A Velhice do Padre Eterno

Abílio Manuel Guerra Junqueiro · Capítulo 23 de 40

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A Velhice do Padre Eterno

Antonelli

 

Uma loba emprenhou um dia de Tartufo,

E Antonelli nasceu d'este consorcio bufo.

O seu labio despresa; o seu olhar dardeja. Cassagnac de Deus, guarda-costas da Egreja,

Redige as pastoraes brutaes de que se nutre Co'um tinteiro de treva e uma penna de abutre.

Bossuet-Ferrabraz e Falstaf-Isaias.

Bebe petroleo negro e gim nas sacristias.

Não ha pomba mais tigre ou Santo mais demonio: Fera,—como Caim! rato,—como Polonio!

N'aquelle olhar nocturno, inquizidor, que assusta, Ha Nero a murmurar nas sombras com Locusta.

O cabeção que traz na batina de lilla

Erriçam-no punhaes: era d'um cão de fila.

O tigre deu-lhe o amor e o bode a castidade, Para um dia expulsar do mundo a Liberdade

Fez um latego atroz, que corta e que esfarrapa, Atando uma serpente ao baculo de um papa.

Quando observo esse monstro, essa alimária brava, Hercules que talhou d'um hyssope uma clava,

Ao vêr-lhe os rins de bronze, e ao vêr-lhe a erecta fronte,

Creio estar contemplando ao longe, no horisonte,

Entre o rubro esplendor d'uma manhã sonora, Um bufalo de treva ás cornadas na aurora!