A Maçã no Escuro

Clarice Lispector · Capítulo 19 de 30

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A Maçã no Escuro

Capítulo 8

8

De noite Martim teve uma ideia excelente que se provaria o contrário de excelente. Na verdade mais tarde o homem comparou a excelência da ideia e a subsequente desilusão com uma fruta redonda que alguma vez comera – uma romã – e que aos dentes se provara oca. O que lhe dera, como único prêmio, um instante de absorta meditação e um contato com a experiência.

Nessa noite, pois, ele acendeu a lamparina, pôs os óculos, pegou uma folha de papel, um lápis; e como um escolar sentou-se na cama. Tivera a sensata ideia de pôr ordem nos pensamentos e resumir os resultados a que chegara nessa tarde – uma vez que nessa tarde ele finalmente entendera o que queria. E agora, assim como aprendera a calcular com números, dispôs-se a calcular com palavras. A exaltação que de tarde lhe viera do sol já o abandonara. Ele era agora um homem lento e aplicado, com o rosto que uma mulher tem ao enfiar a linha na agulha. Sua cara estava concentrada no penoso.

Foi com ligeira surpresa que seu pensamento se provou tão rude quanto os dedos engrossados que seguravam o lápis. Para começo de conversa, o lápis lhe pareceu delicado demais para a sua resolução, que também esta fora decidida demais. Ele não sabia que para escrever era preciso começar por se abster da força e apresentar-se à tarefa como quem nada quer. Da lamparina a fumaça enegrecida subia e envolvia a gravura de S. Crispim e S. Crispiniano. De vez em quando vinha até o depósito o som do piano distanciado pelo silêncio. Ermelinda tocava. O tempo passava.

Mas na meia escuridão do depósito, e sem a vantagem da embriaguez da tarde, o homem parecia ter desapontadamente perdido o sentido do que queria anotar. E hesitava, mordia a ponta do lápis como um lavrador embaraçado por ter que transformar o crescimento do trigo em algarismos. De novo revirou o lápis, duvidava e de novo duvidava, com um respeito inesperado pela palavra escrita. Parecia-lhe que aquilo que lançasse no papel ficaria definitivo, ele não teve o desplante de rabiscar a primeira palavra. Tinha a impressão defensiva de que, mal escrevesse a primeira, e seria tarde demais. Tão desleal era a potência da mais simples palavra sobre o mais vasto dos pensamentos. Na realidade o pensamento daquele homem era apenas vasto, o que não o tornava muito utilizável. No entanto parece que ele sentia uma curiosa repulsa em concretizá-lo, e até um pouco ofendido como se lhe fizessem proposta dúbia.

De novo dispôs-se bravamente a começar e umedeceu com a língua a ponta do lápis.

E desinchado, de óculos, tudo o que lhe parecera pronto a ser dito evaporara-se, agora que queria dizê-lo. Aquilo que enchera com realidade os seus dias reduzia-se a nada diante do ultimato de dizer. Como se via, aquele homem não era um realizador, e como tantos outros, só sentia a intenção, da qual o Inferno está repleto. Mas para escrever estava nu como se não lhe tivesse sido permitido levar nada consigo. Nem mesmo a própria experiência. E aquele homem de óculos de repente se sentiu singelamente acanhado diante do papel branco como se sua tarefa não fosse apenas a de anotar o que já existia mas a de criar algo a existir.

Teria havido um erro no modo como ele se sentara na cama ou talvez no modo de segurar o lápis, um erro que o depusera diante de uma dificuldade maior do que ele merecia ou aspirava? Ele mais parecia estar esperando que alguma coisa lhe fosse dada do que dele próprio fosse sair alguma coisa, e então penosamente esperava. Transformou ligeiramente sua posição no bordo da cama e reduziu-se austeramente a ser apenas um homem sentado que ia anotar o que já tinha sido pensado. E de novo se surpreendeu: era incontestável que não sabia escrever. Sorriu constrangido. Como um dócil analfabeto estava em situação de pedir a alguém: escreva uma carta para minha mãe dizendo o que penso. “Afinal que é que está me acontecendo?”, inquietou-se de repente. Pegara no lápis com a modesta intenção de anotar seus pensamentos para que se tornassem mais claros, fora apenas isso o que pretendera! reivindicou irritado, e não merecia tanta dificuldade.

