A Velhice do Padre Eterno

Abílio Manuel Guerra Junqueiro · Capítulo 33 de 40

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A Velhice do Padre Eterno

Capítulo II

Quo em rouco e pavido tropel

Vem pela historia humana adiante,

Desde Cain até Rossel;

Tudo que estoira de miseria,

Tudo o que ruge na oppressão,

Desde o grilheta da Siberia

Até ao paria do Indostão;

Todo esse barbaro massacre,

Da guerra, enorme Leviatan,

Zama, Farsalia, S. João d'Acre,

Jena, Austerlitz, Sedan;

Todo esse vomito de horrores

E do catastrophes sombrias,

Profundo atlantico de dores,

Negro Himalaia de agonias,

Todo esse lodo Deus impelle-o

Ao teu estomago sem dó:

És a barriga de Vitellio,

Cheia das pustulas de Job!...

 

II

 

E entre esse tabidos fermentos,

Entre esses horror de coisa más,

Fóssa á procura de alimentos,

Um porco immundo—Satanaz.

Essa latrina de Pandora,

Pensando bem, é a final

A escarradeira onde expectora

Jehovah a bilis immortal.

Como elle é velho, com o frio

Tósse; o Prudhome diz-lhe então:

—Deus, aqui tens este bacio...

Não vás cuspir no meu salão.

E ás vezes do alto do infinito,

Talvez depois d'um mau jantar,

O Padre Eterno faz cabrito

E enche o bacio a transbordar.

E o pote enorme onde cuspinha

O truculento Manitu,

Sem ninguem vêr, logo á noitinha

Vai despejal-o Belzebut.

Vai despejal-o, ó crueldade!

Lá nessas torridas galés,

Onde Deus assa a humanidade

No fogo—a que elle aquece os pés!

Porque, ó eternos desherdados

Da raça impura de Cain,

Morrendo sois encaixotados

Sem agua benta e sem latim.

Se algum vos dão é já com ranço,

É já latim para hospitaes,

Feito com cisco de ripanso

E as varreduras dos missaes.

A egreja dá, barata feira!

Ao vosso ultimo estertor

Oleos de azeite de purgueira

E ostias de trapos com bolor.

Por isso a valla é um alçapão

De d'onde rue a todo instante

Um tremedal de podridão

N'um mar de enxofre flammejante.

Castigo barbaro e nefando!

Em monstruozos caldeirões

Ondas de pez tonitruando,

Roucos, uivando, aos borbotões,

E dentro vós, pobres captivos,

Em sangue, em chagas, todos nus,

A morrer sempre e sempre vivos,

Sempre a coser e sempre crus!

Em lagos rutilos de estanho,

Bramindo pragas em latim,

Milhões de herejes tomam banho...

Olhae que espiga um banho assim!...

Estes frigidos em certans,

Dentro do azeite que extravasa.

Outros perneando, como rans,

Na empalação d'um raio em brasa!

Uns são torrados sobre grelhas.

E os diabos vem continuamente

N'aquellas nadegas vermelhas

Cravar com furia o seu tridente!

Muitos estoira-lhes a pança

Entre os colericos anneis

De vinte cilhas, que lembrança!

Feitas de cobras cascaveis!

E em torno aos fulgidos brazeiros

Onde um bom Deus, poderoso e justo

Rebenta as almas aos milheiros,

Como as castanhas n'um magusto,

Pincham selvaticos fandangos

Satans freneticos e maus,

Rabudos como ourangotangos,

Cornudos como Menelaus!

E é por não dar uns seis ou sete

Tostões ao odre de um abade

Que a Providencia vos derrete,

Impios, por toda a eternidade!

Congrua e folar—palha e bolota

Ao teu abade, impio, não dás?

Pois bem, Deus põe-te de compota

N'um molho ardente de aguarraz.

Ah, tu rebelde, ah, tu faminto,

Nunca a chorar foste depor

Tres mil remorsos com um pinto

Nas mãos d'um padre confessor?

