A Maçã no Escuro

Clarice Lispector · Capítulo 26 de 30

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A Maçã no Escuro

Capítulo 6

6

Foi pouco antes dos investigadores chegarem com o professor e com o prefeito que Vitória mandou chamá-lo.

Era de tarde, e Francisco levou ao curral o recado para Martim. Pouco depois este aparecia diante de Vitória com o rosto ainda concentrado que trouxera do trabalho, as mangas arregaçadas, as botas enlameadas.

A mulher o examinou em silêncio. Ela própria estava de novo com as calças pretas e com sua velha blusa. Martim olhou-a intrigado: guardava dela a imagem dos últimos dias – tranquila, sonhadora, vestida de mulher. Agora ela lhe parecia de algum modo friorenta. E ele não gostou. Que teria sucedido? Algum elo importante lhe escapara? Ilogicamente pareceu-lhe que aquela mulher falhara em alguma coisa. E ele não gostou: tinha experiência de que, quando uma pessoa falhava, ela se tornava uma ameaça para os outros; temia a tirania dos que necessitam. E não gostou nada do que viu.

Mas também estava habituado a que mulheres “não soubessem que roupa vestir”, e perguntou-se se o que acontecera apenas é que ela terminara por não encontrar nada melhor a usar que as velhas calças; perguntou-se mesmo se a situação da fazenda estaria tão ruim a ponto da senhora não ter dinheiro para fazer roupa nova, já que as antigas ela as experimentara e não lhe assentavam. Quem sabe, talvez fosse apenas um problema de roupa? Lembrava-se do rosto trágico de uma mulher que não sabe o que vestir. Mas, do que ele não gostou mesmo, foi do ar cansado e friorento daquela mulher que parecia ter vindo de uma longa e infrutífera viagem.

– A senhora me chamou, lembrou-lhe afinal.

Ela permaneceu quieta um instante como se não tivesse ouvido. Depois deu um suspiro mais leve que a respiração. Fechou os olhos, tornou a abri-los. E disse:

– Francisco reuniu galhos e folhas no fundo do quintal, junto da cerca. É preciso queimar.

Era a primeira ordem naqueles últimos dias, e ele fitou-a com alguma curiosidade. Também sentiu vaidade: de algum modo ela voltara a precisar dele, pois. Olhou-a então contente, com desprezo.

– Então? disse ela vendo-o parado.

– Quando eu acabar no curral, retrucou com a calma insolência de um criado.

– Não. Agora!

– Agora o quê? indagou o homem surpreendido.

– É preciso queimar agora mesmo, disse ela mais calma.

As folhas se amontoavam entre galhos num monte alto que, ao homem, pareceu preparado sem nenhuma solidez: a força do fogo espalharia logo os gravetos. Martim abanou a cabeça, discordando com prazer. Desfez tudo, e começou a preparar com cuidado um tripé feito de galhos curtos e grossos. Levou nisso algum tempo.

Depois entremeou folhas e gravetos com habilidade, pôs de lado os ramos verdes cuja umidade não deixaria a chama pegar. E ateou fogo.

A princípio subiu um fio de fumaça amarela e suja, sem sinal visível de flama. Mas em breve mínimas labaredas, mais rápidas que a visão, escapavam dos interstícios dos ramos, e ressurgiram em olho instantâneo entre folhas. E logo depois o fogo finalmente ateava, os galhos atacados de surpresa recuavam, as folhas esquentadas engelharam-se rapidamente nos bordos – e tudo de repente começou a crepitar como se ao mesmo tempo galhos e folhas tivessem sido atingidos.

E em breve o ar do quintal estava irrespirável, com fumaças sufocantes e folhas carbonizadas dançando no ar – o homem agia seguro e preciso com um tridente cada vez mais hábil que empurrava para o fogo, no instante exato, o que tentasse se esquivar ao calor, afastando as cascas que não se queimavam. O cheiro era o de especiarias fumigadas, e as narinas sentiam canela e pimenta, e ao mesmo tempo havia um cheiro íntimo de algo animal que se queimava, alguma coisa como o cheiro de penas de ave embaixo das asas, mas o mais distinto era uma funda fragrância de duras cascas em brasa. A fumaça, de tão compacta, adquirira a grossa forma de um rolo – embora dois metros acima do fogo o rolo se espalhasse desorientado, hesitando apressado de um lado para outro ao vento, este também desorientado pelo impulso da fumaça.

Por um momento Martim desviou o rosto do calor para enxugar-se – e viu Vitória entre as fumaças espessas.

