A Maçã no Escuro
Capítulo 5
5
Vitória era uma mulher tão poderosa como se um dia tivesse encontrado uma chave. Cuja porta, é verdade, havia anos se perdera. Mas, quando precisava, ela podia se pôr instantaneamente em contato com o velho poder. Já sem nomeá-la, ela por dentro chamava de chave aquilo que sabia. Não se indagava mais o que tanto soubera; mas vivia disso.
Foi, pois, procurando o auxílio de tudo o que sabia que ela mais tarde olhou absorta o prato de comida que o homem esvaziara na cozinha. Tentou também imaginá-lo a instalar a porta do depósito de lenha. Ela lhe dera a porta do depósito, grande e estranho objeto a se dar. Como a vinda totalmente imprevisível do homem já tinha quebrado um certo círculo de ordem em que ela se movia como dentro de uma lei, com relutância foi obrigada pelo menos a reconhecer que alguma coisa sucedera, embora não soubesse dizer o quê. Então pensou, um pouco constrangida com seu próprio ato livre, e de algum modo curiosa: “é a primeira vez que dou uma porta a alguém”. O que a enraizou numa sensação sem saída. Era a segunda vez que o homem a perturbava.
Sem saber o que fazer com o pensamento sobre a porta, saiu deste procurando imaginar que o homem devia agora estar adaptando-a com dificuldade nos gonzos enferrujados. Provavelmente mantendo aquele mesmo rosto de cansaço e quase riso, e aquela infantilidade impudica que os gigantes têm. Ou, quem sabe, talvez trabalhando na instalação da porta com aquela mesma concentração remota com que engolira, numa minúcia de migalhas, a comida. Há muito tempo a mulher não via a fome, e, olhando agora o prato vazio, franziu as sobrancelhas. Ela não conseguiu determinar em que momento é que sentira a crueldade daquele homem. Olhando o prato vazio, pensou então como se pensa de um cachorro: ele é cruel porque come carne. Mas talvez a impressão de crueldade viesse de que, diante do alpendre, ele estava com fome e no entanto sorria: via-se a fome na sua cara mas ele, numa capacidade de crueldade feliz, sorria. Não ter carinho por si mesmo era o começo de uma crueldade para com tudo. Ela o sabia em si mesma. Mas ela, ela pelo menos possuía tudo o que sabia.
Pela primeira vez então, com uma desagradável clareza que não pôde ocultar de si por mais tempo, a mulher percebeu que o homem não procurara lhe dar a menor garantia nem lhe prometera nada. Ela mesma tomara a si todos os riscos. Como quando um dia, cuidando com mãos hábeis de um cachorro ferido – este perdera os sentidos. E ela, sentindo no regaço o inesperado peso total do cão, erguera os olhos solitária e responsável junto daquele corpo sem alma que era agora inteiramente dela, como um filho. Aquele homem que ali caíra em todo o seu peso.
– Velha precipitada, disse de súbito muito fatigada empurrando o prato sujo; a falta de amor por si mesma a envolveu com altivez.
E como anunciaria a Ermelinda o novo homem, sem que esta ficasse feliz? Mas este seria problema para resolver mais tarde. Agora, o que importava com uma urgência inexplicável, era tentar adivinhar que cara o homem fazia enquanto instalava a porta. Sem ligar um fato a outro, foi examinar a garrucha. Estava precisando de limpeza e óleo. Na velha arma a senhora se concentrou durante algum tempo com seu rosto obstinado e severo, sentada na cozinha. Era um rosto de quem fez da própria desistência uma arma e um insulto para os outros.
O pior ainda era, porém, avisar a Ermelinda. “Um trabalhador a mais não tinha importância, embora fosse residente”, pensou Vitória argumentando relutante e convencendo-se aos poucos – pois tantas vezes um ou dois homens trabalhavam por um mês e iam embora; havia três dias ainda dois homens tinham se despedido. Por que hesitava então? Talvez porque tivesse que confessar a Ermelinda que o homem era, ou dizia ser, engenheiro. E se a ela própria pouco importava – pensou sombria, e acusando-o de ser engenheiro – contanto que ele trabalhasse, já que Francisco se encarregaria de vigiá-lo, a Ermelinda o fato iria...
“Contratei um homem, ele diz que é engenheiro mas trabalha em qualquer coisa!”, imaginou-se falando com aspereza para cortar qualquer comentário da prima. De que comentário tinha medo? Parou de limpar a garrucha, e olhou sonhadora e dura para o ar. Ou dizer-lhe apenas: “Ermelinda, tem mais um trabalhador que vai dormir no depósito de lenha, de modo que de agora em diante você não pode mais ir lá, é quarto dele.”
