A Maçã no Escuro
Capítulo 6
6
Havia silêncio e intensidade sob o sol da fazenda.
Ninguém saberia como se comunicara aos outros a muda vigilância de Martim, pois ele continuava a trabalhar calmo com o mesmo rosto que nada dizia, e seus olhos tinham a expressão que os olhos têm quando a boca está amordaçada. No entanto parecia ter se estabelecido um prazo depois do qual tudo seria impossível. A comunicação de sua intensidade talvez se fizesse pela pancada mais profunda de seu martelo ou talvez pelo seu andar de botas duras ou pelos seus súbitos desaparecimentos – procuravam-no e não o achavam mas, antes que a inquietação de sua ausência se tornasse maior, ele aparecia tranquilo como se viesse de parte nenhuma:
– E onde estava o senhor? perguntou Vitória desconsiderada.
A resposta do homem não a sossegou. A estabilidade do homem não a enganava; aquilo tudo ia acabar, ela o sabia. Vitória lhe deu novas tarefas, inventou trabalhos miúdos, e não o perdeu mais de vista. Com o tempo limitado, a mulher adquirira uma sabedoria instintiva e executava tantos atos que no meio deles involuntariamente talvez se escapasse aquele essencial.
Mas se Vitória não parecia saber o que queria, Ermelinda sabia. E rodeava o homem cada vez mais próxima:
– Olhe esta samambaia! disse-lhe de tarde, olhe como cresceu ultimamente! está tão bonita que chega a estar mole.
Mas o homem não entendia o que ela insinuava velado demais. E nada acontecia. Se a emoção de seus sentimentos lhe dava uma ignorância muito bonita, esta era pouco eficaz. E se Ermelinda se banhava no vaivém de suas tentativas e ocupava-se com a beleza de seus planos – ninguém entendia. No entanto, por que não? Quando ela era menina, por pura tendência à sutileza e à fraqueza, dissera a um menino de quem gostara: “vou lhe dar uma pedra que encontrei no jardim” – e ele entendera que ela gostava dele, tanto que lhe dera em troca uma caixa de fósforos com um biscoito dentro. E depois, continuando na sua vocação pela habilidade e naquele seu tortuoso caminho de finura que lhe poupava ofender-se com a verdade – a verdade talvez parecesse a Ermelinda uma forma inferior, primária e por assim dizer “sem estilo” – depois ela agradeceria ao marido o fato dele lhe ter dado um vestido novo dizendo-lhe: “o dia hoje está lindo, não está?” Por algum mistério no seu processo de realização, ela sempre evitava ser totalmente compreendida.
No entanto, era sem nenhuma exclamação de horror que, consigo mesma, ela encarava a crueza simples com que desejava ter para si aquele homem. Talvez sua delicadeza, incompreensível para outras pessoas, viesse da própria delicadeza de seus motivos de desejá-lo. Seus motivos de desejá-lo eram os de uma mulher que deseja amor – o que lhe parecia terrivelmente sutil. E como se não bastasse esse motivo estranho, ela o entrelaçara com um motivo mais sutil ainda: o de se salvar – que é certo ponto que o amor às vezes atinge. Tudo isso, pois, tornava-a uma incompreendida. O que não a fazia sofrer propriamente, porque isso estava na ordem das coisas: como não compreendia os outros, também não lhe ocorria ser compreendida.
Havia porém um problema de ordem prática muito intenso: seu processo de viver simplesmente não lhe dava o que ela queria. E o resultado é que ela involuntariamente parecia pura sem, no entanto, sequer desejar sê-lo. Somente para evitar a grosseria de se tornar clara. Ela, por exemplo, jamais confessara a um padre que tinha medo de morrer; em vez disso dissera-lhe cheia de intenções e com grande refinamento de alusão: “acho tão mais bonito uma pedra que um passarinho” – com isso talvez quisesse dizer, quem sabe, que uma pedra lhe parecia mais próxima da vida que o passarinho que no seu voo lhe lembrava a morte, o que, naturalmente, significaria que ela tinha medo de morrer. O padre não entendera, e ela saíra inconfessada, espantada por não ter tido uma resposta. Havia anos aquela moça não tinha a satisfação de um sucesso.
– Olhe esta samambaia! disse ela para o homem porque uma pessoa não pode dizer “eu te amo”.
