A Velhice do Padre Eterno

Abílio Manuel Guerra Junqueiro · Capítulo 20 de 40

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A Velhice do Padre Eterno

Capítulo IV

Na atonia cruel d'aquelle hediondo aspecto, Na morna fixidez d'aquelle olhar obtuso.

Metida nas prisões escuras de Loyola

A sua alma infantil, não tendo luz nem ar. Foi com os rouxinoes, que dentro da gaiola Perdem toda alegria, e morrem sem cantar.

 

IV

 

Como ninguem ignora, os sordidos palhaços Compram, roubam às mães as loiras creancinhas, Torcem-lhes o pescoço, as mãos, os pés, os braços, Transformam-lhes n'um juco elastico as espinhas, E exhibem-nas depois nos palcos das barracas Dando saltos mortaes e devorando facas Ante o espanto imbecil da ingenua multidão; E para lhes cobrir a lividez plangente

Costumam-lhes pintar carnavalescamente Na face de alvaiade um rir de vermelhão. Tambem o jesuitismo hipocrita-romano,

Palhaço clerical, anda pelos caminhos

A comprar, a furtar, assim como um cigano, As creanças ás mães, os rouxinoes aos ninhos. Vão leval-as depois ao negro seminario,

Ás terriveis galés, ao sacro matadoiro,

E escondem-nas da luz, assim como o usurario Esconde tambem d'ella os seus punhados d'oiro. Dentro da estupidez e da superstição,

Casamata da fé, guardam-lhes a razão,

A analize, esse forte e venenoso fluido, Que, andando em liberdade, ao minimo descuido Poderia estoirar com tragica explosão.

O que o palhaço faz ao corpo da creança Fazem-lh'o á alma, até que d'ella reste emfim,

Em logar do histrião que nas barracas dança, O pobre missionario, o inutil manequim,

O histrião que nos prega a bemaventurança A murros do missal e a roncos de latim.

As almas infantis são brandas como a neve, São perolas de leite em urnas virginaes.

Tudo quanto se grava e quanto ali se escreve Cristalisa em seguida e não se apaga mais. D'esta forma consegue o astucioso clero

Transformar de repente uma creança loira N'um passaro nocturno estupido e sincero. É abrir-lhe na cabeça a golpes de tesoira A marca industrial do fabricante—um zero!