A Velhice do Padre Eterno

Abílio Manuel Guerra Junqueiro · Capítulo 2 de 40

Páginas do PDF

A Velhice do Padre Eterno

A Vinha do Senhor

 

I

 

Existiu n'outro tempo uma vinha piedosa

Doirada pelo sol da alma de Jesus,

Uma vinha que dava uns fructos côr de roza, Vermelhos como o sangue e puros como a luz.

Inundavam-n'a d'agua os olhos de Maria, E os virgens corações dos martyres, dos crentes Eram a terra funda aonde se embebia

A mystica raiz dos pampanos virentes.

Produzia um licor balsamico, divino,

Que aos cégos dava luz, aos tristes dava esp'rança, E que fazia ver na areia do destino

A miragem feliz da bemaventurança.

Aos mortos restituia o movimento e a falla; Escravisava a carne, as tentações, a dôr, E transformou em santa a impura de Magdala, Como transforma Abril um verme n'uma flôr.

Bebel-o era beber uma virtuosa essencia Que ungia o coração de perfumes ideaes, Pondo no labio um riso ingenuo de innocencia, Como o d'agua a correr, virgem, dos mananciaes.