A Maçã no Escuro

Clarice Lispector · Capítulo 2 de 30

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A Maçã no Escuro

Capítulo 2

2

Aquele homem andou léguas deixando o casarão cada vez mais para trás. Procurou andar em linha reta e às vezes se imobilizava um segundo agarrando com cautela o ar. Como andava nas trevas não poderia sequer adivinhar em que direção deixara o hotel. O que o guiava no escuro era apenas a própria intenção de andar em linha reta. O homem bem poderia ser um negro, tão pouco lhe servia a claridade da própria pele, e ele só sabia quem era pela sensação em si próprio dos movimentos que ele próprio fazia.

Com a mansidão de um escravo, ele fugia. Certa doçura o tomara, só que ele vigiava a própria submissão e de algum modo a dirigia. Nenhum pensamento perturbava sua marcha constante e já insensível, senão de vez em quando a ideia mal aclarada de que talvez estivesse andando em círculos, com a desconcertante possibilidade de se achar de novo diante das paredes do hotel.

Sempre, além do chão que os passos alcançavam, era a escuridão. Já caminhara horas, o que pôde calcular pelos pés grossos de cansaço. Só descobriria onde se delineava o horizonte quando o dia raiasse e dissolvesse as brumas. Como a escuridão ainda se mantinha tão colada aos olhos inutilmente abertos, terminou por concluir que escapara do hotel não de madrugada, mas em plena noite. Tendo dentro de si o grande espaço vazio de um cego, ele avançava.

Já que não precisava de olhos, experimentou andar de olhos fechados, pois numa precaução generalizada ele economizava o que podia. De olhos cerrados pareceu-lhe que rodava em torno de si próprio numa tontura não de todo desagradável.

À medida que caminhava o homem sentia nas narinas aquela aguda falta de cheiro que é peculiar a um ar muito puro e que se mantém distinta de qualquer outra fragrância que também se possa sentir – e isso o guiava como se seu único destino fosse encontrar-se com o mais fino do fundo do ar. Mas seus pés tinham a milenar desconfiança da possibilidade de pisar em alguma coisa que se mova – os pés apalpavam a moleza suspeita daquilo que aproveita a escuridão para existir. Pelos pés ele entrou em contato com esse modo de ceder e poder ser moldado que é por onde se entra no pior da noite: na sua permissão. Não sabia onde pisava, se bem que através dos sapatos que se haviam tornado um meio de comunicação, ele sentisse a dubiedade da terra.

O homem nada poderia fazer senão esperar que a primeira penumbra lhe revelasse um caminho. Enquanto isso poderia dormir no chão que, distanciado pelas trevas, lhe pareceu inalcançável. Já não mais atiçado pelo perigo, desaparecera a sagacidade que lhe seria agora apenas um entrave. E de novo o embrutecimento suave o dominava. O chão era tão longe que, abandonando o corpo, este por um instante experimentou a queda no vácuo. Mal porém tocara numa terra que aos pés se esquivara, e esta instantaneamente se desencantou em algo resistente, cujas duras rugas estáveis pareciam as do céu da boca de um cavalo. O homem estirou as pernas e encostou a cabeça. Agora que se imobilizara, o ar afiara-se e doía extremamente limpo. O homem não estava com sono mas no escuro não saberia o que fazer da grande vigília. Além do mais não tinha assunto.

A essa altura já se havia habituado à música estranha que de noite se ouve e que é feita da possibilidade de alguma coisa piar e da fricção delicada do silêncio contra o silêncio. Era um lamento sem tristeza. O homem estava no coração do Brasil. E o silêncio fruía a si mesmo. Mas se a brandura era o modo como se ouvia a noite, para a noite a brandura era a sua própria aguda espada, e na brandura a noite toda estava contida. O homem não se deixou enfeitiçar pela delícia que sentiu na suavidade; adivinhava que léguas além a escuridão sabia que ele estava ali. Manteve-se pois em espreita, tendo sob um perfeito controle os meios de comunicação da noite.

Várias vezes tentou se ajeitar numa posição mais confortável. Tomava um cuidado impessoal consigo mesmo como se fosse um embrulho. Mas embaixo era o chão definitivo, em cima a única estrela, e o homem se sentia acordado pelas duas coisas acordadas na escuridão. A cada movimento seu, o rosto ou as mãos encontravam algo enérgico que depois de empurrado voltava em leve golpe contra ele. Apalpou com dedos sábios: era um galho.

Um instante a mais, no entanto, e rudemente o sono o assaltou na posição mais inesperada: com uma das mãos protegendo os olhos e a outra mantendo afastada a folhagem áspera.

O homem dormiu com atenção durante horas. Exatamente as horas que durou a formação de um pensamento, qualquer que tivesse sido, pois ele não podia mais se alcançar sem ser através da agudez do sono. Do momento em que fechara os olhos a vasta ideia inarticulável começou a se formar – e tudo funcionou tão perfeito que ela encheu, sem hiato e sem precisar recuar uma só vez para se corrigir, o sono de que ele precisava para pensar. Enquanto dormia não gastava do pouco que ele se tornara, mas sacava de alguma coisa como de sua raça de homem, o que era indistinto e satisfatório. Através dessa coisa feita de rugido ele atingia muito: sua boca estava grossa de boa e nutritiva saliva. Assim, quando o último passo de seu futuro se completou, Martim mexeu-se na dureza do chão. Não abrira ainda os olhos mas ao sentir o próprio entorpecimento reconheceu-se, e com relutância entendeu que estava acordado.

Na verdade sobre as finas pálpebras já sentira com dor o grande peso do dia.

Mas numa desconfiança sem motivo inteligível ele aparentemente achou mais prudente comunicar-se com a situação através do tato: de olhos fechados, deslizou dedos graduais pela terra que agora, em sinal promissor, que ele não entendeu mas aprovou, lhe pareceu menos fria e menos compacta. Com esta garantia primária, abriu afinal os olhos.

E uma claridade bruta cegou-o como se ele tivesse recebido na cara uma onda salgada de mar.

Estonteado, de boca aberta, aquele homem estava infantilmente sentado no meio de uma extensão deserta que se perdia de vista para todos os lados. Era uma luz estúpida e seca. E ele estava sentado como um boneco imposto no meio daquela coisa que se impunha.

O lugar onde se achava era longe de ser confuso como no escuro seus pés dormentes haviam imaginado. Inquietado, seu corpo não soube se havia ou não de sentir prazer nessa descoberta. Com cautela constatou as poucas árvores dispersas pela distância. O infinito chão era seco e avermelhado. Não se tratava de um mato como ele calculara pelo galho que lhe batera no rosto. Tinha por acaso adormecido perto de um dos raros arbustos do descampado.

Sentado, olhava no entanto em guarda: é que se o silêncio faz parte natural da escuridão, ele não contara com a veemente mudez do sol. Sempre experimentara o sol com vozes. Manteve-se pois imóvel para não assustar o que quer que fosse. Era um silêncio como se fosse acontecer alguma coisa que um homem não percebe, mas as poucas árvores se balançavam e os bichos já tinham desaparecido.

Sabiamente levando em conta a própria limitação que o tornava mais indefeso que um coelho, ele então esperou de cabeça erguida como se uma atitude de isenção o tornasse invisível. Também isso ninguém lhe ensinara. Mas em duas semanas aprendera como é que um ser não pensa e não se mexe e no entanto está todo ali. Depois, com a minúcia da prudência, começou a olhar quase sem mover a cabeça, apenas inclinando-a imperceptivelmente para trás, a fim de tornar mais largo o seu campo de visão.

E o que Martim viu foi uma estendida planície vagamente em subida. Muito além começava um declive suave que, pela graça de suas linhas, prometia deslizar para um vale ainda invisível. E no fim do silêncio do sol, havia aquela elevação adoçada pelo ouro, mal discernível entre brumas ou nuvens baixas, ou talvez pelo fato do homem não ter ousado pôr os óculos. Ele não sabia se era montanha ou apenas névoa iluminada.

Garantido então pela vastidão da distância que afastava qualquer iminência, o homem foi aos poucos trazendo o olhar para o que o rodeava de um modo mais pessoal.