Nenhuma das frases pareceu-lhe bastante definitiva para cortar a exclamação de arrebatamento de Ermelinda. E, ao imaginar o rosto enlevado da prima, a senhora subitamente desviou o seu da imagem pressentida como se não a suportasse; sem poder impedir que dentro de si, quase com fúria, seu coração começasse a bater de espanto. Mas tendo transferido para Ermelinda o desgosto que sentia contra a própria estupidez, sentiu-se sem culpa nenhuma; e, livre para ter raiva, passou a não tolerar a curiosidade com que a prima ouviria a notícia. Não era o que Ermelinda ia dizer o que antecipadamente a enchia de rancor; pois na verdade nunca pudera sequer reproduzir uma frase concreta da moça. Era a expressão de extrema alegria disfarçada desta, mal acontecia alguma coisa. E era sentir-se forçada, por ter que lhe explicar a presença do homem, a entrar de novo em intimidade com aquela cara que revelava astúcia e suave insídia – como se no nebuloso sistema da prima os meios de contato de uma pessoa nunca pudessem ser diretos, porque também o perigo e a esperança fossem indiretos. Ermelinda parecia estar sempre escondendo que compreendia. E seu rosto se mantinha quase deliberadamente informe e suspenso – à espera de uma confirmação?
Oh não, não era isso. O que era então? Fora uma infância de doença o que fizera aquela moça se desenvolver na sombra? essa infância de fraqueza que Ermelinda guardava como se fosse o seu tesouro.
Mas nada disso a explicava. E ao pensar em Ermelinda, sem ao menos vê-la, esta parecia se esquivar ao pensamento dos outros. E mal Vitória a acusava, embora apenas mentalmente, Ermelinda parecia de súbito apresentar-se inocente e espantada. Como conhecê-la jamais? Qualquer contato direto era impossível. Era surpreendente como, se Ermelinda estivesse pensando no inexplicável ódio que sentia por pássaros e lhe perguntassem em que estava pensando, ela apenas responderia que estava pensando em “pássaros”. Era surpreendente como a única solução seria não lhe perguntar nunca. Ermelinda agia como se uma árvore fosse azul – mas se Vitória lhe perguntasse de que cor era uma árvore, ela responderia imediatamente, piscando de esperteza, que a árvore era verde. O que Vitória se indagava era se Ermelinda realmente sabia que a árvore era verde – ou se apenas sabia que Vitória achava a árvore verde. O jeito seria nada lhe perguntar. Como conhecê-la jamais? “O que é que faz com que eu, não fazendo um ato de maldade, seja ruim? e Ermelinda, não fazendo um ato de bondade, seja boa?” O mistério das coisas serem como nós sabemos que elas são, deixou a senhora bastante absorta.
Durante toda a permanência de Ermelinda na fazenda, Vitória não conseguira interessá-la nos trabalhos diários nem sacudir a calculada doçura com que a outra disfarçadamente esperava. E isso sem que Ermelinda tivesse uma vez sequer dito “não”. O fato de ter passado “a infância presa ao leito” parecia lhe ter dado para sempre o direito de uma vagabundagem que não se executava sem certa minúcia de ritual, e só aos viciados não escapavam as secretas delícias do vício – Vitória, fascinada, via a outra cuidar de seu ócio com precisão e vagares de carinho.
No começo, paralisada pelo modo de ser da outra, Vitória se deixara arrastar pelo que a visitante trouxera para o sítio quase transformando-o. O medo do escuro – aquela escuridão tranquila que depois da chegada da prima ganhara uma potência informe. E a alusão disfarçada à morte como se esta fosse um segredo a não ser jamais confessado. E a esperança. O medo, a morte, a esperança. Uma esperança que se concretizava em aguardar acontecimentos, como se o imprevisível estivesse ao alcance da mão. “De um momento para outro podia acontecer alguma coisa” – fora isso talvez o que se insinuara na fazenda, e fora isso o que por um tempo contagiara Vitória. Até que esta, em súbita cólera, despertara afinal, e recomeçara sua própria vida.