O rosto do homem estava quente e avermelhado, sujo de fuligem. Ela olhou a quente cara de um homem, e a força naquela moça era tão pouco frágil como a força de uma mulher, mas ela falara em samambaias e o homem não entendera, e a cara deste continuara simples e inalcançável. E a moça começou a se desesperar porque agora já começara a se convencer de que não era falando sobre samambaias que se chamava um homem. Ela não sabia como chamá-lo e se debatia na urgência vazia que o homem, a martelar, lhe comunicava.
Então na manhã seguinte – mal Vitória montara a cavalo e nem ainda a poeira das patas se assentara de novo na terra – Martim percebeu Ermelinda ao lado dele no curral onde ele banhava as vacas. De pé como uma aluna.
Estava de pé e não dizia nada. Em desespero a moça estava tentando pela primeira vez esse modo cru: não dizer nada. Martim fez uma careta curiosa que ele mesmo não saberia interpretar: é que, sem saber propriamente como, acabara de entender. Talvez porque o rosto mudo de Ermelinda tivesse a intensidade do que ela não dizia. Quando Martim compreendeu, então ficou muito contente. Ela estava graciosa, com aquele ar fraco na sua audácia em não falar, na sua coragem trêmula de ficar apenas de pé: para que ele soubesse.
– Quando é que D. Vitória volta? perguntou ele afinal.
A moça tentou responder mas a voz falhou. Era forte a sua emoção em ser compreendida, como se alguém enfim coroasse aquele seu único modo de se exprimir: nesse momento ela estava enfim tendo o reconhecimento de sua arte de vida. Os instantes se passaram sem que seu coração, se acalmando, lhe restituísse a voz. Mas com a experiência que tinha de falhar, sabia que se não se lançasse de olhos fechados, tudo estaria de novo perdido, e ela teria que voltar exaustivamente a falar de samambaias. Então, violentando com esforço o que ela desejaria que fosse tão mais obscuro e bonito, tão menos bruto, respondeu alto e de olhos fechados, jogando-se de uma ponte:
– Vitória demora muito porque somente ao meio-dia Francisco vai se encontrar com ela no milharal, ela só volta às duas horas para almoçar, eu mesma ouvi ela dizer isso!
Parou deslumbrada. Pela primeira vez na sua vida dizia algo direto. Seu coração recuou dentro do peito como para não tocar num desastre.
O homem olhou-a curioso, atento, paciente. Era verdade que “não pensar nela” fora um modo de realmente pensar. Mas até este instante conseguira guardá-la dentro de si rodeada de um elemento neutro e claro, enquanto ele próprio se ocupava de outras coisas. E se não teve propriamente surpresa quando a moça, como agora, se impunha, olhou-a com alguma frieza. Parecia acusá-la de não ter sabido esperar que ele próprio a chamasse para o seu foco de atenção. De novo ele estava sendo empurrado antes do tempo, assim como fora jogado por Vitória no curral.
Depositou o balde d’água no chão para dizer alguma coisa. E o modo de Martim lhe avisar que a compreendera não chegou a comprometê-lo de todo:
– Vou voltar da encosta ao meio-dia.
Mas já às onze horas Ermelinda estava de pé ao sol, séria, o coração batendo, os pássaros voando e a grande árvore se balançando.
Certo ponto fora atingido, enfim. O que pareceu alarmá-la é que já não havia questão de voltar atrás – enfim tarde demais, o que a deixou heroica. E além disso havia aquele mal-estar excitado e alegre, de uma alegria perniciosa, aquele seu segredo contra o mundo: ninguém sabia o que se passava com ela, que segredo.
Porém, mais que tudo, ela, com o coração todo seco e doloroso – ela, ela estava jogando alto.
Se falhasse, voltaria esfrangalhada, com os sapatos na mão: era essa a ideia que Ermelinda fazia de uma pessoa falhando. Embora também não soubesse em que consistiria falhar, pois estava lidando com coisas imateriais – habituara-se a considerar como imateriais “as coisas de espírito” e não tinha uma ideia muito clara de espírito, e parecia-lhe que agora lhe estava acontecendo alguma coisa mais ou menos de espírito – e nessas coisas a pessoa nunca sabia ao certo se falhara ou não, era uma questão de pensar de um modo ou de outro. Mas, ao mesmo tempo que se via com os sapatos na mão, tinha aquele aviso íntimo de que não falharia: de que ia tocar num dos pontos vulneráveis da vida com mão certa, apesar do tremor. Esse tremor que vinha da importância daquele momento que era enfim – enfim – insubstituível por outro qualquer. Poucas vezes na vida ela tivera a oportunidade de se defrontar com o que não é substituível. “Enfim vou viver”, se disse ela. Mas a verdade é que isso mais parecia uma ameaça.
