A Maçã no Escuro

Clarice Lispector · Capítulo 23 de 30

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A Maçã no Escuro

Capítulo 3

3

 

A porta do casarão, ao se fechar, isolou-o fora. Em breve uma luz se acendia no andar de cima. E Martim ficou sozinho arfando na escuridão.

“Muito bem”, disse de repente com falso desembaraço e uma boa disposição onde pôs alguma ironia, “e agora”, acrescentou simpático e cordato, “vamos dormir.” Sentiu que de algum modo estava sendo mais forte do que era, e a piedade de si mesmo o tomou. “Pois muito bem”, repetiu com sarcasmo.

Ao mesmo tempo que decidia encerrar-se no depósito e como primeira providência acalmar a cabeça quente, dirigiu-se atordoado e distraído para o rumo contrário. A princípio a falta de compreensão do que ele próprio pretendia fê-lo cambalear, e ele avançou quase aos recuos. Depois sua direção de fuga tornou-se mais que um impulso obscuro – e quando ele de repente se entendeu, o pânico o tomou e ele quase corria. “Muito bem”, disse ainda como um homem que tivesse tempo de ajeitar a camisa antes de cair morto. Foi quando começou a correr de fato, a correr desencadeado em direção ao rio, e seu nebuloso objetivo era o bosque, o bosque escuro. Tomado pelo rumor do próprio pânico atravessou a água fria tropeçando nas pedras, suas pernas se aterrorizaram com a gelidez da água negra, ele correu muito espantado, e entrou no bosque – mas não lhe bastou a orla do bosque, com uma cobiça de grito ele queria era o negro coração do bosque, não pôde correr livremente por causa dos galhos mas corria arranhando-se e quebrando galhos como um cavalo solto.

Até que inesperadamente sentiu que chegara aonde queria e parou arfando, com o peito batendo todo, os olhos bem abertos nas trevas. E Deus é testemunha de que ele não sabia o que viera procurar no bosque. Mas, sem conseguir recuperar o fôlego, ali estava, e a mera possibilidade de não estar ali assustou-o. O ar pesado estava próximo de seu rosto como se o escuro estivesse cheio da respiração de um cachorro.

Ali o homem ficou resfolegando alto, o olho aberto e maldoso. Sentia-se elementarmente protegido pela escuridão, apesar de que era a própria escuridão o que mais o assustava. Nenhum pensamento lhe ocorreu, sua alma esfomeada se alimentava da total cegueira das trevas, e ele respirava grosseiro e astuto, ouviu com grande avidez a própria respiração que se tornara a sua garantia mais primária: enquanto respirasse, ele seria um grande esperto. Mexia a cabeça de um lado para outro, pronto para dar um pulo, o que, se o fizesse, faria dando ao mesmo tempo um grito feroz. Sentir que teria o recurso de dar esse grito também o tranquilizou. Embora nenhuma dessas garantias fizesse com que ele deixasse de tremer e bater com os dentes.

Passou várias vezes a mão pela boca – e com espanto notou que estava rindo. Sem conseguir tirar o riso idiota da boca, olhou então no escuro a mão que tocara no sorriso como se esta pudesse ter voltado molhada de sangue. Os dentes batiam leves e precisos, sem que Martim tivesse nada a ver com eles. E como se lhe tivessem acabado de contar que ele estava com medo, riu.

É que era um medo que nada tinha a ver com as equações que ele armara antes da vinda do professor – como se o medo estivesse acontecendo a outra pessoa. Só que essa outra pessoa era assustadoramente – ele mesmo. Quem era ele? Martim caíra tão em si próprio que não se reconheceu. Como se até agora tivesse apenas brincado. Quem era ele? Teve a certeza intuitiva de que não somos nada do que pensamos e somos o que ele estava sendo agora, um dia depois que nascemos nós nos inventamos – mas nós somos o que ele era agora. Martim caíra na verdade como uma pessoa cai na loucura, e então batia os dentes. Seria uma verdade caótica apenas enquanto ele tentasse compreendê-la. Mas em si mesma ela era toda perfeita. E ele – ele era aquele que batia os dentes. Batia os dentes num medo que o fez esquecer que tinha encetado uma tarefa de super-homem. Tinha medo como se tivesse enfim caído na armadilha – nessa armadilha que ele negaria enquanto pudesse, mas como se sentiria frustrado se não caísse nela, Martim que fora feito para cair. No entanto ainda continuava a negá-la e seu medo era mesquinho como se ele tivesse roubado, não o medo grandemente punível de quem assassina mas o medo de quem rouba.

Aos poucos a escuridão o tranquilizou. Mas logo em seguida tornou a apavorá-lo, e seus olhos brilharam muito. Até que a impassibilidade da escuridão que acabara de aterrorizá-lo, de novo o acalmou pela mesma qualidade de impassível permanência, e ele deixou de tremer, tão de súbito como começara.

Imediatamente tomando isso como sinal de que a crise passara e de que tudo não passara de uma crise, Martim se disse mecanicamente: “pois muito bem!”, e se dispôs a recuperar-se o mais depressa possível, precipitando-se em unir-se mentalmente ao passado que a ameaça do professor interrompera. Para sua surpresa, não conseguiu. Então passou a mão pela boca que continuava sorrindo. Mas simplesmente não conseguiu. Um instante de verdadeiro medo tinha-o feito cair em si. E o homem se revolveu sem apoio em nenhum dos pensamentos que, apenas alguns dias antes, haviam começado a fazer dele o homem que ele inventara ser. Logo agora! logo quando começara a se sentir com as sandálias quase prontas, já perto do domínio do círculo esfumaçado onde a caldeira fervia – logo agora que era o fim da jornada! Mas que conseguira ele no fim da jornada? O medo...

Chorando de raiva e medo ele apertou os dentes e deu vários socos na árvore, e quanto mais doeram as mãos mais ele se sentiu compensado e mais a raiva cresceu, e mais o medo fechou seu coração tão desconhecido. No ponto em que ele estava, era como se nenhum passo tivesse sido jamais dado! Como se todos os seus passos tivessem sido inúteis. Oh tolo, tolo! disse-se chorando. Ele tivera tudo à sua disposição mas – “eu não sei deduzir! eu não soube deduzir!”, disse dando socos na árvore, “nem o passarinho coube dentro da construção, quanto mais eu!”

Depois do que, como se tivesse dito algo tão formidável que chegasse a ser incompreensível para ele próprio, aquietou-se fungando. “Besteira”, disse então passando a mão pela cara barbuda e sentindo pelo tato que o riso não lhe saíra do rosto. Assoou o nariz com minúcia.

Como se nenhum passo tivesse sido dado. Pois no escuro ele era agora apenas aquela coisa informe com um único sentimento primário. Num único pulo de recuo, ele de novo acabara de se afastar do território da palavra – ele que começara a poder mais que balbuciar. E como se nenhum passo tivesse sido dado, ele agora não se distinguiria de um cavalo espantado no escuro. Mas a verdade é que Martim nesse momento já não queria sequer uma das mínimas coisas que orgulhosamente quisera, e até se surpreendia de tê-las desejado, estranhava-as como um homem na hora da morte se espanta de se ter preocupado com o atraso do alfaiate. Agora queria miseravelmente apenas a imediata e urgente solução para o medo, e ávido ele faria qualquer barganha.

O pior é que não havia sequer glória nesse castigo, nem sequer martírio: aquela coisa de olhos assustados que um dia tinha subido temerariamente até o crime e depois até uma montanha, aquela coisa que ele era não se distinguia mais de um bicho que tivesse ousado fugir do cercado: ambos teriam o mesmo indiscriminado castigo, o medo que os reduzia de repente ao mesmo sério destino.

De repente pareceu mesmo a Martim que até agora ele andara em caminhos superpostos. E que sua verdadeira e invisível jornada se fizera na realidade embaixo do caminho que ele julgara palmilhar. E que a verdadeira jornada estava agora saindo subitamente à luz como de um túnel. E a verdadeira jornada fora esta: que ele saíra um dia de sua casa de homem e de sua cidade de homem em busca, através da aventura, exatamente dessa coisa que ele agora estava experimentando no escuro, em busca da grande humilhação, e consigo ele humilhava ferozmente com gosto toda uma raça humana. O medo o humilhou e ele então assoou violentamente o nariz.