Na extensão calma, um ou outro arbusto empalhado pela imobilidade final do sol. Espalhadas, algumas árvores rígidas. Uma ou outra rocha maior se erguia perpétua.

Então o homem desfez a tensão do corpo: não havia perigo. Tratava-se de uma extensão tranquila e leal, toda à superfície de si mesma. E sem nenhuma armadilha – senão a curta e dura sombra que se cavava junto de cada coisa que ali tinha sido posta. Mas não havia perigo. Na verdade nem se poderia imaginar que aquele lugar tivesse um nome ou fosse sequer conhecido por alguém. Era apenas o grande espaço vazio e inexpressivo onde, por conta própria, erguiam-se pedras e pedras. E aquela claridade enérgica que o alarmara não passava da outra face do silêncio. Mesmo assim, em extrema franqueza, tanto a claridade quanto o silêncio olhavam de cara exposta para o céu.

O silêncio do sol era tão total que seu ouvido, tornado inútil, experimentou dividi-lo em etapas imaginárias como num mapa para poder gradualmente abrangê-lo. Mas logo depois da primeira etapa o homem começou a rolar no infinito, o que o sobressaltou em advertência. O ouvido, tornando-se mais modesto, tentou pelo menos calcular em que terminaria o silêncio: em casas? em algum bosque? e o que seria mesmo a mancha ao longe – uma montanha ou apenas o escurecimento que vem do acúmulo de distâncias? Seu corpo doía.

Mas pondo-se de pé o homem inesperadamente retomou toda a estatura do próprio corpo. O que lhe deu automaticamente certa empáfia como se, ao erguer-se, ele tivesse inaugurado o descampado. E apesar dos ombros curvos, sentiu-se dominando a extensão e disposto a segui-la. Embora estivesse cego pela luz: ali nenhum de seus sentidos lhe valia, e aquela claridade o desnorteava mais do que a escuridão da noite. Qualquer direção era a mesma rota vazia e iluminada, e ele não sabia que caminho significaria avançar ou retroceder. Na verdade, em qualquer lugar onde o homem experimentou se pôr de pé, ele próprio se tornou o centro do grande círculo, e o começo apenas arbitrário de um caminho.

Mas desde que, há duas semanas, aquele homem experimentara o poder de um ato, parecia também ter passado a admitir a estúpida liberdade em que se achava. Sem um pensamento de resposta, pois, suportou imóvel o fato de ele ser o único próprio ponto de partida.

Então, como se contemplasse pela última vez antes de partir o lugar onde sua casa fora incendiada, Martim olhou o grande vazio ensolarado. Ele bem viu. E ver era o que podia fazer. O que fez com certo orgulho, de cabeça erguida. Em duas semanas tinha recuperado um orgulho natural e, como uma pessoa que não pensa, tornara-se autossuficiente.

Em breve seus passos pausados e repetidos formaram uma marcha monótona. Milhares de passos ritmados que o aturdiram e o levaram por eles mesmos para a frente, entorpecido, agigantado pelo cansaço, agora avançando com um ar de idiota contente. Até que, se parasse, cairia. Mas avançava cada vez mais poderoso. À medida que o tempo passava, o sol ficava mais redondo.

Fora para o lado do mar que aquele homem pretendera ir, antes mesmo de ter encontrado por feliz acaso o hotel. Mas – sem mapa, conhecimento ou bússola – embrenhara-se terra adentro. Ora como se qualquer caminho terminasse fatalmente em costa aberta, o que era uma verdade, mas difícil de ser atingida por pés; ora como se na realidade ele não tivesse a menor pretensão de ir a algum lugar determinado. Depois, com a continuação aplainadora de noites e dias – e aliar-se à continuação, grudando a esta o corpo inteiro, havia-se tornado o secreto objetivo desde que ele fugira – com a continuação de noites e dias o homem terminara por esquecer o motivo pelo qual quisera encontrar o mar. Quem sabe, talvez não fosse por nenhum motivo de ordem prática. Talvez fosse apenas para que, chegando finalmente ao mar, num instante de obscura beleza, ali ele tivesse chegado.

Qualquer porém que tivesse sido o motivo, esquecera-o. E andando sem parar, o homem coçou violentamente a cabeça com duros dedos: tinha um gosto danado de ter esquecido. O que não impedia que mesmo agora – se na semivigília dos passos ele fechava os olhos cuja umidade a luz já secara – mesmo agora a visão do antigo desejo se concretizasse. Quando cerrou os olhos viu de súbito água verde a se rebentar em penhascos e a salgar-lhe o rosto quente. Então passou a mão pelo rosto e sorriu misteriosamente ao sentir a barba dura apontar, o que também era alguma coisa promissora e satisfatória; sorriu numa careta de falsa modéstia, e apressou ainda mais os passos. Guiava-o a suavidade dos brutos, a mesma que faz com que um bicho ande bonito.

Mas às vezes, àquele corpo que os passos haviam tornado mecânico e leve, um mar deserto já nada mais dizia. E procurando em si, só Deus sabe para quê, o contato com um desejo mais intenso – ele conseguiu ver o mar cheio da extrema altura dos mastros e do estertor das gaivotas! gaivotas de entranhas gritando seu hálito de sal, o alvoroçado mar dos que partem, a maré que leva adiante. Eu te amo, disse seu olhar para uma pedra, porque o súbito mar de gritos perturbara profundamente suas próprias entranhas, e desse modo ele olhou a pedra.

Um quilômetro além o homem porém já esquecera essa forma de mar, cujo esforço de invenção na verdade o deixara exausto. E tropeçando apressado nos cascalhos, estendeu em grande apelo os braços para o desejo de um mar noturno, cujo rumor desenrolaria enfim a espessura que existe no silêncio. Seus ouvidos ocos tinham sede, e o rumor primário do mar seria o que menos comprometeria o modo cauteloso como ele se tornara apenas um homem caminhando. Porque estendera abruptamente os braços, perdeu o equilíbrio e quase caiu – seu coração pulou em espanto várias vezes. A vida inteira aquele homem tivera medo de um dia levar uma queda numa ocasião solene. Pois havia de ser naquele momento que, perdendo a garantia com que um homem fica sobre dois pés, ele se arriscou à penosa acrobacia de voar desajeitado. Boquiaberto, olhou em torno porque certos gestos se tornam aterrorizantes na solidão, com um valor final neles mesmos. Quando um homem cai sozinho num campo não sabe a quem dar a sua queda.

Pela primeira vez desde que se pusera a caminhar, ele parou. Já não sabia sequer ao que estendera os braços. No coração sentia a miséria que existe em levar uma queda.

Recomeçou então a andar. Mancar dava uma dignidade a seu sofrimento.

Mas com a interrupção ele perdera uma velocidade essencial que então procurou compensar substituindo-a por uma espécie de violência íntima. E como precisava ter à frente algo que o esperasse – de novo o mar se rebentou em fúria num penhasco.

Chegar um dia ao mar era, porém, algo de que ele agora só usava a parte de sonho. Não pensava um instante sequer em agir de modo a que a visão feliz se tornasse uma realidade. Nem mesmo se soubesse que passos o levariam ao mar, ele agora os daria – tanto fora aos poucos se descartando com sabedoria instintiva de tudo o que pudesse mantê-lo entravado por um futuro, pois futuro é faca de dois gumes, e futuro molda o presente. Com o correr dos dias também outras ideias tinham ficado gradualmente para trás como se, à medida que o tempo não definindo o perigo o tornasse maior, o homem fosse se despojando do que pesa. E sobretudo do que ainda pudesse mantê-lo preso ao mundo anterior.

Até que agora – sem nenhum desejo, cada vez mais leve, como se também a fome e a sede fossem um desprendimento voluntário de que ele estava começando aos poucos a se envaidecer – até que agora ele avançava enorme no campo, olhando ao redor de si com uma independência que lhe subiu em prazer grosseiro para a cabeça, e começou a tonteá-lo em felicidade. “Hoje deve ser domingo” – chegou mesmo a pensar com certa glória, e domingo seria o grande coroamento de sua isenção. Hoje deve ser domingo! pensou com súbita altivez como se o tivessem ofendido na honra.