O que não queria dizer que não estivesse senhora de si. Pois, como se ignorasse imparcialmente a importância do acontecimento, tinha tempo de tomar várias atitudes que pareciam tirar essa importância: ajeitava os cabelos, como se um penteado determinado fosse indispensável, fazia uma boca pequena e uns olhos grandes como num desenho de mulher inocente e amada, recriando com muita emoção os amores célebres. Enquanto por dentro desfalecia perplexa. É que sabia que estava arriscando muito mais do que superficialmente parecia: estava jogando com o que seria mais tarde um passado para sempre indevassável.
Para se distrair, rememorou rapidamente o que ia lhe dizer. Como era mesmo que ia lhe dizer? Assim: “o destino é uma coisa muito curiosa”. Ela lhe diria isso. Não porque fosse uma criatura artificial mas porque, por uma experiência já não mais diferenciada em fatos, terminara por saber que “pelo menos com ela” a naturalidade não dava certo. Quando contava com a naturalidade, não era a verdade que saía. Naturalidade era para quem tivesse um tempo ilimitado que desse oportunidade a que eventualmente certas palavras terminassem por ser ditas. Mas quem tinha o tempo de uma vida apenas, teria que condensar-se com arte e truques. Aquela moça morria de medo de passar sua vida inteira sem ter oportunidade de dizer certas coisas que já não lhe pareciam importantes, mas delas lhe ficara a obstinação de um dia dizê-las.
Depois de rememorar o que ia lhe dizer sobre o destino, voltou inescapavelmente à ideia de que estava jogando com o que seria mais tarde um passado fechado à sua compreensão. Um pouco vivida, sabia que na hora as coisas pareciam certas e depois não pareciam mais. E vagamente já se perguntava – enquanto seu coração inquieto batia pela campina toda e seu olhar parecia acompanhá-lo com apreensão – vagamente ela se perguntou se mais tarde, quando retornada aos dias comuns que nos julgam, ela estaria à altura de compreender-se, e de talvez ter que se perdoar. Mesmo agora ela já se perguntava de que sorte seriam suas futuras inescrutáveis memórias. Pois ela sabia que era mesquinha: não era pessoa que se perdoasse facilmente.
Sim, tudo isso viria. Mas tinha que arriscar tudo. Pois o tempo era curto, aquela moça teimosa tinha que saber se o amor salvava, como se depois tivesse que contar a alguém. Martim – como Vitória dissera num momento de raiva – parecia não ter nada a perder. Mas – adivinhou Ermelinda de súbito aprendendo em si mesma – não existia essa coisa de não ter nada a perder. O que existia era alguém que arrisca tudo; pois embaixo do nada e do nada e do nada, estamos nós que, por algum motivo, não podemos perder. Isso ela soube ali mesmo, de pé. De que modo aquele homem viera trazer a ela própria o problema de jogar alto e de arriscar o que somos – isso Ermelinda estava fadada a jamais saber. Talvez a mera visão dele, pois olhos veem muito mais que nós. O que Ermelinda apenas sabia é que tinha, como última jogada, que se arriscar. Foi então que lhe pareceu, numa sensação súbita de grande mal-estar, que o mundo é maligno. Que dava, sim, mas que dizia ao mesmo tempo: “depois não venha me dizer que não lhe dei”. A coisa não era dada na base da amizade mas da hostilidade.
Ali em pé, às onze horas do dia 17 de abril, espantada, ela estava recebendo esse modo como a oferta lhe era jogada sem bondade. Ela que trabalhara tanto para receber o que agora ela própria não parecia estar à altura de compreender. Mas agora nada mais dependia dela. A esse instante raro – em que “ainda não aconteceu”, “ainda vai acontecer”, “quase já aconteceu” – ela chamou, num esforço de compreensão, de “o instante antes do homem aparecer”. Dando um título, estava tentando aplacar o mundo.