Se tinha encetado uma tarefa de homem, agora parecia-lhe que havia mexido em coisas em que não se mexe: ele tocara de perto demais a ilusão. E havia procurado compreender mais do que era permitido e amar mais do que era possível. Para entrar na vida, um monge renunciava – não agia. Seu erro fora agir? Ele cometera um ato total mas ele não era total: tinha medo assim como se ama uma mulher e não todas as mulheres, tinha medo assim como se tem a fome própria e não a dos outros; ele era apenas ele, e seu medo tinha o seu particular tamanho.

Então no escuro, não sabendo ao certo do que tinha medo, o homem teve medo do grande crime que cometera.

Face a face com a palavra crime, recomeçou a tremer e a sentir frio, sem conseguir desmanchar o riso que ressurgira. E o criminoso teve tanto medo que pela primeira vez compreendeu em todo o seu inexprimível sentido o que significava a salvação.

Salvação? Seu coração então bateu com força como se os limites tivessem caído. Pois, quem sabe, talvez fosse esta a grande barganha que ele poderia fazer – a salvação. Tudo então que em Martim era individual, cessou. Ele só queria agora se agregar aos salvos e pertencer – o medo levara-o a isso. À salvação. E com o coração ferido de surpresa e alegria, pareceu-lhe por um instante que acabara de encontrar a palavra. Seria à procura dessa palavra que ele saíra de casa? Ou de novo seriam apenas os restos de uma palavra antiga? Salvação – que palavra estranha e inventada, e o escuro o rodeava.

Salvação? Ele se espantou. E se fosse esta a palavra – seria então assim que ela acontecia? Então tivera ele que viver tudo o que vivera para experimentar o que poderia ter sido dito numa só palavra? se essa palavra pudesse ser dita, e ele ainda não a dissera. Andara ele o mundo inteiro, somente porque era mais difícil dar um só e único passo? se esse passo pudesse jamais ser dado!

O absurdo envolveu o homem, lógico, magnificente, horrível, perfeito – o escuro o envolveu. No entanto, por pouco que entendesse, ele pareceu sentir a perfeição que houvera no seu caminho obscuro até chegar ao bosque: havia nos seus passos uma perfeição impessoal, e era como se o tempo de uma vida tivesse sido o tempo rigorosamente calculado para a maturação de um fruto, nem um minuto mais, nem um minuto menos – se o fruto amadurecesse! Porque o medo pareceu-lhe estabelecer uma harmonia, a harmonia terrificante – digo-te, Deus, eu te compreendo! – e ele de novo acabara de cair na armadilha da harmonia como se às cegas e por caminhos tortos tivesse executado em pura obediência um círculo fatal perfeito – até encontrar-se de novo, como agora se encontrava, no mesmo ponto de partida que era o próprio ponto final. E se esse caminho apenas circular acabara de tornar inúteis todos os passos que ele dera, no fundo mesmo de seu medo o homem de repente pareceu concordar com esse caminho, com dor e com medo pareceu admitir que sua natureza desconhecida fosse mais poderosa que sua liberdade. Pois de que me valeu a liberdade, gritou-se ele. Nada fizera dela...

De que lhe valera a liberdade profunda mas sem poder. Ele tinha tentado inventar um novo modo de ver ou de entender ou de organizar, e tinha querido que esse modo fosse tão perfeito quanto o da realidade. Mas o que experimentara fora apenas a liberdade de um cão sem dentes. A liberdade de ir em busca da promessa que o rodeava – pensou o homem tremendo. E tão vasta era a promessa que, se a pessoa a perdia de vista por um segundo, então se perdia de si própria num mundo vazio e completo que não parece precisar de um homem a mais. Perdia-se até que exaustivamente, e nascida do nada, se erguesse a esperança – e então de novo, como para um cão sem dentes, o mundo se tornasse passeável, tocável. Mas apenas tocável. Então quem gritasse mais alto ou ganisse mais melodioso seria o rei dos cães. Ou quem se ajoelhasse mais profundamente – pois ajoelhar-se ainda era um modo de instante por instante não perder de vista a promessa. Ou então quem se revoltasse. A sua greve!

A sua greve, que era a única coisa de que até hoje ele podia se orgulhar.

Até que de novo nascesse o desejo de um cão sem dentes? Sim, assim era. E tudo isso até um dia morrer? Pois se morria. No seu medo o homem viu que se morria. E se não fosse a dor – que era a nossa resposta – seria apenas assim: ter-se-ia morrido um dia?

Mas não tão simplesmente! gritou-se o homem apavorado. Pois no escuro ele pareceu ter a grande intuição de que se morre com a mesma intensa e impalpável energia com que se vive, com a mesma espécie de oferenda que se faz de si, e com aquele mesmo mudo ardor, e que se morria estranhamente feliz apesar de tudo: submisso à perfeição que nos usa. A essa perfeição que fazia com que, até o último instante de vida, se farejasse com intensidade o mundo seco, se farejasse com alegria e aceitando... Sim, por fatalidade de amor, aceitando; por estranha adequação, aceitando...

Apenas isso? Quase nada! ainda rebelou-se o homem, mas meu Deus isso é quase nada.

Não, isso é muito. Porque, por Deus, havia muito mais que isto. Para cada homem provavelmente havia um certo momento não identificável em que teria havido mais do que farejar: em que a ilusão fora tão maior que se teria atingido a íntima veracidade do sonho. Em que as pedras teriam aberto seu coração de pedra e os bichos teriam aberto seu segredo de carne e os homens não teriam sido “os outros”, teriam sido “nós”, e o mundo teria sido um vislumbre que se reconhece como se se tivesse sonhado com ele; para cada homem teria havido aquele momento não identificável em que se teria aceito mesmo a monstruosa paciência de Deus? Essa paciência que permitia que homens durante séculos aniquilassem com o mesmo obstinado erro os outros homens. A monstruosa bondade de Deus que não tem pressa. Aquela Sua certeza que fazia com que Ele permitisse que um homem assassinasse – porque sabia que um dia esse homem teria medo e nesse instante de medo, enfim capturado, enfim impossibilitado de não encarar o próprio rosto, esse homem diria “sim” àquela harmonia feita de beleza e horror e perfeição e beleza e perfeição e horror; a perfeição que nos usa.

E esse homem, com o grande respeito do medo, diria “sim”, mesmo sabendo com vergonha que este seria o seu maior crime talvez: porque havia uma falta essencial de direito de achar tudo isso belo e fatal, havia uma falta essencial de direito de um homem se agregar à divindade – até que ponto um homem tinha o direito de ser divino e dizer sim? Pelo menos não antes de arrumar os seus negócios!

Mas não. Mesmo sem saber como arrumar nossos negócios, o homem terminaria cometendo o crime de dizer sim. Pois atingido o nó incompreensível do sonho, aceitava-se este grande absurdo: que o mistério é a salvação.

Oh Deus, disse então Martim em calmo desespero. Oh Deus, disse ele. Porque nossos pais já estão mortos e é inútil perguntar a eles “que luz é essa”, não é mais a eles, é a nós mesmos. Nossos pais estão mortos – quando enfim encararemos isto? Oh Deus, disse então. Porque olhou a escuridão ao redor de si e como cada outro ser estava definitivamente na sua própria casa e ninguém no mundo o guiaria, então na sua carne em cólica ele inventava Deus. E bastou inventá-Lo para que da profundeza de séculos de medo e de desamparo uma nova força se agigantasse num lugar onde nada existira antes. Um homem no escuro era um criador. Na escuridão as grandes barganhas se fazem. Foi dizendo “oh Deus” que Martim sentiu o primeiro peso de alívio no peito. Respirou devagar e com cuidado: crescer dói. Respirou muito devagar e com cuidado. Tornar-se dói. O homem teve a penosa impressão de ter ido longe demais.

Talvez. Mas pelo menos por um instante de trégua não teve mais medo. Só que sentiu aquela solidão inesperada. A solidão de uma pessoa que em vez de ser criada cria. Ali em pé no escuro, sucumbido. A solidão do homem completo. A solidão da grande possibilidade de escolha. A solidão de ter que fabricar os seus próprios instrumentos. A solidão de já ter escolhido. E ter escolhido logo o irreparável: Deus.

Até que, sozinho diante de sua própria grandeza, Martim não a suportou mais. Ele soube que teria que se diminuir diante do que criara até caber no mundo, e diminuir-se até se tornar filho do Deus que ele criara porque só assim receberia a ternura. “Não sou nada”, e então cabe-se dentro do mistério.