Tratava-se de seu primeiro pensamento claro desde que deixara o hotel. Na verdade, desde que fugira, era o primeiro pensamento que não tinha mera utilidade de defesa. De início, aliás, Martim até não soube o que fazer com ele. Apenas agitou-se à novidade, e coçou-se voraz sem parar de andar. Então, aprovando-se com ferocidade e acompanhando o pensamento com um encorajamento rouco, repetiu: hoje deve ser domingo.

Aparentemente devia ser mais uma constatação indireta de si próprio do que do dia da semana, pois, sem parar um segundo de caminhar, ele completou o radiante e seco olhar ao que acabara de chamar de “domingo” com um apalpamento desajeitado dos bolsos. Sem nenhuma razão, senão a do próprio cansaço, estava caminhando cada vez mais depressa. Na verdade agora mal conseguia se acompanhar. E excitado nessa competição com seus próprios passos – olhou em torno com inocente deslumbramento, a cabeça fervendo de sol.

Sem contar os dias passados não havia motivo para achar que seria domingo. Martim então parou, um pouco embaraçado pela necessidade de ser compreendido, da qual ele ainda não se livrara.

Mas a verdade é que o descampado tinha uma existência limpa e estrangeira. Cada coisa estava no seu lugar. Como um homem que fecha a porta e sai, e é domingo. Além do mais, domingo era o primeiro dia de um homem. Nem a mulher fora criada. Domingo era o descampado de um homem. E a sede, libertando-o, dava-lhe um poder de escolha que o inebriou: hoje é domingo! determinou categórico.

Então sentou-se numa pedra e muito teso ficou olhando. O olhar não esbarrou em nenhum obstáculo e errou num meio-dia intenso e tranquilo. Nada o impedia de transformar a fuga numa grande viagem, e estava disposto a fruí-la. Olhava.

Mas há alguma coisa numa extensão de campo que faz com que um homem sozinho se sinta sozinho. Sentado numa pedra, o fato final e irredutível – é que ele estava ali. Então, com súbito desvelo, sacudiu amoroso a poeira do paletó. De um modo obscuro e perfeito ele próprio era a primeira coisa posta no domingo. O que o tornava precioso como uma semente, ele tirou um fiapo do paletó. No chão sua sombra preta e definida delimitava sem engano favorável até onde ele era. Ele mesmo era o seu primeiro marco.

Se bem que, além de tentar se limpar por mera questão de decência, o homem não pareceu ter a menor intenção de fazer alguma coisa com o fato de existir. Estava era sentado na pedra. Também não pretendia ter o menor pensamento sobre o sol.

Era nisso pois que dava a liberdade. Seu corpo grunhiu com prazer, o terno de lã lhe dava pruridos no calor. A ilimitada liberdade o deixara vazio, cada gesto seu repercutia como palmas na distância: quando ele se coçou, esse gesto rolou diretamente para Deus. A coisa mais desapaixonadamente individual acontecia quando uma pessoa tinha a liberdade. No começo você é um homem estúpido tendo a mais a grande solidão. Depois, um homem que levou uma bofetada na cara e no entanto sorri beato porque ao mesmo tempo a bofetada lhe deu de presente uma cara que ele não suspeitava. Depois, aos poucos, você começa, sonso, a fazer casa e a tomar as primeiras intimidades impudicas com a liberdade: você só não voa porque não quer, e quando se senta numa pedra é porque em vez de voar sentou-se. E depois?

Depois, como agora, o que Martim sentado experimentava era uma orgia muda na qual havia o virginal desejo de aviltar tudo o que é aviltável; e tudo era aviltável, e esse aviltamento seria um modo de amar. Estar contente era um modo de amar; sentado, Martim estava muito contente.

E depois? Bem, só mesmo o que aconteceria depois é que iria dizer o que aconteceria depois. Por enquanto o homem fugido ficou sentado na pedra porque se quisesse poderia não se sentar na pedra. O que lhe dava a eternidade de um pássaro pousado.

Depois do que, Martim se ergueu. E sem questionar o que fazia, ajoelhou-se diante de uma árvore seca para examinar seu tronco: não parecia mais precisar de raciocinar para resolver, tinha-se desembaraçado disso também. Tirou pois um pedaço de casca meio solta, esmigalhou-a entre os dedos com uma atenção um pouco afetada, agindo como diante de um público. E tendo sido este o seu estudo do modo peculiar como aquilo que se desconhece se organiza, Martim ergueu-se como a uma ordem e continuou a marcha.

Foi mais além que estacou diante do primeiro passarinho.

Desenhado na grande luz estava um passarinho. Como Martim estava livre, essa foi a questão: na luz o passarinho. Com o zelo minucioso a que já estava se habituando, ele se pôs incontinenti a trabalhar gulosamente com esse fato.

O passarinho negro estava pousado num ramo baixo, à altura de seus olhos. E impedido de voar pelo olhar abrutalhado do homem, mexia-se cada vez menos à vontade, tentando não encarar o que estava para lhe acontecer, alternando nervosamente o apoio do corpo numa ou noutra pata. Assim os dois ficaram se defrontando. Até que com mão pesada e potente o homem pegou-o sem machucá-lo, com a bondade física que tem uma mão pesada.

O pássaro tremia todo na concha da mão sem ousar piar. O homem olhou com uma curiosidade grosseira e indiscreta a coisa na sua mão como se tivesse aprisionado um punhado de asas vivas. Aos poucos o pequeno corpo dominado deixou de tremer e os olhos miúdos se fecharam com uma doçura de fêmea. Agora, contra os dedos extremamente auditivos do homem, somente a batida diminuta e célere do coração indicou que a ave não morrera e que o aconchego a resignara enfim a descansar.

Espantado com a perfeição automática do que lhe estava acontecendo, o homem rosnou olhando para o pequeno bicho – a satisfação fê-lo rir alto, com a cabeça inclinada para trás, o que fez sua cara defrontar o grande sol. Depois deixou de rir como se isso tivesse sido uma heresia. E compenetrado com sua tarefa, a mão semicerrada deixando de fora apenas a cabeça dura e aguda da ave, o homem recomeçou a andar com muita força tomando conta do companheiro. A única coisa que nele pensava era o ruído dos próprios sapatos ecoando na cabeça que o sol agora tranquilamente incendiava.

E em breve, com a sequência dos passos, de novo o gosto físico de estar andando começou a tomá-lo, e também um prazer mal discernido como se ele tivesse ingerido uma droga afrodisíaca que o fizesse querer não uma mulher, mas responder ao tremor do sol. Nunca estivera tão perto do sol, e andava cada vez mais depressa segurando à frente de si a ave como se fosse levá-la antes que o correio fechasse. A vaga missão o inebriava. A leveza que vinha da sede de repente tomou-o em êxtase:

– É, sim! disse alto e sem sentido, e parecia cada vez mais glorioso como se fosse cair morto.

Olhou em torno de si para o círculo perfeito que, num horizonte estarrecido, o céu de luzes fazia ao se unir a uma terra cada vez mais suave, cada vez mais suave, cada vez mais suave... A suavidade incomodou o homem com um prazer de cócega, “é, sim!”, e ele livre, libertado pelas suas próprias mãos – pois de súbito pareceu-lhe que fora isso o que lhe sucedera há duas semanas.

Então repetiu com inesperada certeza: “é, sim!” Cada vez que dizia essas palavras estava convencido de que aludia a alguma coisa. Fez mesmo um gesto de generosidade e largueza com a mão que segurava o passarinho, e magnânimo pensou: “eles não sabem a que estou me referindo”.

Depois – como se pensar tivesse se reduzido a ver, e a confusão de luz tivesse tremido nele como em água – ocorreu-lhe em refração confusa que ele mesmo esquecera ao que aludia. Mas estava tão obstinadamente convencido de que se tratava de algo da maior importância, embora tão vasto que já não lhe era mais discernível, que respeitou com altivez a própria ignorância e aprovou-se feroz: “é, sim”.

– Você não sabe mais falar?!