A moça passou a mão pela testa, a alma toda congestionada. Pelo que estava sentindo, calculou que devia estar com o rosto feio e avermelhado, lamentou profundamente não ter uma beleza que correspondesse ao instante em que ia ser de um homem. Essa cara não é minha! revoltou-se ela, essa cara não sou eu. No desespero de talvez não ser aceita por um homem tão mais elegante que ela e tão mais homem que ela, de novo tentou fazer os olhos maiores e a boca em coração. Na sua opinião eles não faziam “belo par”, e essa ideia não só não lhe saía da cabeça como a incomodava a um ponto de ter de conter as lágrimas: parecia-lhe que a natureza não os sancionava. O dia estava tão bonito que aumentou a sua desgraça.
Oh, tivesse tido mais tempo, e nada precisaria ser assim precipitado! pensou desolada abanando a cabeça. Poderia até ter mandado buscar alguma fazenda em Vila para cortar um vestido novo. Mas quanto tempo esse homem ficaria no sítio? E a morte? não, ela não tinha tempo, o tempo era curto, os pássaros voando longe pareciam esperar sem pressa que ela se reunisse a eles. Eles, eles que não tinham pressa, eles que tinham a certeza. E que voavam esperando. Esperando que ela se reunisse àquela serena e perturbadora liberdade...
A moça, com os sapatos apertados, estremeceu com medo de si própria. Tinha medo de se purificar tanto que não precisasse de mais nada. Como imaginar um ser que não precisasse de nada? era monstruoso. “Não quero progredir”, disse teimosa, lembrando-se da frase de um espírita que queria muito o progresso. Mas que sobraria dela, com o despojamento do progresso? sobraria todo um corpo, sobrariam os desejos, e tanta poeira. Que faria sua alma liberta, sem um corpo onde existir? Doeria nas janelas até que as pessoas vivas dissessem: que dia de vento. E no verão ela seria o mal-estar das noites presas dentro dos jardins.
Foi então que ali em pé, no meio das milhares de batidas despercebidas de um coração que estava tão bem ligado à própria função, soou aquela pancada mais profunda que ela conhecia como se conhecesse alguém: uma pancada funda e oca como se o coração pudesse rolar para um abismo. E como sempre ela se perguntou: mas seria isso doença ou vida? No meio de mil palpitações de borboleta, aquela pancada trágica... Vou ao médico, resolveu com uma avidez de gulosa, vou ao médico. O frio dentro do sol arrepiou-a.
Oh, mas mesmo assim, até agora a vida não era grave – pois ela possuía um corpo onde se queixar, ia a um coração, tinha cólicas mensais, tinha um corpo onde ela acontecia. Mas depois? depois? A moça espírita desconfiava não ser tão pura a ponto de lhe bastar sacudir as folhas e ser apenas um pensamento que alguém adivinharia no ar e que chamaria, segundo ela, de inspiração. Não lhe bastaria, na libertação, espreitar impaciente a madrugada para aproveitar-se sorrateira e astuciosa dessa concretização de luz – e ser. Nem lhe bastaria olhar o céu seco durante dias na esperança de incorporar-se à chuva para poder chorar. Habituara-se demais à vida, estava acostumada com certos confortos mínimos, precisava onde doer, onde sangrar se cortasse um dedo. Oh Deus, por que me escolhestes para ser espírita e para compreender e saber?, pensou ao peso de sua vocação, sou apenas humana, não me deis tarefa acima de minhas forças. E a morte estava claramente acima de sua capacidade.
Oh, e se fosse para ser mal-assombrada – se é que esperavam que o fosse, e ela não sabia ao certo o que esperavam dela – então precisaria pelo menos de uma casa inteira, e de mais de um andar, calculou com minúcia. E que as portas se abrissem pela sua ausência de mão, que os passos soassem pela sua falta de pés – mas... mas tudo isso apenas acionado pela memória? Como seria difícil a sua memória. “Como é mesmo que eu tocava piano enquanto estava viva? mas como era mesmo?”, se perguntaria. Tanto dinheiro gasto em professoras para terminar tocando com a angústia de um dedo só. Tendo como auditório uma possível mulher viva apavorada com as próprias imaginações?
