A Velhice do Padre Eterno

Abílio Manuel Guerra Junqueiro · Capítulo 37 de 40

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A Velhice do Padre Eterno

Capítulo II

Na palma da sua mão.

E sopesando o globo e arrancando o montante

Enorme da bainha,

Bradou pela amplidão: «Sou Jupiter-tonante!

Humanidade, és minha!

Eu tenho o gladio e o sceptro, a excomunhão e a bulla;

Sou o Deus, sou a Fé.

Miseravel reptil, Humanidade, oscula

A ponta do meu pé!»

E sentando-se sobre o coração da Italia

O satrapa romano

Estendeu desdenhoso o bico da sandalia

Para o genero humano!

 

II

 

N'esse instante um fantasma entrou nos regios paços.

Sereno e formidavel.

Encarou fixamente o rei, cruzando os braços

No peito inabalavel,

E trovejou, deixando o papa sacrosanto

Livido, espavorido:

«Sou a Fraternidade. Entrega-me esse manto

E essa espada bandido!»

Despedaçou-lhe o gladio e a tunica purpurea,

E sahiu triumfal.

E o papa horrorisado, espumando de furia,

Uivou como um chacal:

«N'esta invencivel mão d'abutre encarquilhada

Guarda o melhor thesoiro.

Ficou-me ainda o sceptro. Era de ferro a espada...

Prefiro o sceptro... é d'oiro!»

E o papa viu então, oh tragica anciedade

Um vulto sobrehumano

Avançar e bramir:—O meu nome é Egualdade;

Dá-me o sceptro, tyranno!—

Quebrou o sceptro e foi-se. E o papa, como um lobo

Sombrio respondeu:

«Na minha forte mão ainda sustento o globo...

Ainda o globo é meu!...»

E desatou a rir... um riso sanguinario

De panthera. Depois

Surgiu novo fantasma herculeo, extraordinario,

Maior que os outros dois.

E como o rebentar potente d'um trovão

Que abala a immensidade

O fantasma rugiu:—Não me conheces, não!

Chamo-me a Liberdade!

«Venho buscar o mundo. Entrega-o, salteador!

É meu o globo, harpia!»

E arrancou-lh'o. Soltando um grito, no estertor

Convulso da agonia,

Tombou por terra o papa. E repentinamente

Viu surgir-lhe do lado

Um esqueleto a rir, todo fosforecente,

Podre, desengonçado,

Que he disse:—Morreu, ó Papa, o nosso imperio,

Morreu o mundo antigo.

Tu chamas-te Alexandre, eu chamo-me Tiberio...

Vem-te deitar commigo!...

E como um caçador fantastico que leva,

Sangrenta e moribunda,

Uma hyena a gemer, de rastos, pela treva

N'uma noite profunda,

O esqueleto levou para a crypta sombria

O cadaver do irmão,

Indo dormir os dois na eterna mancebia

Da mesma podridão!