A Velhice do Padre Eterno

Abílio Manuel Guerra Junqueiro · Capítulo 32 de 40

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A Velhice do Padre Eterno

A Valla Commum

 

I

 

Valla commum—tasca nojenta,

Mesa redonda sepulchral,

Aonde a toalha crapulenta

É um lençol roto do hospital,

E aonde as larvas proletarias

Devoram—lugubres festins!—

Craneos de heroes, ventres de parias,

Carcassas podres de arlequins,

Ao contemplar-te, ó libertina,

Um nojo immenso me accomette:

Tens a avidez de Messalina

Na boca negra de Machbet!

Na treva aziaga o crime o os vicios,

Para o menu do teu jantar, Dão-te as creanças dos hospicios

E as barregãs do lupanar.

Em teu estomago de hyena

Vão-se abysmar, monstro cruel,

Rios de sangue com gangrena

E ondas de lagrima com fel.

Cloaca putrida e funerea,

Feira da ladra edionda e vil,

És o saguão onde a miseria

Despeja á noite o seu barril.

Trituras, lobrega sargeta,

Sem que o horror te engasgue e abafe

Os seios virgens de Julieta

E a pança obscena de Faltstaff.

Cinismo atroz que a alma oprime,

Fetida e funebre impudencia!

A boca esqualida do crime

Posta na boca da innocencia!

O abutre e a pomba, o cardo e a anemona Na mesma leiva apodrecida:

Tropman chegando-se a Desdemona,

E Papavoine a Margarida!

Virtude, amor, crime, deboche

Promiscuamente a fermentar!

Mimi Pinson e Rigolboche!

Cain e Abel! estrume e luar!

Oh, bulimia tenebrosa! Monstruosidade apocalyptica

Tudo te serve: ou cancro ou rosa,

Ou flôr doirada ou flôr syphlitica.

Anjos que vem do paraiso,

Candura etherea e perfumada,

Feitos d'um beijo e d'um sorriso,

N'algum jardim, de madrugada.

Vão confundir-se n'essa guella,

N'essa pestifera anarchia

Com quantas lepras uma viella

Possa escarrar n'uma enxovia!

As guilhotinas homicidas

Pelo carrasco, o fiel criado,

Mandam-te o lunch ás escondidas No seu panier ensanguentado,

E o cadafalso, um salteador,

Na noite livida estrangula

Feras, que arroja no estertor

Aos antros podres da tua gulla.

Nada que te encha ou te sufoque.

Monstro, absorver é o teu destino.

Depois da ceia de Moloch,

Ruges co'a fome de Hugolino

Sempre a comer, monstro insensato,

E a boca sempre escancarada!

O esquife, harpia, eis o teu prato!

E o teu talher—a pá e a enxada!

Valla commum, despenhadeiro

De lirios brancos e de sapos,

Furna onde o Nada, esse trapeiro,

Faz o armazem dos seus farrapos.

Quantos heroes—oh raiva, oh odio!

Teu lobo amargo apodreceu

Desde Aristogiton e Harmodio

Até Camões e Galileu!

Deus que te fez sempre esfaimada,

Deu-te tambem, pança gigante,

Por cosinheiro Torquemada,

E Bonaparte por marchante.

Atila e Nero—o tigre e o lobo,

Noventa e tres, Saint Barthelemy,

Eis hecatombes para o globo

Que são banquetes para ti.

Quando famelica te nutres

D'um Warterloo, grandiosa prosa,

Sustentas todos os abutres

Só co'as migalhas da tua mesa!

Para o teu ultimo festim,

Gargantua sordido e voraz,

Foi aos açougues de Berlim

A Morte a encher o seu cabaz.

Es magro e funebre molosso

Ha milhões d'annos sempre a uivar:

Ó Guerra, traz-me o meu almoço!

Ó Peste, traz-me o meu jantar!

Servo, Fellah, Moujik, Escravo,

Plebe sem pão, mendigos nús,

Bocas que tem ainda o travo

Do fel da esponja de Jesus;

Martyres, victimas, proscriptos,

Legião de heroes resplandecente,

Que ensanguentados e maldictos

Revoluteiam febrilmente,

Raios no olhar, grilhões nos pulsos,

Ao céo em brasa a fronte erguida,

Nos sete circulos convulsos,

Do inferno tragico da Vida;

Todo esse exercito ululante