Não, não, ela não pretendia assustar uma mulher com suas memórias difíceis. No fundo – refletiu ela com a mania de se preocupar de antemão com os detalhes – no fundo talvez se contentasse em arranjar o corpo de alguém onde ela pudesse dormir. E uma carne onde se explicar. Pois o que doeria, mais que tudo, seria a sua própria isenção. Por exemplo, lá estaria, como agora, a água do rio. Só que ela simplesmente não precisaria mais beber! assim como perturbava uma perna amputada que não precisa mais andar: ficaria ela com a função da perna mas sem a perna? Então – então lhe restaria contemplar a água. Mas seria ela os olhos ou a própria paisagem? E – e como ouvir? não seria ela própria o som? E, pouco a pouco, cada vez mais liberta, será que ela ao menos pensaria? Pois todo pensamento era filho de coisas, e ela não teria mais coisas. Estaria enfim livre.
Tão horrivelmente livre como o campo odiado. Tão livre que talvez já não pudesse mais ser, sequer, essa coisa no entanto já tão livre que era um pássaro. Pois mesmo um pássaro ainda era cheio das penas quentes, e tão sujo de íntimo sangue.
Sobretudo – assim como um dia de menina ela se tornara moça – sobretudo um dia começariam suas primeiras repugnâncias, em sinal do terrível aperfeiçoamento. Em sinal do progresso. Em primeiro lugar, provavelmente começaria por evitar coisas mornas, para não se conspurcar. Afastar-se-ia de tudo aquilo que tivesse precisado, para existir, de estar no mundo embora apenas por um segundo. Até que terminaria por ser aquilo que, quando alguém sentisse, diria: sou um homem vazio, sou um homem vazio.
“Tolice”, disse de repente gelada, “quando chegar a hora resolvo; quem sabe até se nem é assim que acontece”. Mas esse pensamento não a sossegou. O que me falta é confiança em mim mesma, esse é que é meu mal; ela sabia que na hora não ia resolver mesmo nada.
Oh, que é que eu estou pensando? assustou-se então. Como pudera ir tão longe na sua liberdade de pensar? E – ocorreu-lhe – essa liberdade já não seria por acaso o começo da outra liberdade...? Pois pensar era sempre tal aventura sem garantia... Ermelinda então começou a suar, agora plenamente acordada de seu devaneio, sentindo-se em pé no campo. Os pássaros eram apenas o que sobrara, como única prova real de seu sonho. Os pássaros, que ela olhou intrigada. Como se tivesse ficado, de um sonho inteiro, com uma pluma na mão e não soubesse por que nem de onde a pena tinha vindo. Olhou os simples pássaros, e não entendeu o que estava lhe acontecendo, como quem acorda com uma ânsia e não sabe que pesadelo a provocou.
De repente não sabia de nada. E perguntou-se com um sobressalto se o homem dissera mesmo “meio-dia”. E se ele se referia mesmo ao dia de hoje. E se Martim realmente a entendera. Ou talvez fosse ela quem não o tivesse entendido? Mas, sentindo os pés apertados pelos sapatos, lembrou-se com alívio de que, enquanto os calçara, estivera certa da realidade do que lhe estava acontecendo. E então resolveu corajosamente confiar mais na sua certeza anterior do que na sua dúvida de agora. “Tudo é verdade”, se disse com violência, “tudo isso é verdade”, disse ela, agora se ancorando na sensação de pecado atrás da qual parecia ter corrido a vida inteira: “o mal está sendo feito”, pensou com força, e sua vista se escureceu de gosto e de vingança, o sol a queimava – o mal, que era o símbolo de estar viva. Os pássaros voavam, planavam na luz ardente. Ela os olhou como se erguesse o punho contra eles. Eles que eram o oposto do mal: eram a morte e a beleza e o progresso.
O sol infernizava sua cabeça, as flores estalavam de luz e calor. E nos sapatos altos, que em má hora ela tirara da mala, os pés suavam fatigados. Endomingada e infeliz, ela aguardou. Para dizer a verdade, aquela moça já não sabia bem o que aguardava. Se certo ponto havia sido atingido, ela não sabia mais bem qual. “Mas se eu fosse agora embora, amanhã de repente eu ia entender tudo isto, e já não poderia voltar.” Então, resignada, suportou, um pouco espantada. Afinal ela era uma pequena pessoa metida numa situação maior. Quisera a situação maior, então que aguentasse. O que lhe deu uma impressão de castigo. E de avanço irrecuperável. E, como acontecia em momentos de grande importância, o próprio momento pareceu não ter importância. Ela estava tão em contato com o momento que não o via. Era nessa base que sonhar era superior à realidade: quando sonhava sabia muito bem o que estava acontecendo. Enquanto que, neste momento tão real, a sensação mais verdadeira eram os sapatos. E, num erro de raciocínio que lhe era muito comum, ela se indagou se valera a pena tanto trabalho e tanto labor de sonho para terminar nisso: tirando os sapatos da mala. Teve vontade de descalçá-los para repousar os pés. Mas sabia, como se isto fosse o fruto de uma grande experiência, que se os descalçasse, os pés por um instante aliviados nunca mais caberiam nos sapatos. E, por analogia, se por um instante ela saísse da situação em que “a haviam metido”, ela não caberia mais nela. Os dedos dos pés estavam com os ossos sensíveis.