Mas como nas histórias em que o príncipe distraído toca por fatal acaso na única rosa proibida do jardim e estarrecido desencanta o jardim todo – Martim incauteloso executara entre mil gestos inócuos algum ato infamiliar que involuntariamente o transportara diante de algo maior. A lanterna esfumaçava um fio negro. Ele olhou o depósito que vacilava à luz escura. As paredes hesitavam. O vento batia à porta. E em torno dele soprava o vazio em que um homem se encontra quando vai criar. Desolado, ele provocara a grande solidão.

E como um velho que não aprendeu a ler ele mediu a distância que o separava da palavra. E a distância que de repente o separou de si mesmo. Entre o homem e a sua própria nudez haveria algum passo possível de ser dado? Mas se fosse possível – havia ainda a estranha resistência que ele opunha. Pois nele acabara de se acordar esse susto interior de que uma pessoa é feita.

Não acreditando no que não poderia explicar, franziu as sobrancelhas como se isso ajudasse a enfiar a linha na agulha. Que esperava com a mão pronta? pois tinha uma experiência, tinha um lápis e um papel, tinha a intenção e o desejo – ninguém nunca teve mais que isto. No entanto era o ato mais desamparado que ele jamais fizera. E de tal modo ele não podia, que o não poder tomara a grandeza de uma Proibição.

E só em pensar em quebrar a Proibição, ele recuava, de novo opondo a imaterial resistência de um duro instinto, de novo cauteloso como se houvesse uma palavra que se um homem dissesse... Essa palavra ausente que no entanto o sustentava. Que no entanto era ele. Que no entanto era aquela coisa que só morria porque o homem morria. Que no entanto era a sua própria energia e o modo como ele respirava. Essa palavra que era a ação e a intenção de um homem. E que não somente ele não sabia sequer balbuciar, como parecia profundamente não querer... Em prudência vital, ele a defendia em si. E só em imaginar que poderia dizê-la ele se fechou austero, intransponível, como se já tivesse se arriscado longe demais. De repente suscetível, caíra em zona sagrada que homem não deixa mulher tocar mas dois homens às vezes se sentam em silêncio à porta de casa ao anoitecer. Dentro desta zona solitária a escolha seria deixar-se tocar com humildade e aviltamento – ou abrigar a integridade do homem que não fala nem age. Caíra na avareza que sempre fizera de sua vida algo pessoal. E que tornara “fazer”, que seria dar-se, a ação impossível. Covarde diante da própria grandeza, ele se recusava.

Sem uma palavra a escrever, Martim no entanto não resistiu à tentação de imaginar o que lhe aconteceria se o seu poder fosse mais forte que a sua prudência. “E se de repente eu pudesse?”, indagou-se ele. E então não conseguiu se enganar: o que quer que conseguisse escrever seria apenas por não conseguir escrever “a outra coisa”. Mesmo dentro do poder, o que dissesse seria apenas por impossibilidade de transmitir uma outra coisa. A Proibição era muito mais funda..., surpreendeu-se Martim.

Como se vê, aquele homem terminara por cair na profundeza que ele sempre sensatamente evitara.

E a escolha tornou-se ainda mais funda: ou ficar com a zona sagrada intata e viver dela – ou traí-la pelo que ele certamente terminaria conseguindo e que seria apenas isto: o alcançável. Como quem não conseguisse beber a água do rio senão enchendo o côncavo das próprias mãos – mas já não seria a silenciosa água do rio, não seria o seu movimento frígido, nem a delicada avidez com que a água tortura pedras, não seria aquilo que é um homem de tarde junto do rio depois de ter tido uma mulher. Seria o côncavo das próprias mãos. Preferia então o silêncio intato. Pois o que se bebe é pouco; e do que se desiste, se vive.

