A Velhice do Padre Eterno

Abílio Manuel Guerra Junqueiro · Capítulo 1 de 40

Páginas do PDF

A Velhice do Padre Eterno

Aos Simples

 

Ó almas que viveis puras, immaculadas

Na torre do luar da graça e da illusão,

Vós que ainda conservaes, intactas, perfumadas, As rosas para nós ha tanto desfolhadas

Na aridez sepulchral do nosso coração;

Almas, filhas da luz das manhãs harmoniosas, Da luz que acorda o berço e que entreabre as rosas, Da luz, olhar de Deus, da luz, benção d'amor, Que faz rir um nectario ao pé de cada abelha, E faz cantar um ninho ao pé de cada flor; Almas, onde resplende, almas, onde se espelha A candura innocente e a bondade christã, Como n'um céo d'Abril o arco da alliança, Como n'um lago azul a estrella da manhã; Almas, urnas de fé, de caridade, e esp'rança, Vasos d'oiro contendo aberto um lirio santo, Um lirio immorredoiro, um lirio alabastrino, Que os anjos do Senhor vem orvalhar com pranto, E a piedade florir com seu clarão divino;

Almas que atravessaes o lodo da existencia, Este lodo perverso, iniquo, envenenado,

Levando sobre a fronte o esplendor da innocencia, Calcando sob os pés o dragão do peccado; Bemdictas sejaes, vós, almas que est'alma adora, Almas cheias de paz, humildade e alegria, Para quem a consciencia é o sol de toda a hora, Para quem a virtude é o pão de cada dia! Sois como a luz que doira as trevas d'um monturo,

Ficando sempre branca a sorrir e a cantar; E tudo quanto em mim ha de bello ou de puro. —Desde a esmola que eu dou á prece que eu murmuro—

É vosso: fostes vós o meu primeiro altar.

Lá da minha distante e encantadora infancia, D'esse ninho d'amor e saudade sem fim,

Chega-me ainda a vossa angelica fragrancia Como uma harpa éolia a cantar a distancia, Como um véo branco ao longe inda a acenar por mim! ........................................................................... ........................................................................... ........................................................................... Minha mãe, minha mãe! ai que saudade immensa, Do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti. Cahia mansa a noite; e andorinhas aos pares Cruzavam-se voando em torno dos seus lares, Suspensos do beiral da casa onde eu nasci. Era a hora em que já sobre o feno das eiras Dormia quieto e manso o impavido lebréu. Vinham-nos das montanhas as canções das ceifeiras, Como a alma d'um justo, ia em triumpho ao céo!... E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço, Vendo a lua subir, muda, alumiando o espaço, Eu balbuciava a minha infantil oração,

Pedindo a Deus que está no azul do firmamento Que mandasse um allivio a cada soffrimento, Que mandasse uma estrella a cada escuridão. Por todos eu orava e por todos pedia.

Pelos mortos no horror da terra negra e fria, Por todas as paixões e por todas as magoas... Pelos míseros que entre os uivos das procellas Vão em noite sem lua e n'um barco sem vellas Errantes atravez do turbilhão das aguas.

O meu coração puro, immaculado e santo Ia ao throno de Deus pedir, como inda vae, Para toda a nudez um panno do seu manto,

Para toda a miseria o orvalho do seu pranto E para todo o crime o seu perdão de Pae!... .............................................................

.............................................................

.............................................................

A minha mãe faltou-me era eu pequenino, Mas da sua piedade o fulgor diamantino

Ficou sempre abençoando a minha vida inteira Como junto d'um leão um sorriso divino,

Como sobre uma forca um ramo d'oliveira!

 

Ó crentes, como vós, no intimo do peito

Abrigo a mesma crença e guardo o mesmo ideal. O horisonte é infinito e o olhar humano é estreito: Creio que Deus é eterno e que a alma é immortal.

Toda a alma é clarão e todo o corpo é lama. Quando a lama apodrece inda o clarão scintilla: Tirae o corpo—e fica uma lingoa de chamma... Tirae a alma—e resta um fragmento d'argila.

E para onde vae esse clarão? Mysterio... Não sei... Mas sei que sempre ha-de arder e brilhar, Quer tivesse incendiado o craneo de Tiberio, Quer tivesse aureolado a fronte de Joanna Darc.

Sim, creio que depois do derradeiro somno Ha-de haver uma treva e ha-de haver uma luz Para o vicio que morre ovante sobre um throno, Para o santo que expira inerme n'uma cruz.

Tenho uma crença firme, uma crença robusta N'um Deus que ha-de guardar por sua propria mão N'uma jaula de ferro a alma de Lucusta,

N'um relicario d'oiro a alma de Platão.

Mas tambem acredito, embora isso vos peze, E me julgueis talvez o maior dos atheus,

Que no universo inteiro ha uma só diocese E uma só cathedral com um só bispo—Deus.

