A Velhice do Padre Eterno

Abílio Manuel Guerra Junqueiro · Capítulo 5 de 40

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A Velhice do Padre Eterno

Capítulo IV

Nos pampanos da crença as unhas da razão.

Propagou-se o flagello; o mal recrudesceu; A colheita ficou em duas terças partes;

Chega o oidium Lutero, o verme Galileu,

E cai-lhe o temporal de Newton e Descartes.

Em balde Carlos nove, Ignacio e Torquemada, Catando esses pulgões das bíblicas videiras, Os entregam á roda, ao cadafalso, á espada, Ou os queimam por junto aos centos nas fogueiras.

O estrago cada vez era maior, mais forte; Apezar da realeza, o throno e a sachristia Andarem sacudindo o enxofrador da morte No formigueiro vil das pragas da heresia.

Por ultimo Voltaire—filoxera invade

Essa encosta plantada outr'ora por Jesus, E das cepas ideaes da escura meia idade Ficaram simplesmente uns velhos troncos nús.

 

IV

 

Mas como havia ainda alguns consumidores D'esse vinho que o sol deixou de fecundar, Uns velhos cardeaes, habeis exploradores, Reuniram-se em concilio afim de os imitar.

E é assim que Antonelli, o verdadeiro papa, O chimico da fé, um grande industrial,

Fabrica para o mundo ingenuo uma zurrapa Que elle assevera que é o antigo vinho ideal.

Para isso combina os varios elementos

Que compõem esta droga: o nome de Maria, Anjos e cherubins, infernos e tormentos,

Bastante estupidez e immensa hypocrizia.

Põe isto tudo a ferver, liga, combina, mexe, E, filtrando atravez d'uns textos de latim,

Eis preparado o vinho, ou antes o campeche, Que a saúde da alma hade arruinar por fim.

Mas como o paladar de muitos europeus Quasi prefere já (horrivel impiedade!)

Á falsificação do vinho do bom Deus

O vinho genuino e puro da verdade;

E como já por isso, (assim como era d'antes) A Igreja não nos queime e o rei não nos enforque, A curia procurou mercados mais distantes, O Japão, o Perú, a Australia e Nova York.

 

Os comis-voiageurs de Roma—os Lazaristas Com as carregações vão atravez do oceano, Por toda a parte abrindo os armazens papistas, A fim de dar consumo ao vinho ultramontano.

Em cada igreja existe uma taberna franca Para impingir a tal mixordia, o tal horror,

Ou secca ou doce, ou velha ou nova, ou tinta ou branca,

Segundo as condições e a fé do bebedor.

Para Hespanha vão muito uns vinhos infernaes, Um veneno explosivo e forte que produz

Um delirio tremente—o General Narvaes, E um vomito de sangue—o cura Santa Cruz.

Portugal quer vinagre. A Italia quer falerno. Veuillot quer agua-raz que ponha a lingua em braza. E John Bull, por exemplo, um pouco mais moderno, Manda ao diabo a botica, e faz a droga em casa.

Ao povo, esse animal, que o Padre Eterno monta, Como é pobre, coitado, então a Santa Sé Fabrica lhe uma borra incrivel, muito em conta, Um pouco de melaço e um pouco d'agua-pé.

A fina flôr christã, a flôr altiva e nobre,

O rico sangue azul do bairro S. Germano, Para quem o bom Deus é um gentil-homem pobre A quem se dá de esmola alguns milhões por anno.

Essa como detesta os vinhos maus, baratos, Como é de raça illustre e debil compleição, Mandam-lhe um elixir que serve para os flatos, Ou para pôr no lenço ao ir á communhão.

De resto ha quem, bebendo essa tisana impura, Sinta a impressão que outr'ora o nectar produzia. São milagres da fé. Ditosa a creatura

Que no ruibarbo encontra o sabor da ambrosia.

E eu não vos vou magoar, ó almas côr de rosa Que inda achaes neste vinho o esquecimento e a paz! Não insulto quem bebe a droga venenosa; Accuso simplesmente o charlatão que a faz.