A Maçã no Escuro

Clarice Lispector · Capítulo 4 de 30

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A Maçã no Escuro

Capítulo 4

4

Com a nova limpidez da visibilidade, o torpor do homem desapareceu. E como se agora sua energia estivesse a seu próprio alcance e medida, ele se ergueu sem nenhum esforço. Uma alerteza impessoal o tomara como a de um tigre de patas macias. Agora ele era real e silencioso.

Quando chegou ao ponto da encosta de onde só poderia descer, divisou a casa rodeada de terras verdes lá embaixo, como a seus pés, mas num tamanho diminuto que lhe deu uma ideia da verdadeira distância. Começou então a descer o declive, suavemente encorajado nas costas pelo próprio declive. Guiado pela sede como único pensamento, o homem não sentiu os passos progressivos e achou-se enfim no mesmo nível do seguinte: a casa distante, um outro homem que ao longe estava sentado sob uma árvore, vários cachorros espalhados pelo chão.

Agora Martim viu o casarão em pé de igualdade: era maior do que pensara e havia um denso agrupamento de árvores escuras, ele não podia saber a que espaço da casa mas certamente apenas aos fundos desta. O fim escuro do bosque se confundiu com a própria distância, e moveu-se para a frente e para trás aos seus olhos, como para um homem que pisa em terra firme depois do alto-mar.

Com a leveza do cansaço, como se usasse sapatos de tênis, ele avançava. Uma elegância astuciosa já o tomara: ele estava se preparando para defrontar gente. E quanto mais se aproximava, mais reconhecia aquele quieto tumulto de vida que horas antes ele farejara e ao qual parecia ter dado o nome íntimo de “ideal” – e que agora, mesmo ainda não dividido em sons, lhe era familiar. Sem a falsa alegria do alto da encosta, que se tornara apenas morto passado, e sem nenhuma promessa; mas assegurador como um lugar onde há água. Sua tontura radiosa do alto da encosta já se transformara em sede apenas, e em indistinta esperteza. É verdade que o roxo céu altíssimo ainda o embebedava um pouco.

Ele avançava flexível. A essa altura sua cabeça vazia já não lhe era mais de nenhum socorro. Na verdade seu avanço parecia ser guiado unicamente pelo fato daquele homem estar entre terra e céu. E o que o sustentava era a impessoalidade extraordinária que ele alcançara, como um rato cuja única individualidade é aquilo que ele herdou de outros ratos. Essa impessoalidade, o homem a manteve em leve repressão de si próprio como se soubesse que, do momento em que se tornasse ele mesmo, cairia emborcado no chão. A própria extrema individualidade que ele tinha alcançado na montanha não devia ter sido senão um espasmo da cega totalidade com que ele avançava: levitado pelo cansaço, transladava-se sem sentir os pés tocarem no chão, tendo como único ponto fixo a esperá-lo a nítida casa cada vez maior, cada vez maior. Muito erguida dentro daquela finura de ar que a envolvia e que seria, por mais intocável, o que tanto prenderia aquele homem àquele lugar.

Embora soubesse que os cães inquietos já o haviam pressentido, postou-se atrás de uma árvore para observar. Afastando ramos podia investigar bem a situação da casa, agora totalmente visível. O que o confundia é que, bem maior que a casa, era a formiga na folha perto do olho que espiava, emoldurando – equestre, ruiva, monumento de um instante – a sua visão. Martim sacudiu várias vezes a cabeça até se libertar do tamanho que a monstruosa formiga tomara.

O andar mais alto da casa não acompanhava a extensão maior do andar térreo, e alteava-se em canhestra torre. Martim, na sua vida anterior, aprendera a almejar torres; sentiu, pois, uma grande satisfação. À beira da casa, tufos de margarida formaram a seus olhos cansados nuvens amareladas e vacilantes.

Mas se com a aproximação a casa ganhara em nitidez, perdera a síntese anterior da distância. E de detrás da árvore o olhar do homem não conseguiu reunir numa única visão a falta de lógica do que via: um alpendre coberto de telhas, janelas que o simples cálculo não lhe ajudou a descobrir para onde poderiam dar, portas que estavam entreabertas para ele nada perceber senão a sombra criada pela distância; cercas delimitando cantos que não seriam cantos se não houvesse as cercas arbitrárias. Via-se que aquilo tudo se fizera aos poucos, acrescentando-se à mercê da necessidade ou da fantasia. Era um lugar pobre e pretensioso. Ele gostou logo.