E aquele homem com olhar espantado, com o medo renascido, só queria agora uma coisa deste mundo: caber nele. Mas como? O vento encheu-lhe a boca de poeira, o vento que só agora ele notara e que também o assustou. Recomeçou a tremer, passou a mão pela boca seca e ávida. O medo de jamais atingir a bondade de Deus o tomou. Ele chamara a força de Deus mas ainda não sabia como provocar a Sua bondade. Foi então que de repente ele disse em si mesmo: eu matei, eu matei, confessou afinal.

Pois talvez fosse isso o que estavam esperando dele para livrá-lo do medo? e ele oferecia seu crime como refém.

Mas – revoltou-se ele logo em seguida justificando-se para Deus – alguém tinha que se sacrificar e levar o sofrimento sem consolo até o último termo e então se tornar o símbolo do sofrimento! alguém tinha que se sacrificar, eu quis simbolizar o meu próprio sofrimento! eu me sacrifiquei! eu quis o símbolo porque o símbolo é a verdadeira realidade e nossa vida é que é simbólica ao símbolo, assim como macaqueamos a nossa própria natureza e procuramos nos copiar! agora entendo a imitação: é um sacrifício! eu me sacrifiquei! disse ele para Deus, lembrando-Lhe que Ele mesmo sacrificara um filho e que também nós tínhamos direito de imitá-Lo, nós tínhamos que renovar o mistério porque a realidade se perde! Oh Deus, disse ele em reivindicação, não respeitais sequer a nossa indignação? meu ódio sempre salvou minha vida, eu não quis ser triste, se não fosse a minha cólera eu seria doçura e tristeza, mas a raiva é filha de minha mais pura alegria, e de minha esperança. E quereis que eu ceda o melhor de minha cólera, vós que tivestes a Vossa, acusou ele, porque assim me disseram, e se disseram não mentiram porque eles devem ter sentido na carne a vossa cólera, acusou ele.

O que aconteceu, então, foi que Martim teve medo de sua própria cólera como se tem medo da própria força. A escuridão o rodeava. E o silêncio que o envolveu respondeu-lhe que não era assim que ele caberia no mundo e que não era assim que ele se livraria de si mesmo. E ele – ele queria caber. Mas como? Seria no entanto tão simples. Se os bichos eram a própria natureza, nós éramos os seres a quem as coisas se davam: seria tão simples apenas recebê-las. Bastava receber, só isso! Tão simples.

Mas uma pessoa não sabe como.

Como? como é que se faz? perguntou-se. O vento deixava-lhe a boca seca de poeira. Mais que o medo de ser denunciado à polícia pelo professor, um medo total fazia-o ter vontade de enfim ceder. Na verdade já não sabia se queria aceitar porque não tinha mais outra saída, ou se porque aceitar estava tomando um grande e obscuro sentido que vinha de encontro à criatura desconhecida que ele era. Já não lhe importava sequer que, no ato de aceitar, ele tivesse consciência de trair o mais valioso de si mesmo: a sua revolta. Nem mesmo apenas a própria revolta. Mas também a revolta dos outros. Ele, que se havia feito depositário da cólera alheia. Ele, que havia precisado de um grande crime para provar alguma coisa. Martim sabia que estava traindo o próprio sacrifício. Mesmo assim ele quis. Embora, tendo consciência de sua traição, ele fosse agora um homem muito velho. Já não poderia mais ser entendido por um adolescente. Nunca mais, nunca mais seria compreendido. Nem por si mesmo. Mais que isto: sabia, como se tivesse feito um juramento de sangue, que nenhum pensamento seu futuro se livraria jamais da marca de sua covardia agora revelada, essa covardia que é a submissão necessária de um homem, e a sua experiência. Estava consciente de que nunca mais poderia começar a ser livre sem se lembrar do medo que agora sentia.

Sabia. Mas na escuridão do bosque não queria senão se livrar. Como? Sem nenhum treino, ele não sabia de que modo uma pessoa aceita. Como se devesse haver um ritual que não apenas simbolizasse a submissão mas a realizasse. Oh não lhe importava sequer que, logo depois de aceitar, se organizasse no caleidoscópio imediatamente uma nova falta de sentido. Uma falta de sentido harmoniosa e intangível, num sistema de novo fechado onde de novo ele não poderia entrar. O que importava mesmo era fazer parte de um sistema – e livrar-se daquela sua natureza que de repente fez com que o homem recomeçasse a tremer da cabeça aos pés. Oh não importava, pois ele já fora longe demais, e ter medo era tarde demais, já significava pertencer à salvação, o que quer que isso quisesse dizer. Que importa se era essa ou não a palavra! nós que aludimos, nós que apenas aludimos.

Na noite do bosque o enorme cansaço fazia o homem perder a lucidez, e instintivamente seu pensamento cego queria buscar a fonte mais remota. Adivinhava que nessa fonte escura tudo seria possível porque nela a lei era tão primária e vasta que dentro dela caberia também a grande confusão de um homem. Só que, antes de ser admitido na primeira lei, um homem teria que perder humildemente o próprio nome. Essa era a condição. Mas um náufrago tinha que escolher entre perder a pesada riqueza ou afundar com ela no mar. Para ser admitido na fonte vasta, aquele homem sabia que tinha de acreditar apenas em claridade e em escuridão. Esta era a condição – e depois desse passo ele faria parte vencida daquilo que ele desconhecia e amava.

O vento soprava mais forte nas árvores, na escuridão as folhas arrancadas bateram-lhe no rosto. Com o peito ferido e doce, respirou a umidade que se aproximava. Perguntou-se curioso se ainda naquela noite choveria. Como não sentia coragem de sair do agasalho do bosque, soube que a chuva viria encontrá-lo ali indefeso. E a essa ideia, de novo recomeçou a tremer com medo do escuro e da chuva. Também ele, igual aos outros – pois lhe tinham contado que mesmo aos mais vigorosos acontecia, e os marinheiros sabiam disso.

Como os outros, um dia na cólera ele realizara a sua força. E no arrependimento, sua doçura até o mel. Até que, transfigurado pela própria natureza, agora nada dizia e no escuro nada via. Mas ser cego é ter visão contínua. Seria esta talvez a mensagem?

Mas antes a tua cólera e o teu arrependimento. Até que na extrema-unção um homem viria e, para que este próprio homem se salvasse, te imploraria com rosto ameaçador, nesse grito de resumo com que procuramos entender o que nos pertence: “diga sim! uma vez! agora! já! diga sim uma vez antes de morrer! não morra danado, não morra em cólera! o milagre da cegueira é apenas este: dizer sim!”

Era isso pois o que queriam dele? Que dissesse sim. Em troca de tudo o que ele sabia, que exigiam de um homem? Em troca pediam de um homem – que ele acreditasse. Comesse barro até estourar mas pede-se que ele creia. Que ele próprio tenha roubado o pão dos outros – mas pede-se que horrorizado consigo mesmo ele creia. Que nunca tenha feito um ato de bondade – mas pede-se que ele creia. Que tenha esquecido de responder à carta de uma mulher que pedia dinheiro para a doença do filho – mas pede-se que ele creia.

E ele crê. “Eu creio”, disse Martim apavorado consigo mesmo, “eu creio, eu creio! não sei qual a verdade mas sei que poderia reconhecê-la!”, reivindicou ele, “me dai uma oportunidade de saber no que creio!”

Mas não lhe foi dada. E então, como ele não sabia qual era a verdade, ele se disse no bosque: eu creio na verdade, creio assim como vejo esta escuridão, creio assim como não entendo, creio assim como assassinamos, creio assim como nunca dei para quem tem fome, creio que somos o que somos, creio no espírito, creio na vida, creio na fome, creio na morte! – disse ele usando palavras que não eram suas. E porque não eram suas tiveram o valor do ritual que apenas esperavam para livrá-lo do medo, a única palavra de passe: creio.

O homem fungou envergonhado. Uma nova e dolorosa dimensão se abrira nele. O que “Deus” silenciosamente devia ter previsto na Sua estranha visão de nós. Na verdade o homem por um instante parecia ter perdido sua relatividade, assim como um cavalo às vezes fica desamparadamente absoluto. Seria isso o que Deus pacientemente esperara que ele compreendesse? era isso o que lhe prometera. Mas mesmo que Deus pudesse falar, nada lhe teria dito porque se dissesse não seria compreendido. E mesmo agora o homem não compreendia.

