A Velhice do Padre Eterno

Abílio Manuel Guerra Junqueiro · Capítulo 18 de 40

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A Velhice do Padre Eterno

Capítulo II

O timbre da sua voz imperiosa e clara,

A linha do seu corpo altivamente recta,

Tudo lhe dava o ar soberbo d'um athleta

Em miniatura.

 

II

 

Um dia o pae, um bravo aldeão,

Chamou-o ao pé de si, e disse-lhe:

«João:

Á força de trabalho e a força de canceiras A moirejar no monte e a levar gado ás feiras, Consegui ajuntar ao canto do bahù

Alguns pintos. Vocês são dois rapazes; tu, Além de ser mais novo, és mais intelligente. Vou botarte ao latim; quero fazer-te agente. Hasde-me dar ainda um grande prégador. Hoje padre é melhor talvez que ser doutor. Aquillo è grande vida; é vida regalada.

Olha, sabes que mais? manda ao diabo a enxada. Aquillo é que é vidinha! aquillo é que é descanço! Arrecada-se a congrua, engrola-se o ripanço, Arranja-se um sermão ahi com quatro tretas, Vai-se escorropichando o vinho das galhetas,

E a missa seis vintens e doze os baptisados. Depois independente e sem nenhuns cuidados! Olha, João, vê tu o nosso padre cura:

É, sem tirar nem pôr, uma cavalgadura.

Vi-o chegar aqui mais roto que os ciganos; Pois tem feito um casão em meia duzia d'annos. Isto é desenganar; padres sabem-na toda...