Assim, de aproximação penosa em aproximação penosa – tendo Martim nesse caminhar um sentimento de sofrimento e de conquista – ele terminou se perguntando se tudo o que ele enfim conseguira pensar, quando pensara, também não teria sido apenas por incapacidade de pensar uma outra coisa, nós que aludimos tanto como máximo de objetividade. E se sua vida toda não teria sido apenas alusão. Seria essa a nossa máxima concretização: tentar aludir ao que em silêncio sabemos? Tudo isso Martim pensou, e pensou muito.

E ali estava ele. Que pretendera apenas anotar, nada mais que isto. E cuja inesperada dificuldade era como se ele tivesse tido a presunção de querer transpor em palavras o relance com que dois insetos se fecundam no ar. Mas quem sabe – perguntou-se então na perfeita escuridão do absurdo – quem sabe se não é na expressão final que está o nosso modo de transpor os insetos se glorificando no ar. Quem sabe se o máximo dessa transposição está exatamente e apenas no querer... (E assim ele estava salvando o valor de sua intenção, dessa intenção que não soubera se transformar em ação.) Quem sabe se o nosso objetivo estava em sermos o processo. O absurdo dessa verdade então o envolveu. E se assim for, oh Deus – a grande resignação que se precisa ter em aceitar que nossa beleza maior nos escape, se nós formos apenas o processo.

Assim, pois, sentado, quieto, Martim falhara. O papel estava branco. As sobrancelhas franzidas, atentas.

Mas que se sabe do que se passa numa pessoa? Porque ele, que estava fracassando, não poderia chamar seu fracasso de sofrimento, mesmo que a desilusão e a ofensa recebida tivessem aflorado a seu rosto, tão poucos sentimentos a carne permite. Mas como chamar de sofrimento o fato dele estar passando pela verdade da Proibição como pelo buraco de uma agulha. Como poderia ele sequer revoltar-se com a verdade. Ele era a sua própria impossibilidade. Ele era ele. A esse ponto de grande angústia tranquila ele chegou: aquele homem era a sua própria Proibição.

Sofrimento? pensou com o rosto irreparavelmente ofendido a encarar o papel branco. Mas como não amar mesmo a Proibição? se ela o empurrara até onde ele podia ir? se o empurrara até aquela resistência última onde... Onde a única solução irrazoável era o grande amor? Quando um homem é acuado só o grande amor lhe ocorre. Sofrimento? Só não podendo é que um homem sabia. Um homem afinal se media pela sua carência. E tocar na grande falta era talvez a aspiração de uma pessoa. Tocar na falta seria a arte? Aquele homem gozava sua impotência assim como um homem se reconhece. Estava espantadamente fruindo o que ele era. Pois pela primeira vez na vida sabia quanto era. O que doía como a raiz de um dente.

Uma grande doçura o envolveu, como quando se sofre. Não conseguia encarar sem dor o papel vazio. Onde sua ação falhara.

Mas falhara? Porque a compensação também era fatal. Ele não conseguia deixar de admirar a perfeição da Proibição. Pois, num equilíbrio perfeito, acontecia que se ele não tinha as palavras, tinha o silêncio. E se não tinha a ação, tinha o grande amor. Um homem podia não saber nada; mas sabia como se virar, por exemplo, para o lado do poente: um homem tinha o grande recurso da atitude. Se não tivesse medo de ser mudo.

Oh, não sofrimento. Porque na sua impossibilidade de criar ele não tinha tido o pior: não tinha sido espoliado. Em tudo o mais aquele homem enganara ou fora trapaceado, haviam-no roubado ou ele espertamente roubara. Mas na sua passagem pelo grande vazio, pela primeira vez na sua vida, ele não enganara ou fora enganado. A coisa era limpa: como se tratava de uma pessoa, então o limpo resultado fora cumprir a experiência de não poder. Pareceu-lhe mesmo que poucas pessoas haviam tido a honra de não poder. Pois, numa sensação genial, nascida talvez de sua dor, ele soube que o resultado mais acertado era falhar. Sofrimento? pensou com o rosto ofendido. Mas como não amar a Proibição, se cumpri-la é a nossa tarefa? refletiu em dor o escritor involuntário.

