A Velhice do Padre Eterno
Capítulo III
É o sermão, é a missa, é o enterro, é a boda, É pinga da melhor, é tudo quando ha!
Quando o abade morrer hasde vir tu p'ra cá. Despacha-te o doutor nas côrtes; quando não Votamos contra elle, e foi-se-lhe a eleição. Mas que é isso, rapaz? Nada de choradeira! É tratar da merenda, e quinta ou sexta-feira Toca pr'o seminario. Eu quero ir para a cova Só depois de ti ouvir cantar a missa nova.»
III
N'uma tarde d'outomno a somnolente trote Um macho conduzia em cima do albardão, Já columna da egreja, o novo sacerdote,
O muitissimo illustre e digno padre João.
Ao entrarem na aldeia os dois irracionaes, Dos foguetes ao grande e jubiloso estrepito Um velho recebeu nos braços paternaes, Em vez do alegre filho, um monstro já decrepito Que acabava de vir das jaulas clericaes.
Que transfigurão! que radical mudança!
Em logar da innocente, angelica creança, Voltava um chimpanzé estupido e bisonho. Com o ar de quem anda hallucinadamente Preso nas espiraes diabolicas d'um sonho. Seu corpo juvenil, robusto e florescente
Vergava para o chão exhausto de cansaço: Os dogmas são de bronze, e a lã d'uma batina Já vai pesando mais que as armaduras d'aço. A ignorancia profunda, a estupidez suina A luxuria d'egreja, ardente, clandestina,
O remorso, o terror, o fanatismo inquieto, Tudo isto perpassava em turbilhão confuso