Embora fosse impossível escapar inteiramente ao que havia de sorrateiro na outra, e deixar de ouvir aquelas suas frases obscuras e radiosas que nada diziam mas ficavam ressoando no ar. “O cavalo sente quando o cavaleiro tem medo”, dizia Ermelinda. “Halo em torno da lua é sinal de chuva”, dizia – e a noite se tornava maior e mais funda. “Desconfie se um cão não gosta de você”, sorria ela como se isso fosse apenas uma amostra do que havia de inexplicavelmente promissor. Ermelinda era um pouco espírita.
Impossibilitada de fazê-la trabalhar, Vitória pelo menos aprendera a se defender dela. E, mal passara a primeira perturbação que a outra trouxera para a fazenda, Vitória se apressara a lhe ensinar o essencial a respeito de si própria: a primeira coisa que tivera severamente que cortar na prima fora a tendência a procurar apoio e contato físicos, a pousar a mão no seu ombro, a procurar seu braço quando caminhavam juntas, como se ambas partilhassem da mesma deliciosa desgraça. Estabelecida essa primeira distância física, uma espécie de ausência de relações se formara. E desde que Ermelinda, ao enviuvar, viera para o sítio, Vitória e ela nunca haviam entrado em explicação mais clara. Até que, como a poeira cai e se deposita, o tempo passara; e o que quer que fosse que tivesse acontecido, irremediavelmente já acontecera. Ermelinda terminara por guardar definitivamente as malas e os objetos inúteis que trouxera – e, incapaz de arrastar Vitória para seus sustos e esperanças, refugiara-se nos risos com a mulata cozinheira. De sua vida anterior restara a espera do correio do Rio que lhe trazia periodicamente, enviado por uma confeitaria, um pacotinho de amêndoas cobertas de açúcar perfumado que ela carregava consigo durante dias, economizando sonhadoramente confeito por confeito.
Só uma vez, numa tarde de calor excessivo e ameaça de tempestade, a tensão enfim explodira em Vitória, para nunca mais. E amainara-se quando a chuva caíra quebrando galhos e alagando a campina. E quando a chuva fina terminara por tranquilizar a fazenda, Vitória se perguntara atônita por que tão inesperadamente resolvera revelar-lhe que, anos atrás, ainda no Rio, vira por uma porta entreaberta Ermelinda jogar-se nos braços do homem com quem depois se casara.
E agora, limpando a arma com uma concentração mecânica, Vitória de novo se perguntou que demônio a dominara para levá-la ao ponto de questionar a prima. Talvez tivesse sido a chuva que ameaçava sem cair? Ou talvez a insistência daquele rosto, que se especializara em esperar, a tivesse enfim exasperado: Ermelinda sentada a se abanar, esperando, suando e comendo as amêndoas que tinham um perfume de lenço antigo – e a chuva ameaçando, e o perfume das amêndoas suavizando intoleravelmente o ar, enchendo a sala daquele cheiro adocicado de carta guardada em porta-seios, e a esperança... E então, como se a face das coisas tivesse de ser rasgada – mas por quê? – Vitória lhe dissera que “sabia muito bem como é que ela, Ermelinda, tratara casamento”: que vira o homem correr atrás dela ao redor da mesa numa caçada ridícula, vira Ermelinda desesperada rindo e correndo, – e vira de repente Ermelinda interromper a corrida e jogar-se nos braços do homem surpreendido que nem tanto esperara...
– E agora que você sabe finalmente que eu vi, nunca mais minta! dissera-lhe, e ela própria não sabia ao certo do que a acusava, e olhara-a espantada.
– Mas é porque eu estava fugindo dele!..., tentara a outra defender-se: “que se jogara, sim, nos braços dele, isso não podia negar, mas não porque o amasse...”
E por que Ermelinda achara que devia se defender contra a acusação de que o amara?
– E caiu nos braços dele porque não o amava? inquirira Vitória, e já então não lhe ocorria mais que acusara a prima de tê-lo amado, a ponto desta ter que se defender e confessar que não o amara – e não ocorria a ambas que uma não tinha direito de exigir justificação da outra. O calor aumentava e, a ponto de chorar, Ermelinda enxugava o suor, procurava desvencilhar-se da amêndoa incômoda na boca. Terminara cuspindo-a no lenço com um cuidado de poupança, dando um nó neste e guardando-o com atenção no bolso – depois do que, a ponto de chorar, tentara explicar que “estivera tão sozinha com ele, tão desamparada com um homem a correr atrás dela, que então se jogara nos braços dele”. Fora então que, talvez inspirada pela violência do vento que já começava a derrubar frutas e a levantar folhas e poeira, Ermelinda descobrira encantada a palavra “carrasco” que, nos dias seguintes, já por puro prazer e vaidade, passara a usar com frequência, em sentidos vários, alguns dos quais forçados. Apertando a caixa de amêndoas, tentara explicar que estivera tão sozinha com aquele homem “que seu carrasco teria que ser o seu apoio”, e sua desgraça tinha que ser o seu refúgio, dissera ela com gosto. E, diante de Vitória que então já se embriagava com a própria raiva desencadeada, Ermelinda gaguejara que “se uma pessoa se aproximasse de mim com uma foice, eu aproximaria o pescoço para que quem me matasse pelo menos não fosse meu inimigo” – isso tudo ela tivera a coragem de dizer, e era coragem dizer o que simplesmente não fazia sentido para uma ou para a outra.