Ela olhava fixamente a fogueira, seus braços estavam cruzados sobre o peito e as mãos agarravam com frio os ombros. Foi um olhar rápido, o do homem, e sem expressão. E logo depois ele fustigava de novo a fogueira como se não tivesse percebido a mulher. Esta continuava de pé: ele quase podia adivinhar-lhe a respiração. A tarde estava clara e sem sol. Mas junto da fogueira era como se a noite se fizesse, escura e avermelhada.

Agora a atividade de folhas e madeiras se tornara intensa e, carregado pelo vento e pela força apavorada do fogo, o cheiro da queimada se erguia para além do alto das árvores. Agora que o fogo estava totalmente aberto, as labaredas tinham a rapidez da alegria e do medo, as brasas tremiam iluminadas. Martim mexia na fogueira com o tridente destro e rápido, e sua habilidade era inapelável, sua firmeza sem piedade. Suava, os olhos avermelhados e atentos não perdiam um instante, a combustão não se interrompia. O clarão, que por vezes se levantava num súbito impulso maior, incendiava o ar do quintal.

A mulher estava atrás dele, e ele podia senti-la nas costas, na nuca, nas pernas, sem um instante de trégua, empurrando-o, empurrando-o, exigindo mais como numa arena – Martim obedecia numa concentração de violência, cada vez mais o fogo subia estalando e obedecendo. Até que o homem inesperadamente se voltou e encarou-a com furor.

Ela estava de olhos muito abertos, ofegando como se tivesse corrido, olhando horrorizada a beleza do mundo.

Então, sem desfitá-la e sem olhar o tridente, o homem jogou-o longe com um gesto bruto sem esforço. E assim, com as mãos vazias, com os braços afastados do corpo, era como se ele tivesse jogado fora a última arma e se dispusesse a lutar com as próprias mãos. Ele lhe ofereceria a própria morte, como ofensa. Mas ainda não se mexia e olhava para a mulher, respirava com dificuldade, com cólera.

A mulher não o olhou, nem que a sacudissem ela tiraria os olhos do fogo.

Mas quando o olhar bruto do homem impôs-lhe que ela o visse – não ao outro, mas a ele – ela recuou um passo como se enfim percebesse que fora longe demais. O homem arquejava com o corpo inclinado para a frente, os braços nus abertos no ar como um macaco negro e alegre. Ela recuou mais um passo, aterrorizada.

Tão inesperadamente quanto se voltara para encará-la, ele se voltou para a fogueira – sem que a mulher pudesse sequer determinar em que momento houvera a transição. E com fúria o homem atiçou o fogo, as labaredas mais baixas recomeçaram a se erguer – sem medo de gastar a própria vida, Martim criou o fogo, trabalhou com aquelas mãos que se haviam tornado mais rápidas que a flama desafiada, e sentia o calor chamuscar-lhe os pelos dos braços.

Depois, quase nada mais havia a fazer.

Como a primeira fumaça, essa final era imunda e espessa e maligna; e evolava-se em fio sinuoso. As brasas ainda piscavam, em breves instantes ainda se douravam espertas. Depois, sentia-se que estavam inflamadas porém não tinham mais luz, e enegreciam tranquilas.

O homem olhou-as arfando, o pescoço a brilhar de suor. A boca, ainda arreganhada pelo esforço, deixava ver os dentes.

Afinal, obrigado a admitir que nada mais podia fazer, abaixou os ombros, desfez a tensão dos braços, e suas sobrancelhas se abaixaram. De novo dissimulados pelas pálpebras, os olhos se tornaram calmos, intensos. Sem surpresa, viu que Vitória não estava mais ali. Então ele olhou sonso ao redor, como se tivesse acabado de mostrar do que um homem é capaz.

A tarde estava de novo clara. A grande suavidade de ar que lhe envolveu o corpo molhado fê-lo perscrutar com surpresa infantil o céu, o rosto franzido para cima como se lhe tivessem dado alguma coisa. Estendeu os braços queimados para a brisa, encostou os lábios no chamuscado das mãos. Em pé, cheio de si, com um ar misterioso, magnânimo, bestial. Lidar com o fogo fora uma tarefa de homem, e ele estava orgulhoso e calmo. E uma mulher ficara aterrorizada e satisfeita, e por isso também ele estava calmo e orgulhoso. Tudo estava tão redondo e realizado que até um pouco de digna tristeza havia em Martim. E a promessa que nos foi feita – a promessa estava ali. Ele a sentia ali – seria só estender a mão enfim queimada no exercício de sua função de homem.

Se bem que agora, mais sábio e mais velho, ele não a estendesse.