Humilhado, o homem fungou enxugando as lágrimas, um pouco intimidado. O primeiro relâmpago enfim abriu o céu – o casarão alto iluminou-se e se escureceu de novo. Depois de um instante de silêncio rolou pelas montanhas em resposta à trovoada seca. Até se desmanchar no rosnado murmúrio de quietude. Fungando, o homem achou que isso era uma harmonia.

Então o vento começou a soprar mais forte, fazendo bater janelas. E Vitória sentou-se na cama.

Nenhum pensamento ocorrera ainda àquela senhora mas seu coração bem que ouvira a trovoada. Era a chuva que viria. Era a chuva que viria! Reconheceu-a pela sufocação do ar e pela cólera do vento preso, era a chuva que viria. Seu coração se alegrou feroz: triunfo, triunfo seu, ela soubera esperar.

Só então compreendeu com alguma estranheza que estava acordada. Fazia frio e no entanto ela estava asfixiada, com o coração inchado no peito, talvez porque nenhuma gota tivesse ainda caído.

Então, sentada na escuridão e como se não tivesse havido interrupção, retomou o pensamento que tivera ao ver Martim pela primeira vez diante do alpendre: um homem de pé tendo na cara a grosseira beatitude de ter satisfeito a sede – e já então ela não soubera dizer se achava isso bonito ou feio. E como se fosse muito natural estar pensando no homem no meio da noite, a senhora de novo pareceu intrigada com aquela cara indiferente onde no entanto os traços físicos eram de pura malícia. Mas era como um tigre que parece rir e depois se vê com alívio que é apenas o corte da boca. O que, no entanto, não chegava a tranquilizá-la pois as coisas físicas também têm a sua intenção. O que suavizava no homem o seu perigo era a dualidade contraditória do rosto físico com uma expressão que não o confirmava. Por uma curiosidade maligna a mulher imaginou que se ao lado dos traços maliciosos a expressão também se tornasse maliciosa, então – então ela teria visto a cara do riso e do mal. Estremeceu então de prazer.

O prazer assustou-a, ela se revolveu com espanto. Talvez seu espanto viesse de estar acordada no meio da noite ou de estar pensando no homem. Ajeitou imediatamente os lençóis, preparando-se severa para dormir de novo.

Sabia porém que era mentira e que não estava se preparando para dormir. Assim, pois, ficou quieta na escuridão. A escuridão compacta permitia tudo porque seu rosto não seria visto sequer pelas paredes. E como acontece, a noite parecia sussurrar-lhe que ela poderia ter qualquer pensamento. Como se os bichos se tivessem soltado no campo negro antes que a tempestade caísse e a senhora pudesse aproveitar o vento para misturar-se furtiva entre eles. Eu te amo, experimentou com cuidado dando uma primeira cautelosa amostra de si mesma no escuro para ver se era verdade que nada lhe aconteceria. E nada aconteceu. A senhora pareceu decepcionada como se na verdade tivesse esperado que depois da audaciosa frase a escuridão se fizesse dia ou que enfim começasse a chover ou que ela de súbito pudesse se ter transformado em outra pessoa.

Embora a frase tivesse ecos e ecos no vento temporariamente amainado.

Nada acontecera. Uma tristeza tranquila encheu o quarto. Se era amor o que aquela senhora sentia com o corpo quente de sono. Se era amor essa tristeza de besta misturada com raiva e com trevas; trevas eram o seu amor. Não podia ser amor essa coisa como se ela fosse a única pessoa viva na escuridão. Nunca tinha ouvido falar de amor assim. Mas o vento soprava... E incerta ela procurava o amor como a escuridão procura a escuridão, como a chama de uma vela parece querer se apagar vencida enfim pelo que é tão maior que a pequena chama de uma vela. Se não era amor, o homem lhe devia isso antes de ir embora: a senhora aos poucos se tornara tão obstinada como se fica no meio da noite.

A janela se abria para a noite opaca. Essa opacidade que se transformaria em trêmula transparência quando a escuridão enfim ficasse molhada. E a senhora, tentando se apaziguar, se disse que na certa dormiria logo que começasse a chover. “Era só por isso que não dormia”. Por enquanto, por mais que seus olhos perfurassem a escuridão, nada encontraram, e nenhum obstáculo que lhe impedisse de ir adiante. Por hábito ela procurava um impedimento, até agora os obstáculos lhe tinham servido de grande apoio. Mas agora cercada de amor, de vento nas árvores, de permissão. Já não seria sequer o abraço que simbolizaria o amor daquela mulher. Ali sentada, já chegara ao ponto de usar a alma que era a parte mais negra de seu corpo, e a sua parte mais triste. Eu te amo, experimentou de novo com voz dura e altiva. Mas amor não podia ser isso. Amar assim era a melancolia. “Os bichos estão soltos”, pensou então suave, suave, melancólica.

“Que bichos?”, sobressaltou-se quando se deu conta do que pensara, e a pequena chama da vela tentou uma derradeira justificação antes de se entregar. “Que bichos?”, perguntou-se forçando-se austera a uma lógica que a fizesse “estranhar”, e estranhar seria defender-se. Mas ela mesma respondeu-se com uma obstinação de prazer: “os bichos de que é feita a escuridão”.

Depois do que, a mulher tentou penosamente recuperar-se: era preciso se manter lúcida e clara como ela era de dia. Não conseguira enfim viver tranquila na sua fazenda, ocupada com os seus deveres? Não conseguira enfim se livrar daquela ameaça que era a ânsia de viver? e livrar-se daquele duro e vazio ardor que a teria levado como nunca se saberia até onde?

Consegui! respondeu-se com dor, sentindo a sua grande perda. E não conseguira ela Deus com tanto esforço? Consegui, respondeu espantada. O que ela chamava de Deus, não se sabe propriamente. Mas conseguira. Então o que deveria logicamente fazer era deitar-se e dormir.

Conseguira, sim. Mas como para uma curada de vício que não pudesse mais lutar contra a tentação – aparecera um homem que pela transitoriedade de sua passagem parecia exigir em ultimato que ela de novo conseguisse. E renovasse a decisão. Por que teria uma pessoa que decidir cada dia e cada noite? que liberdade era essa que aquela mulher não pedira sequer? E como se já não tivesse com tanto esforço escolhido, de novo e de novo tinha que escolher; como se já não tivesse escolhido. A rapidez da passagem do homem pelo sítio lembrava em eco obscuro outra transitoriedade e outra urgência – quais? – e dava-lhe a última oportunidade. Oportunidade de quê? E a alma pesada, que com tanto orgulho havia desistido, sentia-se obrigada a escolher entre continuar a lutar ou ceder. Ceder a quê? Mal olhara o homem pela primeira vez diante do alpendre, e em cólera adivinhara que de novo teria que decidir.

“O que não quer dizer que eu não tenha lutado!”, gritou-se em reivindicação, exigindo encolerizada o direito de receber misericórdia. Ela que, por cautela, denunciara o homem ao professor. E não era isto sinal de luta? Era. Então, já que fizera o seu dever, já que o denunciara, ia dormir tranquila.

Mas continuou sentada. Eu te amo, experimentou com cuidado. Como se amar fosse obscuramente o modo de chegar ao seu próprio limite, e o modo de entregar-se ao mundo escuro que a chamava. Como sou infeliz, pensou com a tranquilidade de quem olhasse para muito longe. A menos que isso que estava sentindo fosse felicidade. Pois se parecia tanto. Ficou quieta, sentada, ouvindo os sapos. Quieta, com sua ferida de amor. E sozinha para resolver, sem os recursos da compreensão, o fato de ter denunciado o homem. A calma expectância da noite a encurralava assim como o silêncio obriga a falar.

De repente Vitória voltou à sensatez: “Afinal”, pensou com autoridade, “afinal tenho meus direitos e deveres, e não há motivo para estar acordada no escuro, afinal não estou perdida na África!”

