A Maçã no Escuro

Clarice Lispector · Capítulo 3 de 30

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A Maçã no Escuro

Capítulo 3

3

De tardinha Martim começou a imaginar – pela qualidade da terra mais fina e pelo encontro eventual de árvores com frutas – que se aproximava talvez de algum povoado. Tentou comer uma das frutas desconhecidas que, verdes e sem sumo, apenas lhe arranharam a boca ávida. Mas um ar mais fresco soprava, e trazia cheiro de água corrente. A terra ali era mais negra. E o encontro de samambaiaçu lhe deu uma sensação de molhado que arrepiou em lubricidade suas costas secas.

O próprio silêncio se tornara diferente. Embora o homem não percebesse nenhum som, os passarinhos voavam mais agitados como se ouvissem o que ele não ouvia. O homem parou atento. Havia um deslocamento de ar como se um dinossauro se transladasse lento em alguma parte do globo.

E, continuando a andar, por vezes o vento lhe trazia um clamor vago, uma reivindicação mais intensa. Era um alarme de vida que delicadamente alertou o homem. Mas com o qual ele nada soube fazer como se visse uma flor se entreabrir e apenas olhasse.

Martim mal e mal constatou a própria sensação, tendo o cuidado de não constatar demais e deixar de perceber. O desfeito alarido lhe chegava como se de muito longe lhe soprassem perto do ouvido: foi esta a obscura noção de distância que ele teve, e parou farejando. Embaraçadamente entregue ao recurso de si mesmo, parecia tentar usar o próprio desamparo como bússola. Experimentou calcular se estaria perto ou infinitamente longe daquilo que acontecia em algum lugar. Mal parava, e de novo o silêncio do sol se refazia e o desorientava.

Provavelmente aquela coisa para a qual, incerto, o homem caminhava era apenas criada pela sua ânsia. E aquele modo intenso de querer se aproximar – pois solto no campo de luz o que aquele homem parecia apenas querer era obscuramente se aproximar – na certa seu modo desajeitado de querer se aproximar não passava de um substituto à sua ausência de linguagem. Quem sabe se “querer” seria de agora em diante a sua única forma de pensar. Martim continuou a avançar, sem se dar conta de que apressava os passos em direção a nada mais que a uma alusão do vento.

Até que inesperadamente este lhe trouxe de novo, numa conquista de sua própria extrema atenção, a mesma espécie de desabitada estridência como se a claridade de tão insistente se tivesse tornado audível. O homem então estacou, anulando-se cauteloso. E o rosto inteiro procurou captar o rumo dessa outra qualidade de silêncio. Mas então só o ar vazio bateu nos seus cabelos. Sua acuidade auditiva parecia ter alcançado uma graça de invenção – mas exatamente quando sua receptividade se tornou a mais fina, ele nada teve a ouvir.

Como a brisa soprava da esquerda, ele concentradamente se desviou do caminho que seguia – e muito aplicado, com a minuciosidade de um artesão, procurou andar de modo a sempre senti-la em pleno rosto. Foi assim que seu rosto tateante procurou seguir o caminho aberto no ar e que prometia – o quê? O vento, o vento talvez. O homem não tinha nenhum plano formado e, como arma, parecia ter apenas o fato de estar vivo. Na tarde mais tranquila, ele agora caíra numa clarividência vazia e humildemente intensa que o deixava corpo a corpo com o pulso mais íntimo do desconhecido. Sua vontade continuou a avançar.

Agora, gradativamente mais sistemático, cada vez que o vento principiava a lhe bater apenas numa das faces ou já na nuca, o homem, paciente como um burro, corrigia a direção dos passos até sentir a boca de novo batida pela umidade. E era apenas desse modo que de vez em quando novamente a calma ressonância o atingia como se ele a tivesse criado. Sua luta dura e sutil ameaçava prolongar-se indefinidamente.

Mas quando aquele homem chegou ao alto da encosta – como se tivesse enfim captado uma ilusão perseguida a vida inteira e tocado na sua própria embriaguez, subitamente capturado por um redemoinho de finíssima alegria – o ar se abria em vento turbilhonante e livre. E ele se achou em pleno alarido que era tão inapreensível como se este fosse o som do poente.

Ele não errara, pois! O que era? era o vento apenas. O que era? mas era o alto de uma montanha. Seu coração bateu como se ele o tivesse engolido. Ele, o homem, desembarcara.