É possível que se Ermelinda tivesse conseguido explicar o absurdo do que queria dizer e se a outra conseguisse entender – então a paz se fizesse entre ambas, ou pelo menos o cansaço. Mas Vitória lhe respondera que “a infância presa ao leito” não fazia com que Ermelinda deixasse na verdade de ser forte como um cavalo; ao que a outra, inesperadamente, abaixara olhos modestos – o que intrigara Vitória que, após um instante de surpresa, voltara a acusações mais graves. Ermelinda, atordoada pelo mugido das vacas assustadas ao vento, começara então a falar em carrascos – o que levara Vitória a dizer com muita ironia que, “pelo que sabia”, seu marido não tinha sido nenhum carrasco, “que ele lhe dera tudo, que nada faltara a Ermelinda enquanto o homem fora vivo”; o que levara Ermelinda a dizer que tinha tido o melhor dos maridos e que não admitia que falassem mal de um morto; ao que Vitória acrescentara que nunca lhe ocorreria falar mal de um homem que suportara durante anos que a mulher o chamasse de “minha flor”; o que levara Ermelinda a chorar de saudade – ambas desesperadas pelo vento insuportável, pela poeira que entrava na sala, as nuvens se fechando baixas e fazendo escuridão súbita.
E quando a água enfim desabara, fazia tanto barulho que elas não teriam podido continuar a falar sem gritar. Com o vento amainado e mais fresco, o suor começara a secar agradavelmente – e uma paz repentina se estabelecera entre ambas como se tivessem chegado a uma conclusão. Altiva, coberta de vergonha, Vitória saíra da sala. E passara a evitar a prima. Algumas pessoas conseguiam fazer isso com ela: fazer com que ela as odiasse e se odiasse. Vitória não as perdoava. Essas pessoas estavam no seu caminho. Depois, como se já tivesse acontecido o máximo que poderia acontecer entre ambas, elas não se precisaram mais.
Mas esse único contato direto sucedera havia muito tempo. E sua incompreensível memória não ajudou Vitória, sentada na cozinha, a encontrar um meio de anunciar a Ermelinda a vinda de mais um trabalhador. Com olhar estoico, ela segurava a garrucha; suportando tudo o que sabia. “Com a chave gelada junto do coração, grito de meu castelo”, pensou ela bonito, porque se não desse magnificência ao mundo estaria perdida. Ela tornava magnífico o que ela sabia – mas o que sabia já se tornara tão vasto que mais parecia uma ignorância. A esta, por um instante, ela sucumbiu:
– Se eu pudesse dar um tiro e a chuva então desabasse, pensou por um instante em que a cabeça falhou em fadiga.
Porque da lembrança da cena com Ermelinda ficara-lhe apenas a visão da chuva abençoada desabando. E seria tão necessária agora outra grande chuva, pensou com a força de novo reassumida como se desse uma ordem ou como se de novo tivesse tocado em si a chave. O milharal talvez secasse antes da colheita... E secasse o capim para o pasto. Talvez não, indagou com os olhos no céu.
Mas o céu alto e a diária relutância do poente em se fazer noite – nada prometiam senão a probabilidade de mais uma seca. É verdade que a terra ainda estava úmida. E o verde viçoso. Mas por quanto tempo? Há dias Vitória fingia não perceber que havia menos sapos: eles já estavam desertando... E que pouco a pouco as cigarras enchiam persistentes o crepúsculo. Mas a mulher encarou o ar com luta: é que os pássaros ainda não haviam emigrado! O que alargou seu olhar na dureza da esperança, como se a autoridade de sua fé impedisse a deserção das aves. Enquanto estas estivessem por ali, ela se conservaria silenciosamente batalhadora.
