A Maçã no Escuro
Terceira parte: A maçã no escuro
Terceira parte
A MAÇÃ NO ESCURO
1
E foi assim que chegou o dia em que Vitória partiu para Vila Baixa com o caminhão cheio de tomates e espigas de milho, e o caminhão parecia uma festa de colheita. Todos olharam-no partir com um sorriso e uma ânsia, pois tudo para o que todos haviam trabalhado chegara enfim a seu termo. E se fora exatamente para isso que haviam duramente trabalhado – era com um sorriso e uma ânsia que olhavam o caminhão enguirlandado pelas espigas amarelas. Vitória, disfarçando uma gravidade, olhou-os um instante, solitária com o produto de seu esforço. Constrangidos, eles lhe deram adeus.
Martim ficou olhando-a se afastar. Até que nem a mínima poeira se ergueu mais da terra. E até que, depois do ruído das rodas sair mesmo da memória, o campo se refez em silêncio e vento.
O tempo terminara.
Sem a presença de Vitória uma calmaria súbita dominou a fazenda, num estado de emergência. E como quando alguém vai morrer ou partir, e então o sol brilha e então as plantas ondulam suas palmas – assim os passarinhos voavam atentos.
E assim estava a fazenda onde as pessoas pareciam ter trabalhado em vão, e no entanto não era a verdade. De qualquer ponto de onde Martim olhou o sítio, pareceu vê-lo da distância de anos e anos já idos: o sítio parecia despovoado, sentia-se a brisa soprar. E porque alguma coisa importante ia acontecer num futuro tão próximo – o encontro de Vitória com o alemão – a fazenda estava relegada ao passado, as flores de pé ao vento, o telhado seco faiscando ao sol.
Havia um silêncio como quando há tambores batendo.
Quanto a Ermelinda, ela estava muito ferida porque não o amava mais. Pois não o amava mais. Passara a grande atração que justificava toda uma vida. Ela estava ferida e melancólica. Era uma dor morta. Eis a água – e eu não preciso mais bebê-la. Eis o sol – e eu não preciso mais dele. Eis o homem – e eu não o quero. Seu corpo perdera o sentido. E ela, que se havia concentrado toda na antecipação do dia em que Vitória fosse a Vila e lhe deixasse o homem para si mesma, enfim sem esconderijos, enfim sem cautelas – ela só o procurou uma vez em que lhe disse triste, honesta, indireta:
– Um dia amei um homem. Depois deixei de amá-lo. Não sei por que o amei, não sei por que deixei de amá-lo.
Martim, preocupado com o alemão, não soube o que retrucar e então perguntou:
– E depois você se tornou amiga dele?
E se assim ele perguntou é porque estava desamparado e precisava de amizade.
– Não, disse ela olhando-o devagar. Não. A amizade é muito bonita mesmo. Mas o amor é mais. Eu não podia ter amizade por um homem que eu tinha amado.
– E depois? perguntou ele com uma angústia cujas raízes ele próprio ignorava.
– Depois, disse ela, depois eu chorava de tristeza, até sem dor. Eu pedia: me faça sofrer por amor! Mas nada acontecia, eu estava de novo livre.
– E não era bom estar livre?
– Era como se os anos tivessem passado e eu visse num rosto que antes tinha sido tudo para mim, eu visse nesse rosto aquilo de que é feito o amor: de nós mesmos. E era como se até o amor mais real fosse feito de um sonho. Se isso é ser livre, então eu estava livre.
Como Ermelinda nunca lhe dissera que o amara a ponto de ter tido uma vida, Martim não soube que ele próprio era o homem agora amado, nem entendeu que ela deixara de amá-lo. Mas como se lhe implorasse uma verdade mais piedosa que a realidade, ele pleiteou em desespero a causa de um outro:
– Mas que é que impedia você de se tornar sua amiga? pediu ele.
– Eu estava sozinha, disse ela.
