em etapas, podemos chegar à conclusão de que estamos hoje na etapa da perplexidade. Diríamos que o homem moderno é um homem que não encontra mais uma lição na perene lição dos antigos. Em seguida eu diria...

Vitória escutava-o ereta, sonâmbula, olhando as chaves. Afinal o professor interrompeu-se, olhou o relógio. Reteve a respiração um instante e enfim disse:

– Meu jogo é a charada humana, disse clareando a voz num pigarro. O senhor não me contesta? perguntou de repente. O senhor, um engenheiro?

Como se algo tivesse enfim acontecido, Vitória mexeu-se em sobressalto na cadeira. Entorpecido pela longa imobilidade, Martim mudou a posição das pernas:

– Sim, sim, disse.

– Tudo o que é humano me interessa, o senhor não contesta?

– Não...

– Eu, disse o professor com prazer, sou um mistificador nato.

Vitória agitou-se. Martim passou seu olhar do professor para Vitória e desta para o professor, tentando remotamente captar o que acontecia; um círculo incompreensível estava se fechando em torno dele, ele se perturbou sem saber por quê.

– Exatamente porque a charada humana – como por humorismo inglês costumo chamar o mistério humano – exatamente porque a charada humana, como eu ia dizendo, me interessa é que me pergunto o seguinte: o que é que um engenheiro, um homem digamos de tão alta qualidade, faz aqui?

Bem. Então era para isso que o haviam chamado.

– Digamos, que é que um homem fez para largar um lugar como S. Paulo, pois a pronúncia evidencia a localidade onde Vossência se origina, e não do Rio de Janeiro como Vossência afirmou. Como eu ia dizendo, que fez um homem para não ficar nos seus altos misteres, como seja o de construir uma cidade, que é função por excelência de um engenheiro, que fez ele, como dizíamos nós, para terminar nas vizinhanças de Vila Baixa, onde os únicos recursos são os do espírito? E mais: Vossência ignorava até onde se achava, como notou um homem ignorante e iletrado como Francisco, que não tem os dons de argúcia que a evolução espiritual empresta a um homem, mas quand même possui em elemento o instinto da pesquisa. Como dizíamos nós, que fez ou o que pensou um homem para vir para cá? que fez ele, pergunto eu muito bem, já que Vossência acaba de concordar que meu jogo é o da charada humana?

– Adivinhe, disse Martim tentando sorrir com os lábios secos.

O professor não teve dúvida: abriu os olhos e fitou-o com crueza. Martim sorriu pálido.

– Adivinharei, disse abruptamente o professor.

Levantou-se olhando ao mesmo tempo o relógio.

Atrás de uma sebe, enquanto os outros se despediam no alpendre, Martim procurou em vão divisar o rosto de cada um na escuridão mas o que conseguiu apenas foi captar um tom geral de despedida. Tentou violentamente analisar cada rosto escuro e perceber um indício a mais, embora a própria violência com que o desejava dificultasse essa procura. A luz amarelada que se escoava fraca de dentro da casa não era suficiente para que ele distinguisse mais que vultos, e a zoeira do sangue nos próprios ouvidos não lhe permitiu perceber palavras. A desordem interna deixara-o ao mesmo tempo agudo e perdido, como alertíssima a um vácuo. Nada lhe pareceu muito real, e ele estava embaraçado com o fato estranhíssimo do professor, não sendo o alemão, no entanto...

Afinal o carro se afastou, as duas mulheres subiram lentamente ao alpendre e desapareceram dentro da casa.