Dando-se conta do que poderia haver de suspeito em estar escondido atrás da árvore, o homem afinal se expôs. Sem sentir, abrira um pouco os braços demonstrando que era indefeso. E à medida que avançava – recebido pelos cachorros que agora latiam furiosos – percebeu de longe a figura indistinta movendo-se no alpendre.

Já perto dele, porém, estava o homem sentado no chão sob a árvore. O homem comia, e o cheiro de comida fria nauseou Martim de desejo. Seu rosto se tornou urgente, tímido e vil como quando uma cara implora. O cheiro voltou-lhe cru ao nariz, ele quase vomitou de nojo, tão puro estava de comida. Mas seu corpo ganhara um impulso novo, os passos difíceis o ultrapassaram – e em breve ele estava à frente do homem, olhando-o com minuciosa sofreguidão.

Sem interromper o mastigar, o trabalhador olhava fixamente para os próprios pés descalços como se deliberadamente não visse o estranho. Com a agudez que a fome dera à sua percepção, Martim não se deixou ludibriar: uma comunicação muda se estabelecera entre ambos como dois homens numa arena, e aquele que não o olhava aguardava para poder saltar. Um leve prazer de raiva tomou então Martim, em vaga promessa de luta que ele só conseguiu manter por um instante. Ter tido uma sensação de força cobriu sua testa de suor frio. Uma alegria levíssima pôs-lhe algum cinismo no rosto.

– De quem é este sítio? perguntou cedendo afinal ao silêncio mais poderoso do outro.

O homem descalço não estremeceu sequer. Afastou devagar o prato, enxugou a boca farta:

– Isto tudo é dela, disse lento fazendo um gesto com a cabeça, e Martim, seguindo com os olhos franzidos a direção apontada, viu agora de mais perto a figura no alpendre. Sou daqui também, acrescentou o homem acompanhando a informação com um falso bocejo.

Quem fizesse o primeiro movimento dúbio teria dado direito ao outro. A tarde estava linda, clara.

– Eu me perdi, disse Martim suave.

– Saindo de Vila muita gente se perde por aqui, disse o outro ainda mais suave.

– De Vila?

– De Vila Baixa, disse o homem apontando vagamente a cabeça para a esquerda, e pela primeira vez erguendo os olhos com uma desconfiança declarada.

Martim olhou, e à esquerda nada havia senão a infinita extensão de terra, o céu mais baixo e mais sujo. Sentindo-se examinado, tornou-se ainda mais macio:

– Foi o que me aconteceu, disse. Vou voltar para Vila Baixa. Mas antes queria um pouco d’água. Quero água! disse-lhe então arriscando-se totalmente.

O homem olhou-o com fixidez. Em trégua de luta, mediu a sede do outro. No seu olhar não havia misericórdia mas humano reconhecimento – e, como se as duas lealdades se encontrassem, olharam-se limpos nos olhos. Que aos poucos foram se enchendo de alguma coisa mais pessoal. Não era ódio – era um amor ao contrário, e ironia, como se ambos desprezassem a mesma coisa.

– Só lá dentro, disse afinal o trabalhador.

Ergueu-se com uma dificuldade fingida e uma lentidão deliberada. De pé, por um instante os estranhos se mediram com o olhar. A raiva mútua fez com que se olhassem e nada tivessem a se dizer. Embora um permitisse a raiva no outro como inimigos que se respeitam antes de se matarem. Mais fraco que a tranquila potência do outro, Martim foi o primeiro a desviar os olhos. O outro aceitou sem tirar proveito. Martim, de novo experimentando o cálido contato de uma aversão, começou a andar rumo à casa, seguido a certa distância pelo vencedor e sentindo na nuca a sua ameaça calma.

Os cães rosnavam indecisos, contendo o esfogueteamento e a alegria de uma luta. A tarde toda, aliás, era de uma grande alegria tranquila. Um cachorro manco se agregou penoso aos outros, numa aflita expectativa de inválido. Tudo era suave e estimulantemente perigoso, no fundo ninguém parecia se impressionar com o que estava acontecendo, e todos apenas gozavam a mesma oportunidade. As coisas rodavam um pouco, felizes fora de hora. Por Deus, nunca vi nada tão redondo, pensou o homem entontecido. Um cão mais negro de repente afundou a tarde como se Martim tivesse caído num buraco insuspeito. Foi esse cão que o alertou vagamente e pareceu lhe lembrar outras realidades. Ele se sentia tão leve que estava mesmo precisando amarrar uma pedra no pescoço. Então forçou-se com dificuldade a lembrar-se. Mas, para a sua própria desvantagem, o lugar era bonito demais, e para a sua própria desvantagem ele estava se sentindo bem – o que lhe tirava da percepção a sua principal utilidade de luta.

