A Velhice do Padre Eterno
Capítulo IV
Nos pampanos da crença as unhas da razão.
Propagou-se o flagello; o mal recrudesceu; A colheita ficou em duas terças partes;
Chega o oidium Lutero, o verme Galileu,
E cai-lhe o temporal de Newton e Descartes.
Em balde Carlos nove, Ignacio e Torquemada, Catando esses pulgões das bíblicas videiras, Os entregam á roda, ao cadafalso, á espada, Ou os queimam por junto aos centos nas fogueiras.
O estrago cada vez era maior, mais forte; Apezar da realeza, o throno e a sachristia Andarem sacudindo o enxofrador da morte No formigueiro vil das pragas da heresia.
Por ultimo Voltaire—filoxera invade
Essa encosta plantada outr'ora por Jesus, E das cepas ideaes da escura meia idade Ficaram simplesmente uns velhos troncos nús.
IV
Mas como havia ainda alguns consumidores D'esse vinho que o sol deixou de fecundar, Uns velhos cardeaes, habeis exploradores, Reuniram-se em concilio afim de os imitar.
E é assim que Antonelli, o verdadeiro papa, O chimico da fé, um grande industrial,
Fabrica para o mundo ingenuo uma zurrapa Que elle assevera que é o antigo vinho ideal.
Para isso combina os varios elementos
Que compõem esta droga: o nome de Maria, Anjos e cherubins, infernos e tormentos,
Bastante estupidez e immensa hypocrizia.
Põe isto tudo a ferver, liga, combina, mexe, E, filtrando atravez d'uns textos de latim,
Eis preparado o vinho, ou antes o campeche, Que a saúde da alma hade arruinar por fim.
Mas como o paladar de muitos europeus Quasi prefere já (horrivel impiedade!)
Á falsificação do vinho do bom Deus
O vinho genuino e puro da verdade;
E como já por isso, (assim como era d'antes) A Igreja não nos queime e o rei não nos enforque, A curia procurou mercados mais distantes, O Japão, o Perú, a Australia e Nova York.
Os comis-voiageurs de Roma—os Lazaristas Com as carregações vão atravez do oceano, Por toda a parte abrindo os armazens papistas, A fim de dar consumo ao vinho ultramontano.
Em cada igreja existe uma taberna franca Para impingir a tal mixordia, o tal horror,
Ou secca ou doce, ou velha ou nova, ou tinta ou branca,
Segundo as condições e a fé do bebedor.
Para Hespanha vão muito uns vinhos infernaes, Um veneno explosivo e forte que produz
Um delirio tremente—o General Narvaes, E um vomito de sangue—o cura Santa Cruz.
Portugal quer vinagre. A Italia quer falerno. Veuillot quer agua-raz que ponha a lingua em braza. E John Bull, por exemplo, um pouco mais moderno, Manda ao diabo a botica, e faz a droga em casa.
Ao povo, esse animal, que o Padre Eterno monta, Como é pobre, coitado, então a Santa Sé Fabrica lhe uma borra incrivel, muito em conta, Um pouco de melaço e um pouco d'agua-pé.
A fina flôr christã, a flôr altiva e nobre,
O rico sangue azul do bairro S. Germano, Para quem o bom Deus é um gentil-homem pobre A quem se dá de esmola alguns milhões por anno.
Essa como detesta os vinhos maus, baratos, Como é de raça illustre e debil compleição, Mandam-lhe um elixir que serve para os flatos, Ou para pôr no lenço ao ir á communhão.
De resto ha quem, bebendo essa tisana impura, Sinta a impressão que outr'ora o nectar produzia. São milagres da fé. Ditosa a creatura
Que no ruibarbo encontra o sabor da ambrosia.
E eu não vos vou magoar, ó almas côr de rosa Que inda achaes neste vinho o esquecimento e a paz! Não insulto quem bebe a droga venenosa; Accuso simplesmente o charlatão que a faz.