O homem estacou boquiaberto. Como se lhe tivesse sido jogado à frente, reviu o rosto impaciente de mulher que uma vez assim o interpelara só porque ele não lhe respondera. Da primeira vez a frase soara como uma frase entre outras – enquanto bondes se arrastavam e o rádio ininterrupto tocava e a mulher sem cessar ouvia o rádio com desfastio e esperança, e ele um dia quebrara o rádio enquanto os bondes se arrastavam, e no entanto o rádio e a mulher nada tinham a ver com a minuciosa raiva de um homem que provavelmente já tinha em si o fato de que um dia teria que começar pelo exato começo, ele que agora começava pelo domingo.

Mas desta vez a simples frase irritada, ao soar no vermelho silêncio do descampado, fê-lo estacar com tal perplexidade que o passarinho acordou mexendo asas aflitas na sua mão. Aparvalhado, Martim olhou-o, espantado de ter um pássaro na mão. A embriaguez do sol fora subitamente cortada.

Sóbrio, ele olhou com modéstia a coisa na sua mão. Depois olhou o descampado dominical com suas pedras silenciosas. Estivera dormindo profundamente enquanto andara e pela primeira vez acordava. E como se nova onda de mar se rebentasse contra as rochas, a claridade se impôs.

O homem olhou dócil o passarinho. Sem comando próprio, seus dedos agora inocentes e curiosos deixaram-se obedecer aos movimentos extremamente vivos da ave, e abriram-se inertes: o pássaro voou numa faísca de ouro como se o homem o tivesse lançado. E empoleirou-se inquieto na pedra mais alta. De lá olhava o homem, piando sem cessar.

Por um instante paralisado, Martim olhou-o e olhou as próprias mãos que, vazias, o olhavam atônitas. Recuperando-se, porém, correu furioso para o passarinho, e assim o perseguiu por algum tempo, o coração batendo de cólera, os sapatos impacientes tropeçando nos pedregulhos, a mão se arranhando numa queda que fez uma pedrinha rolar em vários pulos secos até emudecer...

A quietude que se seguiu foi tão oca que o homem procurou ouvir ainda um último baque da pedra para calcular a profundidade do silêncio onde ele a lançara.

Até que uma vaga de grande luz desfez a tensão da expectativa, e Martim pôde olhar a mão. Esta ardia, e o sangue porejava fino. Esquecido da perseguição, muito interessado agora, seus lábios secos chuparam o arranhão com uma avidez de carinho como uma pessoa que está só. Ao mesmo tempo que lhe despertou a sede, o sangue na boca deu-lhe uma atitude guerreira que logo em seguida passou.

Quando o homem enfim ergueu os olhos, o passarinho perturbado o esperava como se só tivesse lutado porque pretendia ceder. Martim estendeu a mão ferida e pegou-o com uma firmeza sem esforço. Dessa vez a ave agitou-se menos e, reconhecendo o antigo abrigo, acomodou-se para adormecer. Com o leve peso a carregar, o homem continuou sua marcha entre pedras.

– Não sei mais falar, disse então para o passarinho, evitando olhá-lo por uma certa delicadeza de pudor.

Só depois pareceu entender o que dissera, e então olhou face a face o sol. “Perdi a linguagem dos outros”, repetiu então bem devagar como se as palavras fossem mais obscuras do que eram, e de algum modo muito lisonjeiras. Estava serenamente orgulhoso, com os olhos claros e satisfeitos.

Então o homem se sentou numa pedra, ereto, solene, vazio, segurando oficialmente o pássaro na mão. Porque alguma coisa estava lhe acontecendo. E era alguma coisa com um significado.

Embora não houvesse um sinônimo para essa coisa que estava acontecendo.

Um homem estava sentado. E não havia sinônimo para nenhuma coisa, e então o homem estava sentado. Assim era. O bom é que era indiscutível. E irreversível.

É verdade que aquela coisa que lhe estava acontecendo tinha um peso a se suportar – ele bem reconheceu o peso familiar. Era como o peso dele próprio. Embora fosse alguma coisa ímpar: aquele homem parecia não ter mais nada equivalente a pôr no outro prato da balança. Vagamente ele conhecia isso. No seu antigo apartamento às vezes tivera esse incômodo misturado com prazer e atenção – que sempre resultara em alguma decisão que nada tinha a ver com o sentimento embaraçador. Nunca o sentira, é verdade, com essa nitidez final de descampado. No que era ajudado pela própria sombra que o delimitava sem equívocos no chão.

Aquela coisa que ele estava sentindo devia ser, em última análise, apenas ele mesmo. O que teve o gosto que a língua tem na própria boca. E tal falta de nome como falta nome ao gosto que a língua tem na boca. Não era, pois, nada mais que isso.

Mas, a essa coisa, uma pessoa ficava um pouco atenta; e ficar atenta a isso, era ser. Assim, pois, no seu primeiro domingo, ele era.

O que, no entanto, começou a ficar um pouco intenso. O homem então se mexeu inconfortável na pedra, respondendo fisicamente à imaterialidade da própria tensão, como faz uma pessoa que se perturbou. E se assim fez era porque, embora não se conhecesse, era familiar a ele mesmo a ponto de saber como responder. Isso porém não bastou. Olhou então ao redor, como quem procura o contraponto de uma mulher. Mas não havia um sinônimo sequer para um homem sentado com um pássaro na mão.

Então, paciente e digno, esperou que a coisa passasse sem que ele ao menos a tocasse.

É que aquele homem sempre tivera uma tendência a cair na profundidade, o que um dia ainda poderia levá-lo a um abismo: por isso sabiamente tomou a precaução de abster-se. Sua contenção, à crosta facilmente quebrável da profundidade, lhe deu o prazer da contenção. Sempre fora um equilíbrio difícil, o seu, o de não cair na voracidade com que vagas e vagas o esperavam. Todo um passado estava apenas a um passo da extrema cautela com que aquele homem procurava se manter apenas vivo, e nada mais – assim como o animal brilha apenas nos olhos, mantendo atrás de si a vasta alma intocada de um animal. Então, sem tocá-la, ele se dispôs a esperar impassível que a coisa passasse.

Antes que passasse, ele involuntariamente a reconheceu. Aquilo – aquilo era um homem pensando... Então com infinito desagrado, fisicamente atrapalhado, ele se lembrou no corpo de como é homem pensando. Homem pensando era aquilo que, ao ver algo amarelo, dizia com esforço deslumbrado: essa coisa que não é azul. Não que Martim tivesse chegado propriamente a pensar – mas o reconhecera como se reconhece na forma das pernas imóveis o possível movimento. E mais que isso ele reconheceu: essa coisa na verdade estivera durante toda a fuga com ele. Fora apenas por desleixo que quase a deixara agora se alastrar.

Então, sobressaltado, como se em alarme tivesse reconhecido a volta insidiosa de um vício, teve tal repugnância pelo fato de ter quase pensado que apertou os dentes em dolorosa careta de fome e desamparo – virou-se inquieto para todos os lados do descampado procurando entre as pedras um meio de recuperar a sua potente estupidez anterior que para ele se havia tornado fonte de orgulho e domínio.

Mas o homem estava perturbado: então não seria uma pessoa capaz de dar dois passos livres sem cair no mesmo erro fatal? pois o velho sistema de inutilmente pensar, e de mesmo comprazer-se em pensar, tentara voltar: sentado na pedra com o passarinho na mão, por descuido até prazer ele tivera. E, se se descuidasse um minuto mais, recuperaria numa só golfada sua existência anterior: quando pensar fora a ação inútil e o prazer apenas vergonhoso. Desamparado, mexeu-se na pedra quente: parecia procurar um argumento que o protegesse. Precisava defender o que, com enorme coragem, conquistara há duas semanas. Com enorme coragem, aquele homem deixara enfim de ser inteligente.

Ou fora-o realmente alguma vez? a dúvida feliz fê-lo piscar os olhos com grande esperteza – pois se ele conseguisse se provar que nunca tinha sido inteligente, então se revelaria também que seu próprio passado fora outro, e se revelaria que alguma coisa no fundo dele próprio sempre fora inteiro e sólido.