Enfim – suspirou de repente alquebrada – quanto antes falasse com Ermelinda melhor seria, para evitar que esta descobrisse sozinha e viesse pálida avisar: “há um homem no depósito de lenha!” Não suportaria essa frase estúpida. E só em imaginar ouvi-la, seu impulso agora seria o de despedir a prima como se despede uma criada.
Passando pela sala para subir ao quarto de Ermelinda, viu-a, porém, pela janela, ajoelhada diante da roseira nova. Parou um instante para olhá-la antes de se dirigir ao terreiro – com aquele hábito inútil que tinha de examinar as pessoas quando estas não se sabiam examinadas. Espiou um instante, suspirou de novo heroica, e, como se fosse obrigada a chegar a uma conclusão, já que a olhara, pensou: “ela é moça, é por isso que ainda tem medo; ela é moça, é por isso que tem medo da morte.” Mas eu também tenho direito de ter medo! disse-se escura, reivindicando. Era como se a outra ainda pudesse ser ofendida. E ela, ela nunca mais seria.
Parou junto de Ermelinda. Sabia que esta já a tinha visto se aproximar, embora não tivesse sequer erguido os olhos; como se assim devesse agir alguém que tem medo do escuro ou que foi iniciada no espiritismo e no segredo de um modo de viver.
A moça, fingindo que só agora ouvira os passos, levantou enfim um rosto sonso de surpresa. E era como se a doçura dessa mentira tivesse feito seu rosto atingir uma expressão ao mesmo tempo de desamparo e dádiva – e tudo, tudo era fingido. Vitória fechou as mãos dentro dos bolsos da calça:
– Que é que você está fazendo, perguntou tranquila.
– Podando a roseira brava.
– A roseira não assusta você? perguntou suave; tinha necessidade de ferir aquela moça ajoelhada como se esta fosse a culpada do absurdo dela própria ter contratado o homem.
– Esta não: esta tem espinhos.
Vitória franziu as sobrancelhas:
– E que diferença faz se tem espinhos?
– É que só tenho medo, disse Ermelinda com certa voluptuosidade, quando uma flor é bonita demais: sem espinho, toda delicada demais, e toda bonita demais.
– Não seja tola, disse Vitória com brutalidade, é de qualquer modo no corpo que se passam as coisas! E se você ajudasse nos trabalhos não teria tempo de ter horror de rosas bonitas ou de detestar a fazenda!
– E você gosta muito da fazenda? perguntou a outra maciamente.
– Tem um homem no depósito de lenha! cortou Vitória.
E como se tivesse dito algo que até este momento nem ela própria soubesse, ficou olhando espantada, ferida. Refez-se logo:
– Ele diz que é engenheiro, o motivo de estar aqui é que deve estar mesmo sem trabalho. Vou aproveitá-lo em mil tarefas. Francisco vai ficar de olho nele.
Tinha dito. Fechou os olhos um instante com cansaço e alívio. Quando os abriu, viu que Ermelinda se interrompera com a tesoura no ar, e seu rosto – seu rosto de novo atingira uma extrema nota aguda e tenra como se para chegar um dia a essa expressão é que um rosto tivesse sido feito. “E eu”, pensou Vitória, “que sei de tudo, e tudo o que sei envelheceu na minha mão e se tornou um objeto”. Ela abafou a voz como pôde:
– Que foi? que foi que eu disse de tão extraordinário para você ficar assim?
Ermelinda estremeceu:
– Você não disse nada, você disse que tem um homem no depósito! obedeceu ela depressa.
– Pois então, se está podando roseira, que é trabalho inútil quando a seca vem aí, continue a podar! exclamou sem se conter. E não fique radiante! – sem conseguir mais se interromper, prosseguiu: radiante, sim! disse com dor, de novo você está pensando que hoje é um grande dia! basta uma batida de palmas e você se alegra, e me assusta! é um homem que veio trabalhar, se não prestar vai embora, e se ele pensa que por ser engenheiro vai mandar, está muito enganado! e é só isto, não passa disto!
Ermelinda fingiu estar tão surpreendida que a olhou de boca entreaberta. Ou estava realmente surpreendida, não se poderia nunca saber. “Fui muito repentina”, pensou Vitória. Ermelinda examinou-a de lado, fugaz – e recomeçou o vago trabalho junto à roseira, e era como se quisesse ser tão discreta a ponto de não lhe dar a perceber que a entendia; Vitória enrubesceu, atingida.