Naquele momento era meio-dia. As flores estavam iluminadas por dentro e as rosas vermelhas eram um clangor: de muito longe Martim percebeu a moça como uma mancha escura no ar.
O jardim estava alongado por duas ou três sombras cortantes que o varal deitava no chão. O sol imóvel deixava as plantas pesadas, num silêncio acordado em que tudo poderia acontecer: Martim se aproximou passo a passo com a machada na mão. As coisas esperavam desertas. Mas as madressilvas tremiam como uma lagartixa antes de morrer.
Então – olhando as violentas rosas imóveis e caminhando para elas, como se olhar e caminhar fossem o mesmo ato perfeito, olhando-as que se continham em vermelho – uma vaga de poder e de calma e de escuta passou pelos músculos do homem, e um homem andando ao sol é um homem com um poder que só o que vive conhece.
De menos longe ele a viu de pé ao sol: uma cara de mulher endurecida por sombras e claridades, com manchas de luz pelo vestido. De olhos intrigados, ele se perguntou como é que uma pessoa investia tanto em outra pessoa. E se pensou isso era porque, enquanto estivera trabalhando, parecia ter aos poucos transformado a simples moça em qualquer coisa vaga e enorme. Só quando chegou mais perto é que descobriu com surpresa que o rosto da moça na verdade se mantinha fresco e sem cor. A descoberta de algum modo o reconciliou com o fato de ela ser simplesmente ela própria, e não a depositária de uma grande esperança. E pareceu-lhe que o murmúrio de água fria entre as pedras também corria dentro dela. Não que ele a amasse. Mas como se fora por amor. Atento, ele se aproximou olhando-a. Tão apagada entre as flores endemoninhadas. Sem desilusão, então, ele a viu exatamente como ela era.
E ela, ela olhou para o estranho. Antes houvera na moça um silencioso calor de comunicação dela para ele, feito de súplica, doçura e uma espécie de confiança. Mas diante dele, para a sua surpresa, parecia ter cessado mesmo o amor. E jogada na situação que ela criara, sentindo-se sozinha e intensa, se ali se mantinha era apenas por determinação. Como quando se preparara uma vez uma semana inteira excitadamente para um baile e, na hora, desapontada, tomara o táxi para ir para o baile: exatamente o que quisera. Ermelinda estava triste, surpreendida. E no momento em que ele afinal ficou bem à sua frente, ela o olhou com ressentimento como se não fosse ele quem ela estivesse esperando, e lhe tivessem enviado apenas um emissário com uma mensagem: “o outro não pôde vir”.
Martim não contara com a própria timidez, e estava constrangido. De modo que nada havia de olímpico entre ambos. Era muito difícil criar uma situação solene como Ermelinda quisera a vida toda, e à qual o homem, sem sentir, se agregara com esperança. A moça abaixou os olhos com um suspiro: ela não estava à altura dos amores célebres. No momento em que mais queria ser ela própria – com aquela individualidade idealizada que os anos haviam criado para si mesma – nesse momento sua personalidade inteira ruiu como se não fosse verdadeira, e no entanto era, pois essa personalidade inventada seria o máximo dela mesma. E o que ela agora sentiu foi apenas uma ansiedade mesquinha que se concretizou no inalcançável ideal de enfim tirar os sapatos. E num desânimo que ela escondeu com um sorriso onde não havia nenhuma glória, mas certa doçura desconsolada. Tinha querido tanto ter um amante! Mas agora parece que não queria mais. Mesmo, para falar a verdade, a questão de morrer ou não perdera a importância, e lhe pareceu de repente coisa longínqua e ligeiramente incômoda.
