A Maçã no Escuro

Clarice Lispector · Capítulo 25 de 30

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A Maçã no Escuro

Capítulo 5

5

E como se antes da hora aprazada tudo tivesse terminado, e como se todos tivessem obtido do homem o que quer que tivessem querido – de súbito deixaram-no em paz. O ar era leve e saciado, e de manhã a vaca deu à luz um bezerro.

Ermelinda desaparecia por longas horas. Martim ouviu-a dizer à mulata que ia cortar um vestido novo. Francisco trabalhava mudo, sem pressa. Quanto à Vitória, esta não o perseguia mais com ordens: já não parecia sentir prazer em lhe marcar tarefas, ou inesperadamente admitira que ele sabia sozinho o que fazer. Apenas curioso, Martim a via passar com vestidos agora femininos – roupas que lhe pareceram ainda mais estranhas porque, além de fora de moda, lembravam, pelo amarrotado, o baú de onde deviam ter saído. Com esses trajes, ainda menos perigosa ela lhe pareceu. Um dia ele viu a coisa mais extraordinária: viu-a experimentando um chapéu tão antigo e empoeirado que somente o inusitado da situação impediu-o de sorrir. E a mulher prestava uma tão profunda atenção ao interior do espelho da sala que nem sequer percebeu o homem. Este interpretou o fato dela não vê-lo – ela, que sempre o seguira com olhos fixos – como sinal de que ele estava enfim livre. Aliás, depois da grande chuva, cada coisa tranquila estava no seu lugar, e a Martim pareceu mesmo plausível a hipótese de, em vez de fugir, simplesmente avisar a Vitória que ia embora. Mas nem de ir embora ele precisava mais.

Seguiu-se um período de enorme calma. A vida revelava um progresso evidente assim como de súbito se percebe que a criança cresceu. Com a grande chuva a natureza, amadurecendo, caminhara para um ponto máximo, o que se sentia no modo mais folhudo das árvores se balançarem. E os poucos dias que se seguiram emendaram-se uns aos outros sem um incidente, como um dia só.

Eram dias claros e altos, tecidos no ar pelos passarinhos. Asas, pedras, flores e sombras profundas formavam o novo calor úmido. As nuvens se acumulavam brancas no céu e se desfaziam com graça, deixando ver a profundidade imaterial que rodeava a casa, o trabalho de cada um, e as noites grandes. De manhã, no céu altíssimo os primeiros farrapos de nuvens serviam de repouso para que o olhar pudesse prosseguir na distância: de manhã cedo as coisas raiavam tranquilas. No entanto, apesar de longínqua, o ar nítido deixava a montanha ao alcance de um grito.

Uns haviam perdido contato com os outros, cada um se recolhera a uma vida individual que desde já os preparava para a vida que teriam depois que o homem fosse embora. Absortos, já viviam levemente no futuro como quem conta com o quarto disponível quando o moribundo for retirado. Mesmo o depósito de lenha tinha um ar limpo e varrido. E no curral, depois do nascimento do bezerro, havia serenidade.

Um pouco desnorteado pela paz, Martim às vezes tentava planejar uma fuga. Mas o zumbido das abelhas parecia mais real que o futuro. E o homem agora tinha tanto trabalho pela frente – um trabalho já não mais interrompido pelas ordens contraditórias de Vitória – que só a sua tarefa lhe parecia palpável. Ninguém lhe dissera jamais que havia ameaça na pobre figura do professor de um curso primário. Aos poucos Martim já não conseguia trocar uma simples suspeita pela realidade cada vez mais emergida: as valas que se abriam pelas suas mãos, o calor dourado cheio de mosquitos de vida breve, a roda da charrua revolvendo uma terra mais negra. Só homens poderiam sentir talvez alguma tristeza. Mas tão alto e bonito era o céu que Martim, contra si mesmo, agregou-se à luz, passando enfim para o lado do que vence.

E aproveitando o movimento alto de uma onda para ele próprio se altear, deixou-se sem cuidados levar pela vaga de fartura. Por consideração e docilidade, transformou-se em instrumento de seu próprio trabalho. Nunca, por exemplo, abria vala onde a terra se quisesse dura. E quando a vaca se negava, ele não tirava leite. Isso exigia uma dedicação paciente de sua parte, ele sentia o prazer de quem descobriu um estilo mais delicado.

A fazenda se beneficiou muito com esse novo estado como se ali se tivesse instalado um longo e produtivo domingo. Pois havia um ar de domingo na indolência com que o campo estava gordo. O milho crescia pesado, a macieira apontava em brotos como se a ferida lhe tivesse alertado um impulso, o vento apressava o riacho. Esse mesmo vento trazia às vezes um cheiro pesado de fertilização e amadurecimento – que Martim, interrompendo em surpresa o trabalho, reconhecia como se já tivesse dormido com trigo e milho, e reconhecesse do fundo dos séculos o cheiro do movimento de fecundação. O mundo nunca tinha sido tão grande. Passarinhos ativos como crianças participavam da terra revolvida para o plantio: mergulhavam de asa fechada nas ondas do ar, e do infinito voltavam para vigiar com o ruflo de asas o trabalho das sementes. Desaparecida a seca, as árvores agora cheias cobriam de sombra a casa, dando ao seu interior uma frescura de sesta. No pasto as vacas babavam. O mundo pensava por Martim; e ele o aceitava.

Também as mulheres da casa pareciam mais pálidas, mais calmas, executando os seus deveres. Passado o cio, os cachorros estavam agora magros e felizes. Eles latiam para as nuvens. E a mulata cantava tão alto que mesmo perto da cacimba alguma nota mais aguda chegava solta. A fazenda toda zumbia.