Mas pelo menos lhe era dado olhar, sem que isso implicasse em ofensa mútua. Pelo menos grandemente olhar se podia, e de igual para igual. Tendo as mãos nobremente queimadas em combate, Martim olhou: o campo se tornara vasto e a luz tinha a graça religiosa como para um homem que não tem mais vergonha de si e olha face a face, já redimida em si a natureza humana.

Inesperadamente o primeiro passo de sua grande reconstrução geral se realizara: se aos poucos ele se tinha feito, agora se inaugurava. Ele acabara de reformar o homem. O mundo é largo mas eu também. Com a obscura satisfação de ter trabalhado com o fogo e de ter assustado o que tem que ser assustado numa mulher, a sua primeira honra se refizera. Pareceu-lhe que de agora em diante ele não precisaria mais ter voz de homem nem procurar agir como homem: ele o era. Nunca o seu pensamento fora tão alto quanto o trabalho que ele acabara de fazer.

E profundamente nele, ele começou logo a desprezar as pessoas que não amavam o que faziam. Ou que não tinham coragem de fazer aquilo que amavam. Esquecido de que só há poucos minutos encontrara um símbolo do trabalho, e que deveria ter misericórdia para os que não o haviam encontrado – ele, com fatuidade, se admirava. Aquele homem pela primeira vez se amava. O que significava que ele estava pronto para amar os outros, nós que nos fomos dados como amostra do que o mundo é capaz; e ele, que acabara de provar.

“Como é que pudera imaginar que o tempo acabara?”, bateu seu coração com vigor. Pois se apenas, apenas começara... Como se o tempo fosse criado pela liberdade mais profunda, agora de repente renascia-lhe o futuro. E ele – que estivera certo de que havia desistido de sua reconstrução – viu que apenas tinha tido a grande paciência do artesão, e via grato que soubera dormir, o que é a parte mais difícil de um trabalho. Porque – como se a pausa tivesse sido apenas a preparação de um pulo – inesperadamente se amadurecera o seu primeiro passo objetivo: pela primeira vez Martim avançara totalmente, assim como quem diz uma palavra. A palavra que ele esperara não lhe viera, pois, em forma de palavra. Ele a realizara com a inocência da força. Simplesmente assim: ele a realizara. E então, com a fatuidade necessária para criar, renascia-lhe o tempo inteiro, e ele sabia que tinha força de recomeçar. Pois – pois tendo chegado enfim plenamente a si mesmo, ele chegaria aos homens; e, jogando fora o tridente e trabalhando a nu, exposto e nu – ele se guiara até “transformar os homens”.

De que modo ele transformaria os homens, Martim sabiamente ignorava. E sabiamente não se questionava, pois ele era agora um sábio.

Mas não saber não tinha importância: agora seu futuro se tornara tão imenso que subia em vertigem à cabeça. O tempo estava maduro e a hora chegara: era apenas isso o que lhe dizia o coração calmo e a brisa paciente, e o profundo amor que dele enfim se espalhou tranquilo como de algo enfim enraizado. É que até este momento ele nada poderia ter feito – enquanto não tivesse recuperado em si o respeito pelo próprio corpo e pela sua própria vida, que era o primeiro modo de respeitar a vida que havia nos outros. Mas quando um homem se respeitava, ele então tinha enfim se criado à sua própria imagem. E então poderia olhar os outros nos olhos. Sem o constrangimento do nosso grande equívoco, e sem a mútua vergonha.

E quanto a não entender os outros... Bem, isso já não teria sequer importância. Porque havia um modo de entender que não carecia de explicação. E que vinha do fato final e irredutível de se estar de pé, e do fato de outro homem também ter a possibilidade de ficar de pé – pois com esse mínimo de se estar vivo já se podia tudo. Ninguém teve até hoje mais vantagem que esta.

Aliás – pensou Martim sentindo que se excedia ligeiramente mas já sem poder mais se conter – aliás era tolice não entender. “Só não entende quem não quer!”, pensou ousado. Porque entender é um modo de olhar. Porque entender, aliás, é uma atitude. Martim, muito satisfeito, tinha essa atitude. Como se agora, estendendo a mão no escuro e pegando uma maçã, ele reconhecesse nos dedos tão desajeitados pelo amor uma maçã. Martim já não pedia mais o nome das coisas. Bastava-lhe reconhecê-las no escuro. E rejubilar-se, desajeitado.

E depois? Depois, quando saísse para a claridade, veria as coisas pressentidas com a mão, e veria essas coisas com seus falsos nomes. Sim, mas já as teria conhecido no escuro como um homem que dormiu com uma mulher.