O homem entristeceu, escuro, pesado. Nada fora dito que pudesse ser depois lembrado. Mas os dois se olharam com um sorriso pior que a morte, silenciosamente submissos à natureza. Ciscando a terra com um pé, mantendo as mãos nos bolsos, Martim disse por dentro quieto, intenso: “por favor!” Ele não soube propriamente o que estava pedindo, e disse “por favor”. Mas era como um homem que morrendo de fome dissesse polidamente: por favor. As costas que Ermelinda lhe virou para ir embora não tinham rosto, eram estreitas e frágeis costas. No entanto com que amargo vigor elas disseram ao homem: não.
E os tambores continuaram batendo.
O campo era agora todo de Martim para o que ele quisesse fazer ou pensar dele. Mas a espera do que ia acontecer cortara-lhe a comunicação com o que se tornara agora um deserto. E a verdade é que o homem não queria mais nada. Nem mesmo sabia o que é que quisera tanto. Como o amor morrera em Ermelinda, assim a falta de desejo dava silêncio ao coração do homem. Procurou a sua própria fome: mas era o silêncio quem lhe respondia. Ele estava experimentando o que era pior que tudo: não querer mais. O primeiro momento foi muito ruim, mal calculou ele que não querer era tantas vezes a forma mais desesperada de querer.
Se bem que em certos instantes, a uma variação imponderável de tempo, a fazenda se alterava e mostrava uma face mais próxima, e impunha seu campo vivo. E então por um instante o homem e a fazenda vibravam de novo no mesmo nível de atualidade. E de novo, ao olhar o mundo, de novo o homem sentiu essa tensão promissora que parece ser o máximo que uma pessoa pode conseguir, assim como se toma conhecimento de uma pedra porque ela resiste aos dedos. Mais que a tensão? Ele tentou em si próprio ir adiante: mas não, esse parecia ser o limite. Quisesse ele ultrapassar a resistência da pedra, e de súbito nada aconteceria. Por um instante desafiado, Martim ainda tentou pegar o fio interrompido de sua lenta construção, e pelo menos sofrer. Mas o tempo realmente terminara.
No sábado Vitória voltou empoeirada e envelhecida, com o caminhão vazio. Lutara tanto – e perplexamente conseguira, envelhecidamente conseguira; Martim não a entendeu. Enquanto a mulher falava sobre a venda, ele tentou avidamente adivinhar-lhe os olhos e, nestes, adivinhar se ela falara com o alemão. Mas o que conseguiu saber foi apenas o que ela disse sem nenhum entusiasmo como se o cansaço tirasse o interesse da grande notícia: já estava chovendo a seis quilômetros de Vila Baixa.
E foi pela apatia da mulher que Martim soube muito: alguma coisa importante devia ter acontecido, tão importante que tirava a força do fato de já estar chovendo não muito longe do sítio. Tão importante, por exemplo, como se ela tivesse falado com o alemão. Vitória nada mais disse, e desapareceu dentro da casa.
Teria ela visto o alemão? Sob pequenos pretextos Martim rondou a casa, procurou inutilmente Vitória: esta era o único elemento de que ele dispunha para calcular.
Até que, quando cabisbaixo desistira de encontrá-la, viu-a de novo. Mas como a uma estranha. Ela vinha do fundo do corredor, contra a luz. Ele não viu propriamente seu corpo mas apenas seu andar, como se visse apenas o espírito do corpo. Pouco a pouco, já mais perto da claridade, ela foi se materializando até que se tornou opaca – e o homem piscou olhando-a em espanto. É que ela estava de cabelos soltos molhados pelo banho e não usava mais as calças compridas e empoeiradas que já faziam parte do que Martim pensava dela. Pela primeira vez ele a viu com vestido de mulher e ela era uma estranha. Não havia dureza que se sustentasse com as mechas úmidas nos ombros. Olhando-a pela primeira vez sob o ponto de vista de corpo, ela ganhou aos seus olhos um corpo. Que já não era enérgico como ele sempre vira, e cuja força dera ao homem um motivo de obscuramente lutar contra essa força. Era um corpo tão mais dócil que a cara. Escandalizado, sentido, Martim a olhou: era indecente como as roupas femininas a desnudavam como se uma velha revelasse ânsias de menina. Com pudor, ele desviou os olhos. Assim como Ermelinda se negara, Vitória – que lhe servira antes de firme contorno – recusava-se agora a lhe dar uma forma, e deixava-o livre. No rosto de cabelos soltos havia o mesmo olhar cansado com que a mulher voltara de Vila Baixa, e que ele em vão procurou interpretar. Era também a primeira vez que a via cansada. Os olhos da mulher, como se nada mais quisessem contradizer, estavam à tona, negros. Martim tentou espicaçá-la para que ela fosse mais forte que ele. Mas ela respondeu:
– Não, amanhã vamos interromper as valas. O professor vem com o filho.