O sítio ou fazenda não era muito grande, se se considerasse apenas a parte coberta de trabalho: algumas casinholas quebradas, o curral, o campo lavrado. Mas seria enorme se também se contasse com as terras largadas que, em alguns pontos, só para assinalar posse, a cerca mal traçada delimitava. O verde das árvores se balançava sujo, folhas novas espiavam entre as empoeiradas.

As raízes eram grossas e cheirosas naquele fim de tarde – e provocaram em Martim uma inexplicável fúria de corpo como um amor indistinto. Faminto que estava, os cheiros o excitavam como a um cachorro esperançoso. A terra, numa promessa de doçura e submissão, parecia friável – e Martim, aparentemente sem outra intenção que a do contato, abaixou-se e quase sem interromper os passos tocou-a um instante com os dedos. Sua cabeça se tonteou ao contato delicioso da umidade, ele se apressou de boca aberta. Mais perto da casa, viu que o alpendre estava agora vazio. O telhado do curral caía aos pedaços, parecia em certos pontos sustentado apenas pela própria altura do gado invisível, cujos movimentos revolviam lentamente a luz vazia.

A água da lata enferrujada escorreu de sua boca para o peito, ensopou a roupa dura de poeira. Do curral veio de novo um tranquilo mover-se de patas. O sol desaparecera, e uma claridade infinitamente delicada dava a cada coisa a sua calma forma final. Uma casinhola à parte tivera uma porta, cuja lembrança não existia mais senão nos gonzos vazios. Martim molhava o rosto e os cabelos – e mais adiante estava a coberta tosca de garagem...

Tendo chegado ao tenso limiar do impossível, Martim recebeu o milagre como o único passo natural ao seu encontro. Não havia como não aceitar o que acontecia pois para tudo o que pode acontecer um homem nascera. Ele não se perguntou se o milagre era a água que o encharcava até a saturação, ou o caminhão sob a garagem de lona, ou a luz que se evaporava da terra e da boca iluminada dos cães. Como um homem que alcança, ali estava ele exausto, sem interesse nem alegria. Estava envelhecido como se tudo o que lhe pudesse ser dado já viesse tarde demais.

Sob a coberta, o caminhão velho mas perfeitamente limpo e cuidado. E os pneus? ocorreu-lhe. Seus olhos míopes não distinguiam os detalhes dos pneus. A dificuldade, enchendo-o da dúvida da esperança, rejuvenesceu-o. Depositou fascinado e lento a lata na terra e, com os cílios gotejando, examinou o caminhão, abaixou-se para olhar os pneus calculando suas possibilidades em termos de quilômetros.

– Que é que o senhor deseja, perguntou uma voz baixa e serena.

Sem susto nem pressa, Martim voltou o corpo todo. E seu rosto defrontou um rosto inquisitivo de mulher. Atrás de si, sentiu o homem parado em guarda. Acercou-se do alpendre, gingando devagar. A fome acendia-lhe os olhos em grande malícia, os lábios escuros sorriram rachando. Ao pé do alpendre, o chão estava coberto de papoulas púrpuras, caídas e amontoadas. Aquela visão pareceu ao homem a da fartura e da abastança. Olhou as flores vivas, umas despetaladas, outras ainda por abrir, em desperdício tranquilo: seus olhos piscaram de cobiça. Percebia tudo ao mesmo tempo, gingando, gozando a limpidez dos olhos que era a da própria luz.

Mas, sem que soubesse de onde, aparecera de alguma parte uma mulata moça de cabelos enrolados em cachos, e que ali se postara com olhos rápidos, rindo. Não só Martim não sabia de onde ela viera, como em que momento aparecera – o que fez com que ele tomasse cautelosa consciência da possibilidade de outras coisas estarem também lhe escapando. Os cachorros haviam se aproximado arfando, sem coragem de atacar. O vento e o silêncio os rodeavam. O homem sungou o cinturão.

– Então, que é que o senhor deseja.

– Eu estava olhando, respondeu sem pudor.

E aprumou o torso fazendo um esforço de ser citadino.

– Disto eu sei, disse a mulher no alpendre.