Por que então não disse a verdade ao homem e não foi em seguida embora? Mas ela sentia a verdade em forma de peso no coração, e não sabia o que era. Embora estivesse pesando cada vez mais como se toda ela fosse o próprio coração dormente. Por que então, se abrisse a boca, esta única verdade não sairia em palavras? Ermelinda nem sequer abriu os lábios. No desejo de não mentir ela lhe diria: eu não te amo. Mas parecia saber algo mais: que o amava, que o amava. Só que era como se as coisas do mundo não fossem feitas para nós, só que era como se tivéssemos que transigir com aquilo para o qual no entanto nascemos, só que de súbito era como se o amor fosse a desesperada forma canhestra que o viver e o morrer tomam, só que era como se até mesmo nesse momento o absoluto nos desamparasse; e a verdade para sempre intransmissível que havia no seu coração era o peso com que amamos e não amamos. E no entanto, para isto tudo, a solução era exatamente o amor. “Não me ofenda”, pensou ela olhando-o, menos para se proteger do que para salvar o que ambos criariam quase fora deles mesmos e que se ofereceriam então a ambos.
Assim, pois, Ermelinda só soube que o amava quando o homem deu um passo e ela pensou que ele estava indo embora. Num susto, estendeu uma mão para retê-lo. E compreendeu que se ele fosse embora, ela não suportaria. Viu então que a verdade é que ela o queria. Quanto ao resto – quanto a tão claramente não querê-lo – ela se resignou a não entender. Então sorriu para ele, bajuladora, sem esperança.
Intimidado, o homem sentiu o dever de fazer alguma coisa. Então pegou na sua mão.
A mão da mulher estava gelada.
– Você está com medo de mim? espantou-se ele sinceramente porque afinal a moça é que se oferecera a ele.
– Estou, disse ela com voz quebrada, desistindo de pretensões. Mas não se incomode com meu medo, disse cansada apaziguando-o. Eu, por exemplo, não me incomodo, disse como se fosse a mãe de ambos ou a natureza que nos perdoa.
– Medo de quê? disse ele muito curioso, preparando-se para uma vaidade.
– Não sei, disse confusa. Não sei, medo porque – porque você é feito de um modo diferente de como sou feita, não sei...
– Como!
– Oh, disse ela desesperada, mas tem que ser assim mesmo! está certo! senão como poderia ser!
– Mas ser o quê? perguntou o homem estupefato.
– Oh Deus! disse ela chorando, quero dizer que você é um homem e eu não sou um homem, mas é assim mesmo! exclamou ela tentando o grande esforço da conciliação.
– Ah, disse ele intrigado.
A curiosidade de Martim, agora acrescida de ignorância, aumentou cega, instintiva. Ele havia largado sua mão quando a sentira tão fria – mas dessa vez foi sem esforço que de novo a pegou. E a mão pequena era leve entre as suas mãos endurecidas por aqueles calos de que ele se orgulhava e que ali estavam como um estigma. O orgulho de si mesmo então emocionou-o muito. E com o orgulho ele podia pegar naquela mão com segurança.
Quando um homem e uma mulher estão perto e a mulher sente que ela é uma mulher e o homem sente que ele é um homem – isso é amor? O sol a cento e cinquenta milhões de quilômetros queimava a cabeça de ambos. “Oh, livre-me de meu mistério!”, implorou-lhe ela por dentro. E como se tudo entrasse na mesma serena e violenta harmonia, a vida se tornou tão bela que eles se olharam nos olhos com a tensão de uma pergunta, incompreensíveis olhos de homem e de mulher. Às vezes as pessoas se sentem assim sozinhas e com a pergunta, mas não dói – ou se dói, esse é o modo como as coisas estão vivas. “Se você soubesse como eu te amo”, olhou-o a moça, “e é para sempre”. Ela, que pelo menos uma vez na vida queria poder dizer “para sempre”.
E Martim? Quando entraram no depósito de lenha, depois de atravessarem sebes e sebes como portas e portas, o que ele amava nela já terminara por se confundir com a frescura que havia entre as flores acesas, confundia-se com o cheiro de madeira apodrecida, o bom cheiro da terra úmida que se colava nas achas – como se ele tivesse sido lançado no seu primeiro amor humano. No depósito as flores incandescentes perdiam o domínio. Ali era como um estábulo e pessoas se tornavam mais lentas e maiores como animais que não se acusam nem se perdoam. Ele a olhou, e ela parecia ter guardado seu corpo em lugar fresco e escuro como a um fruto que devesse atravessar incólume uma estação adversa. Seus braços tinham pelos dourados, o que lhe deu o valor que as coisas douradas têm.