O olhar de ambos se encontrou e nada foi transmitido nem dito. Ou seria preciso um deus para entender o que se disseram. Eles se disseram talvez: estamos no nada e tocamos no nosso silêncio. Pois por uma fração de segundo eles se haviam olhado no branco das pupilas.
Quando é que Martim ouvira falar no professor pela primeira vez? Devia ter sido nos seus primeiros dias na fazenda, quando a seus olhos entorpecidos Vitória e Ermelinda mal se distinguiam uma da outra. “Bom como o professor” – ouvira ele esta frase? E se ouvira, qual das mulheres a pronunciara? Martim lembrou-se inesperadamente de outra frase: “É o último domingo do mês mas o professor não pode vir, está doente.”
Quem a dissera? Martim amaldiçoou-se por não ter prestado atenção em tudo, agora que estava precisando de cada detalhe para poder entender. Ele apenas tivera a impressão de elos lhe escapando – mas quais? Seria o professor a mesma pessoa que o alemão? E nesse caso o filho... o filho seria aquele que ele pensara ser o criado do alemão? Não, pois Vitória se referira a este chamando-o de “alemão” mas chamava o visitante do dia seguinte de “professor”...
E de súbito Martim não conseguiu mais ver nenhum perigo nessa vinda: o professor, ao que ele compreendia, visitava-as no último domingo do mês, embora por coincidência tivesse falhado até agora. E o dia seguinte era exatamente o último domingo do mês! Nada havia de suspeito, então. Era uma simples visita...
De suspeito apenas a inesperada quebra do modo de ser de Vitória: ela cessara as ordens e da única vez em que lhe falara esquivara-se como uma mulher tímida.
Ao mesmo tempo Martim não pôde ter certeza se a mudança em Vitória era real, ou se ela lhe parecia diferente apenas por estar usando roupas femininas e por ter desenrolado os cabelos como se pela primeira vez tivesse aqueles cabelos grisalhos. Sim, devia ser apenas uma transformação superficial de aparência. Mas então ocorreu a Martim com sagacidade: “e por que de repente Vitória transformara o modo de se vestir? qual o motivo?” Sem conseguir nenhuma explicação lógica, ele de novo suspeitava.
Neste sábado, interrompidos os trabalhos da fazenda – “por que quisera Vitória que os interrompessem? oh, talvez apenas porque quisesse a seu seco modo festejar a venda dos produtos?” – interrompidos os trabalhos, a fazenda se tornara ainda mais vasta como se já fosse um domingo, um vento brando percorria sem obstáculos o campo. Martim andava solto, de súbito cortada a sequência dos dias. Chovia perto de Vila, e a notícia de que a seca ia acabar deixava todos calmos, desocupados. No sábado silencioso a tarde caiu rápida e mansa. Nem Ermelinda, Martim via. E isso também o inquietou. Tinham lhe dado uma liberdade súbita. Ele sentiu falta do círculo de mulheres que antes o estreitara. A mulata parecia não sair mais da cozinha. Ninguém o procurava. Martim errou pelo campo sem saber de onde viria o perigo.
Foi pois de coração batendo que ele viu a menina brincando perto do curral. Os tambores tinham subitamente cessado.
Seu primeiro ávido movimento foi precipitar-se para pegá-la antes que também ela escapulisse. Mas refreou os passos para não assustá-la. Mal podia conter o receio de que também ela se negasse. Com um andar casual, o coração batendo de sede, ele se adiantou. E ao lado dela, por medo e delicadeza de sentimentos, não a olhou.