Mas estava. Os sapos coaxavam como se estivessem dentro do quarto, o negro vento entrava pela janela. A mulher se arrepiou. “Aquela coisa escura e boa e agasalhante que era o mal.” A única palavra que lhe sobrou do pensamento ignorado e que lhe ocorreu em novo arrepio foi: “o mal”. O mal? por que usar essa palavra ruim? No entanto era o que sentia: no escuro, toda rodeada e agasalhada e recebida. Que etapas lhe haviam escapado para ela chegar ao ponto em que a escuridão a recebia? Só sentiria ela do amor a sua crueldade? No amor o que havia de diluído sentimento pela vida se reunia num só instante de pavor, e a raiva que ela vivia se transformara diante do homem concreto em ódio mortal de amor, como se o verde espalhado de todas as árvores se reunisse numa só cor negra. No amor o que havia de vago pressentimento de vida se reunia num só instante de pavor.

E no entanto – no entanto dir-se-ia que ela amava esse pavor e essa escuridão, e que daí vinha a alegria ruim em que a mulher estava no escuro. Sua ambição de dedos crus voltara. Tocada por aquilo a que não se sabe que outro nome dar, senão o de amor – tão diverso do que se esperou que amor e suavidade e bondade significassem – sua ambição voltara, anulando os claros e ocupados dias da fazenda. No escuro do quarto, a obscura ambição, a obscura violência, o obscuro medo que faz atacar, ela que por medo havia denunciado o homem.

A noite foi feita para se dormir. Para que uma pessoa nunca assista ao que acontece na escuridão. Pois com os olhos cegos pelas trevas, sentada e quieta, aquela senhora mais parecia estar espiando como o corpo funciona por dentro: ela própria era o estômago escuro com seus enjoos, os pulmões em tranquilo fole, o calor da língua, o coração que em crueldade jamais teve forma de coração, os intestinos em labirinto delicadíssimo – essas coisas que enquanto se dorme não param, e de noite avultam, e agora eram ela. Sentada com seu corpo, de repente tanto corpo. À meia-noite Cinderela seria os trapos que na verdade era, a carruagem se transformaria na grande abóbora e os cavalos eram ratos – assim foi inventado e não mentiram. À meia-noite entrava-se no domínio de Deus. Que era um domínio tão espesso que uma pessoa, não conseguindo atravessá-lo, ficava perdida nos meios de Deus, sem entender seus claros fins. Pois ali estava aquela senhora em face de seu corpo que era um meio, e onde ela de repente se enlaçara sem poder sair. E os meios de Deus eram uma tão pesada força de escuridão envolvente – que os bichos saíam um por um da toca, protegidos pela suave possibilidade animal da noite. “Está escuro”, disse a senhora como senha esperada para iniciá-la no inferno, pois que os meios de Deus mais pareciam um inferno. E o inferno era o modo de quem adorava os meios de Deus. Absorta, quieta, ela ouvia os sapos. Ser sapo era a humilde e grosseira forma de ser um bicho de Deus. E como se a pureza e a beleza não fossem mais um modo possível de servi-Lo, também a senhora parecia um sapo na cama, com aquela alegria primária de demônio que as coisas no escuro têm, tão enroladas são, e elas mesmas tão escuras. Como um bicho verde, pois, sentada na cama.

A noite foi feita para se dormir porque senão no escuro se compreende o que se quis dizer quando falaram em inferno, e tudo aquilo no que uma mulher não acredita de dia, de noite ela entenderá. Pois no escuro do quarto, com um peso de prazer, ela parecia entender porque disseram “inferno” e porque as pessoas queriam o inferno. Parecia compreender o que significa a figura de um monge negro nas histórias da infância. E o que há de tenebroso no voo de uma grande borboleta. E se olhasse agora um cão escuro seria inútil saber que neste não habitava a alma do demônio: pois agora a senhora talvez soubesse o que se quisera dizer quando inventaram que um cão negro é habitado pelo mal. É que num cão negro alguma coisa está sendo dita. E imóvel, sem cometer nenhum pecado, ela também sabia o que era o mal e o pecado. E se os morcegos não existissem, terminariam por entrar pela janela ao anoitecer: só para dizerem com sua forma de asas o que nós sabemos. “Tudo o que sei está oculto”, sentia ela, e estava sentada na cama, capturada pelo que sabia. Mas também era verdade que, enquanto ela não era obscura, seu coração não reconhecia a verdade.

Seus olhos estavam macios, constrangidos, intensos. Talvez ela também estivesse entendendo por que é que Deus, na sua infinita sabedoria, deu e ordenou somente algumas determinadas palavras para serem pensadas – e somente elas. Era para que se vivesse delas, e somente delas. Talvez ela tivesse entendido, pois lembrou-se, vindo do nada, de que o professor dissera ter existido uma época em que era considerado heresia haver na música litúrgica mais do que um fio melódico; sim, o professor dissera que era considerado demoníaco. É que, mais que um fio melódico, e ficava-se entregue à riqueza. A mulher tonta se lembrou de histórias que lhe tinham contado sobre homens tranquilos que se haviam desnorteado por terem uma vez experimentado viver de noite, e então haviam abandonado esposa e filhos, e então começavam a beber para esquecer o que tinham sentido ou para se manterem à altura da noite.

De repente a senhora, que fora arrastada pelo curso de seus sentimentos, passou a mão pelo rosto tentando acordar-se. Fora erro involuntário o seu o de acordar durante a noite que é feita para se dormir, como se tivesse aberto sem querer a porta proibida do segredo e visse as lívidas esposas do Barba Azul. Fora erro involuntário e perdoável. Mas já era mais que simples erro não ter fechado a porta, e ter cedido à tentação de ganhar poder naquele silêncio onde, porque ela não quisera se limitar a usar apenas as Suas palavras compreensíveis, Deus a deixara só. Provavelmente ela contara com um Deus mais forte que seu erro e mais forte que sua vontade de errar. Mas o silêncio a envolvia. E a senhora, em face de sua cobiça, estava sentada. Meu Deus, eu Vos perdoo, disse fechando os olhos antes de continuar irreprimível na sua alegria.

E tudo isso era amor. Era assim, pois, que acontecia. Com essa escuridão e esse silêncio e esse vento e as árvores sacudidas. Mas eu Vos perdoo que assim seja porque quero que assim seja.

Sozinha, com a miséria de sua luxúria. Que não era sequer luxúria de amor. Era mais grave. Era a luxúria de estar viva. Os sapos estavam agora enormes, com a boca aberta perto da janela. As patas que saíam daquelas cabeças sem pescoço, aquelas bocas rasgadas coaxando um ruído antigo, os pequenos monstros da terra. E por um instante, numa tortura de alegria, também a mulher parecia ter patas na cama, pois algo acontece na umidade da noite. No meio de seu sofrimento, agora atingido em pleno, somente um mínimo de consciência impedia que ela fosse se reunir aos sapos junto da janela. Um mínimo de consciência dentro de seu pesadelo acordado impedia que aquilo que nela era escuridão fosse se reunir à orgia dos sapos. Esse esforço que semiacordada ela fez para não ser um animal, pois as orelhas deste nós já as temos e a cara inocente também a temos. Um mínimo de consciência impedia-lhe que, tão favorecida enfim pela umidade nascente, ela seguisse o desígnio do que havia de lamento e uivo dentro de uma pessoa. E que a escuridão do campo prometia, tentadora, abençoar.

Sentindo talvez que não tinha mais medo, ela ousou se perguntar:

– Por que o denunciei?

Mas mesmo na escuridão agasalhante o remorso lhe deu acidez ao sangue. E o pior do remorso era não compreender a utilidade de sua vingança: por que o denunciei? por que essa crueldade, por quê? Então, num bálsamo, ela se lembrou de uma frase num livro para crianças: “O leão não é um animal cruel. Ele não mata mais do que pode comer.” O leão não é um animal cruel, ele não mata mais do que pode comer, o leão não é um animal cruel – e era culpa sua, se sua fome era tão grande? Mas poderia jamais comer tanto quanto matara? ela que já matara tanto, ela que já matara tanto. Sentada na cama, matara mais do que poderia comer. Eis toda a sua grande culpa. Seu espanto infantil era que, tendo denunciado o homem ao professor, o homem ficasse denunciado.

Se a senhora pensara que no escuro não teria remorso do que fizera, enganara-se. Mesmo no escuro o ponto inexplicável doía. E humilhada ela não aguentava o peso de seu pequeno crime. Essa vontade de arder no Inferno para o qual todos são chamados e tão poucos se danam. Não tinha a força da maldade, a carne é fraca: ela era boa. E o demônio era tão difícil como a santidade.