“Na verdade”, pensou então experimentando com cuidado esse truque de defesa, “na verdade apenas imitei a inteligência assim como poderia nadar como um peixe sem o ser!” O homem se mexeu contente: imitei? mas sim! Pois se, imitando o que seria ganhar o primeiro lugar no concurso de estatística, ele ganhara o primeiro lugar no concurso de estatística! Na verdade, concluiu então muito interessado, apenas imitara a inteligência, com aquela falta essencial de respeito que faz com que uma pessoa imite. E com ele, milhões de homens que copiavam com enorme esforço a ideia que se fazia de um homem, ao lado de milhares de mulheres que copiavam atentas a ideia que se fazia de mulher e milhares de pessoas de boa vontade copiavam com esforço sobre-humano a própria cara e a ideia de existir; sem falar na concentração angustiada com que se imitavam atos de bondade ou de maldade – com uma cautela diária em não escorregar para um ato verdadeiro, e portanto incomparável, e portanto inimitável, e portanto desconcertante. E enquanto isso, tinha alguma coisa velha e podre em algum lugar inidentificável da casa, e a gente dorme inquieta, o desconforto é a única advertência de que se está copiando, e nós nos escutamos atentos embaixo dos lençóis. Mas tão distanciados estamos pela imitação que aquilo que ouvimos nos vem tão sem som como se fosse uma visão que fosse tão invisível como se estivesse nas trevas que estas são tão compactas que mãos são inúteis. Porque mesmo a compreensão, a pessoa imitava. A compreensão que nunca fora feita senão da linguagem alheia e de palavras.

Mas restava a desobediência.

Então – através do grande pulo de um crime – há duas semanas ele se arriscara a não ter nenhuma garantia, e passara a não compreender.

E sob o sol amarelo, sentado numa pedra, sem a menor garantia – o homem agora se rejubilava como se não compreender fosse uma criação. Essa cautela que uma pessoa tem de transformar a coisa em algo comparável e então abordável, e, só a partir desse momento de segurança, olha e se permite ver porque felizmente já será tarde demais para não compreender – essa precaução Martim perdera. E não compreender estava de súbito lhe dando o mundo inteiro.

Que era inteiramente vazio, para falar a verdade. Aquele homem rejeitara a linguagem dos outros e não tinha sequer começo de linguagem própria. E no entanto, oco, mudo, rejubilava-se. A coisa estava ótima.

Então, para começo de conversa, a pessoa se sentava na pedra no domingo.

E de tal modo, com perverso gosto, o homem se sentia agora longe da linguagem dos outros que, por um atrevimento que lhe veio da segurança, tentou usá-la de novo. E estranhou-a, como um homem que escovando sóbrio os dentes não reconhece o bêbedo da noite anterior. Assim, ao remexer agora com fascínio ainda cauteloso na linguagem morta, ele tentou por pura experiência dar o título antigamente tão familiar de “crime” a essa coisa tão sem nome que lhe sucedera.

Mas “crime?” A palavra ressoou vazia no descampado, e também a voz da palavra não era sua. Então, finalmente convencido de que não seria capturado pela linguagem antiga, ele experimentou ir um pouco mais longe: sentira por acaso horror depois de seu crime? O homem apalpou com minúcia sua memória. Horror? e no entanto era o que a linguagem esperaria dele.

Mas também horror se tornara palavra de antes do grande pulo cego que ele dera com o seu crime. O pulo tinha sido dado. E o salto fora tão grande que terminara se transformando no único acontecimento com o qual ele podia e queria lidar. E até os motivos do crime haviam perdido a importância.

A verdade é que o homem com sabedoria abolira os motivos. E abolira o próprio crime. Tendo certa prática de culpa, sabia viver com ela sem ser incomodado. Já cometera anteriormente os crimes não previstos pela lei, de modo que provavelmente considerava apenas dureza da sorte ter há duas semanas executado exatamente um que fora previsto. Uma boa educação cívica e um longo treinamento de vida o haviam adestrado a ser culpado sem se trair, não seria uma tortura qualquer que faria com que sua alma se confessasse culpada, e muito seria necessário para fazer um herói finalmente chorar. E quando isso acontece é um espetáculo deprimente e repugnante que não suportamos sem nos sentirmos traídos e ofendidos: quem nos representa é imperdoável. Acontece que, por circunstâncias especiais, em duas semanas aquele homem se tornara um duro herói: ele representava a si mesmo. A culpa não o atingia mais.

“Crime”? Não. “O grande pulo” – estas sim pareciam palavras dele, obscuras como o nó de um sonho. Seu crime fora um movimento vital involuntário como o reflexo do joelho à pancada: todo o organismo se reunira para que a perna, de súbito incoercível, tivesse dado o pontapé. E ele não sentira horror depois do crime. O que sentira então? A espantada vitória.

Fora isso: ele sentira vitória. Com deslumbramento, vira que a coisa inesperadamente funcionava: que um ato ainda tinha o valor de um ato. E também mais: com um único ato ele fizera os inimigos que sempre quisera ter – os outros. E mais ainda: que ele próprio se tornara enfim incapacitado de ser o homem antigo pois, se voltasse a sê-lo, seria obrigado a se tornar o seu próprio inimigo – uma vez que na linguagem de que até então vivera ele simplesmente não poderia ser amigo de um criminoso. Assim, com um único gesto, ele não era mais um colaborador dos outros, e com um único gesto cessara de colaborar consigo mesmo. Pela primeira vez Martim se achava incapacitado de imitar.

Sim. Naquele instante de espantada vitória o homem de repente descobrira a potência de um gesto. O bom de um ato é que ele nos ultrapassa. Em um minuto Martim fora transfigurado pelo seu próprio ato. Porque depois de duas semanas de silêncio, eis que ele muito naturalmente passara a chamar seu crime de “ato”.

É verdade que a sensação de vitória lhe durara apenas uma fração de segundo. Logo depois ele não tivera mais tempo: num ritmo extraordinariamente perfeito e lubrificado, seguira-se o profundo entorpecimento de que ele tinha precisado para que nascesse esta sua inteligência atual. Que era grosseira e esperta como a de um rato. Nada além disso. Mas pela primeira vez utensílio. Pela primeira vez sua inteligência tinha consequências imediatas. E de tal modo se tornara posse total sua que ele pudera habilidosamente especializá-la em garanti-lo, e em garantir sua vida. Tanto que instantaneamente passara a saber como fugir como se tudo o que tivesse feito até agora na vida diária não tivesse sido senão ensaio indistinto para a ação. E então aquele homem se tornara finalmente real, um rato verdadeiro, e qualquer pensamento dentro dessa inteligência nova era um ato, embora rouco como de voz ainda nunca usada. Era pouco o que ele era agora: um rato. Mas enquanto rato, nada nele era inútil. A coisa era ótima e profunda. Dentro da dimensão de um rato, aquele homem cabia inteiro.

Sim; tudo isso se seguira ao crime a um tal ponto de perfeição que Martim não tivera sequer tempo de pensar no que fizera. Mas antes – durante uma fração de segundo – antes a vitória. Porque um homem um dia tinha que ter a grande cólera.

Ele a tivera. E pela primeira vez, com candura, admirara-se a si mesmo como um menino que se descobre nu ao espelho. Aparentemente, com o acúmulo de pensamentos de bondade sem a ação da bondade, com o pensamento de amor sem o ato de amor, com o heroísmo sem o heroísmo, sem falar de certa crescente imprecisão de existir que terminara se tornando o impossível sonho de existir – aparentemente aquele homem terminara por esquecer que uma pessoa pode agir. E ter descoberto que na verdade já tinha involuntariamente agido, dera-lhe de repente um mundo tão livre que ele se estonteara na vitória.

Aquele homem não se questionara sequer se havia quem pudesse agir sem ser por intermédio de um crime. O que teimosamente sabia, apenas, é que um homem tinha que ter um dia a grande cólera.

– Eu era como qualquer um de vocês, disse então muito subitamente para as pedras pois estas pareciam homens sentados.

Dito isto, Martim de novo mergulhou num silêncio total como meditação. Estava rodeado de pedras. O vento que soprava ardente transpassava-o como ao descampado. Oco e tranquilo, ele olhou a luz oca e tranquila. O mundo era tão grande que ele estava sentado. Por dentro tinha o vazio ressonante de uma catedral.

