A Velhice do Padre Eterno

Abílio Manuel Guerra Junqueiro · Capítulo 27 de 40

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A Velhice do Padre Eterno

O Melro

 

O melro, eu conheci-o:

Era negro, vibrante, luzidio,

Madrugador, jovial;

Logo de manhã cedo

Começava a soltar d'entre o arvoredo

Verdadeiras risadas de cristal.

E assim que o padre cura abria a porta

Que dá para o passal,

Repicando umas finas ironias,

O melro d'entre a horta

Dizia-lhe: «Bons dias!»

E o velho padre cura

Não gostava d'aquellas cortezias.

O cura era um velhote conservado,

Malicioso, alegre, prasenteiro;

Não tinha pombas brancas no telhado,

Nem rosas no canteiro;

Andava ás lebres pelo monte, a pé,

Livre de rheumatismos,

Graças a Deus, e graças a Noé.

O melro despresava os exorcismos

Que o padre lhe dizia:

Cantava, assobiava alegremente,

Até que ultimamente

O velho disse um dia:

«Nada, já não tem geito! este ladrão

Dá cabo dos trigaes!

Qual seria a rasão

Porque Deus fez os melros e os pardaes?!»

E o melro no entretanto,

Honesto como um santo,

Mal vinha no oriente

A madrugada clara

Já elle andava jovial, inquieto,

Comendo alegremente, honradamente,

Todos os parasitas da seara

Desde a formiga ao mais pequeno insecto. E apezar d'isto o rude proletario,

O bom trabalhador,

Nunca exigiu augmento de salario.

Que grande tolo o padre confessor!

Foi para a eira o trigo;

E armando uns espantalhos

Disse o abbade comsigo:

«Acabaram-se as penas e os trabalhos.» Mas logo do manhã, maldito espanto!

O abbade, inda na cama,

Ouviu do melro o costumado canto,

Ficou ardendo em chamma;

Pega na caçadeira,

Levanta-se d'um salto,

E vê o melro a assobiar na eira

Em cima do seu velho chapéu alto!

Chegou a coisa a termo

Que o bom do padre cura andava enfermo,

Não fallava nem ria,

Minado por tão intimo desgosto;

E o vermelho oleoso do seu rosto

Tornava-se amarello dia a dia.

E foi tal a paixão, a desventura,

(Muito embora o leitor não me acredite)

Que o bom do padre cura

Perdera... o appetite!

 

Andando no quintal um certo dia

Lendo em voz alta o Velho Testamento Enxergou por acaso (que alegria!

Que ditoso momento!)

Um ninho com seis melros escondido

Entre uma carvalheira.

E ao vel-os exclamou enfurecido:

«A mãe comeu o fructo prohibido;

Esse fructo era a minha sementeira:

Era o pão, e era o milho;

Transmittiu-se o peccado.

E, se a mãe não pagou, que pague o filho, É doutrina da Egreja. Estou vingado!»

E engaiolando os pobres passaritos

Soltava exclamações:

«É uma praga. Maldictos!

Dão-me cabo de tudo estes ladrões!

Raios os partam! andai lá que emfim...»

E deixando a gaiola pendurada

Continuou a ler o seu latim

Fungando uma pitada.

Vinha tombando a noite silenciosa;

E caia por sobre a naturesa

Uma serena paz religiosa,

Uma bella tristesa

Harmonica, viril, indefinida.

A luz crepuscular

Infiltra-nos na alma dolorida

Um mysticismo heroico e salutar.

As arvores, de luz inda doiradas,

Sobre os montes longiquos, solitarios,

Tinham tomado as fórmas rendilhadas

Das plantas dos herbarios.

Recolhiam-se a casa os lavradores.

Dormiam virginaes as coisas mansas:

Os rebanhos e as flores,

As aves e as creanças.

Ia subindo a escada o velho abbade;

A sua negra, athletica figura

Destacava na frouxa claridade,

Como uma nodoa escura.

E introduzindo a chave no portal

Murmurou entre dentes:

«Tal e qual... tal e qual!...