Ah, tu mandaste a Egreja á fava?

Nunca compraste uma cartilha?

Cose-te em pez, torra-te em lava.

Anda, meu besta, meu pandilha!

É em quanto Deus te frita os untos

E o coração n'uma panella,

Que vida airada os bons defunctos

Passam no céo!... que vida aquella!

Pois cá por baixo aos maganões

Nunca tambem lhes faltou nada;

Tiveram crenças e milhões...

Deus gosta assim de gente honrada.

Comeram optimos jantares,

Perfeitamente digeridos;

Foram christãos e titulares.

Bons paes, bons filhos, bons maridos.

Aos seus palacios luculianos

(O que é virtude e pundonor!)

Durante quasi oitenta annos

Não bateu nunca um só credor!

Amaram todos os pecados,

Que são mortaes, mas são gentis,

Com todo o encanto fabricados

Para os banqueiros, em Pariz.

Dormira sempre n'um bom leito

Co'as mais formosas cortezãs.

E o ventre sempre satisfeito,

E livre... todas as manhãs.

Gozaram sim, mas na verdade

Foram á missa muitas vezes,

Com toda a pompa e magestade

Dentro dos seus landeaus inglezes.

Se algum remorso impertinente

As almas castas lhes mordia,

Catava-o logo com um pente

Um bispo n'uma sacristia.

Crendo nos dogmas mais profundos,

E achando a vida um bom lameiro

Tiveram sempre Auctor dos Mundos

Por um perfeito cavalheiro.

Deram de graça a varios santos,

A Jesus Christo e á mãe das Dôres

C'roas, chinós, tunicas, mantos,

Burseguins d'oiro e resplendores.

Por isso o tal Author, que acabo

Do vos citar, os tratou bem;

Deus é levado do diabo

Só para os pulhas sem vintem.

E quando ao cabo da funcção,

—Velhos sem dentes, já na espinha,

A Morte, de chapeu na mão,

Lhes foi tocar á campainha,

Para espicharem dignamente,

Agasalhados na sua cama,

O papa enviou-lhes de presente

A benção n'este telegrama:

«Remete benção Divindade.

Legado Pedro quinze contos.

Escrevi céo Hotel Trindade

Tenham chegada quartos promptos.»

E após um grande funeral,

A que assistiu o high-life inteiro, Desde o arcebispo ao general

E desde o principe ao banqueiro,

Seus corpos, onde não remexe

O verme vil que trinca os parias

Embalsamados do escabeche

Em grandes latas funerarias,

No palacete d'uma campa

Foram guardados, qual thesoiro,

Dentro d'um cofre em cuja tampa

Ha versos maus em letras d'oiro.

E as almas, promptas para a festa

Do seu olimpico noivado,

Com uma aureola na testa

E azas soberbas no costado,

Partiram leves, subrepticias.

Entre o esplendor de cem auroras,

Lá para o Reino de Delicias.

Onde estarão a estas horas

Feitas bebés, comendo um keque,

Tocando frauta ou tamboril,

Ou arrastando a aza em leque

Ingenuamente... ás onze mil.

Ah, miseravel, ah precito,

Que lá dos baratros christãos

Ergues ao Tigre do infinito

Os dois archotes das tuas mãos,

Vê tu como é conveniente,

E justo em todos os sentidos,

Herdar um homem d'um parente

Seiscentos contos garantidos,

Gozar, sem medo á vida eterna,

Toda esta bella patuscada,

Desde a luxuria mais moderna

Á gula mais civilisada,

E ao terminar tão bom fadario

Morrer, ouvindo alguns latins,

Com treze kilos de calcareo,

—Onze na alma, e dois nos rins;

E, na mais intima harmonia

Com Satanaz e com Jesus,

Ir para a cova á luz do dia,

De farda rica e de gran-cruz,

E entre tocheiros deslumbrantes

Ser bem comido e bem jantado

Por alguns vermes elegantes

N'um gabinete reservado!...