– Ele estava com sede, é o que diz, falou o homem atrás de Martim, e a mulher ouviu-o sem no entanto desviar os olhos do estrangeiro.

– Já bebi, disse este com alguma candura, apontando a lata vazia. O sol estava quente, acrescentou mudando a posição das pernas.

Martim tinha uma qualidade de cujo gozo não usufruía porque essa qualidade era ele próprio – uma qualidade a que, em determinadas circunstâncias favoráveis, poucas mulheres resistiriam: a da inocência. O que despertava certa cobiça corrupta numa mulher que é sempre tão maternal e gosta de coisas puras. Salvaguardada a pureza, a mulher era um ogre. A mulher do alpendre olhou-o então com muita frieza:

– Que o senhor bebeu, eu também sei.

De algum modo tudo o que ainda iria suceder àquela mulher já estava acontecendo naquele instante. Ele o percebeu do seguinte modo indireto: passou a mão pela testa.

O excesso de água bebida borbulhava dentro dele, e deu-lhe uma náusea que se confundiu com uma avidez de sono ou de vômito, e a seu rosto uma bondade de sofrimento, como uma auréola:

– Bem, disse então Martim virando-se sem pressa, adeus.

Vitória pareceu despertar:

– Que é que o senhor queria?

O olhar de ambos se cruzou e se penetrou sem que um encontrasse nada no outro, como se os dois já tivessem visto muitos outros rostos. Ambos pareciam saber por experiência que aquela era uma das muitas cenas a serem esquecidas. E como se ambos soubessem o que significa essa capacidade de isenção, sem se dar conta do motivo, um procurou calcular a idade do outro. A mulher há muito passara dos cinquenta. O homem estava pelos seus quarenta. A mulata esperava rindo. Parte da cabeça do homem continuou teimosamente ocupada em procurar determinar o elo que lhe escapara: em que momento a mulata aparecera?

O que fez com que de novo ele perdesse outro elo importante: passos miúdos se tinham aproximado e Martim mal teve tempo de distinguir a figura de uma menina preta antes que esta se escondesse como um pássaro dentro de uma moita.

Os cachorros arfavam de língua quente à mostra.

– Eu estava procurando trabalho, respondeu Martim preparando-se para ir embora. Há trabalho aqui?

– Não.

Olharam-se nos olhos sem receio.

– O jardim está precisando, disse ele à medida que se afastava, e já de costas para a mulher.

– O senhor é jardineiro?

– Não, voltou-se ele em vaga expectativa.

De novo olharam-se. Por um instante pareceu-lhes que para sempre estariam ali se defrontando, tão definitiva era a posição de cada um; os cachorros ali. Martim ouviu uma risadinha de criança ou de mulher. Olhou para a mulata mas esta estava séria, com os olhos quentes. A sebe se mexera com a criança dentro.

– Quem lhe mandou? perguntou Vitória.

– Ninguém, disse o homem, e se ainda se mantinha de pé era sustentado pela rubra tranquilidade das papoulas.

– Que é que o senhor sabe fazer?

– Mais ou menos tudo.

– Estou perguntando sua profissão, disse um pouco áspera.

– Ah.

Nova risadinha soou perto dele. Então, muito estimulado pelo aplauso, ele sungou o cinturão preparando-se para dar uma resposta engraçada ou para mover-se. Mas não disse nada e continuou parado. Parecera-lhe, com muita inteligência, que o único modo de não cair no chão seria ficar parado, e que seria estratégico deixar os acontecimentos lhe sucederem.

– Então? repetiu a mulher mais impaciente.

Ele olhou-a sem expressão, até que pouco a pouco seus olhos foram se apertando de um modo cômico:

– Sou engenheiro, minha senhora.

Ela pareceu levemente escandalizada. Examinou-o com curiosidade. Ele sustentou sem esforço o olhar. Talvez ele tivesse percebido que a impressionara, porque um ar de insolência fez seu rosto sorrir um pouco bestial e feliz como se ele tivesse ultimado uma coisa difícil.

– O senhor é engenheiro.

– Pois é o que eu disse, respondeu o homem sem arrogância.

Vitória olhou-o como se examinasse profissionalmente um cavalo. O homem deixou-se impudicamente ser examinado. O que de repente chocou a mulher. Ela corou. Ali em pé, ele lhe pareceu indecentemente masculino como se esta fosse a sua única especialidade. Por que não fizera a barba? sujo, barbado, em pé. Ela afinal suspirou, cansada e sem interesse:

– Não tenho trabalho para engenheiro.