Mas é certo que na desordem de um primeiro encontro houve um momento em que os dois, enfim esquecidos do que penosamente queriam copiar para a realidade, houve um momento não preparado por ambos, dom da natureza, em que ambos precisaram saber por que o outro era o outro, e se esqueceram de dizer “por favor”; um momento em que, sem um injuriar o outro, cada um tomou para si o que lhe era devido sem que um roubasse nada do outro, e isso era mais do que eles teriam ousado imaginar: isso era amor, com o seu egoísmo e sem este também não haveria dádiva. Um deu ao outro a avidez em ser amado, e se havia certa tristeza em submeter-se à lei do mundo, esta obediência também era a dignidade deles. Era o egoísmo que se dava inteiro. E como se na moça o desejo de presentear fosse maior do que o que ela tivesse a presentear, ela não sabia o que lhe dar, ela se lembrou de mães que dão aos filhos, e ela não se sentia maternal com aquele homem, mas com a grande força do irrazoável também queria lhe dar, somente para enfim ultrapassar o que se pode e enfim quebrar o grande mistério de se ser apenas um. Ela lhe deu seu pensamento inteiramente vazio dentro do qual estava ela toda. No querer dar, mais do que no se dar, algo se fizera: ela ganhara o mínimo destino de que também o breve inseto precisa.
Foi com um ar obediente e agradecido, como o de uma mulher, que ela avisou a Martim que ia remendar suas roupas. Sobretudo, obstinada, o que queria era prolongar-se no ambiente seguro que o homem, vivendo no depósito, ali terminara por criar: esporas no chão, a foice, botas enlameadas, mundo palpável. Pegando, calma, nas roupas a emendar, ela sentiu uma felicidade muito menor do que era capaz de sentir, mas tratava-se dessa coisa que se quer: concreta. Então ela o olhou: obrigada por você ser real, disseram seus olhos abertos.
O homem não entendeu, mas inflou um pouco o peito. Quanto a ela, agora poderia sem mentir usar a palavra amor, e com tanta esperança ingênua como se o desconhecesse. Porque, num movimento perfeito, o mundo se tornara de novo inteiro e até com o seu antigo mistério – só que dessa vez, antes que o enigma se fechasse, Ermelinda se pusera dentro dele, tão enigmática quanto o enigma. Então a moça se levantou, como dando ao homem uma ordem de ir embora e deixá-la só.
– Você é meu dono, dizia o modo altivo e mudo como estava de pé, serena e sem humildade.
Ele pareceu entender, e ele não queria ser dono de ninguém, e assobiou disfarçando, depois olhou para os próprios sapatos: mulher era sempre mais impudica que um homem, ele encabulou. Ela estava nobre. “Teve o que quis”, pensou Martim ofendido na própria castidade e disfarçando-se com um novo assobio desajeitado. “Você é meu dono”, dizia com tirania o modo como ela estava de pé; ele grunhiu assentindo, incomodado, com vontade de se livrar dela. Os ombros dela eram finos e quebráveis, a pele de criança, e, como se ele tivesse quebrado a atualidade da moça, havia algo de antigo nela. Ela era gentil de cintura. Meu Deus, disse o homem para si mesmo, ela é um fantasma. Ele estava comicamente embaraçado com a fragilidade dela. “Fraquinha, mas virago como as outras”, pensou com malícia mas não achou nenhuma graça no que pensara, nem mesmo prazer; o que sentiu na verdade, foi um certo orgulho dela, ele a admirava. Elas sempre prolongavam mais do que o necessário e imediatamente criavam família. E ele estava orgulhoso por ser sua vítima: foi essa a homenagem constrangida que o homem conseguiu lhe prestar.
– Obrigada por eu gostar de você, dizia também o olhar da moça, mas isso o homem não captou, e só piscou os olhos. Depois, como se tivesse tido tempo de sentir melhor, balançou a cabeça assentindo, já que ela se encarregara por um instante do destino de ambos.
E talvez porque sua submissão àquela mulher fosse o modo como ele próprio a submetia, ao sair do depósito Martim se tornara poderoso e vivido, e com alguma insolência.