A Maçã no Escuro

Clarice Lispector · Capítulo 18 de 30

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A Maçã no Escuro

Capítulo 7

7

Martim respirou profundamente como se até agora tivesse sido amordaçado. É que era doce e poderoso um homem sair e uma mulher ficar. Assim provavelmente é que deviam ser as coisas. Dirigindo-se à água do rio para molhar o rosto ele sentia orgulho e calma. Agora que tivera uma mulher parecia-lhe natural que tudo fosse se tornar compreensível e ao alcance da mão. Grande era a campina: uma multidão de pontos brilhantes num fundo obscuro e incerto, ao seu alcance era a água que o sol tornara um duro espelho, e assim devia ser, ele aprovou o modo de ser da terra. Sem modéstia, como um homem que está nu, sabia que era um iniciado. Diante da água que o assassinava com seu brilho de foice, tudo era seu, uma felicidade tonta encheu sua cabeça, ele ainda sentia nos braços o peso que tem uma mulher submissa. Iniciado como um homem que vive. Mesmo que não tivesse tempo de ser mais do que um homem que vive. Foi um instante raro, e sem vaidade ele assim o tomou, e antes que findasse tocou-o com sua alma toda para que ela tivesse ao menos tocado na enorme realidade.

“Que faria a mulher sozinha no depósito?”, pensou, e o que quereria ela dele? A lucidez exagerada pela felicidade fê-lo compreender que ela esperava dele uma palavra, e que estava presa a ele pela última esperança. E quem era ela? isso de repente se tornara importante, quem era ela? pois se ele ficasse preso numa cela com apenas um fio de capim na mão, nesse fio de capim estava tudo o que um campo inteiro lhe poderia dizer. E se ele pegara uma mulher feia e ignorada, uma mulher entre milhares de mulheres, nela estava o mundo inteiro a esperar dele a esperança. Mas que poderia ele lhe dar, senão a misericórdia? Foi nesse instante que, incerta e mal orquestrada, pela primeira vez se insinuou nele a antiga palavra misericórdia. Mas ele não a ouviu direito.

Pois ao pensar em Ermelinda começara a pensar na sua própria mulher ouvindo rádio enquanto o tempo se escoava, e recebendo os presentes com um suspiro: “a cavalo dado não se olham os dentes”, dissera ela com um suspiro. E pensando na esposa, pensou no filho, em quem jamais quisera pensar diretamente. Pensou no filho com a primeira e feliz dor como se ter tido Ermelinda nos braços lhe tivesse enfim dado seu filho. Aquele filho que ele fizera com tanto cuidado e que saíra tão bonito, e que era bem alto para a sua idade. E pensou em procurar a filha da mulata da primeira vez em que a surpreendesse a examiná-lo, ele precisava muito de uma criança.

E com o filho, o amor pelo mundo o assaltara. Ele agora se comovia muito com a riqueza do que existe, se comovia com ternura para consigo mesmo, tão vivo e potente que ele era! tão bondoso que ele era! forte e musculoso! “sou uma dessas pessoas que compreendem e perdoam!”, era isso mesmo o que ele era, sim, emocionado, com saudade do filho. O sol parado ia se aprofundando cada vez mais dentro dele, o amor por si mesmo deu-lhe uma grandeza que ele não pôde mais conter e que lhe tirou o resto do pudor. Junto da água faiscante nada lhe parecia impossível. Agora que, como primeiro passo, chegara através do filho àquele ponto em que dor se misturava com feroz alegria, a alegria era dolorosa, pois esse ponto rápido devia ser o agulhão da vida e o encontro dele consigo mesmo – então, assim como a alma de um cachorro late, ele incoercível disse: ah!, para a água.

Ah! disse ele em amor e angústia e ferocidade e piedade e admiração e tristeza, e tudo isso era a sua alegria.

Mas por que não lhe bastou então? Por que não lhe bastaria apenas exclamar? Porque acontece que ele queria a palavra. Enquanto fosse quem era estaria preso à sua própria respiração à espera de que ela o unisse a si mesmo, vivendo com essa palavra na ponta da língua, com a compreensão quase por se revelar, nessa tensão que termina por se confundir com a vida, e que é ela própria, acontece que ele queria a palavra.

E agora que conhecia a oscilação de um amor humano, nunca estivera tão perto dela. As ervas tremiam-na... A água faiscava-a. O negro sol a exprimia a seu modo. E a campina se tornou mais tensa ao olhar do homem.

Por que então não dizia a palavra? O sol estava parado. A água ofuscada. Martim diante dela. Por que não a dizia? É que tudo estava tão perfeito que ele sobrava. O duro vidro da água olhava-o e ele olhava. E tudo tão reverberado e imóvel, tão completo em si mesmo, que o homem não molhou o rosto, não ousou tocar na água e interromper com um gesto a grande estática. Tudo rebentava de silêncio. Com o cheiro de capim quente que o vento trouxe do longe ele aspirou a revelação tentando inutilmente pensá-la. Mas a palavra, a palavra ele ainda não a tinha. O pé, o pé com que um homem pisa, ele não o tinha. Sabia que se tinha feito. Mas faltava saber o que é que um homem faz. Senão de que lhe teria valido a liberdade que alcançara?

O sol retorcido queimava sua cabeça deixando-o tranquilo e louco. Foi então que sob a verdade do sol ele enfim não se pejou de desejar o máximo. E através do amor pelo seu filho escolheu que o máximo poderia ser atingido através da misericórdia.