O homem voltou-se para ir embora e, sem interromper os passos, repetiu sem nenhuma insistência:

– Faço de tudo.

– Tenho um poço de construção parada, disse ela subitamente cheia de desconfiança e curiosidade.

Ele de novo interrompeu os passos e voltou-se. O fato de, com uma simples palavra sua, ela poder fazê-lo andar ou parar, começara a irritar a mulher. De algum modo a docilidade do homem lhe parecia uma afronta.

– Endireito poço, sacudiu ele a cabeça.

– O curral está caindo! disse ela ainda mais desconfiada.

– Eu vi.

– Às vezes quero que me cacem umas seriemas, desafiou atenta.

– Posso dar os tiros.

– Também preciso de umas pedras bem colocadas no riacho para dar força à água, disse ela então com frieza.

– Pode-se pôr.

– Mas o senhor é engenheiro, não me serve! disse em leve cólera.

As papoulas vibravam em vermelho como bom sangue, e despertavam no homem uma vida bruta: ele lutava entre a fome e o entorpecimento e a felicidade. Só as ricas papoulas impediram-no de soçobrar. Foi, pois, com alguma relutância que, passando a língua pela boca cheia de desejo, ele afinal virou as costas para as papoulas.

– Espere, disse a mulher.

Ele parou. Olharam-se.

– Eu não pago muito.

– Mas dá casa e comida, disse entre perguntando e afirmando.

A mulher olhou-o rapidamente como se casa e comida pudessem ter outro sentido. Tirou então as mãos dos bolsos da calça de montaria. Havia homens junto dos quais uma mulher se sentia rebaixada por ser uma mulher; havia homens junto dos quais uma mulher aprumava o corpo em quieto orgulho; Vitória estava insultada pelo modo como ele a fizera aprumar a cabeça.

– Dou, disse afinal muito devagar.

– Está tratado, disse o homem agarrando-se com um esforço de unhas a uma derradeira lucidez.

– Eu é que direi se está ou não tratado. De onde é que o senhor vem?

– Do Rio.

– Com essa pronúncia?

Ele não respondeu. Pelos olhos ambos concordaram que era mentira. Mas Vitória pareceu obstinadamente não tomar conhecimento de sua própria perspicácia. E procurando tranquilizar-se, fez mais uma pergunta:

– Além de ser engenheiro, o senhor tem trabalhado como o quê?

Os olhos do homem piscaram claros e quase infantis:

– Faço de tudo, disse.

A resposta claramente não agradou à mulher, e ela teve um gesto de irritação incontida por ele não saber ganhar sua confiança. A falta de habilidade daquele homem a impacientava. Ela pôs as mãos nos bolsos da calça, contendo-se. No entanto bastaria que ele simplesmente garantisse que já construíra poços.

– Mas já construiu poços! perguntou indicando-lhe autoritariamente qual deveria ser a resposta.

– Já, disse então o homem mentindo como ela quisera.

De novo ela corou com a submissão dele. E então olhou para Francisco, procurando trocar com este um olhar de união contra Martim. Mas Francisco desviou o olhar e fixou os próprios pés. A mulher corou mais, engolindo dura a rejeição.

Era a primeira vez que procurara apoio nele, e havia de ser logo dessa vez que Francisco se sentira obrigado a negá-lo: é que ele não concordava com o modo como aquela mulher estava abusando do estranho. Oh, ele não concordava com muita coisa. Que no entanto continuaria a aceitar – contanto que ela continuasse a ser mais forte que ele. A base da fazenda era o autocontrole daquela mulher, que Francisco desprezava como se despreza o que não flui. Mas, dela, ele só esperava a força, senão ele não teria por que obedecê-la. Assim ele desviou o olhar para não perceber a sua fraqueza.

Martim não entendeu nada do que se passava mas agregou-se instintivamente a Francisco e procurou trocar com este um olhar de sarcasmo.

Também este olhar Francisco recusou, fitando ostensivamente uma árvore. Aquele estranho não percebera a fidelidade de Francisco à mulher, não entendera que ele se habituara calmamente a odiar Vitória, e que não poderia ser mandado por uma mulher a não ser que salvaguardasse a própria dignidade com o ódio. E como se a mulher o tivesse entendido, jamais tentara estabelecer o menor laço de simpatia entre ambos: para Francisco esta se tornara a prova de que ela o respeitava. Do momento em que ela fosse boa, começaria a decadência dele. Ele respeitava na mulher a força com que esta não o deixava ser nada mais nem nada menos do que ele era.

