A Velhice do Padre Eterno

Abílio Manuel Guerra Junqueiro · Capítulo 12 de 40

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A Velhice do Padre Eterno

A Arvore do Mal

 

Por debaixo do azul sereno, entre a fragancia

Dos mirtos, dos rosaes,

Viviam n'uma doce e n'uma eterna infancia

Nossos primeiros paes.

Seus corpos juvenis, mais alvos do que a lua,

Mais puros que os diamantes,

Conservavam ainda a virgindade nua

Das coisas ignorantes.

Poz Deus n'esse jardim com sua mão astuta

Ao lado da innocencia

A Arvore do Mal que produzia a fructa

Venenosa da sciencia.

E, apezar de conter venenos homicidas

E o germen do pecado,

Era Deus quem comia á noite, ás escondidas,

Esse fructo vedado.

Por isso Jehovah tinha sciencia infinda,

Tinha um poder secreto,

E Adão que não provara os fructos era ainda Um anjo analfabeto.

Eva colheu um dia o bello fructo impuro,

O fructo da Rasão.

N'esse instante sublime Eva tinha o Futuro

Na palma da sua mão!

O homem, abandonado a submissão covarde,

Viu o fructo e comeu.

Esse fructo é a luz que a Jupiter mais tarde

Roubará Prometheu.

E ao vêr igual a si a estatua que creara,

O homem reprobo e nu,

Jehovah exclamou: «Maldita seja a seara cuja semente és tu!»

Veio depois a Egreja e repetiu aos crentes

De toda a humanidade:

«Maldito seja sempre o que enterrar os dentes

Nos fructos da Verdade!»

A Egreja permittia esse vedado pomo

Sòmente aos sacerdotes.

Da arvore do mal fugia o mundo, como

Os lobos dos archotes.

Se o sabio que buscava o oiro nas retortas

Ia como um ladrão

Roubar timidamente, á noite, ás horas mortas

Algum fructo do chão,

Tiravam-lhe da boca esse fructo damninho

D'uma maneira suave:

Atando-lhe á garganta uma corda de linho

Suspensa d'uma trave.

Um dia um visionario, alma vertiginosa,

Espirito immortal,

Foi deitar-se, que horror! á sombra temerosa

Da Arvore do Mal.

A Egreja ao vêr aquella intrepida heresia

Lança-lhe excomunhões;

Tomba por terra um fructo... e Newton descobria

A lei das atracções!

Sacudi, sacudi, a arvore maldita,

Que os astros tombarão,

Como se sacudisse a abobada infinita

Deus com a propria mão!

E quando o mundo inteiro emfim houver comido

Até á saciedade

O fructo que lhe estava ha tanto prohibido,

O fructo da Verdade,

Homens, dizei então a Jehovah:—«Tirano,

Vai-te embora d'aqui!

Construimos de novo o paraiso humano;

Fizemol-o sem ti.

«Expulsaste do Olimpo a humanidade outr'ora,

Ó despota feroz;

Pois bem, o Olimpo é nosso, e Jehovah, agora

Expulsamos-te nós!