– Imaginem – recomeçou então inesperadamente quando estava certo de que nada mais tinha a lhes dizer – imaginem uma pessoa que tenha precisado de um ato de cólera, disse para uma pedra pequena que o olhava com um rosto calmo de criança. Essa pessoa foi vivendo, vivendo; e os outros também imitavam com aplicação. Até que a coisa foi ficando muito confusa, sem a independência com que cada pedra está no seu lugar. E não havia sequer como fugir de si porque os outros concretizavam, com impassível insistência, a própria imagem dessa pessoa: cada cara que essa pessoa olhava repetia em pesadelo tranquilo o mesmo desvio. Como explicar a vocês – que têm a calma de não ter futuro – que cada cara tinha falhado, e que esse fracasso tinha em si uma perversão como se um homem dormisse com outro homem e assim os filhos não nascem. “A sociedade estava tão chata”, como disse minha mulher – lembrou-se o homem sorrindo com muita curiosidade. Havia um erro e não se sabia onde estava. Uma vez eu estava comendo num restaurante, contou o homem animando-se de súbito. Não, não, estou mudando de assunto! descobriu surpreendido, pois seu pai é que sempre tivera certa tendência a mudar de assunto e mesmo na hora de morrer havia virado o rosto para um lado.

– Imaginem uma pessoa – continuou então – que não tinha coragem de se rejeitar: e então precisou de um ato que fizesse com que os outros a rejeitassem, e ela própria então não pudesse mais viver consigo.

O homem riu com os lábios ressecados ao usar o truque de se mascarar sob o título de outra pessoa, o que no momento lhe pareceu muito bom como golpe de esperteza; então ficou satisfeito como sempre que conseguia enganar alguém. Talvez tivesse vaga consciência de que estava representando e se vangloriando, mas fingir era uma nova porta que, no primeiro esbanjamento de si mesmo, ele podia se dar ao luxo de abrir ou fechar.

– Imaginem uma pessoa que era pequena e não tinha força. Ela na certa sabia muito bem que toda a sua força reunida, tostão por tostão, só seria suficiente para comprar um único ato de cólera. E na certa também sabia que esse ato teria que ser bem rápido, antes que a coragem acabasse, e teria mesmo que ser histérico. Essa pessoa, então, quando menos esperava, executou esse ato; e nele investiu toda a sua pequena fortuna.

Bastante espantado com o que acabara de pensar, o homem se interrompeu com curiosidade: “então foi isso o que me aconteceu?” Era a primeira vez que lhe ocorria.

É verdade que até agora ele não tivera sequer tempo de pensar no seu crime. Mas, abordando-o enfim neste instante, abordara-o de um modo que faria com que nenhum tribunal o reconhecesse. Estaria ele descrevendo seu crime como um homem que pintasse num quadro uma mesa – e ninguém a reconhecesse porque o pintor a pintara do ponto de vista de quem está embaixo da mesa?

Que é que aquele homem, em duas semanas apenas, terminara por fazer do próprio crime?

Ainda se perguntou com uns restos de escrúpulo: “foi isso mesmo o que me aconteceu?” Mas um segundo depois era tarde demais: se esta não era a verdade, passaria a sê-la. O homem sentiu com alguma gravidade que este instante era muito sério: de agora em diante era unicamente com esta verdade que ele passaria a lidar.

O que lhe escapou era se explicara desse modo seu crime porque assim realmente acontecera – ou se porque todo ele estava pronto para esse tipo de realidade. Ou, mesmo, se estaria dando falsas razões por mera esperteza de fugitivo que se defende. Mas um longo passado de embotamento tendencioso não lhe permitia ainda saber em que lugar de si seus dedos sentiriam a veia responder como esta responde quando se toca na verdade do sonho. E por enquanto ele era alguém ainda muito recente, de modo que tudo o que disse não somente lhe pareceu ótimo, como ele caía, deslumbrado apenas pelo fato de ter conseguido caminhar sozinho.

Na verdade, nesse instante, sua única ligação direta com o crime concreto foi um pensamento de extrema curiosidade: “como é que isso pôde acontecer a mim?” Sentia-se inferior aos acontecimentos que ele criara com o crime. Pois rebentara com seu hábito de vida, infelicidade que só costuma acontecer com os outros. E de súbito não eram somente palavras que lhe tinham acontecido. Martim estava sinceramente espantado pelo fato da desgraça também o ter atingido e – mais que isto – que ele estivesse por assim dizer à altura dela. Tinha certa vaidade de enfim lhe ter acontecido o crime até então apenas dos outros.

O homem continuou a olhar a mesa de baixo para cima – e o que importava é que ele a reconhecia. É verdade que a fome também tornava qualquer esforço seu muito penoso; as pedras, no entanto, aguardavam intransigentes um prosseguimento. Então, para fazê-lo repousar, sua cabeça sabiamente se enevoou um pouco.

Depois do que, Martim recomeçou mais devagar e procurou pensar com muito cuidado pois a verdade seria diferente se você a dissesse com palavras erradas. Mas se você a disser com as palavras certas, qualquer pessoa saberá que aquela é a mesa sobre a qual comemos. De qualquer modo, agora que Martim perdera a linguagem, como se tivesse perdido o dinheiro, seria obrigado a manufaturar aquilo que ele quisesse possuir. Ele se lembrou de seu filho que lhe dissera: eu sei por que é que Deus fez o rinoceronte, é porque Ele não via o rinoceronte, então fez o rinoceronte para poder vê-lo. Martim estava fazendo a verdade para poder vê-la.

Oh, é bem possível que ele estivesse mentindo para as pedras. Sua única inocência, ao lado do hábito tendencioso de mentir, estava em que ele ignorava em que ponto exato estava a sua mentira. Então, diante dessa ambiguidade, sua cabeça defensivamente se enevoou ainda mais. E, por um pequeno truque que trouxera de antes do grande pulo, ele se tornou um ingênuo.

Refeito, então, recomeçou o seu sermão para as pedras:

– Com um ato de violência essa pessoa de quem estou falando matou um mundo abstrato e lhe deu sangue.

E isso ele disse com a resignação estoica de quem já deu um jeito de fazer com que a ênfase não esteja mais em mentir ou falar a verdade. Aquele homem acabara de se desprender definitivamente. Depois do que, ficou muito satisfeito olhando. A coisa estava ficando cada vez melhor. De baixo para cima, ele reconhecia cada vez mais a mesa.

E agora, sentado na pedra com um passarinho na mão, com a boca seca de sede, com os olhos ardendo – depois de seu crime, aquele homem nunca mais precisaria de nenhuma revolta. Desta hora em diante teria a oportunidade de viver sem fazer o mal porque já o fizera: ele era agora um inocente.

Quem sabe se com seu crime impremeditado nem pretendera ir tão longe. Mas também isso lhe viera: ele se tornara um inocente. E, por Deus, jamais pretendera tanto: mas também se livrara de uma certa piedade sufocadora pois ele agora já não era mais um culpado – “se é que você está me entendendo”, pensou com fatuidade compenetrada, pois ele se livrara da grande culpa materializando-a. E agora, que enfim fora banido, estava livre. Ele era enfim um perseguido. O que lhe dava todas as possibilidades dos que se desesperam. “Matei vários coelhos numa só cajadada”, disse.

As grandes e pequenas pedras esperavam. Martim estava muito confiante porque, não sendo seu auditório mais inteligente que ele, ele se sentiu à vontade. Aliás aquele homem nunca tivera auditório, por estranho que parecesse. É que nunca se lembrara de organizar sua alma em linguagem, ele não acreditava em falar – talvez com medo de, ao falar, ele próprio terminar por não reconhecer a mesa sobre a qual comia. Se agora falava é que não sabia para onde ia, nem sabia o que ia lhe acontecer, e isso o colocava no próprio coração da liberdade. Sem mencionar o fato de que a sede o excitava como um ideal.

Além do mais, o auditório improvisado não tinha cultura, e ele então abusou dele assim como se habituara sadiamente a abusar de um inferior e a ser abusado por superiores. Sua própria falta de cultura sempre o encabulara, ele costumara fazer interminavelmente uma lista sempre renovada dos livros que pretendera ler mas sempre aparecia obra nova e isso o embaraçava, ele que não dava sequer conta dos jornais; pretendera até se aprofundar em “psicologia coletiva” já que sempre lidara com números e já que sempre fora um homem que facilmente imitava a inteligência: mas nunca tivera tempo, sua mulher o arrastava para o cinema, para onde ele ia com alívio.