Ela o denunciara, e o homem certamente terminaria sendo preso. Oh Deus, disse então altiva sem implorar, tem piedade de um coração fraco. Porque ela, ela não tinha. Sentia apenas desprezo diante da pequenez de seu crime, e não queria sequer consolo. O consolo lhe pareceu mesquinho diante da profundeza da escura luz que era o sofrimento, e onde ela de novo parecia feliz e assustada.

Mas um mínimo de consciência fazia com que ela soubesse que daí a um momento teria enfim força de se libertar de seu pesadelo e de se libertar de sua má alegria na escuridão. Daí a um instante a senhora teria enfim força para sair daquele estado regozijante onde perigosamente caíra como quem cai num buraco enquanto procura um caminho. Tão longe ela já fora que só conseguiria entender o que se passava com ela se chamasse de pesadelo. Pois tinha que ser um pesadelo estar sozinha com aquele sentimento quente de viver que ninguém pode utilizar. Deus, que por pura bondade, considerara este sentimento pecado. Para que ninguém ousasse e ninguém sofresse a verdade. Sozinha com o quente sentimento de viver. Como uma rosa cuja graça não se pode aproveitar. Como um rio que é apenas para se ouvir o seu murmúrio. Sentimento quente que a mulher não poderia traduzir por nenhum movimento ou pensamento. Inútil mas vivo. Imponderável mas vivo como uma mancha de sangue na cama. Ali estava ela como uma mancha de sangue no escuro. E assim como um morto que se levantasse e andasse, a calidez de sua vida de súbito a ergueria devagar, e a levaria séria e cega a procurar na noite os seus iguais.

Quando começou enfim a chover, a senhora chegara a um ponto de silêncio em que a chuva lhe parecia a palavra. Surpreendida com o doce e inesperado encontro, ela se entregou sem resistência à água, sentindo no corpo que as plantas bebiam, que os sapos bebiam, que os bichos do sítio ouviam o barulho da água no telhado – o aviso se espalhara nebuloso e ensopava a fazenda toda: chovia, chovia, chovia. Que chova, disse ela. Pois também desse modo eu te amo, pensou antes de adormecer, a escuridão também era bondade, nós também éramos bondade.

Foi pouco depois que Vitória acordou como se tivesse dormido horas. E enfim livre do pesadelo, espantou-se de encontrar a noite no mesmo ponto em que a deixara.

O que acontecera é que ela tinha adormecido tão profundamente por alguns minutos que o corpo estava pesado de horas de sono. Quando foi ao banheiro, viu no espelho um rosto calmo e inchado. A sede alertava-a um pouco, o barulho da chuva nas folhas ocas dava-lhe mais sede. Desceu à cozinha onde, entre as frutas, pegou uma grande manga. Atenta, bateu-a de encontro à parede, vagamente cuidando de não acordar Ermelinda com o ruído fofo da manga nos ladrilhos da parede – até que sentiu absorta a fruta se amolecer dentro da casca, plena do próprio suco. Meditando, Vitória mordeu o topo da casca, cuspiu-a fora e pelo furo chupou o caldo todo. Rasgou então a casca com os dentes, comeu a carne amarela até chegar ao caroço.

Só quando estava diante da pia escovando os dentes é que os soluços subiram ao peito. Então, com o braço dobrado sobre a parede, escondendo neles o rosto, a senhora esperou paciente que o choro passasse. Depois do que, enxugou as lágrimas e olhou os dentes no espelho.

Então foi para o alpendre. Enquanto estivera no banheiro a chuva estiara. A noite estava recolhida e serena; pequenos ruídos indeterminados aconchegavam a escuridão. Estremecendo de bom frio ela pôde adivinhar do alpendre o caminho que a levaria ao depósito e, na secreta confusão dos arbustos, quase adivinhar a porta. Desceu as escadas.

Respirou devagar até sentir os pulmões cheios do ar negro e molhado. Afastando ramos conseguiu chegar à pequena clareira que preludiava a porta. Quase ouvia o silêncio que vinha do depósito. Mal se poderia supor que existia alguém vivo naquela escuridão, além dela mesma que respirava baixo, com a cabeça inclinada, escutando, escutando. Onde estaria o homem? Lembrou-se de uma vez em que o ouvira roncar. Se não fosse o absurdo da ideia, ocorrer-lhe-ia que o depósito estava vazio; ela sempre fora capaz de sentir quando um lugar estava vazio.

Recomeçou a chover. Os pingos escorriam dos ramos, batiam com delicadeza nas folhas e se espalhavam pela vastidão do campo. Um relâmpago verde revelou em relance a altura insuspeita do céu. Outro clarão pôs uma árvore antes invisível de súbito ao seu alcance. E para o abismo rolavam os trovões. “Eu” – disse a mulher velha – “eu sou a Rainha da Natureza.”

Apertando o roupão de encontro ao peito, aproximou-se então até sentir o cheiro de madeira molhada da porta. E, um pouco mais no fundo do cheiro, o cheiro apodrecido que vinha das achas do depósito. Suas mãos percorreram lentas e vivas o longo da porta. Esta cedeu sem ruído. Empurrou-a devagar e, ao abrir uma porta desconhecida, a mulher parecia mais inquieta quanto à própria figura cautelosa no escuro do que ao espanto que o homem demonstraria quando ela o acordasse. Ficou imóvel, nem dentro nem fora do depósito, com o rosto atento molhado.

Mas a espécie de obstinação instintiva de vontade que a guiara até ali parecia ter se extinguido. Antes mesmo de terminar o ato acabara-se a inspiração que o alimentara. E como se nessa noite a mulher tivesse sido envolvida por inúmeras camadas de pesadelo e cada vez que se libertasse de uma delas pensasse erradamente ter enfim chegado à última – só agora estava inteiramente acordada do sonho. Passou a mão pelo rosto onde a água escorria livre. Até mesmo a ida à cozinha e a manga que comera tinham feito parte nebulosa de um sonho e de uma força. Por que tinha ido até o depósito? perguntou-se curiosa.

Lembrou-se então de que em algum instante já não identificável pretendera avisar ao homem que o denunciara ao professor. Fora isso, pois, o que viera fazer no depósito. Mas se até chegar a este parecera tão determinada a ponto de nem se questionar – agora de súbito não sabia qual seria o próximo passo a dar. Estava reduzida a ser uma mulher junto de uma porta numa noite de chuva. Será que se alguém a visse diria “olhe uma velha na chuva?”, perguntou-se meditando. “Eu sou a rainha dos animais”, disse a senhora.

Ninguém no mundo sabia que ela estava ali. E ninguém saberia jamais – pois agora já parecia ter a certeza de que não falaria com Martim e que voltaria para a cama atravessando de novo o caminho de chuva. “Ninguém no mundo jamais saberia” – o que alargou de repente a grande escuridão do campo, e a mulher ficou perdida nele, ela, a trêmula rainha da natureza. Esse pensamento de segredo completo de que só a chuva partilhava lhe deu prazer como se ela enfim tivesse feito algo além de suas forças humanas. Estremeceu de alegria. Com o vento molhado a noite bateu-lhe dura no rosto – a senhora recebeu com delícia o desconhecido pacto.

Foi com o mesmo cuidado anterior, mas sem a mesma emoção, que se voltou para ir embora. Em breve atingia o alpendre, escorregando nos degraus molhados e no musgo; em breve atravessava a sala e o corredor sem nenhum ruído, deixando atrás de si os rastros molhados de um bípede. Mas quando chegou ao alto da escada sua cautela tornou-se inútil: o pé pisara em algo que rolou e rolou e rolou. Com as costas coladas à parede, com a respiração contida, ela suportou com horror o objeto rolar degrau por degrau pausadamente como os minutos de um relógio. Talvez fosse o carretel de linha perdido. E ouvira, ou apenas acreditara ouvir, um rangido de cama no quarto de Ermelinda? O silêncio se refez aos poucos, as sombras voltaram aos seus lugares.