Guisados com arroz são excellentes.»

 

Nasceu a lua. As folhas dos arbustos

Tinham o brilho meigo, avelludado

Do sorriso dos martyres, dos justos.

Um effluvio dormente e perfumado

Embebedava as seivas luxuriantes.

Todas as forças vivas da materia

Murmuravam dialogos gigantes

Pela amplidão etherea.

São precisos silencios virginaes,

Disposições sympathicas, nervosas,

Para ouvir estas fallas silenciosas

Dos mudos vegetaes.

As orvalhadas, frescas espessuras

Presentiam-se quasi a germinar.

Desmaiavam-se as candidas verduras

Nos Magnetismos brancos do luar.

.....................................................

 

E n'isto o melro foi direito ao ninho.

Para o agasalhar andou buscando

Umas pennugens doces como arminho,

Um feltrosito assetinado e brando.

Chegou lá, e viu tudo.

Partiu como uma frecha; e louco e mudo

Correu por todo o matagal; em vão!

Mas eis que solta de repente um grito

Indo encontrar os filhos na prisão.

«Quem vos metteu aqui?!» O mais velhito Todo tremente, murmurou então:

«Foi aquelle homem negro.—Quando veio Chamei, chamei... Andavas tu na horta... Ai que susto, que susto! Elle é tão feio!... Tive-lhe tanto medo!... Abre esta porta,

E esconde-nos debaixo da tua aza!

Olha, já vão florindo as assucenas;

Vamos a construir a nossa casa

N'um bonito logar...

Ai! quem me dera, minha mãe, ter pennas

Para vôar, vôar!»

E o melro hallucinado

Clamou:

«Senhor! Senhor!

É por ventura crime ou é peccado

Que eu tenha muito amor

A estes innocentes?!

Ó natureza, ó Deus, como consentes

Que me roubem assim os meus filhinhos,

Os filhos que eu criei!

Quanta dôr, quanto amor, quantos carinhos,

Quanta noite perdida

Nem eu sei...

E tudo, tudo em vão!

Filhos da minha vida!

Filhos do coração!!...

Não bastaria a natureza inteira,

Não bastaria o céo para voardes,

E prendem-vos assim d'esta maneira!...

Covardes!

A luz, a luz, o movimento insano

Eis o aguilhão, a fé que nos abraza...

Encarcerar a aza

É encarcerar o pensamento humano.

A culpa tive-a eu! quasi á noitinha

Parti, deixei-os sós ...

A culpa tive-a eu, a culpa é minha,

De mais ninguem!... Que atroz!

E eu devia sabel-o!

Eu tinha obrigação de adivinhar...

Remorso eterno! eterno pesadello!...

..........................................................

Falta-me a luz e o ar!... Oh, quem me dera

Ser abutre ou ser féra

Para partir o carcere maldicto!...

E como a noite é limpida e formosa!

Nem um ai, nem um grito...

Que noite triste! oh noite silenciosa!...»

E a natureza fresca, omnipotente,

Sorria castamente

Com o sorriso alegre dos heroes.

Nas sebes orvalhadas,

Entre folhas luzentes como espadas,

Cantavam rouxinoes.

Os vegetaes felizes

Mergulhavam as sofregas raizes

A procurar na terra as seivas boas,

Com a avidez e as raivas tenebrosas

Das pequeninas feras vigorosas

Sugando á noite os peitos das leoas.

A lua triste, a lua merencorea,

Desdemona marmorea,

Rolava pelo azul da immensidade,

Immersa n'uma luz serena e fria,

Branca como a harmonia,

Pura como a verdade.

E entre a luz do luar e os sons e as flores, Na atonia cruel das grandes dores,

O melro solitario

Jazia inerte, exanime, sereno,

Bem como outr'ora a mãe do Nazareno

Na noite do calvario!...

Segundo o seu costume habitual,

Logo de madrugada

O padre-cura foi para o quintal,

Levando a biblia e sobraçando a enxada.