As pedras esperavam. Algumas eram arredondadas e mortas como pedras da lua; eram de algum modo vesgas, pacientes, aquelas crianças. Mas as outras eram pedrarias do sol e olhavam direto. “Como joias”, pensou, pois ele sempre tivera uma tendência geral a comparar coisas com joias. As pedras esperavam a continuação do que ele começara a pensar. De vez em quando elas tinham um relance de extrema vida que transmitia ao homem um doloroso impulso de felicidade vazia. “Acho”, pensou ele de repente, “que até morrer serei sempre muito feliz”.

O sol lhe doía fundo na cabeça, e o homem se forçou de novo a falar porque sentira em si uma dura facilidade – como quando se tem alguma coisa a dizer embora não se saiba de que modo, mas quando esse mínimo de inspiração nos dá força para a busca difícil. Mesmo ele queria falar porque não há uma lei que impeça um homem de falar. E por enquanto o que fascinava Martim era qualquer ausência de impedimentos. Além do mais, ele bem sabia que o mundo era tão grande que em breve ele seria mesmo obrigado a se restringir. As pedras esperavam, vindas de todas as partes para a conspiração – para a qual ele trazia, como um viajante, as últimas notícias. Umas pedras eram pequenas e infantis, outras grandes e pontudas, todas sentadas no comício da inocência. Era um auditório desigual onde se misturavam infância e maturidade.

– Infância e maturidade, disse-lhes então de repente. No entanto houve uma época em que o mundo era liso como a pele de uma fruta lisa. Nós, os vizinhos, não a mordíamos porque seria fácil morder, e havia tempo. A vida naquele tempo ainda não era curta. E enquanto isso – as árvores cresciam. As árvores cresciam como se não houvesse no mundo senão árvores crescendo. Até que o sol escureceu, gente se aproximou, poços se multiplicaram e os mosquitos saíam do coração das flores: estava-se crescendo. Era-se maduro. Era mais rico e amedrontador, de algum modo tornou-se muito mais “vale a pena”. As noites tornaram-se mais longas, pai e mãe foram renegados, havia uma sede ruim de amor. O reinado era o do medo. E não bastava mais ter nascido: era o heroísmo nascendo. Mas a eloquência soava mal. As pessoas se chocavam no escuro, toda luz desorientava cegando, e a verdade só servia para um dia. Todas as nossas dificuldades esbarravam logo com uma solução. Estávamos perdidos com as soluções que nos antecediam, para falar a verdade o mundo nos antecedia a cada passo. Em poucos segundos uma ideia se tornava original: quando víamos uma fotografia com sombra e luz e paralelepípedos molhados pela chuva, exclamávamos unânimes e cansados: esta é muito original. Tudo estava profundo e podre, pronto para o parto, mas a criança não nascia. Não digo que não era bom – era ótimo! mas era como se a pessoa só pudesse olhar, e sábado de noite seria aquele inferno de vontade generalizada se não houvesse pôquer. No entanto nada parava jamais, trabalhava-se mesmo de noite. O poder tornara-se grande; as mãos inteligentes. Todos eram poderosos, todos eram tiranos e eu nunca deixei ninguém pisar no meu pé, minha astúcia se tornou grande com auxílio de certa prática. Embora houvesse os que, apesar de maduros, tinham – “tinham como uma lepra a infância devorando o peito”.

Esta última frase o homem disse com vaidade porque lhe pareceu que organizara com alguma perfeição as palavras. Certamente o que fez Martim experimentar essa perfeição foi o fato de suas palavras terem de algum modo ultrapassado o que ele quisera dizer. E, embora se sentindo ludibriado por elas, preferiu o que dissera ao que realmente pretendera dizer, por causa do modo muito mais certo como as coisas nos ultrapassam. O que também lhe deu, no mesmo instante, uma impressão de fracasso; e de resignação ao modo como acabara de se vender a uma frase que tinha mais beleza que verdade. A primeira coisa que ele estava esbanjadoramente comprando com seu novo dinheiro era um público – mas este já o forçara a uma verdade organizada. O que o desapontou com alguma curiosidade. É que só uma vez, anteriormente, ele falara: tinha bebido e fizera um discurso numa casa alegre onde as mulheres também pareciam joias sentadas porque já era de madrugada e o trabalho terminara, e elas eram infantis e maduras.

– Sim, embora houvesse os que tinham a infância no peito, como se somente na memória estivesse o nosso futuro – informou ele às pedras. Mas também é verdade que os momentos de doçura eram muito intensos. E também é verdade que uma música ouvida antigamente podia fazer parar toda a máquina e estatelar por um instante o mundo. “Um minuto de silêncio”, dizia o rádio de minha mulher, “pela morte do general”. Havia um mal-estar danado nesse instante, ninguém se olhava embora não conhecêssemos o general. Era-se infeliz com toda a força da virilidade. Não havia aliás outro modo de ser adulto, e a gente gozava e aproveitava, ninguém era tolo. É verdade que de vez em quando alguém falava excepcionalmente baixo. Pois todos vinham correndo dos cantos mais opostos para ouvir a voz baixa. Mas a verdade é que todos sofriam por não poder dar um depoimento e por não assinar também.

– Mas – disse o homem um pouco ofendido com a naturalidade impassível com que as pedras aceitariam o que quer que ele lhes dissesse, ele tinha prática dos estrangeiros que “nada têm a ver com isso” e apenas tiram fotografias – mas o mundo também não era só isso! disse-lhes patriota. Havia também outras coisas muito boas! e era por isso que, muito do que aguentar, se queria tanto, oh como nós queríamos! E mesmo havia paredes descascando, disse o homem um pouco distraído perdendo o pé. Havia casas que ainda não tinham sido vendidas, e muita gente ainda não estudava línguas, disse ele com inveja dos que estudavam línguas. E mesmo – quando se atingia certo grau muito intenso de cansaço, como se tirássemos os sapatos, subitamente descortinava-se o mundo inteiro à frente. E mesmo uma vez ou outra – talvez porque se tivesse aberto a porta errada – entendia-se! O que fazia com que às vezes de novo não houvesse senão árvores crescendo, altas e tranquilas. E, sobretudo, sobretudo havia as crianças se levantando de nossos campos de batalha, frutos puros e fatais do amor ruim.

Depois que Martim disse o que tinha a dizer, apesar de estar satisfeito, sentiu-se cansado, como se houvesse um erro em alguma coisa que ele dissera – e ele fosse obrigado a fazer toda a infinita soma de algarismos de novo. Em algum ponto não identificável, aquele homem ficara preso num círculo de palavras. “Esquecera de informar alguma coisa?” As pedras iam certamente ter uma impressão falsa. Para quem nunca viu uma cabeleira, um fio de cabelo não era nada, e tirado de sua água, o peixe era apenas uma forma.

Por honestidade ele quis lhes esclarecer que sabia que era o sol que inchava suas palavras, e as tornava tão esturricadas e grandes; e que era o sol insistente, com seu silêncio insistente, que o fazia querer falar. Mas também sabia que se mencionasse o próprio cansaço, as pedras imediatamente deixariam de ouvir, porque afinal só as pessoas em pleno gozo de suas faculdades é que tinham direito, o que é muito justo. Mas como era importante para ele próprio o que ele lhes estava dizendo, e como não poderia lhes explicar que o cansaço estava apenas lhe servindo de instrumento, Martim preferiu não tocar no assunto.

Enquanto isso, continuava a sentir com incômodo que esquecera de dizer alguma coisa essencial, sem a qual as pedras nada entenderiam. O quê? Ah. “Que o tempo ia, enquanto isso, passando.” Enquanto aquilo tudo, o tempo ia afortunadamente passando.

Esquecera também outra coisa? Esquecera de lhes dizer o que talvez invalidasse o seu direito de falar: que não tendo tido vocação, e sendo portanto livre de apelos, ele nunca se especializara realmente num desejo, e portanto jamais tivera um ponto de partida – o que certamente invalidava o modo como ele estava representando os outros para as pedras.