Só quando chegou ao quarto é que seu coração começou a bater com violência. Ficou de pé no escuro e enquanto tremia pela ousadia do que fizera – agora já não saberia se a ousadia fora a ida ao depósito ou a denúncia ao professor – enquanto tremia toda pelo que tinha feito, já começava a sorrir de triunfo. Não torceu o comutador porque temia o desagrado da luz amarelada e fraca do sítio, à qual jamais se habituara: cada vez que acendia a luz parecia-lhe que apenas dourara a escuridão. Sem acender a luz, sem fazer ruído para não provocar de novo o rumor suspeito no quarto de Ermelinda que tinha sono de ave, Vitória tirou o roupão, afastou astuciosamente os lençóis e astuciosamente entrou na cama; cobriu-se depressa até o queixo e ficou de olhos bem abertos no escuro, gozando o conforto ainda trêmulo de um cachorro que se isola para lamber suas feridas, com o olhar humano que os bichos têm.

Foi só então que também lhe ocorreu que não houvera nenhum ato... Que ela fora até a porta do depósito e voltara; apenas isto. Apenas isso? Seus olhos se abriram mais no escuro. Com surpresa – com dor? não, com alívio – com surpresa sua vida no sítio estava totalmente intata. Tudo então se tornou claro: ao denunciar o estranho, ela apenas estivera defendendo essa vida. Tanto que na claridade do dia seguinte mil pequenos afazeres aguardavam-na. Uma coisa ela pelo menos conseguira: chovera. Chovia. “E”, pensou ilogicamente, “como o homem ainda não fora embora, ela ainda tinha tempo”. Novo ruído indistinto no quarto de Ermelinda fez com que a senhora procurasse obscuramente até não pensar: imobilizou-se ainda mais à procura do sono que desmentiria tudo.

Quanto a Ermelinda, também esta demorou certo tempo para compreender que estava acordada. Deitada, seus olhos olharam tranquilos a escuridão do teto. Depois passou a distinguir os grilos separados do silêncio. E depois o barulho dos sapos calmos começou a nascer para seus ouvidos. Sua atenção procurou então certo ruído ritmado que agora já não ouvia mais: um ruído dentro da própria casa ou dentro de seu sono, alguma coisa que estranhamente se ligava a degraus de escada. Lembrou-se que sonhara que os descera um a um. E sonhara que um rato rolara pelas escadas. A casa estava tranquila sob a chuva.

Mas quando finalmente percebeu que estava acordada perguntou-se em súbito susto quanto tempo fazia que estava acordada. Mexeu-se rápida, passou realmente a ouvir perto da janela os roucos sapos e ouviu o barulho do vento nas folhas – tudo o que estivera surdamente em segundo plano tomou a dura forma da realidade. “É agora”, pensou com as mãos frias.

Não precisou sequer pensar o que significava o “agora” pois seu coração já batera sabendo. Sabia que se ficasse um instante a mais sozinha no escuro acabaria de novo sentindo a extensão do campo no escuro, as florezinhas que mesmo de noite continuavam a existir em suave riso – pelo mesmo processo que havia tornado os sapos e o vento reais.

Como se tivesse sido mordida, em menos de um segundo a moça estava de pé, em menos de um segundo enrolava-se no lençol e corria pelos corredores com os chinelos na mão. Sem se perguntar por que encontrara a porta do alpendre inesperadamente aberta, ela a atravessou num vento de lençóis e de cabelos. E só quando atingiu a clareira perto do depósito – depois de vencer num só instante de pavor quase audível a distância que a separava do homem – é que numa exclamação abafada percebeu que havia encontrado a porta do alpendre inexplicavelmente aberta... E que também a porta do depósito estava aberta...

Este foi o derradeiro sinal de que talvez já tivesse acontecido aquela coisa impossível de se conhecer senão quando acontece: entre a vida e a morte já não havia barreira, as portas estavam todas abertas.

A moça então se imobilizou na clareira com seu lençol molhado, rígida, sem dar mais um passo. Seu terror era tranquilo na chuva que caía. E ali em pé ela parecia sossegada. Fora capturada sem aviso. Capturada pela sua religião e pelo abismo de sua fé e pela consciência de uma alma e por um respeito pelo que não se entende e que se termina adorando, capturada pelo que na África faz soarem os tambores, pelo que faz da dança um perigo e pelo que faz com que a floresta seja o medo de uma pessoa. Incapaz de se mover, com respeito e terror pelo seu próprio pensamento que se evolava dela, e a chuva parecia se evolar da terra como fumaça se ergue de ruínas. Mas não era de ruínas que a moça tinha medo, era de fumaça. E não era a morte que ela temia. O que respeitava, com a veneração que se tem por uma floresta, era a outra vida. Ali em pé, olhando os campos vazios por onde um dia passearia liberta do corpo. Com aquele modo indireto de passear que sua alma teria: ao mesmo tempo para trás e para a frente e para os lados. Tão sozinha depois de morta. Inteiramente sozinha. Entregue enfim ao sonho que a arrastava em vida, ela que entendera tão mal o milagre do espírito.

A moça ficou pois quieta nos seus lençóis como uma grande borboleta branca. E nada podia oferecer, em sacrifício de troca, pela morte. Nada tinha de precioso para uma dádiva de martírio. Não havia barganha possível. O pensamento da morte era o ponto mais derradeiro que seu pensamento conseguia atingir. E de onde também seu pensamento não podia sequer voltar para trás. Pois voltar seria encontrar, como num pesadelo de perseguição, os grandes campos desta terra, as nuvens infladas e vazias no céu, as flores – tudo o que na terra já é tão suave como a outra vida. As flores pequenas e perfeitas se balançando em multidão no campo... não tinham elas a serena loucura e a delicadeza da “outra vida”? Quando era obrigada a encarar seu medo de frente, o cheiro suavíssimo das flores a perseguia como um passarinho que rodeasse a sua cabeça. Aquela moça delicada preferia o rato, o corpo de um boi, a dor e aquele contínuo trabalho de viver, ela que tinha tão pouco jeito para viver – mas preferia tudo isso à horrível e tranquila alegriazinha fria das flores, e aos passarinhos. Porque também estes eram na terra a marca nauseante da vida posterior. A presença deles, inocente lembrete, tirava a segurança da própria vida terrena. E era então que, mesmo as casas com suas vidas por dentro, lhe pareciam construídas fragilmente demais, sem consciência do perigo que havia em não serem mais profundamente enraizadas no chão. No entanto só a moça parecia ver o que os outros não viam e o que as casas sólidas não suspeitavam sequer: que estas tinham sido erguidas sem cautela como quem na escuridão adormecesse num cemitério sem saber. As casas e as pessoas estavam apenas pousadas sobre a terra, e tão pouco definitivas como a tenda de um circo. Aquela sucessão de provisórios sobre uma terra que não tinha sequer fronteiras que delimitassem onde uma pessoa vive em vida e onde vive em morte – aquela terra que talvez fosse o próprio lugar onde a alma um dia passearia perdida, doce e livre.

Mas se a moça conseguia ver, vindos do longe para onde um dia ela própria iria, se conseguia ver os passarinhos... quais? quais seriam os outros “sinais”? como distingui-los no seu disfarce? Às vezes ela distinguia. Às vezes de súbito percebia na árvore tão sólida a suavidade suspeita. Mas como, como distinguir os outros sinais? Embora às vezes o silêncio soprasse.

Todo o trabalho daquela moça, que tinha uma vez caído no mistério de pensar, era procurar inutilmente provas de que a morte seria o sereno fim total. E isto seria a salvação, e ela ganharia a sua vida. Mas, com sua tendência para a minúcia, o que conseguia eram os indícios contrários. Uma galinha que voava mais alto que o comum – tinha aquela naturalidade do sobrenatural. Cabelos que cresciam sempre tão depressa tornavam-na tão pensativa. E uma cobra “mas que estava ali há um minuto, juro! e não está mais!” – a rapidez com que as coisas sumiam, a rapidez com que ela perdia lenços e não sabia onde deixara a tesoura, a rapidez com que as coisas se transformavam em outras, a evolução automática de um botão mecanicamente se abrindo em flor aberta – ou a cabeça de um cavalo que de repente ela descobria no cavalo, a cabeça adicionada como uma máscara de espanto naquele corpo sólido – tudo isso obscuramente era um indício de que depois da morte começava a vida incomensurável. Pois este tinha sido o modo como Ermelinda se dera conta da beleza: pelo seu lado de eternidade. E se existem milhares de modos de ver, a moça se enganchara para sempre num deles.

Oh mas não desta vez!