Seria essa a palavra? Se era, ele não a compreendia. Seria essa a palavra? Seu coração bateu furioso, alquebrado.

Não da misericórdia transformada em gentileza. Mas a profunda misericórdia transformada em ação. Porque, assim como Deus escrevia direito por linhas tortas, mesmo através dos erros da ação correria a grande piedade e o amor. Já que uma pessoa tinha essa capacidade estranha: a de ter piedade de outro homem, como se ele próprio fosse de uma espécie à parte. Pois a essa altura ele não parecia querer reconstruir apenas para si mesmo. Queria reconstruir para os outros.

Martim tinha acabado de “descortinar”.

Acabara de descobrir a pólvora? Não importa, cada homem é a sua própria chance.

Mas através de que ação correria o amor? De pensamento monstruoso a pensamento monstruoso, ele calculou com lucidez que se obtivesse um novo modo de amar o mundo, o transformaria de algum modo. A coisa mais importante que podia acontecer em terra de homens – não era o nascimento de um novo modo de amar? o nascimento de uma compreensão? Era. Tudo para Martim estava inesperadamente se harmonizando...

Então, embebedado de si mesmo, arrastado pela insensatez a que podia levar o pensamento lógico, ele pensou com tranquilidade o seguinte: se conseguisse esse modo de compreender, ele mudaria os homens. Sim, não teve vergonha desse pensamento porque já arriscara tudo. “Mudaria os homens, mesmo que demorasse alguns séculos”, pensou sem se entender. “Será que sou um pregador?”, pensou meio encantado. Acontecia porém que pelo menos por enquanto ele não tinha propriamente o que pregar – o que o embaraçou um instante. Mas só por um instante: porque daí a um momento ele estava de novo tão cheio de si que dava gosto.

O resto de prudência então caiu, e sem nenhuma vergonha ele pensou mais ou menos o seguinte: mesmo que ele falasse de seu “descortinar” a uma pessoa apenas, esta pessoa contaria a outra, como numa “cadeia de boa vontade”. Ou então – pensou ele desenvolto – essa pessoa transformada pelo conhecimento seria percebida por outra, e esta outra por outra, e assim por diante. E no ar haveria aos poucos a sub-reptícia notícia assim como a moda se espalha sem que ninguém tenha sido obrigada a segui-la. Pois que eram as pessoas senão a consequência de um modo de compreender e de amar de alguém já perdido no tempo? “Ele viveu assim”, diria uma pessoa a outra como a senha esperada. “Ele viveu assim”, correria o boato.

Martim acabara enfim de enunciar. Só o constrangia um pouco a súbita facilidade em que caíra. Mas quem sabe se era assim mesmo: que depois de enunciada, a verdade era fácil? O obscuro plano lhe pareceu então perfeito como um crime perfeito...

E cheio de si, rebentando de sol como um sapo, a tarefa lhe pareceu grande e simples – enquanto ele agora misturava o pó de cimento à água, preparando argamassa para a cacimba. A caldeira dos santos podia estar ardendo sobre sua cabeça mas ele se concentrava nas sandálias. Sua urgência era tranquila. Não uma urgência que o fizesse querer pular etapas, mas urgência igual à da natureza: sem um instante perdido, quando a própria pausa era um avanço. Ele misturou o cimento com exatidão, com urgência ininterrupta assim como os mil estremecimentos formam a vastidão do silêncio e o silêncio caminha. “A coisa está progredindo”, pensou.

Achou este seu pensamento ótimo e seu sentimento ótimo também. Ficou emocionado e grave, parou um instante de trabalhar. “Ofereço isto que senti em homenagem à minha mãe”, pensou vagamente, já um pouco distraído. Depois, tendo casualmente tomado um contato mais próximo com o que pensara, achou “tolice”. Mas depois ficou muito sentido por ter achado tolice e se disse ofendido: “também não vamos ser bestas a ponto de achar tudo bobagem.” Como bobagem era palavra muito larga, que perdia depressa o sentido, ele afinal ficou com coisa nenhuma, e um gosto de nada na boca. Isso o alertou quanto à necessidade de tomar cuidado para não ficar vago, o que era tentação legítima – mas se uma pessoa não se especializava, se perdia facilmente, como se diz de médicos. Era muito difícil ser global e no entanto manter uma forma. Ele não podia se perder de vista.

De modo que procurou se concentrar, um certo plano começou a se delinear, o cimento foi tomando consistência, ele se aplicou com perfeição no trabalho, horas tranquilas passaram.

E a primeira brisa mais fresca soprou.

Assim, quando Ermelinda empurrou a porta do depósito, a tarde se fizera. Como uma continuação da sombra do quarto, toda a tarde se arruinara e cheirava na sombra vacilante a raízes com formigas. Os olhos da moça estavam largos, tranquilos, vingados. Conseguira absorver a segurança do homem contra o campo, e armada com seu talismã olhou em sereno desafio: o campo nada mais era que um depósito maior onde mil árvores tinham espaço para se perderem na distância, o mundo era um lugar. Só isso. E o campo perdera o ilimitado. Ela atravessou sem esforço a multidão de relva, as flores agora amansadas. Não havia uma ruga em seu rosto. Parecia uma índia carregando uma bilha na cabeça e equilibrando-se para equilibrar a bilha. Nada a contradizia. Há esses momentos também.