E muito embora a vossa egreja se contriste E a excommunhão papal nos abraze e destrua, A analyse é feroz como uma lança em riste E a verdade cruel como uma espada nua.

Cultos, religiões, biblias, dogmas, assombros, São como a cinza vã que sepultou Pompeia. Exhumemos a fé d'esse montão de escombros, Desentulhemos Deus d'essa aluvião de areia.

E um dia a humanidade inteira, oceano em calma, Ha-de fazer, na mesma aspiração reunida, Da razão e da fé os dois olhos da alma,

Da verdade e da crença os dois polos da vida.

A crença é como o luar que nas trevas fluctua; A razão é do céo o explendido pharol:

Para a noite da morte é que Deus nos deu lua... Para o dia da vida é que Deus fez o sol.

 

Mas, ai eu comprehendo os martyrios secretos Do pobre camponez, já quasi secular,

Que vê tombar por terra o seu ninho de affectos, A casa onde nasceu seu pae, e onde os seus netos Lhe fechariam, morto, o escurecido olhar. Comprehendo o pavor e a lividez tremente De quem em noite má, caliginosa e fria

Atravessa a montanha á luz d'um facho ardente E uma rajada vem alucinadamente

Apagar-lh'o c'o'a aza athletica e sombria, Deixando-o fulminado e quazi sem sentidos A ouvir o ulular das feras e os bramidos

Do ciclone que explue rouco do sorvedoiro E se enrosca furioso aos platanos partidos A estrangulal-os, como uma giboia um toiro.

Comprehendo a agonia, o desespero insano Do naufrago na rocha, entre o abysmo do oceano, Vendo rolar, rugir os glaucos vagalhões

Como uma cordilheira herculea de montanhas, Com jaulas collossaes de bronze nas entranhas, E um domador lá dentro a chicotear trovões. ...............................................................

...............................................................

O vosso facho, o vosso abrigo, o vosso porto, É um Deus que para nós ha muito que está morto, E que inda imaginaes no entretanto immortal. Vivei e adormecei n'essa crença illusoria, Já não podeis transpôr os mil annos da historia Que vão do vosso credo absurdo ao nosso ideal. Vivei e adormecei n'essa illusão sagrada, Fitando até morrer os olhos de Jesus,

Como o ephemero vão que dura um quasi nada, Que nasce de manhã n'um raio d'alvorada, E expira ao pôr do sol n'outro raio de luz. Eu bem sei que essa crença ignorante e sincera, Não é a que illumina as bandas do Porvir. Mas vós sois o Passado, e a crença é como a hera Que sustenta e dá inda um tom de primavera Aos velhos torreões gothicos a cahir.

Sim, essa crença é um erro, uma illusão, é certo; Mas triste de quem vae pelo areal deserto Vagabundo, esfaímado e nú como Caim, Sem nunca ver ao longe os palacios radiantes D'uma cidade d'oiro e marmore e diamantes No chimerico azul d'essa amplidão sem fim!

Quem ha-de arrancar pois do seu piedoso engaste O vosso ingenuo ideal, ó tremulos velhinhos, Se a chimera é uma rosa e a existencia uma haste, Rosa cheia d'aroma e haste cheia de espinhos! Quem vos ha-de cortar a flor da vossa esp'rança, Quem vos ha-de apagar a angelica visão, Se essa luz para vós é como uma creança Que guia n'uma estrada um cégo pela mão! Quem vos ha-de acordar d'esse sonho encantado?! Quem vos ha-de mostrar a evidencia cruel?! Ah! deixemos a ave ao ramo já quebrado, E deixemos fazer ao enxame doirado

No tronco que está morto o seu favo de mel! Ó velhos aldeões, exhaustos de fadiga,

Que andaes de sol a sol na terra a mourejar, Roubar-vos da vos'alma a vossa crença antiga Seria como quem roubasse a uma mendiga As tres achas que leva á noite para o lar! Oh, não! guardae-a bem essa crença d'outrora; É ella quem vos dá a paz benigna e santa, Como a paz d'um vergel inundado d'aurora, Onde o trabalho ri e onde a miseria canta. Guardae-a sim, guardae! E quando a morte em breve Vos entre na choupana esqualida e feroz, A agonia será bem rapida e bem leve,

Porque um anjo de Deus mais alvo do que a neve Ha-de estender sorrindo as azas sobre vós. E vós conhecereis em seu olhar materno Que é o anjo que emballou vosso somno infantil, E que hoje vem do céo mandado pelo Eterno, Para sorrir na morte ao vosso branco inverno, Como sorriu no berço ao vosso claro Abril.

E ao pender-vos gelada a vossa fronte alabastrina Irá levar a Deus o vosso coração,

Tão manso e virginal, tão novo e tão perfeito, Que Deus ha-de beijal-o e aquecel-o no peito,

Como se acaso fosse uma pomba divina, Que viesse cahir-lhe exanime na mão!