A virtude laureada

Manuel Maria Barbosa du Bocage · Capítulo 28 de 30

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A virtude laureada

*Epistola.*

 

Vate, que adoro, portentoso Elmano,

Imagem do Saber, do Pindo gloria,

Apollineo Cantor, Cantor divino

Dos Jardins, onde impéra a Natureza;

Escuta os versos meus, escuta os versos,

Que dicta o coração, dicta a amizade.

Depois, com que pezar o pronuncio!

Que entrei na estancia triste, onde succumbe, Aos impulsos da Dor, Razão, Constancia,[1]

Diluvio amargo de saudoso pranto,

Me innunda as faces, me consterna o rosto.

Já mais hum só instante, ó caro Elmano, Se minóra a tristeza, que me opprime;

Meu activo pezar, minha amargura,

Bem não podem narrar toscas palavras:

Excede a dor humano soffrimento!

Saudades que a minha alma afflicta sente,

Podem-se imaginar; mas não dizer-se.

Ah quando penso em ti, eu me arrebato:

Futuras producções imaginando,

Não césso de chorar a falta, a perda, Que as Bellas Letras, Seculos vindouros

Chorarão, como eu, se a morte horrivel

Inda em flor decepar teus caros dias.

Deste asilo da lúgubre Tristeza,

Onde os dias, ás noites semelhantes,

Eu passo envolto em luto, envolto em pranto,[2] Te envio tristes ais, ternas lembranças,

Que meu peito fiel a ti consagra;

Escuta-as, se he possivel, (pois o triste,

Com as queixas do triste se consola,)

No meigo coração grato as acolhe;

E conhecendo a dor, que assim me fere,

Pondéra as mágoas, que supporta, e sente

Falmeno, que sem ti vive morrendo.

Sugeito ao mando teu por lei, por gosto,

Te envio (como amargo talvez util)

O Folheto de meus insulsos versos:

Quem quer escravo ser de teus preceitos, Sem já mais hesitar, deve cumprillos

Embora o Zoilo vil louco me chame,

E pura sugeição julgue vaidade.[3]

Adeos, meu caro Elmano, adeos amigo, Os teus ais, aos meus ais unidos sejão;

Unidos vão soar na azul esfera,

Augurando amizade além da morte.

 

[1] Alludindo á exasperação em que o vi lutando, na occasião

em que excessivas dores muito o atenuavão. [2] A grave molestia

do Amigo, e o proximo falecimento da minha Mãi, me inspirou os

tres versos acima, em tudo conformes aos meus sentimentos.

[3] Já mais me atrevera a enviar o Folheto dos meus insipidos

versos a tão abalizado Mestre, se a sua determinação me não

obrigasse a tanto: as desculpas que exijo, e as causas que allego

no Prologo do dito Folheto, não bastão a evitar a critica, que na

verdade merece a publicidade de semelhantes Poesias, ás quaes

ao presente não dou valor algum.

 

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