Mas a menina – a menina ergueu os olhos dos tijolos com que brincava. Olhou-o – e sorriu. O coração do homem se contraiu na aflição da alegria: ela não tinha medo dele!
Talvez nunca tivesse tido! pensou então. Por um instante uma suspeita o atravessou: “estivera ele imaginando durante todo o tempo um perigo no encontro de Vitória com o alemão e tinha ele inventado aquele vazio da fazenda – assim como agora se provava claramente que ele estivera apenas imaginando que aquela criança o temia?” Pois a menina lhe sorrira, e agora mostrava-lhe com o dedo a pequena construção instável que obtivera com os tijolos...
Havia no entanto outra possibilidade: a de que a criança realmente o temera e apenas terminara por se habituar agora à sua presença nos arredores. Se esta última hipótese fosse a certa, e se ele não tivesse apenas imaginado o medo ou a recusa da menina – então também o perigo do alemão podia se manter como realidade! Temendo obter uma prova de que tivera razão, ele olhou a menina sem coragem de lhe falar.
A menina empilhava os tijolos, tranquila. E ele, em pé, aos poucos começava a se emocionar com a indiferença gentil com que ela o admitira, grato por ela tratá-lo como a um igual, esse mesmo modo óbvio que as crianças tinham de brincar uma com a outra.
– Nesta casa engraçada, disse a menina de repente mostrando os tijolos, mora um homem engraçado. O nome dele é Engraçado porque ele é engraçado.
“Oh perdoai-me”, se disse obscuramente o homem, tímido, feliz. Uma criança era a seta que disparamos, uma criança era o nosso investimento – ele estava tão ávido dela que tomou cuidado de não olhá-la. Ficou quieto, o coração batendo ao receber a bondade humana. Estava grande e desajeitado, e sentir-se abandonado não melhorou sua situação canhestra. Ficou quieto, com medo de errar. Ele queria tanto acertar, e não queria poluir a primeira coisa que lhe estava sendo dada. Oh Deus, já estraguei tanto, já entendi tão pouco, já recusei tanto, falei quando não deveria ter falado, já estraguei tanto. Ele que pela primeira vez estava experimentando a solidão pior, a que não tem nenhuma vaidade; e então queria a menina. Mas ele estragara tudo o que lhe tinha sido dado! A ele, que uma vez tinha sido dado de novo o primeiro domingo de um homem. E de tudo isso, o que aos poucos estava restando, era um crime.
Martim não soube que palavra dizer à menina sem que sua mão pesada quebrasse. A criança estava em silêncio. Quem sabe se era também o silêncio que ela esperava dele. Mas que espécie de silêncio queria ela partilhar com ele? Pronto a desistir de tudo o que ele próprio queria, desejava ser apenas o que a menina quisesse que ele fosse. Uma criança era o lugar-comum de um homem, ele queria participar dela.
Mas o silêncio da menina ocupada era diferente do silêncio que ele partilhara com as vacas e era diferente do silêncio do alto frio de uma encosta. Ficou quieto. Como primeira dádiva de si, absteve-se então de pensar. E assim ele se aproximou do coração natural de uma menina. Entre ambos, aos poucos, o silêncio se tornou um silêncio que caberia numa caixa de fósforos, onde crianças guardam botões e rodinhas. Ambos ficaram, pois, em calmo segredo. Só que ele tinha medo porque ele já estragara tanto.
Então ela disse:
– Um dia fui a Vila e entrei na farmácia, disse ela que sabia tão bem falar sem quebrar aquele silêncio em que ambos se entendiam e que ele, com o coração agora suave, amava. Quando eu fui na farmácia eu corri e já nem caí. Depois pesei na balança da farmácia com mamãe.
Ajeitou os tijolos e acrescentou educada:
– Sabe de uma coisa? Eu não peso. Foi até mamãe que disse. Ela disse que eu não peso nada. Depois eu corri que nem caí, e quase atravessei a rua sozinha mas eu sou mais sabida que os automóveis. Mamãe não quer que eu durma na cama dela e fica vendo revista, vendo revista, vendo revista. De noite então ela saiu com sapato alto mas eu não chorei: dormi, dormi, dormi. Amanhã de manhã quando acordei bati no pé aqui na cama do quarto. Você pensa que doeu? indagou ela e ficou esperando com os olhos amarelos e calmos.