Martim começara agora a se emaranhar numa curiosa sensação de ter conseguido alguma coisa extraordinária. Tinha passado pelo mistério de querer. Como se tivesse tocado no pulso da vida. Ele que sempre se deslumbrara com o milagre espontâneo de seu corpo ser bastante corpo para querer uma mulher, e seu corpo ser bastante corpo para querer comida – ele agora tocara na fonte de tudo isso, e do viver: ele quisera... De um modo geral e profundo, ele quisera.

Para a sua desvantagem, de um modo um pouco profundo demais. Pois ali estava ele confuso, sem entender por que tinha a sensação de se ter cumprido, apesar de não ter dado um passo além do terreno pessoal. Olhou o papel vazio. A bondade então envolveu Martim, como quando se sofre. No seu desamparo teve a tentação de apelar para Deus. Mas, não tendo hábito nem crença, sentiu o temor de provocar presença tão grande, agora já mais cauteloso em não tocar na rosa proibida do jardim.

– Não sei escrever, disse ele então.

Desistira. Sua impressão era a de se ter salvo por um triz. Grande era o seu alívio por ter escapado incólume da oca escuridão. Se bem que também sentisse que nenhum de seus pensamentos futuros viriam isentos de sua verdadeira covardia só agora revelada. Nenhum ato heroico seu seria totalmente livre dessa experiência que se tornou imediatamente velha como a sabedoria.

Tirou os óculos, esfregou os olhos cansados, botou os óculos de novo. E aliviado, abandonando afinal o que o espírito não lhe quisera dar, ele se sentiu pronto para tarefa mais humilde. Modesto, aplicado, míope, simplesmente anotou: “Coisas que preciso fazer.”

Escrevendo essa frase ele não era a mesma pessoa que se defrontara com a possibilidade e com sua assustadora promessa. Era alguém que desistira da verdade – qual seria? agora nunca mais! oh nunca mais ele saberia! – e se dedicara a uma verdade tão menor que já tinha suas fronteiras no talento; mas a única verdade ao seu alcance, a única ação ao seu alcance. Humilde, sabendo com remoto sobressalto que estivera “perto” mas que conseguira escapar, mais humilde ainda o homem se tornou. Até mesmo uma frase tão modesta como “coisas que preciso fazer” pareceu-lhe ambiciosa demais. E num ato de contrição riscou-a. Escreveu menos ainda: “Coisas que tentarei saber: número 1.”

Então aconteceu que Martim sabia qual era a primeira coisa a procurar saber mas não conseguiu dar-lhe um nome. Pareceu-lhe mesmo que só saberia o nome no instante em que a obtivesse, como se uma pessoa só soubesse o que procurava quando achasse.

Bem, a realidade muito mais simples é que era com esforço que aquele homem estava procurando se manter à altura em que estivera de tarde junto do rio. Estava agora reduzido às próprias proporções e sem a menor grandeza do sol. Perdera a fé e o motivo. E olhava o depósito pobre com estranheza. Mesmo assim insistiu em continuar e, ao lado da “coisa número 1” a tentar saber, escreveu “Aquilo”, pois o que ele conseguia era aludir. E releu a frase.