Ali na clareira, de repente e num movimento inesperado de libertação, ela desprendeu os pés da terra ensopada – e num voo atravessou o umbral da porta lançando-se em procura do homem num desespero de ave na gaiola. E quando seu corpo bateu no dele, ela não se espantou sequer de encontrar Martim de pé e vestido e ensopado de água, como se também ele tivesse acabado de entrar no depósito.

E o homem estupidificado, vendo-a com a cabeleira desfeita, selvagem como um crisântemo, só se deu conta do que acontecia quando enfim reconheceu o vulto da moça. E ele não saberia se ela correra para ele ou se ele próprio se lançara para ela – tanto um assustara o outro, e tanto um era a própria solução para que o outro não se aterrorizasse com o fato de tão inesperadamente estarem unidos. Ela se grudou a ele no escuro, aquele homem grande e molhado com cheiro de azinhavre, e era estranho e voraz estar abraçada sem vê-lo, apenas confiando no ávido sentido de um tato desesperado, as ásperas roupas concretas, ele parecia um leão de pelos molhados – seria ele o algoz ou o companheiro? mas no escuro ela teria que confiar, e fechou intensamente os olhos, entregando-se toda ao que havia de inteiramente desconhecido naquele estranho, ao lado do mínimo conhecível que era o seu corpo vivo – ela se colou àquele homem sujo com terror dele, eles se agarraram como se o amor fosse impossível. Não importava sequer fosse ele um assassino ou um ladrão, não importava a razão que o fizera cair no sítio, há pelo menos um instante em que dois estranhos se devoram, e como não gostar dele se ela de novo o amava? – e quando a voz dele soou em grunhido no escuro, a moça se sentiu salva, e eles se amaram como casados se amam quando perderam um filho.

E agora os dois estavam abraçados na cama como dois macacos no Jardim Zoológico e nem a morte separa dois macacos que se amam. Agora ele era um estranho, sim. Não mais porque ela o desconhecia – mas como modo dela reconhecer a existência particular e intransponível de uma outra pessoa, ela admitia nele o estranho como reverência de amor. Nesse momento ela poderia dizer: reconheço você em você. E se a graça também esclarecesse o homem além do temor de estranhar, também ela seria para ele enfim a grande estranha – e ele lhe diria: e eu reconheço em você, você. E assim seria, e seria tudo, pois isso provavelmente era amor.

A moça pegou na mão dele e sentindo-a quente e ainda molhada, suspirou profundamente e deu uma risadinha. É que mal acreditava na própria esperteza: esta noite ela vencera o medo. E mesmo atordoada pelo sono soubera correr para perto de um homem, pois um homem não tinha a suavidade das mulheres, um homem desmentia por um instante a outra vida. Ali deitada e pensativa, Ermelinda entendeu o que um dia uma amiga medrosa lhe dissera: “quero casar porque é muito triste uma pessoa ser sozinha”. Ermelinda deu à frase um sentido todo especial de advertência, porque também a amiga era pessoa que tinha, por exemplo, medo do escuro. E era verdade, refletiu Ermelinda muito sensata. Pois enquanto ela própria fora casada, seu marido tinha horários e hábitos, o que tanto afastava a amplidão do mundo. E mesmo enquanto vivera na cidade era diferente: em lojas e mercados a vida era menor, cabia-se dentro dela sem medo, e não como no campo amaldiçoado. Ela deveria ter ficado na cidade e casar de novo; era isso, sim, era isso o que devia ter feito. E amanhã, amanhã avisaria a Vitória que ia embora, pois agora mesmo estava tendo a prova de que era isto o que devia fazer, agora que se aconchegava junto de Martim, e um homem tirava essa liberdade que uma pessoa sozinha sente como prenúncio da liberdade maior.

Foi pois com um sorriso de sono no rosto, bem armada com o que talvez dissesse a Vitória no dia seguinte, que a moça saiu do depósito ainda tonta, pisando nos destroços de lenha e na lama, andando com cuidado no escuro para não cair.

E foi então que, como se seus olhos a olhassem de frente, ela teve a ideia de si mesma como se se visse: e o que viu foi uma moça sozinha naquele mundo gotejante, com um ombro descoberto pelo lençol que a enrolava mal, os cabelos soltos e aquele rosto em cuja fácil indecisão se pintara agora a alegria de viver.

E, vendo-se, imobilizou-se tão de repente que seus pés se afogaram na poça d’água e as mãos sem apoio arranharam-se na árvore que no escuro lhe tinha sido jogada à frente. E como se ela própria fosse um forasteiro distraído que de repente tivesse visto aquela moça sozinha na chuva – arrepiou-se toda. Estava viva e resplandecia de horror. Estaria viva nesta vida ou já na outra? teria talvez ultrapassado o vago horizonte como os passarinhos que vão e voltam... Pensou se na verdade não teria morrido sem saber nos braços do homem pois a este ela dera o corpo, e sua alma estava ali branca e vacilante, com aquela doce alegria que a moça ignorava também poder vir do corpo.

Talvez porque, tendo tropeçado, ela estivesse quase ajoelhada e não precisasse ser audaciosa para fazer o que o seu coração pedia; talvez porque estar pela primeira vez de noite fora de casa tivesse quebrado alguma lei de possibilidade – agora ela não precisava ser corajosa para completar o semigesto de queda, e então ajoelhou-se junto do tronco que a ferira e sem nenhuma vergonha pediu a Deus para ser eterna. “Só eu!”, implorou ela, não como privilégio mas para facilitar-Lhe a tremenda exceção. Ah Deus, deixe eu sempre ter um corpo! As lágrimas corriam pelo rosto ainda feliz que, alarmado, não tivera tempo de mudar de expressão. Meu Deus, confessou ela afinal sentindo que cometia com isso grande pecado, não Vos quero ver nunca! Tinha horror de Deus e de Sua doçura e de Sua solidão e de Seu perfume, tinha horror dos pássaros que Ele enviava como mensageiros de paz. Eu não quero morrer porque não entendo a morte! disse a moça para Deus, não me julgue tão superior a ponto de me dar a morte! eu não a mereço! me despreze porque sou inferior, qualquer vida me basta! nem inteligente eu sou, sempre fui atrasada nos estudos, para que então me dar tanta importância? basta me deixar de lado e me esquecer, quem sou eu para morrer! só os privilegiados devem morrer! quem está Lhe pedindo a verdade! pode dá-la a quem pede!

Seu rosto encostara-se ao tronco como a um outro rosto rugoso, e ela sentia aquele cheiro de barro sujo que é tão assegurador e simples: o cheiro de sua própria vida na terra, encostou-se então com amor e avidez no tronco sujo, onde a boca se colou pedindo. E por piedade de si mesma, foi como se Deus lhe dissesse:

– Está certo assim. A gente vive e a gente morre.

Não fora isto o que sentira na tarde em que debulhara milho? Quem aceitasse o mistério do amor, aceitava o da morte; quem aceitasse que um corpo que se ignora cumpre no entanto o seu destino, então aceitava que o nosso destino nos ultrapassa, isto é, morremos. E que morremos impessoalmente – e com isso ultrapassamos o que sabemos de nós. Em cumprir-se havia alguma coisa de impessoal a que simplesmente uma moça dizia amém – e só gritava quem se enganchava numa dor ou num susto e se tornava pessoal. A moça estava confusa e cansada, encostada ao tronco. No fundo ela se entendia e entendia. Sua forma de entender é que, por mistério de palavras, se fizera tão difícil.

Foi mais ou menos isso o que ela sentiu em estado de sono e de amor, abraçada ao bom tronco de árvore para o amor do qual fomos tão bem-feitos, colada à árvore, gostando tanto de sentir suas boas e duras nodosidades, esperando que muitos e muitos e muitos anos ela tivesse para sentir o cheiro das coisas, feliz aniversário. A posição falsa a dobrava. Mas ela não conseguia dizer adeus ao perfume morno que vinha do sono e da fadiga, perfume de corpo vivendo, e de novo respirou a frescura das folhas molhadas, esse cheiro de chuva que é como um gosto amargo de nozes – e nas mãos cegas sentiu a árvore áspera que foi feita para nossos dedos, e nos joelhos a terra molhada, tudo isso que é a nossa alegria, tudo isso que nos dá tanto prazer, e se para isso fomos tão bem-feitos, então – então Ermelinda, já muito cansada, teve vontade de enfim ceder e de enfim seguir a sua vocação que era a de um dia morrer.