Era uma atmosfera de júbilo. De vazio e vertiginoso júbilo, como acontece inexplicavelmente a um homem no alto de uma montanha. Ele nunca estivera tão perto da promessa que parece ter sido feita a uma pessoa quando esta nasce. Estupidificado, ele abriu várias vezes a boca como um peixe. Parecia ter atingido aquela coisa que uma pessoa não sabe pedir. Aquela coisa a que obscuramente ele só poderia dizer: consegui. Como se tivesse provocado o mais fundo de uma realidade imaginada. Às vezes a pessoa estava tão ávida por uma coisa, que esta acontecia, e assim se formava o destino dos instantes, e a realidade do que esperamos: seu coração, ansioso por bater amplo, batia amplo. E como para um pioneiro pisando pela primeira vez em terra estranha, o vento cantava alto e magnífico.

Com que sentido o homem cansado o percebeu, não se sabe dizer, talvez com a aguda sede e com sua derradeira desistência e com a nudez de sua incompreensão: mas havia júbilo no ar. Que na verdade lhe foi tão inassimilável quanto aquele azul quase inventado do céu e que, como todo azul suavíssimo, terminou por tonteá-lo em glória tola e em nobre glória. A armadura interior do homem faiscou. Inatingível, sim, mas havia júbilo no ar como lhe tinha sido prometido alguma vez em procissões ou em algum rosto quieto de mulher ou na ideia de um dia alcançar que termina por precipitar o alcance. E àquele homem, que era um exagerado, pareceu que por assim dizer trabalhara duramente para chegar a essa coisa valiosa e inútil. Seria um sorriso imbecil o seu, se um espelho o refletisse.

Foi só então que Martim percebeu que estivera andando no planalto imenso de uma serrania, cujas primeiras ingremidades ele certamente havia galgado durante a noite, julgando dificuldade sua o que fora a dificuldade de uma subida nas trevas; e, mais tarde, tomando como cansaço seu o que na verdade fora uma aproximação gradativa do sol. Mas o que importava é que ele chegara. A veemente felicidade do céu aumentava em peso o coração estranho. Havia uma gravidade em estar ali que ele próprio não compreendia. Mas a cujo sentido desconhecido ele correspondeu com o rosto que um homem tem quando o vento e o silêncio lhe batem no rosto. De algum modo, pois, não era mentira! Porque, vacilante de cansaço, ele ali estava de pé como se um homem tivesse uma profecia dentro de si. De pé, com as pernas enraizadas de cansaço, com uma trêmula avidez dentro de si como um homem que vai aprender a ler. E à beira de sua mudez, estava o mundo. Essa coisa iminente e inalcançável. Seu coração faminto dominou desajeitado o vazio.

Era um tempo surpreendente. O homem afortunadamente nem sequer tentou compreendê-lo. Talvez o que houvesse nele fossem apenas ecos do que ouvira dizer: “que do alto de uma montanha a gente descortina”.

Só que ele não descortinou nada. E se, no seu entorpecimento, grosseiramente reconheceu aquele instante na montanha, foi apenas porque uma pessoa reconhece o que deseja. Na linguagem não havia uma palavra sequer que desse nome ao fato de, no agigantamento de si próprio, ele ter alcançado o alto da montanha. Então Martim disse alto:

– Aqui estou, disse ele, e no coração de alguma coisa.

Pelo menos fisicamente tentou com alguma dignidade manter-se ao nível do que encontrara: aprumou-se em toda a sua acordada altura. O que não aguentou muito tempo. E se sentou no chão.

Sentado no chão, o país era muito bonito. Um princípio de poente pairava num esgar de claridade imobilizada. A harmonia – uma harmonia imensa e sem sentido – rodava com sua cabeça vazia. O sol estremecia fixo com uma punição de vitral. Agora que Martim estranhamente provocara a própria chegada, não sabia o que fazer. Assim, pois, o homem ficou sentado, submisso, respirando. Era verdade, então. Muito mais cedo do que ele podia entender, mas era obstinadamente verdade.

Até que tudo se esverdeou. Uma transparência pacificara-se no descampado sem deixar uma mancha mais clara. Então a cabeça oca pela sede subitamente se acalmou.

– Que luz é essa, pai? Que luz é essa? perguntou com voz rouca.

– É a do fim do dia, meu filho.

E assim era. A luz se transcendera em grande mistério.