A Velhice do Padre Eterno

Abílio Manuel Guerra Junqueiro · Capítulo 30 de 40

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A Velhice do Padre Eterno

A Benção da Locomotiva

 

A obra está completa. A machina flameja, Desenrolando o fumo em ondas pelo ar.

Mas antes de partir mandem chamar a Egreja Que é preciso que um bispo a venha baptizar.

Como ella é com certeza o fructo de Cain, A filha da razão, da independencia humana, Botem-lhe na fornalha uns trechos em latim, E convertam-n'a á fé Catholica Romana.

Devem n'ella existir diabolicos peccados, Porque é feita de cobre e ferro; e estes metaes Sahem da natureza, impios, escommungados, Como sahimos nós dos ventres maternaes!

Vamos, esconjurai-lhe o demo que ella encerra, Extrahi a heresia ao aço lampejante!

Ella acaba de vir das forjas d'Inglaterra,

E hade ser com certeza um pouco protestante.

Para que o monstro corra em fervido galope, Como um sonho febril, n'um doido turbilhão, Além do machinista e necessario o hyssope, E muita theologia... além d'algum carvão.

Atirem-lhe uma hostia á bocca famulenta, Preguem-lhe alguns sermões, ensinem-n'a a resar, E lancem na caldeira um jorro d'agua benta, Que com agua do céo talvez não possa andar.