Fingindo, pois, interesse pela árvore, ele também se recusou qualquer conivência com o estranho. Já lhe bastava por hoje a insegurança que Vitória lhe dera ao procurar um apoio que ele não queria dar: não só porque não concordava com o modo dela destruir o estranho, como porque ele próprio a desprezaria, e passaria a se desprezar, se ela precisasse de um simples empregado.

O recém-chegado se sentiu rejeitado sem saber como. Não compreendia a cólera que provocara. O que vagamente percebia era um certo desprezo em Francisco: desprezo que envolvia tanto a ele, Martim, quanto a mulher, e quanto ao próprio Francisco. E teve a curiosa impressão de ter caído numa armadilha. Num sonho de cansaço, lembrou-se de histórias de viajantes que pernoitam em casas doidas. Mas isso lhe passou logo, porque se havia ali alguém perigoso – era evidentemente ele próprio. A impressão de armadilha no entanto persistiu.

Recusada por Francisco, a mulher então voltou-se com muita determinação para o estranho, cuja docilidade estúpida era agora desejável. Mas subitamente perguntou insultada:

– De que é que o senhor está rindo!

– Não estou, disse ele.

Então, sem se dar conta de que o espiava cruamente, a mulher descobriu fascinada que ele não ria. Era o rosto que tinha uma expressão apenas física de malícia, independente de qualquer que fosse seu pensamento – assim como um gato às vezes parece rir. Apesar de tranquilos e vazios, seus traços davam impressão de motejo, como um vesgo que, triste ou alegre, seria sempre visto como vesgo. Como se tivesse caído numa escuridão, lentamente ela o olhava. Ele é ruim, viu ela com o faro desperto. Aquele homem possuía uma cara. Mas aquele homem não era a sua cara. Isso a inquietou e despertou-lhe a curiosidade. Aquele homem não era ele mesmo, pensou ela sem procurar entender o que pensava; aquele homem despudoradamente se carregava. E estava ali em pé numa exposição completa de si mesmo, num silêncio de cavalo em pé.

O que de repente acuou a mulher como se ela tivesse ido longe demais.

Mas agora não podia se impedir de ver o que estava vendo. Como é que ele ousou! pensou espantada e seduzida como se ele tivesse dito o que nunca se deve dizer. Numa perversão de alguma lei sagradamente admitida, aquele homem não se dava por óbvio. E sua cara tinha uma sabedoria física horrivelmente secreta como a de um puma quieto. Como um homem que só não violentou em si o seu último segredo: o corpo. Ali estava ele, totalmente à tona e totalmente exposto. O que havia de unicamente inteiro nele, remotamente reconhecível pela mulher naquele instante de estranheza, era a barreira final que o corpo tem.

Ela se empertigou severa. É que havia um grande erro nele. Tão grande como se a raça humana tivesse errado. “Como é que ele ousou!”, repetiu-se obscuramente sem entender o que pensava, “como é que ele ousou!”, espantou-se, de repente ofendida no que a vida tinha de mais inteligível. A coragem que ele tivera de chegar a esse ponto de... de desonra, de... de alegria... de... A coragem que ele tivera de chegar a ter – a ter aquele modo de estar de pé! gaguejou ela por dentro com raiva.

Olhou-o de novo. Mas a verdade mesmo é que aquele homem não parecia pensar em nada – constatou então com mais calma. Na cara dele havia permanecido a estremecível sensibilidade que o pensamento dá a um rosto: mas ele não pensava em nada. Talvez tivesse sido isto o que a horrorizava. Ou, quem sabe, ela tivesse sido alertada pelo fato de ele ter rido alguma vez.

– Não me serve, disse com força, decidindo-se inesperadamente.

Mas quando, sem o menor protesto, ele já se achava perto do curral, ela gritou com raiva:

– Só se for para dormir no depósito de lenha!

E com espanto, ela o olhou. Mas ele, sem surpresa, como se indefinidamente ela pudesse rejeitá-lo e chamá-lo de volta, aproximou-se. A criança, que já saíra de dentro da sebe, refugiou-se imediatamente no esconderijo. Quando de novo ele estava perto, a mulher perguntou imprevistamente:

– E posso ao menos saber o que é que um engenheiro anda fazendo por aqui?

– Procurando trabalho, repetiu, não tentando sequer fazê-la acreditar.

Ela abriu a boca para responder à insolência. Mas conteve-se. E afinal disse serena:

– Limpe os pés antes de entrar.