A Velhice do Padre Eterno

Abílio Manuel Guerra Junqueiro · Capítulo 35 de 40

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A Velhice do Padre Eterno

O Genesis

 

Jehovah, por alcunha antiga—o Padre Eterno Deus muitissimo padre e muito pouco eterno, Teve uma ideia suja, uma ideia infeliz:

Poz-se a esgaravatar co-o dedo no nariz, Tirou d'esse nariz o que um nariz encerra, Deitou depois isso cá baixo, e fez a terra. Em seguida tirou da cabeça o chapeu,

Pol-o em cima da terra, e zás, formou o céo. Mas o chapéu azul do Padre Omnipotente Era um velho penante, um penante indecente, Já muito carcomido e muito esburacado,

E eis ahi porque o céo ficou todo estrellado.

Depois o Creador (honra lhe seja feita!) Achou a sua obra uma obra imperfeita,

Mundo serrafaçal, globo de fancaria,

Que nem um aprendiz de Deus assignaria, E furioso escarrou no mundo sublumar,

E a saliva ao cahir na terra fez o mar.

Depois, para que a Egreja arranjasse entre os povos Com bulas da cruzada alguns cruzados novos, E Tartufo podesse inda d'essa maneira

Jejuar, sem comer de carne á sexta feira, Jehovah fez então para a crença devota

A enguia, o bacalhau e a pescada marmota. Em seguida metteu a mão pelo sovaco,

Mais profundo e maior que a caverna de Caco, E arrancando de lá parasitas extranhos,

De toda a qualidade e todos os tamanhos Lançou sobre a terra, e d'este modo insonte

Fez elle o megatheiro e fez o mastodonte. Depois, para provar em summa quanto póde Um Creador, tirou dois pellos do bigode,

Cortou-os em milhões e milhões de bocados, (Obra em que elle estragou quatrocentos machados) Dispersou-os no globo, e foi d'esta maneira Que nasceu o carvalho o platano e a palmeira. ...................................................................

Por fim com barro vil, assombro da olaria! O que é que imaginaes que o Creador faria? Um pote? não; um bicho, um bipede com rabo, A que uns chamam Adão e outros Simão. Ao cabo O pobre Creador sentindo-se já fraco.

(Coitado, tinha feito o universo e um macaco Em seis dias!) pensou:—Deixem-nos de asneiras. Trago já uma dôr horrivel nas cadeiras,

Fastio... Isto dá cabo até d'uma pessoa... Nada, toca a dormir uma sonata boa!—

Descalçou-se, tirou os oc'los e chinó,

Pitadeou com delicia alguns trovões em pó, Abriu, para cahir n'um somno repentino,

O alfarrabio chamado o livro do Destino.

E enflanelando bem a carcassa caduca,

Com o barrete azul celeste até á nuca,

Fez ortodoxamente o seu signal da cruz

Como qualquer de nós, tossiu, soprou á luz, E de pança p'ro ar, n'um repoiso bemdicto, Espojou-se, estirou-se ao longe do infinito N'um immenso enxergão de nevoa e luz doirada.

E até hoje, que eu saiba, inda não fez mais nada.