Bem, esquecera também de lhes dizer – mas isso não lhes diria porque seria logo mal interpretado e malvisto – que ele sempre aproveitara do que pudera aproveitar, pois nunca fora um tolo. Que dissera a um amigo que o negócio era mau, fizera ele próprio o negócio e ganhara uns bons cobres e sentira aquele bom triunfo no peito, insubstituível por qualquer outro prazer, e que faz com que um homem ame os seus semelhantes através do fato de tê-los vencido. Esquecera de contar que, prometendo uma vez casar, não deixara sequer o seu novo endereço. Mas, essa patifaria, só quem vive entende. E a pessoa se sente logo incompreendida quando explica. E assim o tempo ia afortunadamente passando, com os cachorros cheirando as esquinas.

O fato é que, depois que o homem se lembrou de tudo isso, começou a achar sua vida passada muito boa, e uma espécie de nostalgia encheu seu peito. Mas, também isso, só quem vive entende. Que poderia ele afinal dizer, e que uma pedra entendesse? “Que o tempo ia afortunadamente passando”, pois tempo era o duro material da pedra.

O tempo ia afortunadamente passando. Até que acontecia como a comida que de dia se comeu e depois se vai dormir e no meio da noite a pessoa acorda vomitando. O tempo ia afortunadamente passando.

Mas, com o tempo passando, ao contrário do que seria de esperar, ele fora se tornando um homem abstrato. Como a unha que realmente nunca consegue se sujar: é apenas ao redor da unha que está o sujo; e corta-se a unha e não dói sequer, ela cresce de novo como um cacto. Ele fora se tornando um homem enorme. Como uma unha abstrata. Que se concretizava quando ocasionalmente ele fazia alguma vileza.

Sim, fora isso o que aos poucos começara a suceder – espantou-se o homem. Ao contrário de um natural apodrecimento – que seria obscuramente aceitável por um ser orgânico perecível – sua alma se tornara abstrata, e seu pensamento era abstrato: ele poderia pensar o que quisesse, e nada aconteceria. Era a imaculabilidade. Havia uma certa perversão em se tornar eterno. Seu próprio corpo era abstrato. E as outras pessoas eram abstratas: todos se sentavam nas cadeiras do cinema escuro, vendo o filme. Na saída do cinema – mesmo não esquecendo o doce vento que nos aguardava, e que nem sequer podeis imaginar pois nada tem a ver com o estúpido sol de que uma pedra é vítima e do qual passou a ser feita – na saída do cinema, ao doce vento, havia um homem em pé pedindo esmola, então dava-se a esmola abstrata sem olhar o homem que tem o nome perpétuo de mendigo. Depois ia-se dormir em camas abstratas que se sustentavam no aéreo por quatro pés; amava-se com alguma concentração; e dormia-se como uma unha que cresceu demais. Nós éramos eternos e gigantescos. Eu, por exemplo, tinha um vizinho enorme.

Tudo correndo tão bem! Cada vez mais purificado.

Mas no meio da noite de repente se acordava vomitando, perguntando-se entre uma náusea e outra – no meio da fantasmagórica revolução que é uma luz acesa na noite – o que é que durante o dia se comera que pudesse ter feito tanto mal. A unha cada vez maior, já não se podia fechar direito as mãos.

– Até que um dia, então, um homem se concretiza na grande cólera, disse-lhes Martim como se estivesse encarnando a própria lógica.

Até que um dia um homem saía para o mundo “para ver se é verdade”. Antes de morrer, um homem precisa saber se é verdade. Um dia enfim um homem tem que sair em busca do lugar comum de um homem. Então um dia o homem freta o seu navio. E, de madrugada, parte.

– Quem é que nunca desejou viajar? disse Martim tentando penosamente transformar o que pensara em algo que ele próprio pudesse compreender: uma mesa onde se põem pratos em cima.

– Imaginem um homem..., disse então voltando com muita sensualidade à terceira pessoa.

Foi quando, entregue ao jogo, de repente tomou consciência deste com um choque de reconhecimento. Pois sentado na pedra, o que ele estava fazendo não era senão: pensar. Ele se tornara de novo um triângulo ao sol, talvez emblema desencarnado para as pedras desencarnadas, mas não para o rato vivo que ele queria ser.

Com um choque o homem olhou para as pedras que agora não passavam de pedras, e ele de novo não passava de um pensamento. Por um instante desamparado, por si mesmo preso em flagrante, o homem olhou para os lados. Mas já tinha avançado a tal ponto que não saberia como se livrar do vício inútil senão com o auxílio viciado de outro pensamento. Por um instante ele ainda procurou esse pensamento – o que mostrava até que ponto ainda se socorria do fato de ser a unha que risca a toalha e com a mesma unha apaga o que foi inscrito.

Mas no instante seguinte ele notou o processo. E porque aquele homem parecia não querer nunca mais usar o pensamento nem para combater outro pensamento – foi fisicamente que de súbito se rebelou em cólera, agora que enfim aprendera o caminho da cólera. Seus músculos se comprimiram selvagemente contra a imunda consciência que se abrira ao redor da unha. Ilógico, lutava primitivamente com o corpo, torcendo-se numa careta de dor e de fome, e com voracidade ele todo tentou se tornar apenas orgânico.

Quando a histeria da sede se acalmou, o suor escorria pelo rosto. Sua testa estava gelada, o esforço físico da luta deixara-o fraco e tonto. O sol rebentava fagulhas nas pedras. Débil, de estômago seco, Martim nunca vira nada tão brilhante como o sol quando brilha. O descampado branco de luz o rodeava. O silêncio tinha um estrondo dentro de si. Aquela luz ele vagamente reconheceu: era a luz excessiva de que ele vivera enquanto fora um homem.

Cansado, respirou fundo. Ainda um espasmo tardio o percorreu em cólica. E afinal o último movimento frenético estacou como uma convulsão de cavalo. Quando abriu a mão que duramente se contorcera – viu então que o passarinho estava morto.

O homem espiou-o. Até as pernas já pareciam velhas e estremeciam leves à brisa. O bico era duro. Sem a ânsia, a ave.

De novo a cólera do homem acabara de se tornar um crime. Olhou o pássaro com atenção. Estava admirado consigo mesmo. É que ele se tornara um homem perigoso. De acordo com as leis de caça, um animal ferido se torna um animal perigoso. Olhou o passarinho a quem amara. Matei-o, pensou curioso.

Então, como se tivesse feito alguma coisa definitiva, o homem sóbrio e tranquilo ergueu-se da pedra. O que havia de enlevo incontrolável num ato é que todo ato o ultrapassava. Com alguma relutância obrigou-se a se erguer, e quisesse ou não era forçado a ir agora de encontro à recompensa do que ele próprio criara. Devagar levantou-se, evitando pensar que matara exatamente o que mais amara.

E como se tivesse sobrevivido à morte do pássaro, impeliu-se a olhar o mundo naquilo que ele próprio acabara de o reduzir:

O mundo era grande.

Nesse mundo a verdura crescia sem sentido e pássaros famélicos voavam como num domingo. A árvore que ele viu era de pé. Na beleza do silêncio, a árvore. Foi assim que o homem profundamente viu. Olhou face a face a minúcia com que a beleza da árvore era inútil. Trezentas mil folhas tremiam na árvore tranquila. O ar tinha tanta graça excedente que o homem desviou os olhos. No duro chão empinavam-se os arbustos. E as pedras.

Era o que lhe restara.

Aquele homem ali em pé não percebia que lei comandava o vento áspero e o faiscar silencioso das pedras. Mas ter deposto as armas de homem entregava-o sem defesa à harmonia imensa do descampado. Também ele puro, harmonioso, e também ele sem sentido.

O que o surpreendia era a extraordinária paz do inferno. Nunca o imaginara com este silêncio que escutava cada gesto seu. Nem com a ingênua perseverança de uma árvore. Nem com este sol enorme ao alcance da mão. Não essa coisa que não precisava dele e à qual ele acabara de se agregar como mais um astro.

Em seguida, visto o que uma pessoa pode ver, Martim depositou com alguma polidez o passarinho sob a grande árvore. A derradeira coisa a esquecer tinha sido morta.

Então recomeçou a andar como se soubesse para onde ia. Os passos ocupavam-no.