E foi então – foi então que teve o seu primeiro grande prazer emocionado com que fatalmente se ama o que se fez. A frase ainda úmida tinha a graça de uma verdade. E ele gostou dela com um alvoroço de criação. É que reconhecia nela tudo o que quisera dizer! Além do mais achava a frase perfeita pela resistência que esta lhe oferecia: “além daí, eu não poderia mais ir!”, de modo que lhe pareceu que a frase tocara no próprio fundo, ele apalpava sua resistência com êxtase. É verdade que um segundo depois, a um relance, Martim percebeu a contragosto o grande equívoco de escritor: fora a sua própria limitação que reduzira a frase ao que ela era, e a resistência que ela oferecia talvez fosse a resistência de sua própria incapacidade. Mas, como ele era pessoa difícil de ser derrubada, pensou o seguinte: “não tem importância porque, se com essa frase eu pelo menos cheguei a sugerir que a coisa é muito mais do que consegui dizer, então na verdade eu fiz muito: eu aludi!” E então Martim ficou contente como um artista: a palavra “aquilo” continha em si tudo o que ele não conseguira dizer!

Escreveu então: “Número 2: como ligar ‘aquilo’ que eu souber com o estado social.”

Porque foi isso o que ele escreveu. Perdida a prática de pensar, e perdido o vocabulário, não conseguiu outra expressão para significar o que queria dizer senão esta: “estado social”, que lhe pareceu muito boa e clara, e que tinha um pequeno toque erudito que Martim sempre ambicionara: a erudição, sendo externa, se confundia com a ideia primária que ele fazia de objetividade, e sempre lhe dava a satisfatória sensação de ter acertado.

Quando o homem releu a sua obra, já com os olhos piscando de sono, a realidade deu uma reviravolta, e ele se defrontou no papel com a concretização física e humilde de um pensamento, e teve um riso vazio e largo – onde pela primeira vez o senso do ridículo apareceu, solapando pela primeira vez a sua grandeza. Aquele homem que estava tentando construir a sua grandeza e a grandeza dos outros. Então, em defesa dolorosa, ele começou a rir, um pouco a contragosto e um pouco representando para si próprio, e um pouco por masoquismo, e um pouco para demonstrar como ele era um mártir que fingia não estar sofrendo mas esperava que Deus adivinhasse com arrependimento e piedade que seu filho sofria e que só por heroísmo ria, um pouco para Deus se arrepender, oferecendo-lhe seu sofrimento disfarçado como uma bofetada, como quem diz que não está doendo mas está doendo, e se santifica na sua dor. Depois Martim esbarrou com uma realidade menos lisonjeira e menos possível de ser dramatizada: esbarrou com o fato de que ele era apenas uma pessoa confusa que esquecera os livros que lera mas deles haviam ficado muitas imagens dúbias que ele perseguia, sua terminologia estava fora de moda, ele ficara nas suas primeiras leituras – a realidade de que ele era um homem de compreensão lenta, e, por que não dizer?, pouco inteligente, um homem com um modo de pensar atrapalhado, pessoa mal informada e que aliás não sabia o que fazer das poucas informações que tinha – e que, então desamparado, era obrigado a contar consigo mesmo, o que fazia com que ele vivesse redescobrindo a pólvora, como se uma pessoa só tivesse um recurso: ela própria, “pelo menos hoje em dia é assim”, e então ele estava rindo, o que era tolice porque Deus não se ofendia sequer com o erro de ter criado aquilo que ele, Martim, era, porque Deus se compensava com realizações eficazes.

Por puro automartírio riu de novo. E como não ria há muito tempo, começou a tossir, engasgou-se. Deixou então de rir porque a sensação da saliva ter entrado no nariz lhe deu a desagradável sugestão de erro físico: era como se também seu corpo estivesse falhando. Soprou a lamparina e deitou-se.

Mas com o riso o sono desaparecera. E no escuro ele estava inquieto. A rosa que inadvertidamente ele tocara no jardim deixara-o escoiceante como um cavalo que retém o galope. A essa altura as coisas tinham de algum modo perdido o tamanho material. Ninguém jamais teria por um segundo se defrontado com o oco de onde saem as coisas sem ficar para sempre com a indocilidade do desejo. Picado por uma vontade de aproximação, estava indomesticável e afoito. Que é que eu tenho? estranhou-se. Alerta, farejante. Um minuto depois reconheceu que estava no estado de alma de agir ou de amar. Acontecia que ele não podia fazer uma ou outra coisa: não tendo prática de lidar, sem se ferir, com o ato criador, evitou-o; e a noite era vazia, sem o amor de uma mulher. “Estou com insônia”, disse então para a sua esposa em tom de queixa e acusação.