Quando o homem enfim conseguiu falar, disse com esforço:
– Não sei, menina, não sei.
– Pois não doeu, informou ela com bondade impessoal.
Era quase preta e tinha os dentes miúdos. Recomeçou a pôr um tijolo em cima do outro, e depois olhou para cima – para o homem alto que estava de pé. Eles se olharam. O coração do homem cedeu difícil, ele não conseguiu engolir a saliva, uma doçura extremamente dolorosa amoleceu-o. Oh Deus, então não é com o pensamento que se ama! não é com o pensamento que construímos os outros! e uma menina escapa à minha força, e que é que se faz com um passarinho que canta?
A menina o olhava atentamente.
– Você não quer me dar uma coisa? me dá uma coisa, disse atenta, expectante, e sua carinha era a de uma prostituta.
Então o homem não quis encarar a menina. Olhou duramente para uma árvore, estoico.
– Me dá, hein? qualquer coisa serve! disse ela muito íntima.
– Dou, disse ele rouco.
De repente satisfeita, apaziguada, seu rosto se tornou de novo infantil e extremamente polido:
– Você sabe que a avó de José um dia morreu? disse-lhe como agradecimento.
– Não, não sabia.
– Juro por Nossa Senhora, disse ela sem insistir. Eu até fui na morte dela.
Arrumou melhor os tijolos, social, cuidadosa, maternal. Mas uma inquietação leve passou-lhe pelo rosto – ela o ergueu com os olhos piscando e de novo uma falsa bajulação apareceu nos seus traços que eram maduros, doces, corruptos:
– Você me dá mesmo uma coisinha? me dá um presentinho? Não precisa ser hoje, concedeu-lhe ávida, mas amanhã? sim? amanhã?
– Amanhã? disse ele perdido, amanhã? disse com horror.
– Amanhã, sim! repetiu ela autoritária, rindo. Amanhã, seu bobo, é o que vem quando se dorme!
O homem horrorizado recuou. Não pôde se afastar logo. Mas quando conseguiu se despregar das cobiçosas garras da criança ele quase correu – e como olhasse para trás com incredulidade viu com mais horror ainda que a menina ria, ria, ria. Como se estivesse horrorizado consigo mesmo, ele quase corria. A água – a água estava infetada, a menina não lhe quisera dar o símbolo de criança. Pela primeira vez então ele pensou que era um criminoso, e confundiu-se todo porque, sendo um criminoso, tivera no entanto horror da impureza. E o que o confundia ainda mais é que aquela criança também era pura, com seus agudos dentinhos que mordem e seus olhos amarelados, expectantes e imundos e cheios de esperança, olhos perdoados e delicados como os de um bicho – ele quase corria. De que é que também ele precisava tanto, mas gelava quando lhe pediam? Reviu Vitória com seus cabelos grisalhos que agora lhe pareceram luxuriantes e lascivos, sentiu no coração a dureza com que Ermelinda podia deixar de amar – “nós somos ruins?”, perguntou-se perplexo como se nunca tivesse vivido. Que coisa escura é essa de que precisamos, que coisa ávida é esse existir que faz com que a mão arranhe como garra? e no entanto esse ávido querer é a nossa força, e nossas crianças astutas e desamparadas nascem de nossa escuridão e herdam-na, e a beleza está nesse sujo querer, querer, querer – oh corpo e alma, como julgar-vos se nós vos amamos? “Nós somos ruins?” – nunca isso lhe ocorrera senão como uma abstração. Nós somos ruins? perguntou-se, ele que não cometera um crime por maldade. Nem seu próprio crime lhe dera jamais a ideia de podridão e de ânsia e de perdão e de irreparável – como a inocência da menina preta.
Agora era de noite e tudo estava calmo. Ele passou a noite esperando. Os tambores bateram o tempo todo. Não conseguiu ficar deitado. Então sentou-se na cama e esperou a noite inteira.