A virtude laureada

Manuel Maria Barbosa du Bocage · Capítulo 21 de 30

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A virtude laureada

*Elogio ao Publico*

 

Em nome de huma Actriz da Rua dos Condes.

 

A Musa, que nas Scenas de Ulysséa,

Não sem gloria, ajustava o métro á Lyra,

De Elmano o só thesoiro (a Sócia mésta

Da quasi muda cinza, aérea sombra)

Inda hum salvé tremente á luz envia,

E dá versos á Patria, ou dá suspiros,

Da nobre Gratidão pelo orgão puro.

Oh Lysia! Escuta os sons, talvez extremos;

Que do seio affanoso, a custo, exhála:

(O Cysne diviniza os sons da Morte)

Ouve, em métro não baixo, ouve alto affecto, Que me honra o coração, na voz me ferve,

E no Patrio favor a ardencia nutre.

Recente Arvoresinha em chão bravio,

De humor celeste definhando á mingoa,

(E mimosa jámais de hum Sol fágueiro)

Eu para a Terra, para a Mãi pendia,

Que os succos mesquinhava ao tenro Arbusto, Talvez de produzillo arrependida.

Eis braço, a que apiedou meu ser já murcho, Me extráhe, propicio, do Terreno avaro,

E em liberal torrão me põe, me arreiga.

Súbito espérta, súbito enverdece

A Planta moribunda, e qual sé, ó Lethes,

Afferrasse a raiz nas margens tuas,

Que das Furias o bafo esteriliza.

Influxo animador me altêa, e fólha;

Hálito ameno de vivaz Favónio

Com macios vaivens me embala os ramos,

Flores me adornão, fructos me atavião:

Os sorrisos da Patria, os mimos della

Estas boninas são, são estes fructos.

Das trévas, e da Morte as Aves feias,

(De atra voz, em que o Fado ás vezes sôa) Fogem d'entorno a mim, carpindo agouros,

Nas agras, negras furnas vão summir-se; E na coma louçã gorgêa encantos

Teu Cantor, Primavéra, o vosso, Amores. Quanto sou, quanto valho, á Lysia devo,

E á Lysia o coração na voz consagro.

Acólhe com ternura, acólhe, ó Patria,

As Offrendas por mim do triste Vate,

Que para te cantar surgio da Morte,

E em ancias balbucía o tom dos Numes:

Honra déste ao Cantor, dá honra ao canto.

 

Bocage

 

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