Antes de dizer missa,

O velho abade inevitavelmente

Tratava da hortaliça

E resava a Deus Padre Onipotente

Varios trechos latinos,

Salvando d'esta forma juntamente

As ervilhas, as almas e os pepinos.

E já de longe ia bradando:

—«Olé!

Dormiram bem?... Estimo...

Eu lhes darei o mimo,

Canalha vil, grandissima ralè!

Então vocês, seus almas do diabo,

Julgavam que isto que era só dar cabo,

Da horta e do pomar,

E bico alegre e estomago contente,

E o camello do cura que se aguente,

Que engrolle o seu latim e vá bugiar!...

Grandes larapios!... Era o que faltava.

Vocês irem ao milho,

E a mim mandar-me á fava!

Pois muito bem, agora que vos pilho

Eu vos ensinarei, meus safardanas!

Vocês são mariolões, são ratazanas,

Tem bico é certo, mas não tem tonsura... E nas manhas um melro nunca chega

Ás manhas naturaes d'um padre-cura.

O melhor vinho que encontrar na adega

É para hoje, olé!... Que bambochata!

Que petisqueira! Melros com chouriço!...

E então a Fortunata

Que tem um dedo e um geito para isso!... Heide comer-vos todos um a um,

Lambendo os beiços, com tal gana enfim Que comendo-vos todos, mesmo assim

Eu fico ainda quasi que em jejum!

E depois de vos ter dentro da pança,

Depois de vos jantar,

Vocês verão como o velhote dança,

Como elle é melro e sabe assobiar!...»

Mas n'isto o padre cura titubiante,

Quasi desfallecendo,

Atonito de horror, parou deante

D'este drama estupendo:

O melro, ao ver aproximar o abade,

Despertou da atonia,

Lançando-se furioso contra a grade

Do carcere. Torcia,

Para os partir os ferros da prisão,

Crispando as unhas convulsivamente

Com a furia d'um leão,

Batalha inutil, desespero ardente!

Quebrou as garras, depenou as azas

E hallucinado, exangue,

Os olhos como brazas,

Heroe febril, a gotejar em sangue,

Partiu n'um vôo arrebatado e louco.

Trazendo dentro em pouco

Preso no bico um ramo de veneno,

E bello e grande e tragico e sereno

Disse:

«Meus filhos, a existencia é boa

Só quando é livre. A liberdade é a lei.

Prende-se a aza, mas a alma vôa...

Ó filhos, voemos pelo azul!... Comei!—»

E mais sublime do que Christo quando

Morreu na cruz, maior do que Catão,

Matou os quatros filhos, trespassando

Quatro vezes o proprio coração!

Soltou, fitando o abade, uma pungente

Gargalhada de lagrimas, de dôr,

E partiu pelo espaço heroicamente,

Indo cahir, já morto, de repente

N'um carcavão com silveiraes em flôr.

E o velho abade, livido d'espanto,

Exclamou afinal:

«Tudo que existe é immaculado e é santo! Ha em toda a miseria o mesmo pranto,

E em todo o coração ha um grito igual.

Deus semeou d'almas o universo todo.

Tudo o que vive ri e canta e chora...

Tudo foi feito com o mesmo lodo,

Purificado com a mesma aurora.

Ó misterio sagrado da existencia,

Só hoje te adivinho,

Ao vêr que a alma tom a mesma essencia Pela dôr, pelo amor, pela innocencia,

Quer guarde um berço, quer proteja um ninho! Só hoje sei que em toda a creatura.

Desde a mais bella até á mais impura,

Ou n'uma pomba ou n'uma fera brava,

Deus habita, Deus sonha, Deus murmura!... ..............................................................

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Ah, Deus é bem maior do que eu julgava!...»

E quedou silencioso. O velho mundo,

Das suas crenças antigas, n'um momento, Viu-o sumir exhausto, moribundo

Nos abysmos sem fundo

Do tenebroso mar do Pensamento.

E chorou e chorou... A Egreja, a Crença.

Rude montanha pavorosa, escura,

Que enchia o globo com a sombra immensa Dos seus setenta seculos d'altura;

O Himalaia de dogmas triumphantes,