Algum tempo se passou. Ficaram em silêncio, sentindo o vento suave rodar em torno delas. A escuridão se fazia aos poucos. Por um instante o perfume das rosas deu doçura e meditação às duas mulheres.
– As flores, disse Ermelinda envolvida pela desmaiada ânsia da penumbra, as flores, disse ela.
– “As flores assombram o jardim?” indagou Vitória atenta.
– Não é? exclamou Ermelinda surpreendida e grata, você sempre diz tão bem! disse bajuladora.
Vitória estava calma. Olhou-a profundamente, de novo isenta de tudo aquilo que aquela moça era:
– Eu mesma nunca disse isso. Mas já que moramos junto tive que aprender sua linguagem.
– Por que é que ele diz que é engenheiro? perguntou a outra muito cuidadosa.
– Ah, eu sabia. A pergunta tinha que vir.
– Mas que foi que eu disse agora de errado? – e uma inocência quase real infantilizou um rosto implorante; mas ambas sabiam que tudo era mentira.
– Ermelinda, disse Vitória fechando os olhos bravamente, há três anos você diz: “tenho medo de passarinhos.” Há três anos você diz: “que coisa esquisita quando a árvore se mexe.” Há três anos eu ouço até os seus silêncios. E não suporto mais sua infância no leito, isso não lhe dá direitos sobre mim. Ah, não me interrompa: já sei que da cama você tinha tempo de ver os pássaros pela janela e de ter medo deles! Moramos junto, está bem, você tinha que morar em alguma parte; também sei que você uma vez cuidou de meu pai, mas também sei que foram apenas os três dias de que precisei! sei de tudo. Mas eu disse claramente a você que – que queria calma, queria – Queria calma. Senão por que é que eu não vendi o sítio quando titia morreu? responda! por que é que não vendi e vim para cá, já que nem conhecia isto aqui direito? E se tivesse vendido, teria dinheiro na mão e continuaria a morar na cidade. É isso mesmo – acrescentou admirada – e eu teria ficado onde sempre vivi... – Vitória despertou com súbita violência: O que esqueci de perguntar era se você também queria calma quando veio para cá. Este, Ermelinda, é um lugar para uma pessoa serena como eu. Não, não responda. Não importa. Há três anos você me incomoda, tenho que lhe dizer isto. E hoje lhe digo ainda mais: basta. Você altera minha vida com suas – com sua espera. É intolerável. Isso já não se chama há muito de calma. É como se eu estivesse criando ratos em casa, eles correm sem que eu veja, mas eu sinto, ouviu? eu sinto os pés deles – seus pés, Ermelinda – fazendo a casa toda vibrar.
– Para que você quer calma? desviou Ermelinda maliciosa, tentando lisonjeá-la com uma careta de graça.
– Quero silêncio, quero ordem, quero firmeza – e enquanto ela falava parecia-lhe cada vez mais absurdo ter admitido um homem totalmente estranho como trabalhador. – Pelo amor de Deus, não diga que tem hoje um pressentimento só porque o homem foi contratado numa quinta-feira! Diariamente você tem pressentimentos. Antes era o seu papagaio dando gritos secos que pareciam arranhar minha garganta, mas ele felizmente morreu. Seu papagaio, seus pressentimentos, sua gentileza, seu medo de morrer, isso mesmo! seu medo de morrer.
A outra estremeceu um rosto inquieto:
– Você acha que vem seca de novo? cortou depressa, pálida.
Vitória estacou, desequilibrada pela interrupção. Seca?
A mulher ruim olhou a doçura com que a noite vinha, úmida e cheia, esse modo como em certa hora o mundo nos ama. Era março e uma palidez vertiginosa alargava a amplidão. Perturbada ela sentiu o cheiro podre que vinha das valas. Na escuridão nascente as valas pareciam precipícios que arrastaram invencivelmente seu olhar para uma meditação vazia e involuntariamente suave. A extensão das terras era ilimitada, repousada... E no depósito de lenha ela viu com leve sobressalto alumiar-se a lanterna.
A luz ora se erguia, ora quase se extinguia. Com uma intensidade onde havia ânsia e aspiração, a mulher se entregou à luta da lanterna como se fosse obscura luta sua. A luz afinal, quase a se apagar, sobreviveu. A princípio trêmula, enevoada. Em torno a escuridão total se fizera.
– Seca? repetiu a mulher olhando o depósito como se não o visse. Talvez não, disse absorta. O que tem que ser, tem muita força.