Martim não soube o que fazer de seu desejo e como aplicá-lo. De pensamento em pensamento – a maioria deles lhe escapando – refletiu que se falhara na criação do futuro, restava-lhe ainda o passado já criado. Num desejo intenso, ele queria ter enfim alguma coisa na mão. O que lhe pareceu mais fácil e menos passível de desilusão: o barro do que já acontecera era pelo menos um material de onde partir. Então, com a mesma atitude de severa boa vontade com que tentara criar seu plano de ação para o futuro, voltou-se para a memória. “Oh lembre-se de que existem árvores e existem crianças e existem corpos e mesas”, se disse o homem tentando se acordar para uma máxima objetividade.

E realmente se tornou objetivo e claro. Mas o que conseguiu? Pedrinhas; ele olhava curioso as pedrinhas dos fatos, seculares pedrinhas duras, indeglutíveis, irredutíveis, imperecíveis. Afogado num mar de seixos. Não só a realidade, mas também a memória pertence a Deus. O homem se revolveu no escuro. Ele tinha ficado preso dentro da construção do próprio passado. Nada jamais tinha saído do mundo, nada jamais tinha entrado no mundo: eram as mesmas pedrinhas sempre, o jogo sempre estivera feito, e a improvisação era impossível! pois esses eram os elementos – os que já estavam ali – e de repente haviam fechado a porta, e a nada mais fora permitido entrar ou sair. E se, para o futuro, ele quisesse fazer nova construção – teria que destruir a primeira a fim de ter pedrinhas a usar, pois nada podia mais entrar no jogo e nada mais podia sair: o material de sua vida era esse mesmo. Mas, pensou ele, que infinita variação! com as mesmas pedrinhas. Ia-se a uma cartomante, ela baralhava as pedrinhas, uma pedrinha pulava, e ela dizia misteriosa de óculos e cabeleira postiça, antes de morrer de câncer: estou vendo uma pedrinha.

Mas acontece, refletiu ele com uma vontade intensa de desistir do futuro, acontece que com essas pedrinhas algo está pelo menos definitivamente organizado. E nele cabemos. É verdade que às vezes cabemos com um braço paralisado pela construção, ou com um olho fechado pela argamassa endurecida por uma construção que secou depressa demais – mas algo está pelo menos definitivamente organizado, e se nele mal cabemos, a verdade é que cabemos. Que faremos? construiremos com as mesmas pedrinhas outra organização definitiva, derrubando antes a primeira? Ou resolveremos sensatamente caber na primeira? É verdade que para cabermos na primeira, temos que comer pouco. Pois engordando, não cabemos, e crescendo não cabemos, e ficamos de calças curtas demais, olhando meditativos os pés expostos. Mas tomamos cuidado, é uma questão de tomar cuidado. Oh bem que tomamos muito cuidado. Até que esquecemos como temos ultimamente crescido e engordado – e distraídos damos um bocejo, e a construção fica curta. É o que se chama de mal-estar.

Era o que aquele homem chamava de mal-estar. Aquele homem cometera um crime porque engordara demais? Martim se revolveu doente, com dor de estômago: ele não cabia. A essa altura, seu pensamento começara a ecoar dentro de uma igreja, o que lhe dava um respeito que era feito de temor e de respeito propriamente dito. E assim como, por motivo ignorado, toda vez que nossos pés ressoam alto, instintivamente procuramos andar sem fazer barulho, o homem tentou agora avançar na ponta dos pés. Seu pensamento tomara a grandeza ecoante de um pesadelo. E o homem de repente se debateu com o velho nojo de pensar, oh não passaria ele jamais de um criador de verdades?

Até que, afortunadamente, percebeu que a criação do mundo estava lhe dando cólicas. Então, feliz de enfim poder se submeter a uma dor, deitou-se sobre a barriga e, com o calor do contato, começou a adormecer.

Mas essa noite era de muitas lições. É preciso ter paciência, às vezes uma noite é longa.

É que nas trevas os pássaros haviam percebido a acidez da aurora e, muito antes que esta raiasse para uma pessoa, eles a respiravam e começaram a despertar. Havia um pássaro, especialmente, que só faltou deixar Martim doido. Era um que chamava a companheira no escuro; com paciência e calma, chamava, chamava. Até que a coisa foi crescendo a ponto de Martim dar um pulo e num safanão abrir a janela. Na janela aberta, foi recebido pelo silêncio súbito do pássaro. Mais com as narinas que com os olhos, o homem percebeu que a escuridão não era estável e que o pássaro já estava vivendo uma madrugada que, para ele, Martim, ainda era o futuro. O que, vagamente, lhe pareceu um pouco simbólico e satisfatório. Voltou e deitou-se de novo. E de novo o passarinho paciente recomeçou. O calmo canto chamando levou o homem a um paroxismo: tapou os ouvidos.

Mas, tapando os ouvidos, ele não ouviu o passarinho.

Foi só então que o homem percebeu que na verdade ansiava por ouvi-lo. Parece que muitas vezes se amava tanto uma coisa que por assim dizer se tentava negá-la, e tantas vezes é o rosto amado o que mais nos constrange. E a Martim que tanto procurava explicações para o seu crime – ocorreu então se ele não fugira do mundo por um amor que ele não pudera tolerar.

Vencido, tirou as mãos dos ouvidos, e agora dócil, de repente aceitando a beleza das pedrinhas, aceitando o canto enlouquecedor do pássaro, aceitando o fato da madrugada preceder a percepção da madrugada – o homem passou a ouvir com sentimentalismo o passarinho que pleiteava. E mais que isto: um pouco tímido, também Martim quis. No escuro sorriu divertido e pungente, porque Ermelinda não era nome que se gritasse, e nem sua virilidade lhe permitia empoleirar-se numa árvore. E mesmo, se ele a chamasse, aquela mulher era bem capaz de vir. E ele não a queria tanto a ponto de desejar que ela viesse. Martim sorriu de novo, muito triste. Como a cólica tinha voltado, de novo virou-se de bruços, e dessa vez adormeceu.

Essa noite tinha sido de uma grande experiência. Destas que não se podem reivindicar num tribunal sem que faltem as palavras e sem que o constrangimento tome um homem porque este, afinal, tem a obrigação de ser responsável pelo que diz, de saber sobre o que fala, e de entender o que se passa com ele.

É verdade que ele não desistiu totalmente. No seu sono agitado, aquele homem obstinado tentou construir em sonho uma outra casa com as mesmas pedras, já que não há outras a usar. Em toda construção que tentou, esqueceu alguma coisa de fora, ou então pôs coisa demais dentro, e a construção estourou. E então é que, pela primeira vez, o homem pareceu ver alguma vantagem no fato das pedras serem mais duras que nossa imaginação, e imutáveis e intransigentes, aquela natureza humana das pedras ou aquela coisa de pedra que é nossa natureza. Pela primeira vez, teve alívio de não ser tarefa sua a criação do mundo: pois na sua construção ele se via de repente como um homem que tivesse construído um quarto sem porta e ficasse preso dentro.

No seu sono agitado, ele se sentou uma ou duas vezes na cama. Mas sua pressa era a pressa inútil de um homem que está sentado num trem que ele não dirige; sentado na cama, devorado por um pensamento que de dia não lhe ocorria tão agudo: que estava próxima a data em que Vitória iria a Vila e se avistaria com o alemão. O tempo passava, o tempo passava, o tempo passava, e indefinível amadurecia-se o futuro.